terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Herança, casamento tardio e os limites da meação

Casos de disputas sucessórias envolvendo casamentos celebrados na velhice tornaram-se cada vez mais frequentes nos tribunais brasileiros. Em muitos deles, o conflito ultrapassa o campo patrimonial e revela situações de vulnerabilidade, desequilíbrio relacional e uso estratégico do sistema judicial.

O exemplo é recorrente: um profissional liberal, já idoso, viúvo, constrói patrimônio ao longo da vida — muitas vezes em conjunto com a primeira esposa — e decide contrair novo matrimônio em idade avançada. Após o falecimento, instaura-se o litígio entre herdeiros necessários e o cônjuge sobrevivente, que busca ampliar o alcance da meação, ainda que os bens tenham sido adquiridos anteriormente ao novo casamento.

Do ponto de vista jurídico, a questão é clara. Nos termos do Código Civil, a meação somente incide sobre bens adquiridos onerosamente na constância do casamento, conforme o regime de bens adotado. Patrimônio particular, constituído antes da união, não se comunica. Ainda assim, a prática forense demonstra que a discussão raramente é simples, sobretudo quando acompanhada de disputas emocionais e estratégias protelatórias.

Há também um aspecto sensível, muitas vezes negligenciado: a proteção do idoso. O ordenamento jurídico brasileiro, por meio do Estatuto do Idoso e da própria evolução da jurisprudência, busca coibir abusos patrimoniais em relações conjugais assimétricas, especialmente quando há indícios de dependência emocional, manipulação ou exploração econômica.

Não se trata de negar direitos ao cônjuge sobrevivente, mas de reconhecer que igualdade formal não significa, necessariamente, justiça material. A lei não pode servir de instrumento para legitimar o enriquecimento sem causa ou a dilapidação de patrimônio construído ao longo de décadas por quem efetivamente trabalhou e contribuiu.

Outro ponto que merece reflexão é o impacto dessas disputas sobre os herdeiros necessários. Filhos que acompanharam o esforço dos pais, que contribuíram direta ou indiretamente para a preservação do patrimônio e que, muitas vezes, arcam com a manutenção de bens litigiosos enquanto os recursos permanecem bloqueados, acabam penalizados pela morosidade processual.

Quando o conflito se agrava e alcança a esfera da saúde mental, o Judiciário é chamado a intervir não apenas para partilhar bens, mas para preservar a dignidade das pessoas envolvidas. A interdição, ainda que medida extrema, pode tornar-se necessária quando há incapacidade de gestão da própria vida civil, produzindo efeitos diretos, inclusive, sobre o direito real de habitação.

Esses casos revelam uma realidade incômoda: a Justiça nem sempre acompanha o tempo da vida. Recursos, embargos e apelações prolongam litígios enquanto o patrimônio se deteriora e os vínculos familiares se rompem de forma irreversível.

A reflexão que se impõe vai além do caso concreto. É preciso compreender que trabalho, economia, contribuição previdenciária e planejamento sucessório são pilares de uma velhice digna. Casamentos tardios exigem cautela jurídica, transparência patrimonial e, sobretudo, responsabilidade ética.

O Direito das Sucessões não pode ser reduzido a uma disputa de números. Ele existe para proteger pessoas, evitar abusos e assegurar que a lei seja aplicada com equidade, não apenas com formalismo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Por que o abandono de filhotes fêmeas é tão comum?

 

Difícil é ser fêmea. E é irônico pensar nisso. Afinal, é a fêmea que carrega em seu ventre a semente da vida, que oferece alimento, abrigo e segurança ao novo ser. É ela quem sustenta o ciclo da sobrevivência, mesmo em um mundo hostil, onde muitas vezes a regra é dura: para que um viva, outro precisa morrer.

Mas, apesar de tudo isso, o valor da fêmea raramente é reconhecido. E não falo apenas da espécie humana.

Meu irmão, por exemplo, tem uma chácara na periferia. Um espaço que deveria ser de paz, mas que se transformou em refúgio forçado para dezenas de vidas abandonadas. Gatinhas, cachorrinhas, coelhinhas — todas fêmeas. Hoje, ele cuida de trinta gatas, dez cachorras e cinco coelhinhas, todas castradas. Um gesto de amor, mas também de resistência.

Você pode pensar: “Com um muro alto, o problema acabou.” Não. O abandono continua. Pessoas deixam filhotes em sacos amarrados, sem água, sem comida, sem chance. Filhotes são incapazes, dependem da mãe para aprender a caçar, para sobreviver. E, ainda assim, são descartados como se fossem objetos.

As denúncias aos órgãos competentes pouco resolvem. As ONGs, muitas vezes, pedem doações, mas não têm vagas ou voluntários. E então, meu irmão precisou tomar medidas drásticas: câmeras, placas iluminadas, avisos de que abandono é crime. Mas nem isso detém quem age com crueldade.

O mais revoltante é saber que a Prefeitura oferece castração gratuita três vezes ao ano. O problema não é a falta de recursos, mas a falta de responsabilidade. Cuidar de um animal recém-operado exige atenção, carinho, tempo. E muitos preferem se livrar do “incômodo” em vez de assumir o compromisso.

E aqui eu pergunto a você, leitor: até quando vamos fechar os olhos para essa realidade? Até quando o abandono será tratado como algo menor, quando na verdade é reflexo de uma sociedade que ainda não aprendeu a respeitar a vida em todas as suas formas?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Cidade Sem Hotel

 

Cheguei de ônibus a uma cidade que não me devia nada e à qual eu não devia explicações. Palestra. O nome soava antigo demais para uma cidade pequena, dessas que cabem numa tarde. Não lembrava por que tinha ido, nem quando decidira ir. Só estava lá — e isso parecia bastar ao mundo.

A rodoviária não se deixava encontrar. Caminhei como quem anda dentro de um pensamento confuso, dobrando esquinas que não levavam a lugar algum. Perguntava, mas as respostas vinham vagas, como se ninguém quisesse ser responsável pelo meu retorno. Hotel também não havia. Na cidade, aparentemente, ninguém dormia fora de casa. Ou ninguém descansava.

