terça-feira, 11 de agosto de 2026

As mulheres que incomodaram a história

 


Há mulheres que passam pela história.

E há mulheres que fazem a história tropeçar.

Talvez seja por isso que algumas nunca tenham recebido o devido reconhecimento enquanto estavam vivas. A sociedade costuma ser generosa com mulheres depois que elas morrem. Mortas, tornam-se homenagens. Fotografias. Nomes de ruas. Estátuas. Frases bonitas.

Vivas, entretanto, incomodam.

Dona Beja incomodou.

Cora Coralina incomodou.

Nise da Silveira incomodou.

Irena Sendler incomodou.

Zilda Arns incomodou.

Joenia Wapichana incomodou.

Maninha Xucuru-Kariri incomodou.

Cada uma à sua maneira, em seu tempo, em seu território, enfrentou alguma espécie de porta fechada.

E talvez seja justamente aí que essas histórias deixem de pertencer ao passado.

Porque as portas continuam existindo.

Mudaram apenas de aparência.

Dona Beja aprendeu cedo que uma mulher pode ser vítima e, ainda assim, ser julgada como culpada.

Aos quinze anos, depois de uma história de violência e abandono, voltou para Araxá. Mas a sociedade não enxergou primeiro a menina que havia sofrido. Preferiu enxergar a mulher bonita, sedutora, perigosa.

É uma velha habilidade social: quando não sabemos o que fazer com a dor de uma mulher, transformamos sua dor em culpa.

Dona Beja sobreviveu.

E sobreviveu de uma maneira que não cabia exatamente nos moldes que esperavam dela. Construiu sua trajetória, criou as filhas, mudou-se para Bagagem e seguiu a vida. Hoje, seu nome está definitivamente ligado à memória de Araxá.

Talvez a história tenha tentado transformá-la em lenda porque não soube lidar com a mulher.

Cora Coralina nos ensina outra coisa: o tempo também pode ser um preconceito.

Quem disse que uma pessoa precisa realizar seus sonhos aos vinte, trinta ou quarenta anos?

Cora publicou seu primeiro livro aos 75.

Setenta e cinco.

Há algo quase insolente nessa idade para quem vive numa sociedade que transforma juventude em passaporte para tudo.

Cora chegou tarde?

Não.

Chegou quando pôde.

E talvez essa seja uma das maiores crueldades que cometemos contra nós mesmos: acreditar que perdemos o momento certo simplesmente porque ainda não aconteceu.

Nise da Silveira também poderia ter escolhido o caminho mais confortável.

Não escolheu.

Foi uma das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil e a única mulher entre 157 homens de sua turma. Mais tarde, enfrentou perseguição política, prisão e um sistema psiquiátrico que ela ajudaria a transformar.

Em vez de enxergar apenas doença, procurou enxergar pessoas.

Em vez de aceitar respostas prontas, procurou outras possibilidades.

E talvez seja justamente isso que mais assuste numa mulher: uma mulher que pensa por conta própria.

 

Irena Sendler fez o que parecia impossível em um dos períodos mais sombrios da humanidade. Zilda Arns transformou o cuidado com crianças pobres em uma grande ação social.

Uma enfrentou a guerra.

Outra enfrentou a miséria.

Nenhuma das duas tinha o luxo de esperar que o mundo melhorasse sozinho.

E talvez seja essa a parte mais difícil de admitir:

O mundo quase nunca muda porque alguém pediu educadamente.

Muda porque alguém insistiu.

Joenia Wapichana e Maninha Xucuru-Kariri acrescentam outra camada a essa história.

Porque há mulheres que precisam lutar não apenas contra o machismo, mas também contra o preconceito, contra o apagamento de seus povos e contra a velha ideia de que alguns lugares pertencem naturalmente a determinadas pessoas.

Joenia chegou ao Direito, ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso.

Maninha liderou a defesa do território e da identidade de seu povo.

São histórias que lembram uma coisa elementar, embora frequentemente esquecida: representação não é favor.

É direito.

E nós?

Nós continuamos aqui.

Na segunda-feira, reclamando do trânsito.

Na terça, cansados.

Na quarta, adiando alguma decisão.

Na quinta, prometendo que amanhã será diferente.

Na sexta, fazendo contas para descobrir onde foi parar a semana.

E talvez seja justamente nesse cotidiano aparentemente pequeno que essas mulheres tenham alguma coisa a nos dizer.

Não precisamos salvar uma cidade.

Não precisamos entrar para os livros de história.

Não precisamos ser extraordinários.

Mas talvez precisemos parar de aceitar como destino aquilo que é apenas repetição.

Há uma diferença enorme entre não poder mudar e ter medo de mudar.

Entre estar preso e permanecer na mesma porta porque ela se tornou conhecida.

Entre não ter escolha e não querer pagar o preço de escolher.

Talvez seja essa a parte amarga de lembrar mulheres como Cora, Nise, Zilda, Irena, Joenia, Maninha e tantas outras.

Elas nos tiram algumas desculpas.

Porque, quando alguém atravessa uma época inteira lutando contra o impossível, fica um pouco mais difícil justificar nossa própria acomodação.

Mas não é uma cobrança.

É um convite.

O passado não precisa ser uma sentença.

