terça-feira, 27 de outubro de 2026

Eleições no Brasil: o que os jovens precisam aprender sobre política, cidadania e história?

 

Acordei à uma hora da madrugada deste domingo, 25 de outubro de 2026, com o barulho de fogos de artifício, buzinas e vozes que atravessavam a rua fria. Um grupo de jovens, aparentemente na casa dos vinte anos, comemorava a candidatura do atual presidente. Alguns carregavam latinhas de cerveja, vestiam roupas leves para aquela madrugada e gritavam como se o destino do Brasil já estivesse resolvido.

Fiquei na cama, ouvindo a algazarra, e algumas perguntas começaram a desfilar pela minha cabeça.

Onde estarão os pais desses jovens? O que aprenderam na escola sobre política, história e sociologia? Será que compreendem a diferença entre torcer por um candidato e entender as responsabilidades de quem governa um país?

Caro leitor, antes que me acuse de implicância com a juventude, faço uma ressalva: jovens têm o direito de comemorar, de defender suas convicções e até de fazer barulho, dentro dos limites da convivência. A idade não determina a qualidade de uma consciência política, assim como os cabelos brancos não garantem sabedoria. O problema que me inquieta não é a festa em si, mas a possibilidade de que a política esteja sendo reduzida a uma disputa de paixões, na qual o adversário é tratado como inimigo e o candidato preferido, como um salvador da pátria.

Afinal, governar um país é muito mais complicado do que gritar um nome numa rua ou deslizar o dedo pela tela do celular.

E é justamente aí que começa minha preocupação.

Entre a juventude e a responsabilidade

Temos ouvido falar dos chamados jovens nem-nem: aqueles que não estudam nem trabalham. A expressão é conhecida, mas a realidade por trás dela é mais complexa do que sugere o apelido. Há quem enfrente dificuldades para conseguir o primeiro emprego, quem precise cuidar de familiares, quem tenha abandonado os estudos por razões econômicas e quem, de fato, encontre dificuldades para assumir compromissos com a própria formação e autonomia.

Não seria justo colocar todos no mesmo saco. Tampouco seria sensato fingir que a falta de oportunidades, de qualificação e de perspectivas profissionais não merece atenção.

Mas permitam-me uma pergunta incômoda: como construiremos um país próspero se não conseguirmos aproximar nossos jovens do estudo, do trabalho, da participação comunitária e da responsabilidade pela própria vida?

Não se trata de exigir que todos sigam o mesmo modelo de família, profissão ou existência. As famílias mudam, os costumes se transformam e a sociedade democrática deve acolher diferentes modos de viver. Trata-se, isso sim, de compreender que liberdade não significa ausência de deveres e que os direitos individuais convivem com responsabilidades coletivas.

A família, qualquer que seja sua configuração, tem um papel importante na formação dos filhos. A escola também. E a sociedade não pode transferir toda a responsabilidade de educar para uma dessas instituições, como se as demais estivessem dispensadas de participar.

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 205, estabelece que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade. Não limita sua finalidade à transmissão de conteúdos: inclui o pleno desenvolvimento da pessoa, a preparação para a cidadania e a qualificação para o trabalho.

Ora, se a própria Constituição relaciona educação, cidadania e trabalho, não deveríamos levar essa conexão mais a sério?

A história que esquecemos de contar

Depois da barulhenta madrugada, veio a dificuldade de dormir. Minha cabeça continuava presa a uma questão: será que estamos ensinando às novas gerações a história das políticas públicas brasileiras com a amplitude que ela merece?

Tenho a impressão de que, no debate cotidiano, alguns governos acabam sendo lembrados por uma única medida, enquanto iniciativas importantes de outros períodos desaparecem da memória coletiva. Sei que a memória política é seletiva, mas a história de um país não deveria ser escrita apenas pelas preferências partidárias de cada um.

Tomemos a Constituição de 1988, promulgada durante o governo de José Sarney. Conhecida como Constituição Cidadã, ela foi resultado de uma Assembleia Nacional Constituinte, formada por parlamentares, em um processo de redemocratização. Sua importância não se resume ao governo em que foi promulgada: representa uma mudança fundamental no reconhecimento de direitos e garantias dos cidadãos.

O artigo 205 consagrou a educação como direito de todos e dever do Estado e da família. Já o artigo 196 estabeleceu a saúde como direito de todos e dever do Estado. São princípios que sustentam a compreensão contemporânea dos direitos sociais no Brasil.

O Sistema Único de Saúde, por sua vez, não nasceu de um único ato presidencial. Sua construção está ligada à Reforma Sanitária, às discussões da Constituinte e à regulamentação promovida pelas Leis nº 8.080 e nº 8.142, de 1990, durante o governo de Fernando Collor. Reconhecer esse percurso é mais justo do que atribuir toda a criação ou toda a responsabilidade por um sistema complexo a uma única pessoa.