Era noite quando aceitei o abrigo. Não por confiança — por cansaço. A loja cheirava a coisa usada, a promessa velha. O casal falava baixo, como quem já decidiu tudo antes. Estenderam colchões no chão, com a naturalidade de quem já fez aquilo outras vezes. Dormiam ali. Viviam ali. Eu me encaixei como mais um objeto deslocado.

Deitei. E foi no instante em que o corpo começou a ceder que ouvi a verdade atravessar o ar.

O homem falava ao telefone como quem negocia mercadoria. Voz prática, sem hesitação. Um cliente, uma mulher, dinheiro. Sem camisinha. Sem rodeios. Sem alma. A mulher era eu — embora ele não tivesse dito meu nome. Não precisava. Em Palestra, mulheres perdidas não têm nome; têm utilidade.

O medo não veio em grito. Veio em silêncio. Um medo lúcido, desses que não paralisa — esclarece. Pensei em falar. Pensei em levantar. Pensei em fugir. Pensei em todas as vezes em que aceitei ficar porque era tarde demais para procurar saída.

Acordei antes do desfecho. Como quem escapa por um triz daquilo que já conhece bem demais.

Há sonhos que não inventam monstros. Apenas organizam os reais. Esse não falava de sexo, mas de atravessamentos. De lugares onde não há hotel porque descanso é um luxo. De cidades onde a hospitalidade cobra o corpo. De noites em que o perigo veste o disfarce da ajuda.

Desde então, desconfio mais do abrigo fácil. E aprendi: quando não há rodoviária, não é porque o mapa falha — é porque alguém espera que você fique.

E ficar, às vezes, custa caro demais.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Aparar ou arriscar um corte novo: o drama de milhares de mulheres

 

Você já reparou como algumas mulheres tratam seus cabelos quase como uma extensão da própria alma? Talvez você até conheça alguém assim — ou seja essa pessoa. Aquelas que carregam fios longos, pesados, às vezes até um pouco descuidados, mas que, ainda assim, defendem cada centímetro como se fosse patrimônio histórico. Quando finalmente são convencidas a aparar as pontas, chegam ao salão como quem enfrenta um tribunal, e a cabeleireira, coitada, precisa ter o coração forte para suportar o drama.

Do outro lado da tesoura, existem as destemidas. As que, a cada três meses, entram no salão como quem entra em um parque de diversões. Folheiam revistas, trocam ideias, arriscam cortes, cores, formatos. E, curiosamente, já até sabem o que vão ouvir depois: “Nossa, ficou ótimo! Você está uns cinco anos mais jovem, tem que manter assim.” É quase um mantra social, não é? Como se a mudança fosse mais celebrada do que o estilo em si.

Mas por que será que algumas mulheres resistem tanto a cortar o cabelo, enquanto outras o fazem com a leveza de quem troca de roupa? Psicólogos e psiquiatras talvez tenham boas respostas, mas, sinceramente, isso não deveria ser preocupação de ninguém além delas mesmas.

Porque, enquanto discutimos cortes, cores e centímetros, o mundo lá fora anda precisando de atenção em outras áreas. Crianças e adolescentes mergulhando cedo demais na violência, vidas sendo atravessadas por escolhas duras, famílias desestruturadas, comunidades fragilizadas. Há tanta coisa urgente pedindo cuidado que, convenhamos, o tamanho do cabelo de uma mulher deveria ser o menor dos problemas.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante seja outra: por que gastamos tanta energia julgando aparências, quando poderíamos estar investindo na construção de seres humanos mais empáticos, conscientes e comprometidos uns com os outros — e com a natureza que nos sustenta?

E você, leitor, leitora… já parou para pensar no que realmente merece sua atenção hoje?

 

A Dor como Companhia

 

Caro leitor,

o que poderia ser pior do que oferecer aos idosos pobres um momento gratuito de lazer — e, ainda assim, vê-lo recusado?

A proposta era simples e, confesso, feita com o cuidado de quem conhece a pobreza por dentro. Sou trabalhadora braçal, dessas que contam moedas no fim do mês para garantir o pão do dia seguinte. Talvez por isso tenha acreditado que um gesto pequeno pudesse ter algum valor. Consegui, com esforço, uma sala emprestada numa escola municipal e convidei alguns idosos para uma tarde de leitura coletiva. A ideia não era erudição nem fuga da realidade, mas socialização: polinizar conversas, trocar histórias, reconhecer-se no texto curto, simples, parecido com a vida de quem vive contando faltas.

Levei salgadinhos — não por gentileza, mas por lucidez. Quem vive com pouco sabe: sem comida, não há retorno. Estava tudo pronto. O espaço, as leituras, o tempo.

O que não veio foram as pessoas.

Convidei justamente aqueles que mais reclamam da falta de lazer gratuito, da solidão, do abandono, das dores do corpo e da ausência de medicamentos na farmácia do SUS. E ninguém apareceu. Sempre havia uma razão: um esquecimento, um compromisso surgido de última hora, uma justificativa vaga, dessas que não se confirmam.

Foi então que a decepção abriu espaço para a reflexão. Talvez — digo isso como leiga — não seja falta de oportunidade. Talvez seja escolha. Porque ir significaria sentir-se bem. E sentir-se bem exige abandonar, ainda que por algumas horas, a dor que já virou companhia antiga.

Se a reclamação vai embora, o que sobra?

Filhos mal criados? Netos distantes? Um celular que ocupa o lugar da conversa? Jogos eletrônicos que substituem o afeto? Não afirmo — questiono. O que percebo é que os compromissos sempre coincidem exatamente com o dia do encontro. E quem deseja, de verdade, costuma reorganizar a agenda.

Por isso lhe pergunto, caro leitor:
quantas vezes você mesmo tem se boicotado dos momentos simples e agradáveis por medo de perder a dor — essa velha companheira de longa data que, apesar de tudo, dá sentido às horas vazias?

domingo, 7 de dezembro de 2025

Entre Terços, Luzes e Memórias

 


A minha primeira percepção de Natal cabia inteira dentro de um terço. Era assim: noite de vinte e quatro, e também no dia eguinte, todos reunidos para rezar. Longas orações, daquelas que até meu pai, homem firme e impaciente, não conseguia escapar.
E havia o almoço especial: frango ensopado, simples e saboroso. Nada mais. Nenhum brilho, nenhum enfeite, tampouco Papai Noel. E sabe que eu nem sofria? Como sentir falta daquilo que nunca se viu? Eu vivia sem perceber a pobreza — cultural e financeira — que nos rodeava. Era o que era. E ponto.

