sábado, 17 de outubro de 2026

O fio do bigode e os fios da Justiça

 


Quem o visse sentado à porta de casa, fumando seu cigarro de palha, na chácara à beira da estrada principal que levava ao Arraial da Saudade, ou abrindo a porteira com um largo sorriso para receber os visitantes, dificilmente deixaria de acreditar que estava diante de um homem de bem.

Afonso era hospitaleiro. Oferecia água fresca, café coado na hora e frutas da estação. Se alguém demonstrasse apreço por uma delas, logo providenciava uma sacolinha plástica para que levasse algumas para os que haviam ficado em casa. Tinha sempre uma palavra amável e parecia encontrar satisfação nas pequenas gentilezas da vida.

Na propriedade, havia seis vacas leiteiras, um cavalo e uma cabrita de natureza peralta e apetite voraz, que precisava ficar amarrada debaixo da mangueira para não devorar as plantas do quintal. Os cachorros eram numerosos, segundo ele, por necessidade de segurança da casa e das criações. Havia também galinhas carijós, garnisés, caipiras de pescoço pelado e, principalmente, galinhas-d’angola, com suas plumagens cinzentas salpicadas de branco. Algumas, mais raras, eram inteiramente brancas; do cruzamento entre elas nasceram aves mestiças, que despertavam a curiosidade dos visitantes.

As galinhas-d’angola não estavam ali apenas para alegrar as tardes com seu conhecido chamado — “Tô fraco, tô fraco!” —, mas também para trabalhar. Ciscavam o terreno, alimentavam-se de insetos e pequenas criaturas e, diante de movimentos suspeitos, faziam uma algazarra capaz de alertar os moradores. Naquele pequeno mundo, até as aves pareciam conhecer o seu ofício.

Ao nascer do sol, carros antigos, ciclistas e pedestres já apareciam à procura de leite fresco, tirado na hora e pago no fim do mês. Às sextas-feiras, os netos chegavam para passar o fim de semana com o avô. Cavalgavam, passeavam com a cabrita, empinavam pipas e, sobretudo, aprendiam a ajudá-lo nas tarefas cotidianas. Às quartas-feiras, Afonso também era voluntário na igreja.

Aparentemente, sua única preocupação era o filho, pouco afeito aos estudos e ao trabalho, que passava parte do ano privado de liberdade. Sobre isso, porém, quase ninguém falava. O rapaz não costumava criar problemas com os vizinhos, e o pai, aos olhos da comunidade, continuava sendo um homem respeitado.

Poucos sabiam de onde Afonso viera ou em que circunstâncias adquirira aquela propriedade. Ele costumava recordar, com gratidão, os antigos moradores que o haviam ajudado quando chegara à região. Havia, entretanto, um detalhe curioso: todos estavam mortos havia mais de trinta anos. Sem testemunhas vivas que pudessem contradizê-lo, sua versão dos acontecimentos foi sendo aceita como verdade.

Afonso parecia fazer parte da paisagem havia tanto tempo que ninguém se lembrava de perguntar como chegara até ali. Afinal, quem desconfiaria de um homem que oferecia café, repartia frutas e abria a porteira com um sorriso?

Mas toda porteira tem dois lados. E nem sempre quem está do lado de dentro tem o direito de ali permanecer.

Foi durante o velório de Afonso que uma história antiga voltou à superfície, como lava de um vulcão adormecido. O responsável pela preparação do corpo era o filho de Bastião, o antigo proprietário da chácara. Técnico em tanatopraxia, ele cumpria seu ofício com a discrição exigida pela ocasião. Enquanto preparava o corpo daquele homem que envelhecera e morrera na cadeira da varanda, ouviu comentários sobre a generosidade do falecido, sua vida de trabalho e o patrimônio que deixara.

Alguém comentou:

— Afonso foi um homem de sorte. Chegou aqui sem nada e construiu tudo o que tinha.

O técnico permaneceu calado. Aquelas palavras lhe atravessaram o peito como uma lembrança que jamais cicatrizara.