Na educação, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, o Fundef, foi instituído pela Emenda Constitucional nº 14, de 1996, e regulamentado pela Lei nº 9.424, daquele ano, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. O fundo teve papel importante no financiamento do ensino fundamental e na redistribuição de recursos entre estados e municípios.

E a política habitacional? Também não começou com o programa Minha Casa, Minha Vida, lançado em 2009. Durante o governo de Eurico Gaspar Dutra, foi criada, em 1946, a Fundação da Casa Popular. Em 1964, no governo de Castelo Branco, surgiu o Banco Nacional da Habitação, o BNH, como parte de uma estrutura de financiamento habitacional.

Isso não significa que todas essas políticas tenham resolvido os problemas para os quais foram criadas. A existência de um programa não elimina as falhas de sua execução, nem garante que os benefícios alcancem todos os que precisam. É justamente por isso que devemos estudar seus resultados, suas limitações e suas transformações ao longo do tempo.

Caro leitor, percebe a importância dessa memória?

Quando conhecemos a trajetória de uma política pública, podemos reconhecer seus avanços, identificar seus fracassos e cobrar melhorias de qualquer governo. Quando desconhecemos essa história, corremos o risco de acreditar que tudo começou com o governante de nossa preferência e que nada de relevante existiu antes dele.

A história, afinal, não é uma coleção de propagandas eleitorais. É um patrimônio coletivo, feito de disputas, conquistas, erros, correções e participação social.

A escola pode fazer mais?

É nesse ponto que volto à pergunta que me ocorreu naquela madrugada: o que os jovens estão aprendendo sobre política?

Não espero que a escola determine em quem devem votar, nem que transforme estudantes em defensores de uma ideologia. Espero algo mais importante: que os ensine a investigar, comparar informações, compreender as instituições, reconhecer direitos, identificar responsabilidades e questionar promessas.

Uma educação política de qualidade não produz necessariamente eleitores com as mesmas opiniões. Produz condições para que pessoas diferentes possam justificar suas escolhas, ouvir argumentos contrários e participar da vida pública com mais autonomia.

Mas seria correto atribuir à escola, sozinha, a responsabilidade por eventuais falhas nessa formação? Creio que não. A aprendizagem política acontece também em casa, nas conversas entre amigos, nos meios de comunicação, nas redes sociais, nas igrejas, nas associações e nas experiências concretas da vida comunitária.

A escola pode falhar, sim. Pode faltar formação adequada para professores, tempo para aprofundar determinados temas ou espaço para desenvolver o pensamento crítico. Porém, sem examinar currículos, práticas pedagógicas e evidências, não podemos afirmar que toda uma geração desconhece a história nacional ou que determinada escola deixou de cumprir sua função.

Precisamos de perguntas bem formuladas, não de condenações antecipadas.

O salvador da pátria e a conta que fica

Quando uma eleição termina, os fogos se apagam, as bandeiras são guardadas e os discursos de vitória cedem lugar aos problemas cotidianos. O preço dos alimentos continua entrando no orçamento doméstico. Os pacientes continuam precisando de atendimento. Os professores continuam diante de suas turmas. Os trabalhadores continuam precisando de emprego e os aposentados continuam dependendo de renda suficiente para viver com dignidade.

E é aqui que a discussão deixa de ser abstrata para mim.

Quem já se aposentou sabe que a vida não permite recomeçar profissionalmente com a mesma facilidade de décadas atrás. As despesas continuam chegando, os serviços públicos precisam funcionar e a tranquilidade conquistada depois de tantos anos de trabalho não deveria depender de promessas repetidas a cada eleição.

Por isso, quando ouço a comemoração em torno de um candidato, pergunto-me se os eleitores também pensam no dia seguinte. Não apenas no dia seguinte à posse, mas nos anos seguintes: no financiamento da saúde, na qualidade da educação, na sustentabilidade da Previdência, na geração de empregos e no equilíbrio das contas públicas.

Essas questões exigem planejamento, dados, escolhas difíceis e acompanhamento dos resultados. Não se resolvem com slogans, tampouco com a crença de que um presidente, sozinho, poderá consertar tudo.

A Previdência, por exemplo, precisa ser discutida com seriedade, considerando as receitas, as despesas, as mudanças demográficas, o mercado de trabalho e as regras de proteção social. Preocupações com o futuro das aposentadorias são legítimas, mas precisam ser avaliadas à luz de dados e propostas concretas, e não apenas de impressões ou discursos eleitorais.

O mesmo vale para os programas sociais. É necessário avaliar se alcançam quem precisa, quais resultados produzem, como são financiados e de que maneira podem contribuir para que as pessoas ampliem suas oportunidades. Proteger os mais vulneráveis e estimular a autonomia não precisam ser objetivos incompatíveis.

Talvez a verdadeira maturidade política comece quando deixamos de perguntar apenas o que o governo pode nos dar e passamos a perguntar também como as políticas públicas podem produzir resultados duradouros para toda a sociedade.