Quando adolescente, mudei para a cidade e descobri um novo vocabulário natalino: missa do galo, decoração, luzes. Fui, claro, à famosa missa. E, veja só, o galo não cantou. Voltei frustrada. Também não havia dinheiro para decorar a casa, nem para aquela tal ceia que eu apenas ouvira falar. Mas, como antes, eu não sentia falta: desconhecimento também é uma forma de anestesia.

No início da vida profissional, porém, meu repertório natalino ganhou aromas e sabores. A empresa onde trabalhava oferecia uma ceia farta aos funcionários do turno noturno. Eu amava — sem culpa! Trabalhava feliz, e sejamos honestos: era, sobretudo, pela comida diferente e deliciosa. Reclamava quando a regra interna me impedia de trabalhar dois feriados seguidos, porque eu queria repetir a dose. Jovem é assim: sincera até a raiz.

Mais tarde, em outro emprego, desta vez diurno, fui obrigada a pesquisar sobre o Natal. A partir desse estudo, compreendi a grandiosidade dessa festa que, ao que tudo indica, é um dos maiores exemplos de sincretismo religioso e de pluralidade cultural do mundo ocidental.
E, se você me permite, leitor, vou testar aqui a memória e revisitar os muitos elementos que compõem esse mosaico natalino.

Jesus de Nazaré — o aniversariante — nasceu, viveu e morreu como judeu, num tempo em que os judeus sequer tinham o costume de comemorar aniversários natalícios. Celebrar o nascimento de alguém é hábito antigo, mas veio de outras bandas. No Egito, o aniversário do faraó marcava sua transformação em divindade; na Grécia, acendiam-se velas em bolos oferecidos à deusa Ártemis. Os romanos, guerreiros e práticos que são, instituíram as comemorações de aniversários das pessoas comuns.

Do norte gelado da Europa, durante o solstício de inverno, vem outra peça importante desse quebra-cabeça: Odin, o deus nórdico, que percorria o céu montado em seu cavalo de oito patas. As crianças deixavam comida para o animal em suas botinhas — e ganhavam presentes em troca.

Com o avanço do cristianismo e a proibição das festas pagãs, Odin foi aos poucos se transmutando em outra figura: Papai Noel. A generosidade do bispo Nicolau de Mirra ajudou a dar forma ao bom velhinho, que trocou o cavalo por renas, as botas por meias e entrou pelas chaminés como o bispo que lançara dotes pela janela para ajudar três jovens pobres.
Nos Estados Unidos, a Coca-Cola completou o serviço, fixando a imagem que conhecemos hoje.

A árvore de Natal e a guirlanda também são elementos pagãos que foram abraçados pela tradição cristã. E que beleza elas emprestam às ruas, não?
Já o presépio, esse sim, veio pela mão sensível de São Francisco de Assis. E os Reis Magos? Sua origem é incerta, mas a tradição aponta para a Pérsia. Trouxeram ouro para reconhecer o rei, incenso para honrar o divino e mirra para lembrar a humanidade — símbolos que continuam tocando a imaginação até hoje.

E então chegamos ao presente, onde o Natal costuma ser acusado de excessivamente comercial. Mas, se olharmos com calma, veremos que ele também é profundamente inclusivo. É a festa que gera trabalho durante o ano inteiro: da extração da matéria-prima à confecção dos enfeites, do cuidado com os animais ao preparo das bebidas e pratos natalinos. Para muitos, é oportunidade de renda, dignidade e esperança.

As igrejas, por sua vez, oferecem o espaço para o ritual, para o mergulho espiritual e para a mensagem central do Menino Deus: a fraternidade. E as prefeituras que decoram os espaços públicos merecem aplauso, pois o ser humano precisa do belo — e não apenas por capricho.

A neurociência e a psicologia ambiental já comprovaram que lugares cuidados, iluminados e visualmente harmoniosos diminuem indicadores de tristeza e violência, além de aumentar o senso de pertencimento e bem-estar.
O belo nos humaniza. O feio nos endurece. Talvez por isso tantas cidades floresçam em dezembro — e com elas, nós também.

No fim das contas, percebo que o Natal é, acima de tudo, uma celebração inclusiva. Honra um judeu com elementos de culturas diversas, incorpora tradições antigas sem perder a essência da mensagem original: comunhão. Jesus também ceou com seus apóstolos; não é à toa que a ceia se tornou símbolo dessa noite.

O Natal não é apenas espiritualidade: é reflexão, é memória, é adaptação ao tempo presente. E, curiosamente, é também um lembrete do princípio bíblico de ajudar o próximo — porque poucas formas de ajuda são tão dignas quanto oferecer trabalho. O trabalho, afinal, dignifica o homem.

E você, leitor?
Que memórias de Natal lhe visitam quando as luzes se acendem?
Talvez, como eu, você descubra que, no fundo, o Natal sempre esteve menos nas coisas e mais naquilo que elas despertam em nós.

sábado, 6 de dezembro de 2025

O Mistério por Trás do Desejo: Por que Queremos as Coisas dos Outros?

 


Você já sentiu um fascínio repentino por algo que nem sabia que desejava? Pois sente aqui comigo, leitor, que hoje a conversa é sobre esses pequenos magnetismos do cotidiano — e sobre como um pedaço de renda puída ou uma cadeira aparentemente comum podem despertar emoções improváveis.

Era dia de reencontro com minhas amigas veteranas da escola primária. Eu, a “cinquentinha”, era a caçula do grupo — e a única ainda na ativa no mercado de trabalho. Não quis inventar moda: escolhi uma blusa de renda de bilro comprada numa viagem ao Nordeste. Já estava gasta, pedindo aposentadoria, mas decidi dar a ela um último passeio.