Pode ser apenas um lugar de onde finalmente aprendemos alguma coisa.

A semana vai terminar.

Outra vai começar.

E nós continuaremos repetindo os mesmos gestos, as mesmas reclamações, os mesmos medos, se nada fizermos.

Ou podemos experimentar uma pequena desobediência.

Uma conversa que nunca tivemos.

Um projeto que sempre adiamos.

Uma porta que finalmente abrimos.

Uma vida que decidimos começar a viver de maneira diferente.

Talvez seja isso que essas mulheres deixaram como herança.

Não a obrigação de sermos heroicos.

Mas a coragem de não sermos completamente submissos às circunstâncias.

Porque algumas mulheres passaram pela história.

Outras enfrentaram a história.

E algumas tiveram a ousadia de dizer que a história estava errada.

Talvez seja por isso que ainda falamos delas.

E talvez seja por isso que, nesta semana, devêssemos prestar atenção não apenas às mulheres que mudaram o mundo.

Mas àquela mulher — conhecida ou desconhecida — que, em algum lugar, está tentando mudar o próprio mundo.

Às vezes, é assim que uma revolução começa.

Sem plateia.

Sem aplausos.

Numa manhã qualquer.

Quando alguém finalmente decide:

“A minha história não precisa terminar onde disseram que terminaria.”

 

domingo, 26 de julho de 2026

Não foi o show da Xuxa que mais me emocionou. Foi o tempo.

 Há uma realidade pouco comentada na vida daqueles que não nasceram em berço esplêndido: a existência parece dividir-se em três grandes movimentos.

Na juventude, dispõe-se de tempo e energia, mas falta o recurso financeiro para realizar muitos sonhos. Durante a vida laboral, conquista-se certa estabilidade econômica e conserva-se boa parte da disposição física, porém o tempo torna-se escasso, consumido pelas responsabilidades profissionais e familiares. Finalmente, chega a tão almejada aposentadoria. Recupera-se o tempo; com planejamento e disciplina, é possível administrar as finanças. Entretanto, aquilo que a juventude oferecia em abundância — a energia física — já não responde da mesma maneira. Muitos desejos permanecem vivos, mas o corpo passa a impor seus próprios limites.

Durante toda a minha vida, sonhei em assistir a um show da Xuxa. Quando era jovem, faltava dinheiro. Na fase adulta, faltava tempo. Hoje, disponho de tempo e, com algum esforço, conseguiria custear a viagem e o ingresso. Contudo, faltou-me a disposição física para permanecer durante horas em pé, em meio a milhares de pessoas, acompanhando um espetáculo de grande intensidade sonora e visual.

Restou-me, então, aguardar a transmissão disponibilizada no YouTube, plataforma que, de certo modo, cumpre atualmente um papel semelhante ao que a televisão aberta desempenhou durante décadas: democratizar o acesso à cultura para aqueles que, por diferentes razões, não conseguem vivenciar presencialmente os grandes eventos.


Assisti ao espetáculo integralmente e terminei com um sentimento de frustração.


Talvez justamente por pertencer à geração que acompanhou praticamente todos os especiais de fim de ano da artista, eu carregasse uma expectativa muito específica: reencontrar, ainda que por algumas horas, a atmosfera musical que marcou minha infância.

O que encontrei, porém, foi uma proposta estética bastante diferente.

Os novos arranjos privilegiaram uma linguagem pop contemporânea, sustentada por uma base rítmica constante e por uma pulsação eletrônica praticamente uniforme durante grande parte do espetáculo. Do ponto de vista técnico, houve uma homogeneização do material musical. A predominância do mesmo groove, da mesma levada rítmica e de uma instrumentação semelhante reduziu o contraste entre as canções. Consequentemente, músicas originalmente construídas sobre identidades melódicas e harmônicas muito distintas passaram a apresentar sonoridades excessivamente próximas entre si.

Em diversos momentos, tive a sensação de ouvir uma única música em sequência, exigindo atenção para perceber que apenas a letra havia mudado.

Essa impressão não decorre da qualidade das composições, mas da padronização dos arranjos. A riqueza da obra da Xuxa sempre esteve justamente na variedade de atmosferas musicais: havia canções contemplativas, marchinhas, baladas, músicas de roda, influências da música latina e do pop infantil dos anos 1980 e 1990. Quando essas diferenças são reduzidas em favor de uma única estética sonora, perde-se parte da identidade individual de cada composição.


Foi exatamente isso que senti ao ouvir Boto Rosa.


Na gravação original, a canção possui uma linha melódica delicada, com caráter quase narrativo, que favorece a imaginação e reforça o clima lúdico da história. No espetáculo, entretanto, o arranjo transformou essa atmosfera em uma versão predominantemente dançante, marcada por batidas fortes e andamento voltado para a participação coletiva do público.

Naturalmente, compreendo a intenção artística. Em grandes shows contemporâneos, busca-se manter elevada energia cênica, favorecendo a interação do público, que canta, dança e acompanha os comandos do artista. Entretanto, essa escolha acabou sacrificando justamente aquilo que tornava a música memorável para quem cresceu ouvindo a versão original.

Outro aspecto que me incomodou foi o excesso de recursos visuais.