Isso não significa abandonar a cobrança por direitos. Significa compreender que cidadania envolve tanto exigir o cumprimento das obrigações do Estado quanto acompanhar, fiscalizar e avaliar a maneira como os recursos públicos são utilizados.

E agora, caro leitor?

Naquela madrugada, enquanto os jovens comemoravam, eu pensava na distância entre a alegria de uma vitória eleitoral e a complexidade de governar o Brasil.

Talvez alguns daqueles rapazes e moças conheçam profundamente a história política do país. Talvez tenham estudado as propostas dos candidatos e decidido, conscientemente, manifestar seu apoio. Eu não tinha como saber. O que vi foi apenas uma cena noturna; o restante eram perguntas que eu fazia a mim mesma.

E essa distinção também importa. Não podemos exigir pensamento crítico dos jovens enquanto nos recusamos a examinar criticamente nossas próprias conclusões.

Ainda assim, permaneço convencida de que precisamos conversar mais sobre a formação das novas gerações, a importância do trabalho, a responsabilidade familiar, a participação comunitária e o conhecimento da história. Não para obrigar todos a viver da mesma maneira, mas para que cada pessoa tenha melhores condições de construir sua autonomia e compreender o lugar que ocupa na sociedade.

Quero acreditar que a escola pode ensinar mais do que fórmulas e datas; que as famílias podem oferecer mais do que sustento material; que os partidos podem apresentar mais do que promessas; e que os eleitores podem cobrar mais do que gestos de fidelidade.

Afinal, nenhum presidente é um salvador da pátria. Governar é administrar interesses diferentes, respeitar as instituições, executar políticas públicas, prestar contas e responder pelas escolhas feitas. E nenhuma sociedade amadurece quando entrega a outros toda a responsabilidade pelo seu futuro.

Quando os fogos se calam, começa a parte menos festiva da democracia: acompanhar, cobrar, estudar e participar.

Caro leitor, talvez seja essa a lição que deveríamos ensinar com mais empenho às novas gerações — e recordar também aos mais velhos: o futuro de um país não cabe inteiro nas mãos de um governante, nem pode ser construído apenas com a esperança depositada numa urna.

Ele depende, todos os dias, de cidadãos dispostos a pensar, trabalhar, aprender, discordar e assumir sua parcela de responsabilidade na vida coletiva.

E isso, convenhamos, dá muito mais trabalho do que soltar fogos numa madrugada fria.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Brasil venceu a fome? A realidade de quem ainda precisa contar o dinheiro para comer

 

Chegando mais um domingo de eleição. E lá vou eu, diante da difícil tarefa de escolher entre o ruim e o pior, tentando descobrir em qual deles ainda resta alguma esperança. Mesmo não sendo obrigada a votar, irei às urnas. Afinal, se não posso mudar o mundo, talvez possa, ao menos, tentar impedir que ele continue caminhando na direção errada. Gostaria que o futuro da nação encontrasse uma luz no fim do túnel — de preferência, antes que alguém resolva cobrar ingresso para vê-la.

Enquanto penso nos candidatos, minha memória me leva a um assunto bem menos grandioso do que as promessas de campanha, mas infinitamente mais urgente: a comida que chega à mesa do pobre.

Sempre fui pobre. Por isso, não preciso de estatísticas sofisticadas para falar das dificuldades de quem precisa fazer malabarismos com o dinheiro para chegar ao fim do mês. Tenho minha própria história, e ela me ensinou que a pobreza não se mede apenas pelo saldo bancário. Mede-se também pelo tempo que se perde trabalhando, pelas refeições que se substituem por lanches e pelos desejos que, de tanto serem adiados, acabam parecendo luxos.

Houve um tempo em que eu trabalhava em dois empregos para conseguir pagar as contas e fazer quatro refeições dignas por dia. Dinheiro na carteira, eu até tinha. O que me faltava era tempo para desfrutar daquilo que o dinheiro deveria proporcionar.

Eram quatro conduções por dia, que se multiplicavam entre terminais integrados, trens, baldeações e caminhadas apressadas. Eu atravessava a cidade para ganhar o sustento, enquanto o relógio parecia empenhado em me lembrar que a vida não esperava por ninguém. Quando chegava a hora de comer, quase sempre não havia uma mesa posta, mas um lanche improvisado, engolido entre uma obrigação e outra.

Eu tinha dinheiro para comprar comida, mas não tinha tempo para saboreá-la.

Um dia, resolvi fazer uma escolha: deixei um dos empregos. Queria recuperar um pouco da vida que passava depressa demais, sem que eu pudesse acompanhá-la. Ganhei tempo, é verdade. Mas o dinheiro diminuiu, e o supermercado passou a me ensinar uma nova modalidade de economia: comprar não aquilo de que se gosta, mas aquilo que cabe no bolso.

Aprendi a frequentar as prateleiras das promoções com a atenção de quem procura um tesouro. O produto preferido tornou-se secundário; o preço, esse sim, ganhou o privilégio de decidir. A liberdade de escolha, tão celebrada nos discursos, terminava diante da etiqueta vermelha.