Sem interromper o trabalho, recordou-se de outra história, contada pelo pai muitas vezes, sempre com a mesma tristeza. Uma história que, durante anos, ele guardara em silêncio, como quem protege uma ferida para que ninguém volte a tocá-la.

Afinal, quem teria interesse em ouvir a versão de um homem que perdera a própria casa?

Anos antes, Afonso chegara à região com a família cansada, faminta e coberta de poeira. Ao avistar a chácara, então pertencente a Bastião, criou coragem e bateu à porta.

— Boa tarde, meu senhor. Desculpe incomodar. Estamos viajando há dias e precisamos de um lugar para passar a noite. Sou homem de serviço. Entendo de roça, de animais, de cerca e de tudo um pouco. Se o senhor souber de algum trabalho por aqui, agradeço.

Bastião, que vivia com  a esposa   e o filho de três anos compadeceu-se daquela família. Estava, inclusive, prestes a partir para o sertão goiano, onde recebera uma proposta para administrar uma carvoaria. Precisava de alguém que cuidasse da propriedade durante sua ausência.

A conversa avançou, e logo encontraram uma solução.

— Salário eu não tenho como pagar — explicou Bastião. — Mas posso deixar você tomando conta da chácara. Cuida das vacas, das galinhas, da plantação e conserva tudo em ordem. O que produzir nesse período fica para você e sua família. Também posso recomendar seus serviços aos parentes e conhecidos.

Afonso abriu um sorriso de alívio.

— O senhor não vai se arrepender. Pode confiar em mim.

Não assinaram contrato, não procuraram testemunhas, tampouco registraram o combinado em cartório. Selaram o acordo à moda antiga, com um aperto de mão e a palavra empenhada.

Era o chamado fio do bigode, expressão que, naquele tempo, simbolizava a honra de um homem: bastava a palavra, porque a consciência deveria valer mais do que qualquer papel.

Bastião partiu tranquilo, acreditando ter encontrado alguém em quem confiar. A ausência, inicialmente prevista para três anos, prolongou-se por quase dez. A vida na carvoaria não lhe trouxe a prosperidade esperada. Com a queda da atividade, centenas de trabalhadores perderam seus empregos. Entre eles estava Bastião, já debilitado pela pneumoconiose, doença pulmonar relacionada à inalação de poeiras do carvão.

Viúvo, doente e com o filho ainda jovem, decidiu retornar à chácara herdada do pai. Não imaginava que a maior dificuldade de sua vida o aguardava justamente no lugar que considerava seu lar.

Numa tarde fria e chuvosa, pai e filho chegaram à porteira. Antes mesmo que pudessem chamar, foram cercados pelos cachorros. Bastião, que mal conseguia sustentar o próprio corpo, apoiou-se no braço do filho.

Afonso apareceu com um pedaço de porrete na mão.

— Boa tarde, Afonso. Sou eu, Bastião. Finalmente voltei. A viagem foi longa, e a saúde não me ajudou. Vamos conversar lá dentro. - O outro não demonstrou surpresa. Pelo contrário, apertou o cabo do porrete e permaneceu diante da entrada.

— Não sei quem o senhor é. Esta propriedade é minha. Tenho escritura registrada em cartório. Se não forem embora, vou chamar a polícia.

Bastião ficou olhando para ele, tentando reconhecer naquele homem o mesmo sujeito a quem oferecera abrigo, trabalho e a oportunidade de recomeçar.

— Como assim, não me conhece? Foi comigo que o senhor combinou de cuidar da chácara! Eu lhe entreguei a casa, os animais e a terra porque precisava viajar. O acordo foi feito entre nós!

— O senhor está enganado. Encontrei tudo abandonado, cuidei do que havia aqui, fiz melhorias e paguei os impostos. A terra é minha.

— Mas nós apertamos as mãos! O senhor me deu sua palavra!

Afonso apontou para a estrada.

— Vá embora antes que eu chame a polícia.