A tecnologia deve ampliar a presença do artista, nunca competir com ela. Em vários momentos, projeções, efeitos gráficos, jogos de luz e sobreposições de imagens pareciam disputar a atenção do espectador com a própria protagonista. A impressão era de que a artista desaparecia em meio ao espetáculo tecnológico.

Paradoxalmente, a maior estrela da noite acabou sendo, em alguns instantes, ofuscada pelos efeitos destinados a valorizá-la.

Para aqueles que acompanharam sua trajetória desde os primeiros programas televisivos, bastaria sua presença, seu sorriso, sua espontaneidade e sua capacidade singular de estabelecer uma conexão afetiva com o público.

A entrada e entraa da nave foi foi profundamete emocinante.

Durante décadas, ela representou um dos símbolos mais marcantes do imaginário infantil brasileiro. Contudo, a opção por fazê-la descer suspensa por cabos rompeu, para mim, parte da magia construída ao longo dos anos. Na memória afetiva de toda uma geração, a nave possuía um ritual próprio: a porta se abria, Xuxa surgia, embarcava novamente e partia, preservando a fantasia que sempre acompanhou aquele universo.

Percebi, então, que a frustração de não ter conseguido comparecer ao espetáculo foi substituída por outra, inesperada: a de não reconhecer plenamente a artista que marcou minha infância naquele formato de apresentação.


Ainda assim, saí da experiência com uma reflexão maior do que qualquer decepção estética.


A despedida da nave revelou-se um gesto de extraordinária sensibilidade. Encerrar, em vida, um dos maiores símbolos de sua carreira representa um raro exercício de maturidade artística. Socialmente, esse gesto possui enorme relevância, pois naturaliza o envelhecimento diante de milhões de pessoas.

Vivemos em uma sociedade que insiste em transformar a juventude em obrigação permanente. Ver uma personalidade da dimensão de Xuxa reconhecer, com serenidade, a passagem do tempo ajuda a romper essa ilusão coletiva.

Quando afirmou: "Estou velha", não havia derrota naquela frase. Havia verdade.

Ela envelheceu.

ós que crescemos com ela, também.

E alvez essa seja a maior mensagem de todo o espetáculo: compreender que cada fase da existência possui sua própria beleza. A infância vive na memória, a maturidade ensina novos significados e a velhice, apesar das limitações e da solidão que por vezes impõe, continua sendo um privilégio concedido apenas àqueles que tiveram a oportunidade de atravessar o tempo.

Talvez por isso eu continue aguardando, todos os anos, o especial de Roberto Carlos. Não apenas pelas canções, mas porque esses encontros televisivos nos recordam da importância de agradecer a Deus pelo dom da vida e pela lucidez que nos permite revisitar nossas lembranças.

Envelhecer não é perder a beleza da existência.

É aprender que alguns sonhos mudam de forma, mas jamais deixam de iluminar a memória.

Há uma realidade pouco comentada na vida daqueles que não nasceram em berço esplêndido: a existência parece dividir-se em três grandes movimentos.

Na juventude, dispõe-se de tempo e energia, mas falta o recurso financeiro para realizar muitos sonhos. Durante a vida laboral, conquista-se certa estabilidade econômica e conserva-se boa parte da disposição física, porém o tempo torna-se escasso, consumido pelas responsabilidades profissionais e familiares. Finalmente, chega a tão almejada aposentadoria. Recupera-se o tempo; com planejamento e disciplina, é possível administrar as finanças. Entretanto, aquilo que a juventude oferecia em abundância — a energia física — já não responde da mesma maneira. Muitos desejos permanecem vivos, mas o corpo passa a impor seus próprios limites.

Durante toda a minha vida, sonhei em assistir a um show da Xuxa. Quando era jovem, faltava dinheiro. Na fase adulta, faltava tempo. Hoje, disponho de tempo e, com algum esforço, conseguiria custear a viagem e o ingresso. Contudo, faltou-me a disposição física para permanecer durante horas em pé, em meio a milhares de pessoas, acompanhando um espetáculo de grande intensidade sonora e visual.

Restou-me, então, aguardar a transmissão disponibilizada no YouTube, plataforma que, de certo modo, cumpre atualmente um papel semelhante ao que a televisão aberta desempenhou durante décadas: democratizar o acesso à cultura para aqueles que, por diferentes razões, não conseguem vivenciar presencialmente os grandes eventos.

Assisti ao espetáculo integralmente e terminei com um sentimento de frustração.

Talvez justamente por pertencer à geração que acompanhou praticamente todos os especiais de fim de ano da artista, eu carregasse uma expectativa muito específica: reencontrar, ainda que por algumas horas, a atmosfera musical que marcou minha infância.

O que encontrei, porém, foi uma proposta estética bastante diferente.

Os novos arranjos privilegiaram uma linguagem pop contemporânea, sustentada por uma base rítmica constante e por uma pulsação eletrônica praticamente uniforme durante grande parte do espetáculo. Do ponto de vista técnico, houve uma homogeneização do material musical. A predominância do mesmo groove, da mesma levada rítmica e de uma instrumentação semelhante reduziu o contraste entre as canções. Consequentemente, músicas originalmente construídas sobre identidades melódicas e harmônicas muito distintas passaram a apresentar sonoridades excessivamente próximas entre si.