Agora, mais velha, reduzi as despesas ao essencial. Faço três refeições por dia, e até o horário do jantar foi estrategicamente escolhido. Não se trata de organização alimentar, como talvez dissesse algum especialista. É uma questão de sobrevivência doméstica: preciso jantar tarde o suficiente para que o estômago não reclame muito antes de dormir.

E um copo de leite antes de deitar? Seria reconfortante. Mas, diante dos preços, até a simplicidade adquiriu ares de artigo de luxo.

É curioso como a vida nos ensina a diminuir os sonhos. Primeiro, queremos uma casa confortável. Depois, desejamos viajar, conhecer lugares, comprar roupas sem culpa. Com o tempo, se a renda não acompanha as necessidades, os sonhos vão encolhendo até caberem no orçamento.

O meu, hoje, é quase constrangedor de tão modesto: gostaria de fazer quatro refeições por dia, comendo o que gosto, e não apenas aquilo que posso pagar.

Gostaria de entrar numa pizzaria, escolher meu sabor preferido e pedir uma pizza sem precisar fazer contas mentais antes de chamar o garçom. Queria convidar amigos para jantar, preparar uma mesa variada, oferecer um café da tarde com bolo, biscoitos,  e outras pequenas delícias que tornam a convivência mais gostosa.

Mas o que tenho a oferecer?

Não é que me falte vontade de receber. Falta-me a folga financeira para transformar a vontade em realidade. E há uma tristeza discreta em perceber que, às vezes, a gente deixa de convidar as pessoas não por falta de afeto, mas por falta de condições de compartilhar aquilo que gostaria de colocar sobre a mesa.

A picanha, por exemplo, faz anos que não marca presença em minha casa. Talvez tenha encontrado residência mais confortável em algum programa eleitoral, onde aparece com frequência, acompanhada de promessas generosas e discursos suculentos. Na minha cozinha, porém, ela parece ter perdido o endereço.

Enquanto isso, ouvimos falar de governos populares, de avanços sociais e de vitórias históricas contra a fome. Reconheço que políticas públicas podem melhorar a vida de muita gente e que a pobreza não se combate apenas com discursos de oposição. Mas também me pergunto: se a fome foi vencida tantas vezes nos pronunciamentos oficiais, por que ainda há brasileiros que precisam organizar o dia em função da próxima refeição?

São milhares, talvez milhões, de pessoas que conhecem essa realidade de perto. Gente que trabalha, que trabalhou durante décadas, que pagou suas contas como pôde e que, na velhice, descobre que a aposentadoria nem sempre garante sequer a tranquilidade de comer sem preocupação.

A fome nem sempre aparece nas fotografias dramáticas que costumam ilustrar as campanhas de conscientização. Às vezes, ela mora numa casa arrumada, numa geladeira com o básico, numa despensa que dura até o fim do mês porque seu dono aprendeu a calcular cada porção. Não faz barulho nas ruas. Faz contas dentro de casa.

E há uma ironia dolorosa nisso tudo: o cidadão passa a vida trabalhando para conquistar o direito de viver com dignidade, mas, quando finalmente consegue algum tempo para si, descobre que lhe falta dinheiro para usufruí-lo. Trabalha para comer; depois, economiza na comida para pagar as contas. E, se ousa desejar um pouco mais, corre o risco de ser acusado pela própria consciência de estar querendo demais.

No domingo, diante da urna, pensarei em tudo isso.

Não espero que um presidente resolva, por decreto, todos os problemas do país. Sei que governar é complexo e que a pobreza tem raízes profundas. Mas espero, ao menos, que os candidatos compreendam que combater a fome não significa apenas garantir que alguém tenha alguma coisa para colocar no prato. Significa permitir que as pessoas comam o suficiente, com qualidade, sem viver permanentemente sob a ameaça de faltar.

Significa também devolver ao trabalhador e ao aposentado o direito de planejar a vida sem que cada desejo seja submetido a uma auditoria financeira.

Talvez eu esteja pedindo muito. Afinal, querer quatro refeições dignas, um café da tarde variado ou uma pizza do sabor preferido parece pouco diante das grandes questões nacionais. Mas é justamente aí que mora o problema: quando as necessidades básicas se tornam sonhos, alguma coisa está profundamente errada.

No próximo domingo, votarei com a esperança que ainda me resta e com a desconfiança que os anos me ensinaram a cultivar. Não quero escolher um salvador da pátria, muito menos acreditar em milagres de palanque. Quero escolher alguém que entenda que a economia de um país não se mede apenas por gráficos, índices e discursos comemorativos, mas também pelo que acontece nas cozinhas de seus cidadãos.

Porque a fome não desaparece só porque alguém anuncia sua extinção. E a dignidade não se conquista com um slogan.

Quanto a mim, continuarei fazendo minhas contas, escolhendo os produtos em promoção e adiando a pizza. Mas, ao apertar os números da urna, levarei comigo uma pergunta que não cabe em nenhum jingle eleitoral:

De que vale um país anunciar que venceu a fome se tantos brasileiros ainda precisam aprender a conviver com ela?