Não houve conversa capaz de demover o homem que, anos antes, prometera não decepcionar seu benfeitor. Sem entender como um acordo tão claro em sua memória podia ser negado com tamanha firmeza, Bastião voltou à cidade com o filho. Naquela noite, dormiram na rodoviária. O frio, a umidade e a angústia agravaram o estado de saúde do antigo proprietário.

Ao amanhecer, Bastião procurou o irmão, Zezão, que o acolheu e o ajudou a buscar a reparação judicial. Foi então que a história encontrou outro obstáculo: como provar o acordo de tantos anos antes, se não havia documento, testemunha viva ou registro escrito que confirmasse a versão do homem?

Afonso apresentou sua escritura e sustentou que encontrara a propriedade abandonada, que pagara os impostos e realizara benfeitorias. Bastião, por sua vez, afirmava ter confiado a chácara aos cuidados de alguém que recebera em sua casa. A disputa não se resumia a saber quem havia trabalhado mais ou quem contava a história com maior convicção. Era preciso demonstrar os fatos por meios que pudessem ser reconhecidos no processo.

A lei brasileira admite, em determinadas condições, que a posse prolongada conduza à aquisição da propriedade por usucapião. Mas o simples decurso do tempo, o pagamento de tributos ou a realização de melhorias não bastam, isoladamente, para assegurar esse direito. A origem da posse, sua natureza e os demais requisitos legais precisam ser examinados. A posse que começa por permissão ou tolerância do proprietário, por exemplo, não se transforma automaticamente em posse apta à usucapião.

O acordo entre Bastião e Afonso, contudo, existira apenas na palavra de um e na negativa do outro. O que havia sido tratado como confiança, na vida cotidiana, tornou-se um problema de prova diante da Justiça. Bastião perdeu a causa.

Decepcionado, enfraquecido pela doença e sem forças para continuar lutando, morreu pouco tempo depois. Deixou o filho aos cuidados de Zezão, que o criou e o ajudou a se tornar um homem honesto. O rapaz aprendeu um ofício, construiu a própria vida e passou a cuidar das responsabilidades que lhe cabiam. Entretanto, havia uma herança que não constava em inventário algum: a mágoa de ter visto o pai perder a casa onde nascera e a terra que pertencera à família. No velório de Afonso, enquanto ouvia os elogios dirigidos ao morto, o filho de Bastião sentiu que chegara a hora de romper o silêncio.

Não desejava desrespeitar a morte nem transformar a despedida em espetáculo. Queria apenas que a história de seu pai deixasse de ser uma lembrança sem voz.

Ao encontrar um conhecido da região, disse, em tom baixo:

— O senhor sabia que esta chácara foi do meu pai?

O homem se espantou.

— Do seu pai? Mas Afonso dizia que a encontrou abandonada!

— Meu pai confiou nele. Deu-lhe abrigo, deixou a família dele morar aqui e entregou a propriedade aos seus cuidados. Meu pai acreditou na palavra de um homem. Quando voltou da carvoaria, ouviu que não era dono nem da própria história.

O interlocutor ficou em silêncio.

— Mas ele tinha escritura — arriscou dizer.

— Eu sei. E sei também que, quando meu pai procurou a Justiça, não conseguiu provar o acordo. Não estou dizendo que um juiz deva decidir com base apenas na palavra de alguém. Estou dizendo que, às vezes, a vida acontece de um jeito que é muito difícil de demonstrar depois. Meu pai perdeu a terra, mas nunca deixou de saber o que tinha combinado.

-Usucapião – disse baixando os olhos. Pela primeira vez, os elogios ao falecido pareciam insuficientes para explicar aquela história.

O técnico em tanatopraxia respirou fundo. Durante anos, imaginara como seria o dia em que contaria a verdade. Não sentia prazer em expor o passado de Afonso, tampouco desejava vingança. O que o movia era a necessidade de devolver ao pai aquilo que o tempo e a derrota judicial não haviam conseguido apagar: sua dignidade.

Naquela noite, compreendeu que o silêncio também pode perpetuar uma injustiça. A memória, quando encontra coragem para falar, não devolve necessariamente o que foi perdido, mas impede que a perda seja confundida com uma história de merecimento.