Assim que entrei no salão, uma das colegas quase teve um arrebatamento místico. Tocou na minha blusa como quem toca num relicário e disse sentir uma felicidade “inexplicável”, dessas que não cabem nas palavras. Para ela, era a blusa mais linda que já tinha visto. Expliquei que era velha, já puída, mas que poderia dá-la, se quisesse. Ela aceitou com a mesma rapidez com que quem encontra um tesouro aceita a sorte. “Não precisa lavar, eu mesma lavo”, disse. Fiquei chocada — e, confesso, curiosa. A blusa, aquela mesma que nunca arrancou um elogio, nem pela raridade nem pelo preço alto, de repente se transformava em objeto de desejo absoluto.

Entreguei a blusa dias depois, lavada e passada. Achei que o episódio morreria ali. Mas o mundo tem um senso de humor peculiar.

Fui visitar uma amiga enlutada e, sem pensar muito, sentei numa cadeira de madeira ao lado do sofá. Era confortável como abraço de avó. Comentei isso em voz alta. O marido dela, sem hesitar, disse: “Leva. Mandei fazer para a minha sogra. Como ela não está mais entre nós, não faz sentido deixarmos aqui. A cadeira praticamente nem foi usada.” Aceitei, surpresa. Paguei caro pelo carreto. E agora, leitor, olha só a ironia: virei a colega encantada com a blusa. A cadeira me enfeitiçou. Além do conforto, parece carregar uma energia mansa — como se quem senta nela se conectasse a algo antigo, silencioso, bom.

E então chegamos à pergunta inevitável: mistério do mundo ou ciência?

A psicologia comportamental tem uma resposta interessante: o que chamamos de “cobiça” ou “desejo pelo objeto do outro” não nasce apenas do objeto em si. Pesquisas sobre viés de valor atribuído mostram que tendemos a considerar mais valioso aquilo que percebemos como valioso para outra pessoa. É um reflexo social, quase primitivo, estudado por nomes como Robert Cialdini, que descreve como a validação pelo outro aumenta instantaneamente a percepção de qualidade.

Além disso, a neurociência explica que objetos carregam significados emocionais — o chamado efeito halo emocional. Quando vemos alguém demonstrar afeto, entusiasmo ou apego por algo, nossos neurônios-espelho ativam a sensação de que aquele objeto também é especial. Não desejamos a coisa; desejamos a experiência que imaginamos estar vinculada à coisa.

Talvez por isso minha colega tenha sentido “felicidade inexplicável” ao ver uma blusa velha. E talvez por isso eu mesma tenha sentido uma energia diferente ao sentar na cadeira herdada. A ciência chama de viés, ativação cerebral, transferência emocional. A gente, na vida prática, chama de mistério — e gosta de acreditar que objetos guardam histórias invisíveis.

No fim das contas, talvez os dois estejam certos. Porque se há algo que a ciência não explica totalmente — e que a vida insiste em provar — é que algumas coisas chegam às nossas mãos exatamente quando precisam chegar.

E você, leitor, qual foi o último objeto que o escolheu?

 

 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O Natal e seus símbolos

 

Hoje me pego pensando na complexidade — e na beleza — dos festejos natalinos. É curioso como uma data que celebra o nascimento de Jesus Cristo, um homem judeu que viveu há mais de dois mil anos na Palestina, acabou se transformando numa das maiores festas da humanidade. E, como quase tudo no calendário, o Natal é menos uma criação isolada e mais um mosaico de tradições que o tempo insistiu em costurar.

Celebrar aniversários, por exemplo, não nasceu no presépio. Os egípcios antigos já festejavam o nascimento dos faraós como se celebrassem a chegada de uma divindade. Os gregos, sempre poéticos, ofereciam à deusa Ártemis um bolo redondo adornado com velas — símbolo da luz que ascendia ao céu. Os romanos, práticos como eram, decidiram que não só os deuses, mas também os mortais mereciam a honra de ter seu dia lembrado.

E aí chegamos ao Natal. Mas não antes de fazer uma parada enigmática na figura que mais brilha nos shopping centers: Papai Noel. Antes de vestir o traje vermelho e abraçar a carreira de porta-voz da Coca-Cola, ele foi outra coisa.

Muito antes do “Ho, ho, ho”, havia Odin, o deus nórdico que cavalgava pelos céus durante o solstício de inverno montado em Sleipnir, seu cavalo de oito patas. As crianças deixavam alimentos em suas botas para alimentar o animal. Mas veio o avanço do cristianismo na Europa, e com ele a proibição das festividades pagãs. A solução? Substituir Odin por um santo mais palatável: Nicolau de Mira, o bispo generoso que ajudava os pobres e, segundo a lenda, jogou moedas pela chaminé de uma casa para garantir o dote de três jovens. O gesto deu origem ao costume dos presentes que descem pelos telhados.

Séculos depois, já nos anos 1930, a Coca-Cola desenhou o bom velhinho de roupa vermelha, bochechas rosadas e sorriso de propaganda. Assim se consolidou o Papai Noel que hoje conhecemos — um híbrido improvável de um deus nórdico, um bispo turco e uma campanha publicitária norte-americana.

Mas o Natal vai muito além desses cruzamentos culturais. Ele se expressa também nos símbolos que ocupam nossas casas, cada qual carregando uma história que persiste:

  • A árvore de Natal, sempre-verde, lembra a vida que resiste ao inverno e a esperança que insiste em ficar.
  • A estrela, no topo, aponta o caminho — como a Estrela de Belém guiou os Magos.
  • As velas representam a luz divina que rompe as trevas.
  • Os anjos, mensageiros, reforçam a proteção.
  • Os sinos anunciam alegria.
  • A guirlanda na porta simboliza boas-vindas e continuidade.
  • A ceia reafirma a comunhão.
  • A Missa do Galo, tradição que remonta à Idade Média, marca a passagem simbólica da noite para o nascimento da luz — e celebra o encontro da fé com a madrugada.

·         O conjunto do presépio

·         Representa a humildade do nascimento de Jesus e a ideia de que o sagrado pode nascer nos lugares mais simples. É um símbolo de paz, acolhimento e humanidade.

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Nada disso aconteceu de uma vez. Foram milênios de histórias, crenças e ressignificações que se empilharam até formar aquilo que hoje chamamos simplesmente de “Natal”.