Em diversos momentos, tive a sensação de ouvir uma única música em sequência, exigindo atenção para perceber que apenas a letra havia mudado.

Essa impressão não decorre da qualidade das composições, mas da padronização dos arranjos. A riqueza da obra da Xuxa sempre esteve justamente na variedade de atmosferas musicais: havia canções contemplativas, marchinhas, baladas, músicas de roda, influências da música latina e do pop infantil dos anos 1980 e 1990. Quando essas diferenças são reduzidas em favor de uma única estética sonora, perde-se parte da identidade individual de cada composição.

Foi exatamente isso que senti ao ouvir Boto Rosa.

Na gravação original, a canção possui uma linha melódica delicada, com caráter quase narrativo, que favorece a imaginação e reforça o clima lúdico da história. No espetáculo, entretanto, o arranjo transformou essa atmosfera em uma versão predominantemente dançante, marcada por batidas fortes e andamento voltado para a participação coletiva do público.

Naturalmente, compreendo a intenção artística. Em grandes shows contemporâneos, busca-se manter elevada energia cênica, favorecendo a interação do público, que canta, dança e acompanha os comandos do artista. Entretanto, essa escolha acabou sacrificando justamente aquilo que tornava a música memorável para quem cresceu ouvindo a versão original.

Outro aspecto que me incomodou foi o excesso de recursos visuais.

A tecnologia deve ampliar a presença do artista, nunca competir com ela. Em vários momentos, projeções, efeitos gráficos, jogos de luz e sobreposições de imagens pareciam disputar a atenção do espectador com a própria protagonista. A impressão era de que a artista desaparecia em meio ao espetáculo tecnológico.

Paradoxalmente, a maior estrela da noite acabou sendo, em alguns instantes, ofuscada pelos efeitos destinados a valorizá-la.

Para aqueles que acompanharam sua trajetória desde os primeiros programas televisivos, bastaria sua presença, seu sorriso, sua espontaneidade e sua capacidade singular de estabelecer uma conexão afetiva com o público.

A entrada da nave foi profundamente emocionante.

Durante décadas, ela representou um dos símbolos mais marcantes do imaginário infantil brasileiro. Contudo, a opção por fazê-la descer suspensa por cabos rompeu, para mim, parte da magia construída ao longo dos anos. Na memória afetiva de toda uma geração, a nave possuía um ritual próprio: a porta se abria, Xuxa surgia, embarcava novamente e partia, preservando a fantasia que sempre acompanhou aquele universo.

Percebi, então, que a frustração de não ter conseguido comparecer ao espetáculo foi substituída por outra, inesperada: a de não reconhecer plenamente a artista que marcou minha infância naquele formato de apresentação.

Ainda assim, saí da experiência com uma reflexão maior do que qualquer decepção estética.

A despedida da nave revelou-se um gesto de extraordinária sensibilidade. Encerrar, em vida, um dos maiores símbolos de sua carreira representa um raro exercício de maturidade artística. Socialmente, esse gesto possui enorme relevância, pois naturaliza o envelhecimento diante de milhões de pessoas.

Vivemos em uma sociedade que insiste em transformar a juventude em obrigação permanente. Ver uma personalidade da dimensão de Xuxa reconhecer, com serenidade, a passagem do tempo ajuda a romper essa ilusão coletiva.

Quando afirmou: "Estou velha", não havia derrota naquela frase. Havia verdade.

Ela envelheceu.

Nós, que crescemos com ela, também.

E talvez essa seja a maior mensagem de todo o espetáculo: compreender que cada fase da existência possui sua própria beleza. A infância vive na memória, a maturidade ensina novos significados e a velhice, apesar das limitações e da solidão que por vezes impõe, continua sendo um privilégio concedido apenas àqueles que tiveram a oportunidade de atravessar o tempo.

Talvez por isso eu continue aguardando, todos os anos, o especial de Roberto Carlos. Não apenas pelas canções, mas porque esses encontros televisivos nos recordam da importância de agradecer a Deus pelo dom da vida e pela lucidez que nos permite revisitar nossas lembranças.

Envelhecer não é perder a beleza da existência.

É aprender que alguns sonhos mudam de forma, mas jamais deixam de iluminar a memória.


sábado, 27 de junho de 2026

Sonhei com meu pai, uma leoa e uma casa em ruínas. Ao acordar, entendi algo sobre a vida


 Esta madrugada, um sonho me conduziu por uma estrada de terra. Não era eu quem dirigia. Viajava de carona com um homem de quem mal conhecia o rosto, desses personagens que surgem nos sonhos apenas para nos lembrar de que nem sempre somos nós a conduzir os caminhos da própria existência.

A poeira da estrada parecia antiga, como se carregasse as pegadas de muitas gerações. De repente, à margem do caminho, surgiu uma cena que interrompeu qualquer pressa: uma fêmea de leão, imóvel, velava dois filhotes mortos. Não havia rugidos, nem violência. Apenas um silêncio solene, desses que a natureza conhece melhor do que nós. Pela primeira vez, pensei que até a força precisa de tempo para chorar.

Seguimos viagem.