Afonso foi sepultado, e a chácara continuou à beira da estrada. As vacas precisavam ser ordenhadas, as galinhas continuavam ciscando e os cachorros ainda latiam para os visitantes. A vida, indiferente às histórias humanas, seguia seu curso.

Talvez os que passassem por ali continuassem vendo apenas um homem que trabalhara muito, criara os filhos e construíra um patrimônio. Outros, depois de conhecerem o relato de Bastião, passariam a enxergar também a família que perdera sua morada.

É fácil admirar o resultado quando desconhecemos o caminho percorrido. Uma propriedade bem cuidada, uma mesa farta e uma vida aparentemente tranquila podem esconder dores que jamais chegaram ao conhecimento público. E uma sentença judicial, necessária para resolver conflitos e preservar a segurança das relações, nem sempre consegue reconstituir integralmente aquilo que aconteceu entre quatro paredes ou sob o céu aberto de uma propriedade rural.

A Justiça não pode dispensar provas nem decidir apenas pela simpatia que uma história desperta. Mas a sociedade precisa compreender que a dificuldade de provar um fato não significa, necessariamente, que ele nunca tenha ocorrido. Por isso, documentos, contratos, testemunhas e registros não são inimigos da confiança: são formas de protegê-la.

Bastião confiara na palavra de um homem e não se preocupara em resguardar por escrito o próprio patrimônio. Talvez tenha cometido um erro, mas seu erro não apaga o valor da ajuda que ofereceu. Afonso, por sua vez, pôde sustentar sua versão diante das instituições; a verdade de Bastião não encontrou força suficiente para prevalecer no processo.

Quem poderá medir a extensão dessa perda? O valor da terra, as árvores plantadas, os anos de trabalho ou a humilhação de voltar à própria casa e ser tratado como intruso?

O filho de Bastião nunca encontrou resposta para essas perguntas. Durante muito tempo, acreditou que o silêncio o protegeria da dor. Depois compreendeu que calar também poderia condenar o pai a desaparecer da memória coletiva, enquanto o homem que o desamparara seria lembrado apenas por suas virtudes aparentes.

E decidiu contar.

Não para condenar novamente um morto, nem para substituir a decisão dos tribunais por um julgamento feito à beira de uma estrada. Contar para lembrar que a confiança exige responsabilidade, que a boa-fé merece proteção e que a dignidade de uma pessoa não pode ser medida apenas pelos bens que conseguiu acumular.

            Porque, no fim, o que resta de um homem não é somente a terra que possui, a casa que constrói ou a escritura que guarda. Resta, também, o modo como tratou aqueles que lhe estenderam a mão quando ele não tinha nada. O fio do bigode já não vale como garantia jurídica, mas a palavra empenhada continua sendo uma medida moral, ainda que não substitua as provas de que a Justiça precisa. E talvez resida aí a reflexão mais dolorosa desta história: quando a palavra perde o valor e a verdade não encontra meios de ser provada, não perde apenas aquele que ficou sem a terra. Perde também a comunidade, quando corre o risco de confundir esperteza com mérito e deixar que o silêncio transforme a injustiça em esquecimento.

Fim

 

 

 

domingo, 27 de setembro de 2026

A conta que não fecha

 


Está chegando mais um domingo de eleição para presidente da República. E, desta vez, vou votar.

Não porque ainda tenha aquela certeza antiga de que, diante da urna, existe sempre um candidato capaz de representar nossas esperanças. Essa certeza, confesso, anda meio desaparecida. Talvez tenha envelhecido junto conosco, depois de tantas promessas, tantos discursos e tantas vezes em que o futuro anunciado nunca chegou exatamente como nos foi prometido.

Vou votar porque, mesmo sem a obrigação, ainda acredito que não escolher também é uma escolha. E porque há coisas que já não consigo olhar com a mesma indiferença.