E é assim que dezembro se torna um mês paradoxal: religioso para uns, cultural para outros; turístico para cidades que investem em luzes; econômico para quem depende de vendas; afetivo para quem reencontra família; reflexivo para quem revisita memórias.

No fim das contas, celebrar o Natal é abrir espaço para tudo isso ao mesmo tempo — e aceitar que a festa que homenageia um menino judeu nascido no Oriente acabou se tornando um espetáculo global, multicolorido, e talvez por isso mesmo tão humano.

 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Antiga Grécia e o Desprezo Pelo Trabalho Manual

 

Era uma vez uma civilização que inventou a democracia, lapidou a filosofia e moldou os alicerces do pensamento ocidental — mas que torcia o nariz para quem sujava as mãos de barro, metal ou suor. Na Grécia arcaica, entre vasos decorados e discursos inflamados na ágora, floresceu um costume que hoje soaria estranho num país que preza pelos “empreendedores de si mesmos”: a desvalorização sistemática do trabalho manual.

A cidade-estado, a tal polis, era regida por um ideal muito específico de cidadão: homem livre, proprietário de terras, com tempo suficiente para argumentar contra si mesmo nas assembleias e para recitar versos antes do jantar. Não por acaso, o ócio — scholé, raiz da palavra “escola” — era considerado a matéria-prima da virtude. A vida boa exigia tempo livre, e tempo livre exigia, naturalmente, que outro fizesse o trabalho pesado.

Esse “outro” era quase todo mundo: escravos, metecos, artesãos. Pessoas que mantinham Atenas de pé — literalmente — mas que, ironicamente, eram excluídas da vida política por estarem ocupadas demais garantindo que a máquina pública funcionasse. O ferreiro que forjava armas não podia decidir se a polis devia entrar em guerra. A oleira que produzia ânforas para exportação não podia votar sobre como usar o dinheiro arrecadado. E o carpinteiro que construía trirremes não tinha direito a sentar-se no banco da assembleia que ordenava sua partida ao mar.

Platão não apenas concordava — institucionalizou o preconceito. Para ele, em sua República, um artesão jamais deveria governar: faltava-lhe a “natureza adequada” para as tarefas da alma. Aristóteles, sempre mais pragmático, selou o veredito: quem trabalha com as mãos não alcança “virtude plena”. Em outras palavras: produzir objetos era útil, mas não nobre.

Curioso é que Atenas, modelo de cidade “pensante”, vivia justamente do trabalho daqueles que desvalorizava. A cerâmica ateniense viajava o Mediterrâneo; os artesãos mantinham um ritmo industrial digno de revolução, mas sem o reconhecimento. A polis, afinal, era erguida por mãos que o discurso oficial preferia invisíveis.

Se hoje olhamos para trás com certo espanto, talvez seja porque herdamos — mais do que gostaríamos — esse velho vício cultural: o de exaltar quem pensa e desconfiar de quem faz. Não é preciso muito esforço para perceber que a distinção entre “trabalho intelectual” e “trabalho braçal” ainda aparece, aqui e ali, como um eco incômodo desse passado.

A Grécia nos deu Sócrates, mas também nos deu o conceito de “trabalho indigno”. De um lado, o louvor à palavra, ao raciocínio, ao debate. De outro, a suspeita de que mãos calejadas não carregam sabedoria suficiente para opinar sobre o destino da cidade. É como se a antiga aristocracia grega continuasse soprando nos ouvidos modernos: pensar é para poucos; fazer é para outros.

E talvez a crônica termine onde começa o embaraço: no reconhecimento de que a civilização que tanto admiramos também errou — e que o erro, disfarçado de tradição,

 

História das festas de aniversário

  

É quarta-feira, o meio da semana que costuma nos lembrar que o tempo corre sem pedir licença. E talvez seja justamente sobre isso que falamos quando pensamos nas festas de aniversário: o tempo, sua passagem e a forma como escolhemos celebrá-lo.

As origens dessas comemorações remontam ao Egito Antigo, quando faraós eram homenageados não pelo nascimento físico, mas pelo dia em que se tornavam divindades. Os gregos, por sua vez, acendiam velas em bolos de mel para honrar Ártemis, a deusa da lua — gesto que atravessou séculos e hoje se traduz no ritual de soprar velas e fazer um pedido. Já os romanos foram pioneiros em estender a celebração aos cidadãos comuns, acreditando que presentes e votos de felicidade serviam como proteção contra espíritos malignos.

O cristianismo, inicialmente reticente, acabou por abraçar a ideia ao celebrar o nascimento de Cristo. A partir do século XIX, sobretudo na Alemanha, as festas de aniversário ganharam o formato que conhecemos: bolo, velas, presentes e a reunião de amigos e familiares.

No Ocidente, o simbolismo permanece forte. O bolo é mais que sobremesa: é oferenda, é centro da festa. As velas representam luz e esperança. Os presentes, desde Roma, carregam o sentido de bons augúrios. E a reunião social, talvez o mais importante dos elementos, reafirma que viver é também pertencer.

Assim, cada aniversário é mais que uma data no calendário. É rito de passagem, celebração da identidade e lembrança de que, apesar da pressa dos dias, há sempre espaço para parar, cantar “parabéns” e brindar à vida.

No meio da semana, entre compromissos e rotinas, pensar na origem das festas de aniversário é quase um convite: que tal celebrar não apenas o dia em que nascemos, mas também cada instante que nos faz sentir vivos?


sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Entre Serpentes e Orações

 


Na periferia, onde o chão é de terra e as noites são povoadas por sons que não vêm apenas dos vizinhos, mas da própria natureza, aprendi que viver é estar sempre em estado de alerta. Não se trata de metáfora: as serpentes que cruzaram meu caminho não eram símbolos de traição, mas criaturas reais, silenciosas e certeiras.

A primeira, uma jibóia jovem, mostrou-me que o “bafo da jibóia” não é lenda. O sopro que ela lançou foi aviso e milagre ao mesmo tempo: tive tempo de correr, sem olhar para trás, como quem foge não apenas de um animal, mas da própria morte que se insinua.

Meses depois, uma cobra-coral, tão bela quanto letal, deslizou diante de mim. O som da vassoura e o movimento do meu corpo foram suficientes para que ela se afastasse. A beleza da natureza, às vezes, é também sua armadilha.