Mais adiante, uma lagoa de águas cristalinas atravessava o caminho. O carro entrou na água como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Os vidros permaneciam abertos, mas nenhuma gota nos alcançava. Cruzávamos a água sem nos molhar, como quem atravessa as próprias emoções sem se deixar afogar por elas. Talvez seja essa uma das maiores virtudes que a maturidade ensina: não evitar as águas profundas, mas aprender a passar por elas.

Então pedi ao motorista que voltasse.

Não queria seguir para o destino desconhecido. Queria retornar à fazenda dos meus pais.

Nos sonhos, a morte não possui a última palavra. Os ausentes continuam habitando as paisagens da memória. Meu pai e minha mãe estavam vivos.

Chegando lá, porém, encontrei uma casa em ruínas. As paredes já não sustentavam o tempo como antes, e os sinais do abandono pareciam contar a história de tudo aquilo que o relógio insiste em levar. Minha mãe trabalhava ao lado de outras pessoas. Nem percebeu minha chegada. Não era descaso; era a vida cumprindo sua antiga obrigação de continuar.

Caminhei até meu pai.

Estava num canto, debilitado, preso por amarras que eu não compreendia. Tentava falar, mas as palavras pareciam aprisionadas antes mesmo de alcançarem os lábios. Acordei exatamente nesse instante, levando comigo uma conversa que jamais aconteceu.

Passei boa parte do dia pensando no que aquele sonho poderia significar. Não porque acredite que os sonhos anunciem o futuro, mas porque eles costumam revelar o presente que escondemos de nós mesmos.

Talvez a leoa não estivesse velando apenas seus filhotes. Talvez estivesse nos lembrando de que toda vida conhece perdas, e que nenhuma força elimina a necessidade do luto.

Talvez a lagoa mostrasse que há dores que precisam ser atravessadas, não contornadas.

Talvez a casa em ruínas fosse apenas a arquitetura inevitável da memória, onde o tempo derruba paredes, mas nunca consegue demolir completamente os afetos.

E talvez meu pai, silencioso e preso, representasse todas as palavras que deixamos para depois. As perguntas que nunca fizemos. Os agradecimentos que supusemos desnecessários. Os abraços adiados pela ilusão de que sempre haveria outro domingo.

A ciência explica que os sonhos organizam lembranças, emoções e experiências. A literatura prefere dizer que eles escrevem cartas que a alma envia à consciência. Gosto mais da segunda hipótese. Ela não pretende competir com a razão; apenas reconhece que existem verdades que chegam até nós pela delicadeza dos símbolos.

Ao despertar, percebi que a viagem daquela noite não era sobre uma estrada de terra. Era sobre o caminho invisível que todos percorremos em direção às nossas origens. Um percurso em que encontramos o luto, atravessamos as águas da memória e, quase sempre, voltamos para casa apenas para descobrir que as paredes envelheceram, mas o amor continua habitando as ruínas.

Talvez seja justamente isso que os sonhos nos ensinem: algumas viagens acontecem de olhos fechados para que possamos enxergar melhor quando amanhece.

 

 


domingo, 21 de junho de 2026

Quando Entendi que Alguns Sonhos Não Eram Meus

 

Metade do ano escorrera pelo ralo dos dias comuns, e os velhos erros, esses inquilinos insistentes da alma, continuavam morando no mesmo endereço. Seis meses repetindo caminhos conhecidos, tropeçando nas mesmas pedras, alimentando a mesma dificuldade de viver a minha própria vida em vez da vida que imaginei que deveria viver.

A velhice tem uma crueldade peculiar: ela nos tira a ilusão de que ainda há tempo infinito para resolver o que ficou mal resolvido. Quase aos oitenta anos, olho para trás e percebo que algumas feridas envelhecem conosco. Não desaparecem. Apenas mudam de roupa.

Minha mãe sonhava com uma vida diferente. Falava da importância do estudo, de conhecer outros mundos, outras pessoas, outros horizontes. Durante muito tempo acreditei que aquele sonho também era meu. Hoje suspeito que não. Talvez eu apenas o tenha adotado porque desejava desesperadamente ser vista por ela.

A psicologia chama isso de busca por validação. A criança que não se sente suficientemente amada aprende a perseguir reconhecimento como quem corre atrás de água no deserto. Cresce acreditando que, se fizer mais, se trabalhar mais, se agradar mais, se alcançar mais, finalmente será escolhida.

Mas algumas escolhas nunca chegam.

Minha mãe tinha olhos para os outros filhos. Eu era a filha do serviço pesado, a mula de carga da família. Enquanto os irmãos recebiam tarefas leves, eu carregava o peso que sobrava. Não havia medalhas, elogios ou recompensas. Apenas a expectativa silenciosa de continuar carregando.

O problema é que a infância acaba, mas certas necessidades não.

E aqui estou eu, décadas depois, ainda tentando ser vista. Ainda oferecendo demais de mim. Ainda acreditando, em algum canto escondido do coração, que existe um prêmio esperando no final da estrada. Um olhar de aprovação. Um gesto de reconhecimento. Um amor que diga: "Agora você basta."

Mas meus pais morreram.

E essa talvez seja a verdade mais dura e mais libertadora que conheço.

Eles morreram, e com eles morreu também a possibilidade de receber aquilo que nunca veio. A carência que permanece não pertence à mulher de quase oitenta anos. Pertence à menina rejeitada que continua sentada dentro dela, esperando ser chamada para perto.