Olho para a educação e me pergunto quanto tempo levaremos para recuperar a qualidade que perdemos. Olho para a saúde e vejo pessoas esperando por atendimento, enquanto o discurso oficial continua falando em avanços. Olho para a violência, cada vez mais presente na conversa das famílias, e sinto que vivemos em permanente estado de alerta.

Mas, quando penso no futuro, existe uma preocupação que fala mais alto que todas as outras: a aposentadoria.

Quem já se aposentou sabe que tranquilidade não significa necessariamente segurança. O benefício chega todos os meses, mas junto com ele chegam também as contas, os medicamentos, o supermercado, a preocupação com os reajustes e aquela pergunta que ninguém gosta de fazer: até quando?

A conta da Previdência parece cada vez mais difícil de entender. Há menos trabalhadores contribuindo formalmente, enquanto aumenta a quantidade de pessoas que dependem da Previdência ou de programas de assistência. E, quando se ouve a reclamação de empregadores de que há trabalhadores que preferem permanecer na informalidade para não perder determinados benefícios, a preocupação fica ainda maior.

Não sou especialista em Previdência. Sou apenas alguém que olha para os números que aparecem nas notícias e tenta fazer uma conta simples: se há menos gente contribuindo e cada vez mais gente precisando receber, quem pagará essa conta amanhã?

É justamente aí que minha descrença nos candidatos aumenta.

Na televisão, todos parecem ter uma solução. Nas entrevistas, todos conhecem os problemas. Nos palanques, todos falam em futuro. Mas, quando procuro alguém disposto a encarar de frente a difícil matemática da Previdência, encontro mais silêncio do que respostas.

E existe uma ironia nisso tudo: o candidato que, aos meus olhos, parece tocar justamente nessa ferida aparece pouco nas pesquisas de intenção de voto. Os nomes que estão à frente, com possibilidade de chegar ao segundo turno, são justamente os que me fazem pensar duas vezes sobre o futuro de quem já trabalhou uma vida inteira.

Talvez seja essa a parte mais amarga de uma eleição: chegar diante da urna não com entusiasmo, mas com responsabilidade.

A gente não escolhe apenas pensando no próximo ano. Quem já se aposentou ou está perto disso pensa nos próximos dez, quinze, vinte anos. Pensa se o dinheiro continuará pagando as contas. Pensa se haverá médicos, remédios e atendimento. Pensa nos filhos e nos netos, que também poderão depender um dia de um sistema que hoje já parece apertado demais.

No fundo, não estou procurando um salvador.

Estou procurando alguém que tenha coragem de dizer a verdade, mesmo quando a verdade não rende aplausos.

Porque prometer é fácil.

Difícil é olhar para uma conta que não fecha e dizer, com clareza, quem vai pagar a diferença.

E talvez seja justamente por isso que, neste domingo, eu vá à urna não carregando esperança demais, mas carregando perguntas.

Algumas eleições começam assim: não pela certeza de quem escolher, mas pela certeza de que não podemos deixar de pensar no que está em jogo.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Kolynos: quando a infância volta pelo sabor


     Eu a vi na gôndola do supermercado.

Ali estava ela, ou quase ela: a velha Kolynos que acompanhou minha infância, minha adolescência e tantos anos da minha vida. Verde e amarela, como eu a guardava na memória, agora reaparecia em uma edição limitada da Sorriso, inspirada na embalagem e no sabor daquela que um dia desapareceu das prateleiras.

Por alguns segundos, fiquei olhando.

Há coisas que a gente pensa ter esquecido, até que um detalhe as devolva inteiras. Uma cor, um cheiro, uma música, uma embalagem. No meu caso, bastaram o verde e o amarelo da caixinha para que uma porta se abrisse dentro de mim. E, quando senti o sabor, foi como se o tempo tivesse dado uma volta silenciosa e me levado de volta à infância.

Não resisti.

Comprei.

Talvez para alguns fosse apenas uma pasta de dentes. Para mim, era uma pequena caixa de memórias.