Ontem, o encontro foi com uma cobra-cipó, escondida entre folhas secas caídas da mangueira. A lei proíbe queimadas, mas quem recolhe folhas sabe: entre elas pode estar o bote certeiro. E chamar Bombeiros ou Polícia Ambiental é quase um ritual inútil — quando chegam, a serpente já encontrou outro esconderijo.

A vida na periferia é trincheira. Dormir numa casa térrea é vigiar como soldado: um olho aberto, outro fechado, porque o inimigo pode ser uma barata, um rato, um escorpião ou uma serpente que insiste em nos expulsar do próprio quintal.

E é nesse cenário que a fé se torna escudo. São Bento, com sua oração contra os perigos invisíveis e visíveis, é o santo a quem recorro. Não apenas para afastar o mal espiritual, mas para me dar coragem diante da natureza que, embora sábia e necessária, também é implacável.

Entre folhas secas e noites tensas, aprendi que cautela é sobrevivência, mas fé é descanso. Só ela permite que, por alguns segundos, eu cochile em paz, acreditando que há uma proteção maior do que qualquer cerca ou vassoura: a celestial.

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

A memória das mãos


Hoje, como quem desperta de um sonho antigo, vi o poder secreto da memória das mãos.
Essas mãos, que outrora aprenderam a dobrar o papel em origami, guardaram em seus nervos e músculos um saber que minha mente já não alcançava. Durante anos, ensinei a outros essa arte delicada, como quem semeia estrelas no silêncio, acreditando que o conhecimento não deve morrer com seu detentor, mas florescer nos mais jovens, perpetuar-se como chama que não se apaga.

Mas o tempo, esse escultor invisível, afastou-me dos discípulos e apagou da mente os passos da dobradura. Restou-me apenas o desejo, próximo ao Natal, de criar uma decoração original. Tentei, e falhei. Cinco vezes, o pensamento se fechava em brumas, e eu rogava às minhas mãos que lembrassem. E foi então que, após longos minutos de insistência, elas, como sacerdotisas silenciosas, revelaram o segredo. O origami renasceu perfeito, não pela mente, mas pela carne que recorda.

A ciência, em sua linguagem fria e luminosa, confirma este mistério: escrever à mão, manipular objetos, repetir gestos, tudo isso desperta uma sinfonia de conexões cerebrais, uma dança entre regiões do cérebro que não se acende quando apenas digitamos. Há, portanto, uma memória tátil, muscular, sensorial — uma memória das mãos. Elas sabem, mesmo quando o pensamento se perde.

E eu, diante da dobradura renascida, senti-me feliz como criança. Desejo que este Natal seja um instante de beleza, que os enfeites brilhem como constelações dentro da precariedade da minha morada, há mais de trinta anos clamando por uma pintura. Que o contraste entre o brilho das formas e a aspereza das paredes me traga paz no coração e prosperidade na vida.

Assim, compreendo: reter é perecer, compartilhar é frutificar. O gesto que se transmite, a dobra que se ensina, a palavra escrita à mão — tudo isso é eternidade.
E minhas mãos, fiéis guardiãs, provaram que a memória não é apenas da mente, mas também da carne, do sangue, do nervo.
São elas que, em silêncio, perpetuam o saber, como se fossem as asas invisíveis da al
ma.

sábado, 15 de novembro de 2025

O Silêncio da República

 

Acordei às 4h50, não por insônia, mas pelo canto dos passarinhos — os únicos que ainda parecem lembrar que o dia começou. Enrolei pela casa, saboreando o frescor da madrugada, esse raro alívio que antecede o calor abrasador do sol. Ao deitar,  apesar do calor não  é prudente deixar  uma janela aberta. Há ladrões por toda parte, como sombras à espreita, prontos para tomar o que não lhes pertence com a facilidade de quem já perdeu o medo.

Às seis, varri a calçada. Fiz questão de começar antes que o sol a tocasse, porque ele já não acaricia — ele castiga. Queima como brasa, e às vezes me pergunto se a Terra não é apenas um estágio preparatório para o inferno. O suor escorre, o corpo reclama, mas o espírito... o espírito hoje amanheceu triste.

Era 15 de Novembro. Data da Proclamação da República. Um marco, um rompimento, uma promessa de liberdade e cidadania. Mas na rua, só eu e os passarinhos. Nenhuma bandeira, nenhum hino, nenhuma criança com cartolina colorida. Nenhum sinal de que somos — ou deveríamos ser — uma República.

O poder público silente. A educação, ausente. A mídia, entretida com ofertas de feriado. E o povo? O povo segue o feriado como quem segue um domingo qualquer. Dorme até mais tarde, reclama do calor, compartilha memes. Mas não se pergunta: por que hoje é feriado?

E então me pergunto: qual o sentido de parar a economia, se não há consciência do motivo?

Qual o valor de um dia cívico, se não há civismo?

Uma nação que não celebra sua história está condenada a esquecê-la. E quem esquece o que foi, não sabe o que é — muito menos o que pode ser.

A República, sem memória, vira apenas um nome em papel timbrado. Sem celebração, sem reflexão, sem educação, ela se esvazia. Vira rotina burocrática, vira feriado sem alma. E nesse vazio, cresce o desinteresse, a ignorância, o descaso. Cresce o risco de perdermos o pouco que conquistamos.

Hoje, a rua estava vazia. Mas o silêncio dela gritava. Gritava que estamos falhando. Que estamos deixando de ser República, para sermos apenas um aglomerado de gente que não se reconhece como povo.

Alguém pode me responder: qual o sentido de um feriado cívico, se ninguém se importa com a razão dele existir?

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O espelho negro

 

Na penumbra do quarto, onde o tempo se dissolve como névoa, repousa o objeto que me consome: um retângulo de luz, um espelho negro que me hipnotiza. Ele não reflete meu rosto, mas projeta sombras — imagens fugidias, sons ocos, histórias que se repetem como ecos em um abismo. Quatro horas por dia, talvez mais. Não sei ao certo. O tempo, esse velho senhor de bengala, já não caminha ao meu lado. Ele corre, escorrega, desaparece.