Só que ninguém virá.

E talvez a liberdade comece exatamente aí.

Há algum tempo venho correndo atrás de uma ideia de vida que não combina comigo. Sonhos emprestados. Ambições importadas. Fantasias de pertencimento a uma alta sociedade que nunca foi o meu lugar.

Se eu for honesta, existem três razões simples para isso nunca funcionar.

Primeiro, porque não é um sonho meu.

Segundo, porque não tenho dinheiro para sustentar os custos desse mundo.

Terceiro, porque não tenho alma de nobre.

Sou povo.

Gosto de sentar no chão. De comer com o prato na mão. De conversar sem cerimônia. De rir alto quando a vida permite. Passei anos tentando caber em salões onde meu coração nunca entrou.

Talvez o maior desperdício da existência seja dedicar energia a sonhos que não nasceram dentro de nós.

Porque, enquanto perseguia o que os outros valorizavam, fui deixando para depois aquilo que realmente desejava.

E o que eu queria era tão simples.

Uma casa com jardim.

Livros.

Silêncio.

Tempo para escrever a história dos meus antepassados.

Talvez porque, para os meus contemporâneos, eu me sinta invisível. Mas os mortos, curiosamente, ainda me fazem companhia. Nas histórias deles encontro raízes. Encontro sentido. Encontro uma linhagem inteira de pessoas comuns que viveram sem aplausos e, ainda assim, viveram.

Estou começando a aceitar outra verdade desconfortável: para minha família, talvez eu continue invisível.

E tudo bem.

Nem toda batalha merece ser vencida. Algumas precisam apenas ser abandonadas.

Talvez a maturidade não seja conquistar o amor que faltou. Talvez seja parar de mendigá-lo.

Talvez seja construir uma vida pequena, mas verdadeira.

Uma vida de vizinhos que se cumprimentam pelo nome.

De plantas crescendo no quintal.

De tardes de leitura.

De páginas escritas sem pressa.

De descanso sem culpa.

Não posso mudar a menina que fui. Não posso voltar à cozinha da infância nem reescrever os gestos que nunca recebi.

Mas ainda posso cuidar dela.

Ainda posso dizer a essa criança cansada que ela não precisa mais provar nada.

O calendário já avançou para junho. O tempo continua correndo. Mas, pela primeira vez em muito tempo, começo a suspeitar que a vida que procuro não está à minha frente.

Ela está me esperando justamente onde sempre esteve: na simplicidade dos meus próprios desejos.

E talvez ainda haja tempo para realizar ao menos um deles.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Crônica da Solidão Semeada


Às vezes, a vida se apresenta como um espelho rachado: cada fragmento devolve uma imagem distorcida de quem somos. Pergunto-me, em silêncio corrosivo, se não passo de uma presença desagradável, incapaz de sustentar vínculos, ou se carrego ideias tão adiantadas que ainda não encontram terreno fértil. Psicologia chamaria isso de dissonância cognitiva — o conflito entre o que acredito ser e o que o mundo insiste em me mostrar. Misticismo chamaria de karma não resolvido, uma lição que retorna em ciclos até que seja compreendida.

Decidi criar um grupo de estudos sobre maturidade, como quem planta sementes em solo árido. Convidei cinquenta pessoas, preparei o espaço, li, anotei, elaborei perguntas. E apenas uma presença se fez carne diante de mim. Uma única alma, enquanto as demais se dissolviam em desculpas, celulares e ausências. A psicologia explica: o ser humano busca pertencimento em massa, segue o fluxo, evita o risco de se destacar. O misticismo, por sua vez, sussurra que cada encontro é guiado por forças invisíveis, e talvez aquela única pessoa fosse a escolhida para ouvir, para ser espelho, para me lembrar que até uma chama solitária ilumina a escuridão.

Mas a dor não se apaga. Fiquei envergonhada, como se minha voz fosse um eco sem paredes para se refletir. A corrosiva pergunta retorna: por que não consigo formar um círculo, se não de amigos, ao menos de ouvintes? A memória me arrasta às mulheres bíblicas chamadas de secas, estéreis, incapazes de gerar vida. Eu não sou estéril, mas não encontrei o semeador. E, sem semeador, toda fertilidade se torna deserto.

Os homens não se aproximam. Nem os conhecidos, nem os desconhecidos. Enquanto tantas mulheres se queixam do assédio, eu caminho invisível, como se minha presença fosse um véu translúcido. A psicologia poderia falar em autoimagem fragilizada, em padrões inconscientes que afastam. O misticismo poderia falar em missão espiritual de isolamento, como se minha alma tivesse escolhido a solidão como rito de passagem. Mas nenhuma explicação consola. O que dói é o silêncio dos olhares que não se voltam, das mãos que não se estendem, das vozes que não se interessam.