E, se algum candidato quiser conhecer a resposta, não precisa organizar uma grande cerimônia nem contratar uma pesquisa de opinião. Basta sentar-se à mesa de um aposentado, abrir a geladeira e perguntar o que ele gostaria de comer — e por que não come.

Talvez, nesse momento, descubra que o Brasil real não está apenas nos palanques, nas estatísticas ou nas promessas de prosperidade.

Está também no prato vazio de desejos que o dinheiro não permite realizar.

E eu, que já trabalhei tanto para ter uma vida melhor, ainda sonho com o dia em que poderei entrar numa pizzaria, escolher meu sabor preferido e comer sem fazer contas.

Não é um sonho grandioso. Mas, pelo preço das coisas e pela distância entre as promessas e a realidade, parece que estou exigindo um banquete presidencial.

sábado, 17 de outubro de 2026

O fio do bigode e os fios da Justiça

 


Quem o visse sentado à porta de casa, fumando seu cigarro de palha, na chácara à beira da estrada principal que levava ao Arraial da Saudade, ou abrindo a porteira com um largo sorriso para receber os visitantes, dificilmente deixaria de acreditar que estava diante de um homem de bem.

Afonso era hospitaleiro. Oferecia água fresca, café coado na hora e frutas da estação. Se alguém demonstrasse apreço por uma delas, logo providenciava uma sacolinha plástica para que levasse algumas para os que haviam ficado em casa. Tinha sempre uma palavra amável e parecia encontrar satisfação nas pequenas gentilezas da vida.

Na propriedade, havia seis vacas leiteiras, um cavalo e uma cabrita de natureza peralta e apetite voraz, que precisava ficar amarrada debaixo da mangueira para não devorar as plantas do quintal. Os cachorros eram numerosos, segundo ele, por necessidade de segurança da casa e das criações. Havia também galinhas carijós, garnisés, caipiras de pescoço pelado e, principalmente, galinhas-d’angola, com suas plumagens cinzentas salpicadas de branco. Algumas, mais raras, eram inteiramente brancas; do cruzamento entre elas nasceram aves mestiças, que despertavam a curiosidade dos visitantes.

As galinhas-d’angola não estavam ali apenas para alegrar as tardes com seu conhecido chamado — “Tô fraco, tô fraco!” —, mas também para trabalhar. Ciscavam o terreno, alimentavam-se de insetos e pequenas criaturas e, diante de movimentos suspeitos, faziam uma algazarra capaz de alertar os moradores. Naquele pequeno mundo, até as aves pareciam conhecer o seu ofício.

Ao nascer do sol, carros antigos, ciclistas e pedestres já apareciam à procura de leite fresco, tirado na hora e pago no fim do mês. Às sextas-feiras, os netos chegavam para passar o fim de semana com o avô. Cavalgavam, passeavam com a cabrita, empinavam pipas e, sobretudo, aprendiam a ajudá-lo nas tarefas cotidianas. Às quartas-feiras, Afonso também era voluntário na igreja.

Aparentemente, sua única preocupação era o filho, pouco afeito aos estudos e ao trabalho, que passava parte do ano privado de liberdade. Sobre isso, porém, quase ninguém falava. O rapaz não costumava criar problemas com os vizinhos, e o pai, aos olhos da comunidade, continuava sendo um homem respeitado.

Poucos sabiam de onde Afonso viera ou em que circunstâncias adquirira aquela propriedade. Ele costumava recordar, com gratidão, os antigos moradores que o haviam ajudado quando chegara à região. Havia, entretanto, um detalhe curioso: todos estavam mortos havia mais de trinta anos. Sem testemunhas vivas que pudessem contradizê-lo, sua versão dos acontecimentos foi sendo aceita como verdade.

Afonso parecia fazer parte da paisagem havia tanto tempo que ninguém se lembrava de perguntar como chegara até ali. Afinal, quem desconfiaria de um homem que oferecia café, repartia frutas e abria a porteira com um sorriso?

Mas toda porteira tem dois lados. E nem sempre quem está do lado de dentro tem o direito de ali permanecer.

Foi durante o velório de Afonso que uma história antiga voltou à superfície, como lava de um vulcão adormecido. O responsável pela preparação do corpo era o filho de Bastião, o antigo proprietário da chácara. Técnico em tanatopraxia, ele cumpria seu ofício com a discrição exigida pela ocasião. Enquanto preparava o corpo daquele homem que envelhecera e morrera na cadeira da varanda, ouviu comentários sobre a generosidade do falecido, sua vida de trabalho e o patrimônio que deixara.

Alguém comentou:

— Afonso foi um homem de sorte. Chegou aqui sem nada e construiu tudo o que tinha.

O técnico permaneceu calado. Aquelas palavras lhe atravessaram o peito como uma lembrança que jamais cicatrizara.