O vício que não tem nome

Não é droga, não é álcool, não é jogo. É pior. É o nada disfarçado de tudo. Tento impor limites: quinze minutos, prometo. Mas o tempo ri de mim. Quando desperto, já se passaram duas horas. E eu? Eu não lembro de nada. Nenhum nome, nenhuma ideia, nenhum afeto. Apenas o torpor. A anestesia da alma. O celular é meu altar e meu cárcere. Nele, não há transcendência — só ruído.

A casa, o corpo, o espírito

Minha casa está imunda. O chão, testemunha silenciosa da minha ausência. O arroz com arroz é meu banquete diário. Livros jazem fechados, como túmulos de sabedoria que não ouso profanar. A lição de casa, esquecida. A vida real, um borrão. E eu? Eu não sou criança. Já vivi sete décadas. Sete ciclos lunares completos. Mas agora sou como uma marionete sem cordas, caída no palco, esperando que alguém a recolha.

O teatro grotesco

Os vídeos que vejo são como máscaras de carnaval — grotescas, previsíveis, vulgares. Artistas renomados e religiosos se despem, não de roupas, mas de dignidade. Falam de dejetos, de sexo casual, de dores banais. E eu assisto. Eu rio. Eu me anestesio. Como quem toma um gole de veneno e chama de remédio. E o pior: estou viciada. Tento me libertar, mas as correntes são feitas de pixels e promessas vazias.

O desejo de ser útil

Se não posso ser útil a alguém, ao planeta, ao tempo que me resta... que ao menos eu consiga prestigiar quem ainda resiste. Quem ainda cria com seriedade, com beleza, com propósito. Que eu consiga, ao menos, olhar para o alto — para além da tela — e lembrar que há estrelas. Que há poesia. Que há vida.

Porque, no fundo, ainda há uma chama. Fraca, trêmula, mas viva. E talvez, só talvez, ela ainda possa iluminar o caminho de volta.


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

A Praia Que Nunca Foi Minha

 

Hoje, ao deslizar os olhos pelas redes sociais, tropecei numa foto da Praia Grande. A cidade do litoral sul paulista, plana como um suspiro, com a Serra do Mar ao fundo, verde e azul em eterna harmonia. E ali, entre pixels e lembranças, fui tragado por uma saudade que não era só da paisagem — era daquilo que nunca vivi de verdade.

Lembrei dos ventos fortes que varriam as calçadas, da serração que escondia o horizonte, do cheiro salgado que grudava na pele e do som do mar que embalava os dias. Lembrei do comércio farto, das feiras livres, dos peixes com gosto de oceano. Alguns eu até comprava, mas mais com os olhos do que com a boca. Aposentado, o apetite é mais sonho do que realidade. Nunca há dinheiro suficiente para saborear as iguarias que a cidade oferece. E mesmo assim, havia a ilusão — doce e cruel — de que morar na praia era sinônimo de felicidade. Era poder. Era liberdade.

Mas que liberdade é essa que não permite desfrutar da própria rua? Dos quiosques belíssimos que só se admira de longe, como quem olha vitrines de um mundo que não lhe pertence? Das atividades culturais que se escondem nos cantos periféricos, oferecidas por centros de convivência e igrejas que cobram pouco, mas ainda assim cobram? Ter e não poder. Viver e não sentir. Praia Grande me deu guarida por cinco anos, mas nunca me deu pertencimento.

Reconheço: a cidade oferece muito. Mas há algo maior que vive dentro de mim — e que nenhuma vista para o mar consegue calar. A solidão. A ausência de alguém em quem confiar. A falta de importância. Nunca fui importante, nem para os meus pais. Às vezes penso que, se tivesse morrido na infância, teria sido apenas uma boca a menos para alimentar. Fiz terapia, mudei de cidade, tentei construir laços, formar uma família, ser alguém que fizesse falta. Mas se eu morresse agora, neste exato momento, talvez ninguém notasse.

A solidão, essa amiga do peito, me acompanhou por tantas andanças que acabei voltando à terra natal. E lá, descobri que o esquecimento já havia feito morada. Não faço falta. Não sou lembrança. Sou silêncio.

Por isso, ao ver aquela foto da Praia Grande, senti saudade da geografia — da planície, da serra, do mar. Mas não das pessoas. Porque viver sem conviver é uma sina triste. E há paisagens que, por mais belas que sejam, não conseguem preencher o vazio de não ser esperado por ninguém.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Crônica de um Quintal Selvagem

 


Hoje acordei com aquele pressentimento típico de quem mora na periferia com quintal grande e árvores frondosas: “Será que hoje é dia de cobra coral?” E não é que era? Acordei, rezei para o Anjo da Guarda, Santo Bento e, por via das dúvidas, considerei incluir São Jorge e Indiana Jones no pacote. Afinal, nunca se sabe quando um filhote de cobra faminta de 25 centímetros vai decidir fazer da sua perna o café da manhã.

A bichinha era magrinha, parecia recém-nascida e com fome. Talvez estivesse só procurando um delivery de roedores, mas acabou topando comigo e meu arrastão de folhas secas. Nosso encontro foi breve, intenso e sem registro fotográfico — porque, claro, eu estava sem celular. Uma pena, pois seria uma ótima prova em caso de denúncia por fogueiras ilegais. Sim, porque aqui, além de enfrentar serpentes, escorpiões e micos acrobatas, ainda temos que lidar com os fiscais de sofá, aqueles que denunciam com a mesma velocidade que esquecem que também fazem fogueiras quando o teiú invade a sala.

A Prefeitura, sempre muito preocupada com o meio ambiente (desde que o meio ambiente não esteja no quintal deles), proibiu as fogueiras. Alegam que o “folheiro” passa uma vez por mês. Uma vez. Por mês. Como se os escorpiões tivessem um calendário e dissessem: “Vamos esperar o caminhão, pessoal, nada de picadas até o dia 30!”

Mas eu, rebelde com causa e com queimaduras leves, fiz três fogueiras. Só de folhas secas, veja bem. Longe da fiação elétrica, com direito a dança da fumaça para espantar as cobras do chão e das árvores. Um ritual de sobrevivência que, infelizmente, não é contemplado nas diretrizes ambientais dos justiceiros de aplicativo.