Sou comum, sorridente, simpática. Mas a experiência provou que ninguém aprecia minha companhia. E talvez seja esse o destino de quem semeia o amanhã: caminhar entre espinhos do presente, suportar o peso da incompreensão, e ainda assim insistir em plantar. Porque, no fundo, há uma fé amarga — quase mística — de que um dia, em algum tempo que não é este, minhas sementes florescerão.


domingo, 24 de maio de 2026

“O Padrasto, a Lei e as Consequências Que Poucos Enxergam

 

Há temas que não chegam primeiro pelos livros de Direito, mas pelos sustos da vida. A paternidade socioafetiva, por exemplo, parece ter desembarcado no cotidiano brasileiro desse jeito: em vídeos curtos, debates inflamados na internet e histórias contadas pela metade, onde ninguém sabe ao certo o que é verdade, exagero ou medo coletivo. E talvez seja justamente isso que mais assuste quem envelheceu acreditando que as coisas tinham nome, lugar e permanência.

Viver muito tem suas vantagens e também suas perplexidades. Nasci em um tempo em que os mais velhos falavam e os mais novos ouviam. Não porque os anciãos fossem donos absolutos da razão, mas porque a experiência era considerada um patrimônio da família. A verdade morava na mesa da cozinha, nas conversas depois do jantar e nas recomendações dos pais, dos avós e dos professores.

Na escola, aprendíamos a ler, escrever, fazer contas e respeitar os símbolos da pátria, da religião e da família. Tudo parecia simples: pai era pai, mãe era mãe, filhos pertenciam àquela história e cada geração carregava suas responsabilidades sem precisar de cartório para confirmar afeto.

Depois veio o rádio, e a verdade da comunidade sofreu o primeiro abalo. Mais tarde, a televisão entrou pela sala trazendo novelas, novos costumes e ideias que faziam os mais velhos suspirarem como quem vê o mundo escapar pelas mãos. Agora, com a internet, a sensação é ainda mais estranha: nunca houve tanta informação circulando e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil saber no que acreditar.

É nesse território nebuloso que tenho ouvido falar sobre a chamada paternidade socioafetiva. Não sei dizer onde termina o fato e começa o terrorismo digital contra os homens. Aos 75 anos, a pessoa aprende que questionar certas novidades pode render olhares de piedade, como se envelhecer significasse automaticamente perder a lucidez. Então faço o que ainda sei fazer: observo, leio a lei e penso sozinha.

E o que compreendi até agora me inquieta.

A Constituição Federal e o entendimento consolidado pelo Supremo Tribunal Federal passaram a reconhecer que os laços de afeto também podem gerar parentesco jurídico. Em outras palavras: quem cria, educa e assume publicamente o papel de pai pode vir a ser reconhecido legalmente como tal, mesmo sem vínculo biológico. O princípio parece bonito — afinal, ninguém pode negar a importância do amor na formação de uma criança. O problema começa quando o afeto deixa de ser apenas virtude moral e passa a produzir obrigações permanentes.

Porque o Direito de Família não trabalha apenas com sentimentos; trabalha com consequências.

O pai socioafetivo pode assumir deveres equivalentes aos do pai biológico: alimentos, inclusão em herança e responsabilidades jurídicas que muitas vezes atravessam décadas. O Superior Tribunal de Justiça já decidiu, em diversas ocasiões, que a filiação socioafetiva gera os mesmos efeitos da biológica. E o Supremo Tribunal Federal reconheceu inclusive a possibilidade de multiparentalidade — isto é, alguém possuir oficialmente dois pais no registro civil.

É aqui que a reflexão precisa ultrapassar a emoção.

Quando um homem, tomado pela paixão do momento, decide assumir juridicamente o filho da companheira, talvez não esteja percebendo que não cria apenas um gesto de amor: cria um vínculo legal que alcança toda a família. Seus filhos biológicos passam a dividir patrimônio, atenção e herança. Seus pais — já idosos — podem, em determinadas circunstâncias extremas, ser chamados à chamada pensão avoenga, obrigação subsidiária reconhecida pelo Código Civil e pela jurisprudência quando os pais não conseguem sustentar o menor.

E então o afeto, que deveria nascer livre, começa a adquirir contornos de contrato irrevogável.

Não falo aqui contra o amor entre padrastos e enteados. Ao contrário. Há padrastos que salvam crianças da ausência, da violência e do abandono emocional. Existem vínculos sinceros e profundos construídos na convivência diária. Mas talvez seja preciso perguntar se todo afeto precisa necessariamente transformar-se em parentesco jurídico.

Antigamente, ajudar alguém era virtude. Hoje, às vezes parece imprudência.

Um padrasto pode pagar estudos, ensinar uma profissão, abrir portas, deixar bens em testamento, acompanhar a vida inteira de um enteado sem precisar, necessariamente, alterar a estrutura jurídica da própria família. Porque laços afetivos verdadeiros não nascem de sentença judicial; nascem da convivência, do respeito e da permanência.

O que me causa desconforto é perceber que, em alguns casos, a gratidão parece ter sido substituída pela obrigação legal. E quando isso acontece, corre-se o risco de transformar relações humanas em disputas patrimoniais.

Talvez existam exageros circulando na internet. Talvez metade das histórias seja invenção, como tantas notícias fabricadas que se espalham diariamente. Hoje, a mentira viaja mais rápido que a verdade — principalmente porque a informação séria, investigada e responsável virou produto caro, inacessível para grande parte da população. Muitos acabam acreditando em tudo o que aparece na tela do celular, da mesma forma que antigamente se acreditava no jornal impresso.