Sem interromper o trabalho, recordou-se de outra história, contada pelo pai muitas vezes, sempre com a mesma tristeza. Uma história que, durante anos, ele guardara em silêncio, como quem protege uma ferida para que ninguém volte a tocá-la.

Afinal, quem teria interesse em ouvir a versão de um homem que perdera a própria casa?

Anos antes, Afonso chegara à região com a família cansada, faminta e coberta de poeira. Ao avistar a chácara, então pertencente a Bastião, criou coragem e bateu à porta.

— Boa tarde, meu senhor. Desculpe incomodar. Estamos viajando há dias e precisamos de um lugar para passar a noite. Sou homem de serviço. Entendo de roça, de animais, de cerca e de tudo um pouco. Se o senhor souber de algum trabalho por aqui, agradeço.

Bastião, que vivia com  a esposa   e o filho de três anos compadeceu-se daquela família. Estava, inclusive, prestes a partir para o sertão goiano, onde recebera uma proposta para administrar uma carvoaria. Precisava de alguém que cuidasse da propriedade durante sua ausência.

A conversa avançou, e logo encontraram uma solução.

— Salário eu não tenho como pagar — explicou Bastião. — Mas posso deixar você tomando conta da chácara. Cuida das vacas, das galinhas, da plantação e conserva tudo em ordem. O que produzir nesse período fica para você e sua família. Também posso recomendar seus serviços aos parentes e conhecidos.

Afonso abriu um sorriso de alívio.

— O senhor não vai se arrepender. Pode confiar em mim.

Não assinaram contrato, não procuraram testemunhas, tampouco registraram o combinado em cartório. Selaram o acordo à moda antiga, com um aperto de mão e a palavra empenhada.

Era o chamado fio do bigode, expressão que, naquele tempo, simbolizava a honra de um homem: bastava a palavra, porque a consciência deveria valer mais do que qualquer papel.

Bastião partiu tranquilo, acreditando ter encontrado alguém em quem confiar. A ausência, inicialmente prevista para três anos, prolongou-se por quase dez. A vida na carvoaria não lhe trouxe a prosperidade esperada. Com a queda da atividade, centenas de trabalhadores perderam seus empregos. Entre eles estava Bastião, já debilitado pela pneumoconiose, doença pulmonar relacionada à inalação de poeiras do carvão.

Viúvo, doente e com o filho ainda jovem, decidiu retornar à chácara herdada do pai. Não imaginava que a maior dificuldade de sua vida o aguardava justamente no lugar que considerava seu lar.

Numa tarde fria e chuvosa, pai e filho chegaram à porteira. Antes mesmo que pudessem chamar, foram cercados pelos cachorros. Bastião, que mal conseguia sustentar o próprio corpo, apoiou-se no braço do filho.

Afonso apareceu com um pedaço de porrete na mão.

— Boa tarde, Afonso. Sou eu, Bastião. Finalmente voltei. A viagem foi longa, e a saúde não me ajudou. Vamos conversar lá dentro. - O outro não demonstrou surpresa. Pelo contrário, apertou o cabo do porrete e permaneceu diante da entrada.

— Não sei quem o senhor é. Esta propriedade é minha. Tenho escritura registrada em cartório. Se não forem embora, vou chamar a polícia.

Bastião ficou olhando para ele, tentando reconhecer naquele homem o mesmo sujeito a quem oferecera abrigo, trabalho e a oportunidade de recomeçar.

— Como assim, não me conhece? Foi comigo que o senhor combinou de cuidar da chácara! Eu lhe entreguei a casa, os animais e a terra porque precisava viajar. O acordo foi feito entre nós!

— O senhor está enganado. Encontrei tudo abandonado, cuidei do que havia aqui, fiz melhorias e paguei os impostos. A terra é minha.

— Mas nós apertamos as mãos! O senhor me deu sua palavra!

Afonso apontou para a estrada.

— Vá embora antes que eu chame a polícia.

Não houve conversa capaz de demover o homem que, anos antes, prometera não decepcionar seu benfeitor. Sem entender como um acordo tão claro em sua memória podia ser negado com tamanha firmeza, Bastião voltou à cidade com o filho. Naquela noite, dormiram na rodoviária. O frio, a umidade e a angústia agravaram o estado de saúde do antigo proprietário.

Ao amanhecer, Bastião procurou o irmão, Zezão, que o acolheu e o ajudou a buscar a reparação judicial. Foi então que a história encontrou outro obstáculo: como provar o acordo de tantos anos antes, se não havia documento, testemunha viva ou registro escrito que confirmasse a versão do homem?

Afonso apresentou sua escritura e sustentou que encontrara a propriedade abandonada, que pagara os impostos e realizara benfeitorias. Bastião, por sua vez, afirmava ter confiado a chácara aos cuidados de alguém que recebera em sua casa. A disputa não se resumia a saber quem havia trabalhado mais ou quem contava a história com maior convicção. Era preciso demonstrar os fatos por meios que pudessem ser reconhecidos no processo.