E antes que alguém sugira: “Por que não coloca patos para  comer os escorpiões?” — já coloquei. Foram roubados. Sim, patos sequestrados. Aqui, até os animais têm que lidar com a insegurança pública. As galinhas-d’angola, coitadas, estão em greve. Não dão conta de comer todos os filhotes de escorpião que nascem aos montes, venenosos e independentes, como adolescentes em férias escolares.

O dia seguiu com um teiú fazendo turismo pelo quintal e uma trupe de micos na bananeira, provavelmente discutindo política ou o preço do mamão. E eu, entre uma fogueira e outra, sigo firme, esperando o próximo capítulo dessa novela selvagem. Quem sabe amanhã não aparece um tamanduá pedindo açúcar?

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

O Salto das Minhocas e a Fé no Floral

 

Há dias em que a alma parece inquieta, como se tivesse perdido o compasso com o corpo. Uma fome que não é de comida, mas que se disfarça em carboidratos — pão, bolo, biscoito, qualquer coisa que traga a ilusão de acolhimento. Vinte e quatro horas por dia, o apetite não dá trégua. Tentei ginástica, caminhada, até respiração consciente. Melhorou, mas não resolveu.

Foi então que, num gesto de coragem silenciosa, decidi confiar no invisível. Comprei um floral de Bach por quarenta reais, desses de pronta entrega, com o rótulo que prometia alívio para “preocupações e sofrimentos diários”. E não é que funcionou? A compulsão por roer unhas — aquela mania de coelha urbana, sempre mastigando alguma quitanda — começou a se dissolver.

Mas o que me surpreendeu mesmo foi o sonho. No terceiro dia, ele veio como um filme em alta definição. Sonhei com uma ferida na perna, parecida com uma espinha inflamada, cheia de pus. Resolvi aplicar água oxigenada, dessas farmacêuticas. Quando começou a borbulhar, saltaram dali uns bichinhos finos, como minhocas em miniatura, e foram direto ao chão. Um salto digno de fazer inveja às pulgas. Tentaram voltar à ferida, mas não conseguiram. Acordei com a sensação vívida, olhei a perna, nada. Só o sonho.

Corri para a internet, porque comentar com os próximos — que seguem o espiritismo — seria ouvir que eram espíritos saindo do corpo. Como aquele vidro do basculante que quebrou com o vento. Estava lá há mais de dez anos, sem manutenção. Normal, eu diria.

Mas o sonho, do ponto de vista holístico, revelou-se um símbolo poderoso. A ferida era um portal. Os bichinhos, resíduos emocionais, padrões antigos, talvez até crenças que já não me servem. O salto deles foi a libertação. A tentativa de retorno, a prova de que não há volta quando se escolhe curar. O corpo fala, mas o inconsciente grita — e às vezes, sonha.

Desde então, estou mais leve. Continuarei com os florais de Bach. Eles cabem no meu orçamento e, mais importante, cabem na minha fé. Todo mês, um novo frasco para combater os pensamentos ruminantes, a compulsão por carboidratos e o bruxismo noturno. E nem me fale em nutricionista — já fui, e é como jogar dinheiro fora. Dietas que ignoram a alma e o bolso.

Estou confiando no floral. Porque às vezes, o que cura não é o que se vê, mas o que se sonha.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Quem Ousa Profanar o Túmulo do Meu Amor?

 

 

Ontem, dia consagrado à memória dos mortos, em que os vivos se curvam diante da eternidade, pus-me a caminho do campo santo, onde jazem os ossos venerandos de meus antepassados. Mal havia iniciado minha peregrinação fúnebre, quando o destino, cruel e zombeteiro, lançou-me ao chão com violência inaudita: caí, como se a terra quisesse me engolir, e ralei os joelhos e a mão direita, esta que agora pulsa como se nela residisse toda a dor do mundo.

No instante da queda, fui tomada por um pavor lancinante, um medo ancestral de que mais uma vez os ossos se rebelassem contra mim, e eu, pobre criatura, fosse condenada ao suplício do gesso, à imobilidade forçada, à prisão do corpo. Hesitei em levantar-me, como se o chão fosse mais seguro que o incerto erguimento. Mas, ao me erguer, vi que o estrago era menor que o susto — ainda que o susto fosse imenso, como um trovão que ressoa na alma.

Enquanto ali jazia, caída como uma mártir sem altar, movimentei o pé com cautela, como quem interroga os ossos: estais íntegros? E eles, silenciosos, responderam com ausência de dor. Os joelhos, ainda que feridos, não clamavam por socorro. Mas a mão — ah, a mão! — esta que se interpôs entre meu corpo e o chão, esta sofre, esta geme, esta se ressente. Os punhos, embora não perfeitos, ainda obedecem à vontade.

E então, quando enfim alcancei o túmulo de meu esposo — aquele que em vida abominava o artifício e reverenciava a natureza — fui acometida por uma visão que me fez empalidecer como quem vê um fantasma ao meio-dia: flores de plástico! Sim, flores de plástico, profanas, impuras, indignas! E eu não as levei. Não tivemos filhos, seus irmãos precederam-no na morte, os sobrinhos são sombras distantes, o afilhado nunca existiu. Quem, então, ousa adornar o túmulo de meu marido com tais simulacros da beleza natural?

Não é pessoa de posses, pois as flores — miseráveis flores! — são das mais baratas, vendidas em lojas de conveniência como quem vende esquecimento. Ou então, é uma alma miserável, que transita entre túmulos como ladra de homenagens, arrancando flores de um para depositar noutro, como quem joga dados com os mortos.

E o mais estarrecedor: as visitas são regulares! As flores, azuis como o céu que ele tanto amava, foram colocadas há pouco, antes de minha chegada. Isto é obra de mulher, sim, mulher sem juízo, sem pudor, sem reverência! Pois ele, meu esposo, defensor da natureza, jamais aceitaria tal afronta. Flores artificiais! Que insulto à memória de quem viveu em comunhão com o verde, com o vento, com o ciclo sagrado da vida!

E agora, como me sinto? Não é preciso perguntar. Sinto-me como quem carrega um fardo invisível, um peso que não se vê, mas que esmaga a alma. Minha cabeça é um templo de angústia, e meu coração, um relicário de indignação.