Mas confesso que estremeci ao ler notícias sobre crianças registradas com múltiplos pais e recebendo várias pensões. Não sei até onde os casos são exceção ou prenúncio de uma distorção maior. Apenas sei que, quando o Direito deixa de acompanhar a prudência, abre-se espaço para que sentimentos legítimos sejam instrumentalizados financeiramente.

Talvez eu esteja velha mesmo. Talvez pertença a uma geração que ainda acredita que família não deve nascer apenas da emoção do presente, mas também da responsabilidade com o futuro e do respeito pelos vínculos já existentes.

Porque certas decisões tomadas no auge da paixão podem permanecer muito depois que o amor acaba.

 

sábado, 2 de maio de 2026

A herança invisível da desorderm

 Ela odiava a bagunça como quem odeia um espelho. Não era apenas a poeira sobre os móveis, nem a pia tomada por copos engordurados, nem as compras largadas no chão da cozinha havia duas horas. Era a sensação de que a desordem da casa lhe denunciava uma falha íntima, antiga, impossível de esconder.

Havia dias em que caminhava pelos cômodos como uma visitante envergonhada da própria vida. Olhava para os cantos embolorados, para as roupas acumuladas, para os armários esquecidos, e sentia uma espécie de peso invisível empurrando seu corpo para baixo. Não era cansaço físico. Seu corpo era saudável, forte, resistente. Não tomava remédios, não carregava diagnósticos, não tinha justificativas clínicas que pudessem ser exibidas como um salvo-conduto diante do fracasso doméstico.

Ainda assim, não conseguia começar.

Antes da internet, ela se deitava no sofá e encarava o teto. Agora, segurava o celular como quem segura uma anestesia barata. Rolava a tela infinitamente. Vídeos sem importância, frases vazias, rostos desconhecidos, receitas que nunca faria, notícias que esqueceria minutos depois. O tempo escorria por entre os dedos, e ao final sobrava apenas aquele gosto azedo de incompetência.

Era como se existisse dentro dela uma vocação secreta para o sofrimento.

Queria a casa limpa. Sonhava com o cheiro de sabão, com os armários organizados, com a leveza de abrir uma gaveta e encontrar paz. Mas entre o desejo e a ação havia um abismo. E ela permanecia parada à beira dele.

Na tentativa desesperada de reagir, experimentou um método simples: fazer um pouco por dia. Ontem conseguiu limpar a pia e um armário suspenso da cozinha. Passou a tarde inteira naquela tarefa mínima. Quando abriu as portas do armário, encontrou aranhas. Muitas. Teias espessas grudadas nos cantos, como rendas antigas abandonadas pelo tempo.

Havia aranhas até no escorredor de pratos.

Contou quase vinte.

E enquanto arrancava aquelas teias com um pano úmido, pensou, com um desconforto quase simbólico, que talvez estivesse vendo materializado o desenho da própria alma: fios pacientes de autossabotagem tecidos lentamente ao longo dos anos.

Foi então que a memória da mãe apareceu.

A cama desarrumada.

A casa sempre por fazer.

O ressentimento.

Ela criticava a mãe duramente. Dizia que era relaxada, desorganizada, descuidada. Mas a mãe trabalhava o dia inteiro. Saía cedo, voltava cansada, esmagada pela sobrevivência. A filha julgava — e não ajudava.

Agora, décadas depois, percebia-se estranhamente próxima daquela mulher que tanto condenara.

Na perspectiva das Constelações Familiares, existe um conceito chamado lealdade sistêmica: a tendência inconsciente de repetir destinos, comportamentos ou sofrimentos de membros da família como forma de pertencimento. Segundo essa visão, quando um filho rejeita profundamente um pai ou uma mãe, pode acabar reproduzindo justamente aquilo que condenava, numa espécie de fidelidade invisível ao sistema familiar.

Embora essa abordagem seja popular em contextos terapêuticos, é importante dizer que ela não possui comprovação científica robusta segundo os critérios da psicologia baseada em evidências. Ainda assim, algumas ideias dialogam com conceitos estudados pela ciência, como aprendizagem comportamental, transmissão intergeracional de padrões familiares e impactos emocionais da infância sobre hábitos adultos. Estudos em psicologia familiar mostram que crianças absorvem modelos de comportamento doméstico, relações com trabalho, autocuidado e organização emocional dentro do ambiente em que crescem. Muitas vezes, o que mais rejeitamos em nossos pais é justamente o que permanece inscrito em nós de maneira inconsciente.

Talvez por isso ela sentisse aquela paralisia tão funda diante da casa.

Talvez não estivesse lutando apenas contra a bagunça.

Talvez estivesse lutando contra uma herança invisível.

Mas naquela tarde havia algo diferente: ela limpou um armário.

Pouco?

Talvez.

Mas toda travessia começa ridiculamente pequena.

As compras ainda estavam no chão. O desânimo rondava novamente. O livro que comprara vinte anos antes permanecia praticamente intacto, esperando ser aberto como certas versões dela mesma que nunca tiveram coragem de nascer.

Mesmo assim, ela decidiu que limparia mais um armário.

E leria duas páginas.

Duas páginas apenas.

Porque às vezes a salvação de uma vida não chega em grandes revoluções. Às vezes ela começa silenciosamente, quando uma mulher cansada abre a porta de um armário cheio de aranhas — e, pela primeira vez, decide não fechar os olhos.