A lei brasileira admite, em determinadas condições, que a posse prolongada conduza à aquisição da propriedade por usucapião. Mas o simples decurso do tempo, o pagamento de tributos ou a realização de melhorias não bastam, isoladamente, para assegurar esse direito. A origem da posse, sua natureza e os demais requisitos legais precisam ser examinados. A posse que começa por permissão ou tolerância do proprietário, por exemplo, não se transforma automaticamente em posse apta à usucapião.

O acordo entre Bastião e Afonso, contudo, existira apenas na palavra de um e na negativa do outro. O que havia sido tratado como confiança, na vida cotidiana, tornou-se um problema de prova diante da Justiça. Bastião perdeu a causa.

Decepcionado, enfraquecido pela doença e sem forças para continuar lutando, morreu pouco tempo depois. Deixou o filho aos cuidados de Zezão, que o criou e o ajudou a se tornar um homem honesto. O rapaz aprendeu um ofício, construiu a própria vida e passou a cuidar das responsabilidades que lhe cabiam. Entretanto, havia uma herança que não constava em inventário algum: a mágoa de ter visto o pai perder a casa onde nascera e a terra que pertencera à família. No velório de Afonso, enquanto ouvia os elogios dirigidos ao morto, o filho de Bastião sentiu que chegara a hora de romper o silêncio.

Não desejava desrespeitar a morte nem transformar a despedida em espetáculo. Queria apenas que a história de seu pai deixasse de ser uma lembrança sem voz.

Ao encontrar um conhecido da região, disse, em tom baixo:

— O senhor sabia que esta chácara foi do meu pai?

O homem se espantou.

— Do seu pai? Mas Afonso dizia que a encontrou abandonada!

— Meu pai confiou nele. Deu-lhe abrigo, deixou a família dele morar aqui e entregou a propriedade aos seus cuidados. Meu pai acreditou na palavra de um homem. Quando voltou da carvoaria, ouviu que não era dono nem da própria história.

O interlocutor ficou em silêncio.

— Mas ele tinha escritura — arriscou dizer.

— Eu sei. E sei também que, quando meu pai procurou a Justiça, não conseguiu provar o acordo. Não estou dizendo que um juiz deva decidir com base apenas na palavra de alguém. Estou dizendo que, às vezes, a vida acontece de um jeito que é muito difícil de demonstrar depois. Meu pai perdeu a terra, mas nunca deixou de saber o que tinha combinado.

-Usucapião – disse baixando os olhos. Pela primeira vez, os elogios ao falecido pareciam insuficientes para explicar aquela história.

O técnico em tanatopraxia respirou fundo. Durante anos, imaginara como seria o dia em que contaria a verdade. Não sentia prazer em expor o passado de Afonso, tampouco desejava vingança. O que o movia era a necessidade de devolver ao pai aquilo que o tempo e a derrota judicial não haviam conseguido apagar: sua dignidade.

Naquela noite, compreendeu que o silêncio também pode perpetuar uma injustiça. A memória, quando encontra coragem para falar, não devolve necessariamente o que foi perdido, mas impede que a perda seja confundida com uma história de merecimento.

Afonso foi sepultado, e a chácara continuou à beira da estrada. As vacas precisavam ser ordenhadas, as galinhas continuavam ciscando e os cachorros ainda latiam para os visitantes. A vida, indiferente às histórias humanas, seguia seu curso.

Talvez os que passassem por ali continuassem vendo apenas um homem que trabalhara muito, criara os filhos e construíra um patrimônio. Outros, depois de conhecerem o relato de Bastião, passariam a enxergar também a família que perdera sua morada.

É fácil admirar o resultado quando desconhecemos o caminho percorrido. Uma propriedade bem cuidada, uma mesa farta e uma vida aparentemente tranquila podem esconder dores que jamais chegaram ao conhecimento público. E uma sentença judicial, necessária para resolver conflitos e preservar a segurança das relações, nem sempre consegue reconstituir integralmente aquilo que aconteceu entre quatro paredes ou sob o céu aberto de uma propriedade rural.

A Justiça não pode dispensar provas nem decidir apenas pela simpatia que uma história desperta. Mas a sociedade precisa compreender que a dificuldade de provar um fato não significa, necessariamente, que ele nunca tenha ocorrido. Por isso, documentos, contratos, testemunhas e registros não são inimigos da confiança: são formas de protegê-la.

Bastião confiara na palavra de um homem e não se preocupara em resguardar por escrito o próprio patrimônio. Talvez tenha cometido um erro, mas seu erro não apaga o valor da ajuda que ofereceu. Afonso, por sua vez, pôde sustentar sua versão diante das instituições; a verdade de Bastião não encontrou força suficiente para prevalecer no processo.

Quem poderá medir a extensão dessa perda? O valor da terra, as árvores plantadas, os anos de trabalho ou a humilhação de voltar à própria casa e ser tratado como intruso?