A Kolynos havia nascido nos Estados Unidos, em 1908, criada pelo dentista Neal Jenkins. Chegou ao Brasil em 1917, inicialmente como produto importado, e, com o passar dos anos, tornou-se parte do cotidiano brasileiro. A fábrica instalada em São Paulo ajudou a ampliar seu alcance, e a marca atravessou décadas até se transformar em uma das mais conhecidas do país.

Eu, entretanto, não conheci essa história toda. Conheci a Kolynos como se conhecem as coisas que fazem parte da vida: sem perguntar de onde vieram, quem as inventou ou quanto tempo permaneceriam conosco.

Ela simplesmente estava ali.

Estava no banheiro de casa, na escovação antes de ir para a escola, nas manhãs apressadas, nas noites de sono. Estava na casa dos parentes, nas pequenas mercearias, nas prateleiras dos supermercados. A caixinha verde e amarela fazia parte da paisagem doméstica de uma geração.

E havia aquele sabor.

Um sabor que hoje talvez seja difícil explicar a quem não o experimentou. Não era apenas refrescante. Era familiar. Tinha alguma coisa de infância, de casa, de toalha pendurada no banheiro, de manhã começando, de mãe chamando para a escola. O paladar também guarda fotografias.

Talvez seja por isso que certas marcas sobrevivam à própria existência.

Nas décadas de 1980 e 1990, a Kolynos chegou a deter cerca de 52% do mercado brasileiro de cremes dentais. Sua embalagem verde e amarela tornou-se imediatamente reconhecível, e suas campanhas publicitárias ajudaram a transformá-la em um símbolo do consumo brasileiro.

Eu fui uma dessas pessoas que cresceram com ela.

E continuei usando-a até que um dia ela simplesmente deixou de estar ali.

A saída não aconteceu porque os consumidores deixaram de gostar dela. Houve uma grande operação empresarial por trás de seu desaparecimento. Em 1995, a Colgate-Palmolive adquiriu a Kolynos. No Brasil, a operação despertou a preocupação das autoridades de defesa da concorrência porque, juntas, as duas marcas alcançariam 78,1% do mercado de cremes dentais.

Em 1996, o CADE aprovou a operação com restrições e determinou a suspensão da utilização da marca Kolynos por quatro anos, justamente para abrir espaço à concorrência.    Em 1997, ela foi retirada do mercado brasileiro. No ano seguinte, surgiu a Sorriso, que ocupou grande parte daquele espaço, para outros brasileiros, não para mim, que, como forma de protesto silêncios e solitário, jamais usei

Foi assim que uma marca que parecia destinada a permanecer para sempre se tornou lembrança. Mas o que as empresas conseguem retirar das prateleiras não conseguem, necessariamente, retirar da memória.

A Kolynos desapareceu do mercado, mas não desapareceu das pessoas.

Passaram-se quase três décadas.

E eis que, um dia, eu estava diante de uma gôndola de supermercado quando vi novamente aquelas cores. A edição limitada da Sorriso recuperava a identidade visual da antiga Kolynos e buscava justamente alcançar esse território delicado da memória afetiva. A proposta declarada pela própria empresa era aproximar antigas e novas gerações, resgatando o sabor que permanecera na lembrança de quem usou a marca.

E então compreendi que aquilo não era apenas uma estratégia de mercado.

Era também um reencontro.

Para quem nasceu depois, talvez seja apenas uma edição diferente de uma pasta de dentes. Para quem viveu a época, porém, ela pode funcionar como uma máquina do tempo miúda, dessas que cabem na mão e entram no carrinho de supermercado.

A sociedade mudou. As casas mudaram. As crianças cresceram. Algumas pessoas que dividiam conosco aquelas manhãs já partiram. Outras envelheceram. Muitas das casas onde a Kolynos esteve já não existem como antes.

Mas a memória permanece.

Talvez seja esse o verdadeiro poder de uma marca que atravessou gerações: ela deixa de ser apenas um nome comercial e passa a habitar a história cotidiana das pessoas.

A edição limitada toca justamente nesse lugar.

Ela não devolve a Kolynos que existiu. Devolve, por alguns instantes, a sensação de ter sido quem éramos quando ela existia.