O filho de Bastião nunca encontrou resposta para essas perguntas. Durante muito tempo, acreditou que o silêncio o protegeria da dor. Depois compreendeu que calar também poderia condenar o pai a desaparecer da memória coletiva, enquanto o homem que o desamparara seria lembrado apenas por suas virtudes aparentes.

E decidiu contar.

Não para condenar novamente um morto, nem para substituir a decisão dos tribunais por um julgamento feito à beira de uma estrada. Contar para lembrar que a confiança exige responsabilidade, que a boa-fé merece proteção e que a dignidade de uma pessoa não pode ser medida apenas pelos bens que conseguiu acumular.

            Porque, no fim, o que resta de um homem não é somente a terra que possui, a casa que constrói ou a escritura que guarda. Resta, também, o modo como tratou aqueles que lhe estenderam a mão quando ele não tinha nada. O fio do bigode já não vale como garantia jurídica, mas a palavra empenhada continua sendo uma medida moral, ainda que não substitua as provas de que a Justiça precisa. E talvez resida aí a reflexão mais dolorosa desta história: quando a palavra perde o valor e a verdade não encontra meios de ser provada, não perde apenas aquele que ficou sem a terra. Perde também a comunidade, quando corre o risco de confundir esperteza com mérito e deixar que o silêncio transforme a injustiça em esquecimento.

Fim

 

 

 

domingo, 27 de setembro de 2026

A conta que não fecha

 


Está chegando mais um domingo de eleição para presidente da República. E, desta vez, vou votar.

Não porque ainda tenha aquela certeza antiga de que, diante da urna, existe sempre um candidato capaz de representar nossas esperanças. Essa certeza, confesso, anda meio desaparecida. Talvez tenha envelhecido junto conosco, depois de tantas promessas, tantos discursos e tantas vezes em que o futuro anunciado nunca chegou exatamente como nos foi prometido.

Vou votar porque, mesmo sem a obrigação, ainda acredito que não escolher também é uma escolha. E porque há coisas que já não consigo olhar com a mesma indiferença.

Olho para a educação e me pergunto quanto tempo levaremos para recuperar a qualidade que perdemos. Olho para a saúde e vejo pessoas esperando por atendimento, enquanto o discurso oficial continua falando em avanços. Olho para a violência, cada vez mais presente na conversa das famílias, e sinto que vivemos em permanente estado de alerta.

Mas, quando penso no futuro, existe uma preocupação que fala mais alto que todas as outras: a aposentadoria.

Quem já se aposentou sabe que tranquilidade não significa necessariamente segurança. O benefício chega todos os meses, mas junto com ele chegam também as contas, os medicamentos, o supermercado, a preocupação com os reajustes e aquela pergunta que ninguém gosta de fazer: até quando?

A conta da Previdência parece cada vez mais difícil de entender. Há menos trabalhadores contribuindo formalmente, enquanto aumenta a quantidade de pessoas que dependem da Previdência ou de programas de assistência. E, quando se ouve a reclamação de empregadores de que há trabalhadores que preferem permanecer na informalidade para não perder determinados benefícios, a preocupação fica ainda maior.

Não sou especialista em Previdência. Sou apenas alguém que olha para os números que aparecem nas notícias e tenta fazer uma conta simples: se há menos gente contribuindo e cada vez mais gente precisando receber, quem pagará essa conta amanhã?

É justamente aí que minha descrença nos candidatos aumenta.

Na televisão, todos parecem ter uma solução. Nas entrevistas, todos conhecem os problemas. Nos palanques, todos falam em futuro. Mas, quando procuro alguém disposto a encarar de frente a difícil matemática da Previdência, encontro mais silêncio do que respostas.

E existe uma ironia nisso tudo: o candidato que, aos meus olhos, parece tocar justamente nessa ferida aparece pouco nas pesquisas de intenção de voto. Os nomes que estão à frente, com possibilidade de chegar ao segundo turno, são justamente os que me fazem pensar duas vezes sobre o futuro de quem já trabalhou uma vida inteira.

Talvez seja essa a parte mais amarga de uma eleição: chegar diante da urna não com entusiasmo, mas com responsabilidade.

A gente não escolhe apenas pensando no próximo ano. Quem já se aposentou ou está perto disso pensa nos próximos dez, quinze, vinte anos. Pensa se o dinheiro continuará pagando as contas. Pensa se haverá médicos, remédios e atendimento. Pensa nos filhos e nos netos, que também poderão depender um dia de um sistema que hoje já parece apertado demais.

No fundo, não estou procurando um salvador.

Estou procurando alguém que tenha coragem de dizer a verdade, mesmo quando a verdade não rende aplausos.

Porque prometer é fácil.

Difícil é olhar para uma conta que não fecha e dizer, com clareza, quem vai pagar a diferença.

E talvez seja justamente por isso que, neste domingo, eu vá à urna não carregando esperança demais, mas carregando perguntas.

Algumas eleições começam assim: não pela certeza de quem escolher, mas pela certeza de que não podemos deixar de pensar no que está em jogo.