Foi isso que senti diante daquela gôndola.

Olhei para a caixinha verde e amarela e, antes mesmo de pegá-la, já havia voltado no tempo.

Depois, senti o sabor.

E a infância, que eu julgava distante, voltou inteira.

Comprei.

Afinal, há lembranças que não queremos apenas recordar.

Às vezes, queremos levá-las para casa.


domingo, 6 de setembro de 2026

Agricultura, segurança e voto: por que estou de olho em Ronaldo Caiado

 Idosa não gosta de sair de casa à toa.

Pode até parecer preguiça para quem não conhece  e convive, mas não é. É prudência. A gente primeiro olha pela janela, vê se o tempo está firme, calcula a distância, pensa no sapato e só depois decide se vale a pena enfrentar o mundo.

Com eleição é quase a mesma coisa.

Ainda mais depois dos setenta.

Nessa idade, a gente já não é obrigada a votar, o que é uma maneira delicada que a vida encontrou de nos dizer: agora você vai se quiser. E eu gosto disso. Gosto de poder escolher até mesmo se vou sair de casa.

Por isso, para me tirar de casa num domingo de eleição, o candidato precisa me dar algum motivo.

Não basta dizer que vai melhorar a saúde, a educação, a segurança, a economia, a felicidade do povo e, se possível, o preço do tomate.

Isso todo mundo promete.

O que eu quero saber é como.

Foi pensando nisso que comecei a prestar atenção em Ronaldo Caiado.

Não porque tenha me apaixonado por candidato algum. Deus me livre. Depois de tantos anos de vida, já aprendi que paixão e política são duas coisas que convém manter a uma distância segura.

Mas algumas propostas dele me fizeram parar para ouvir.

Uma delas é o apoio ao agricultor.

Talvez quem mora em apartamento e compra tudo já embalado no supermercado não perceba, mas a comida não nasce na prateleira. Antes de chegar bonita, limpa e etiquetada, passou pela mão de alguém que acordou cedo, enfrentou sol, chuva, dívida, preço de insumo, estrada ruim e, muitas vezes, a incerteza de não saber quanto vai receber pela produção.

Eu gosto de gente que fala do agricultor.

Talvez porque Goiás seja dessas terras em que a gente ainda entende que café não nasce no supermercado e que leite não aparece espontaneamente dentro da caixinha.

Agricultura precisa de apoio, mas precisa também de segurança.

E aí entra outra questão que me interessa: a segurança pública.

Não adianta produzir se o agricultor não consegue dormir sossegado. Não adianta trabalhar, investir, plantar, criar gado, colher, transportar, se no meio do caminho aparece alguém para levar o fruto de meses — às vezes anos — de trabalho.

Segurança não é luxo.

É condição para trabalhar.

E talvez seja justamente aí que eu tenha encontrado alguma coisa diferente nas propostas de Caiado: a ideia de que produção e segurança não podem andar separadas, como se fossem assuntos de departamentos diferentes.

O agricultor precisa de terra para plantar, crédito para produzir, estrada para transportar e segurança para continuar fazendo tudo isso.

Parece simples.

Talvez por ser simples ninguém tenha muita paciência para explicar.

Mas eu tenho.

Depois de certa idade, a gente aprende a desconfiar das coisas complicadas demais. Se a proposta precisa de cinquenta palavras difíceis para explicar o que pretende fazer, talvez nem o candidato saiba direito.

Caiado não é minha primeira opção.

Faço questão de dizer.

Minha primeira opção continua sendo aquela que me convencer de que está falando sério, que conhece os problemas do país e que não vai apenas trocar as palavras de lugar para parecer que descobriu uma solução nova.

Mas, se a minha primeira escolha não estiver no caminho que eu considero correto, Caiado é minha segunda opção.

E isso, para uma eleitora que já tem mais de sete décadas de vida, não é pouca coisa.

Porque eu não voto mais por obrigação.

Voto se achar que vale a pena.

E há uma diferença enorme entre ser obrigada a votar e decidir levantar da cama porque alguém conseguiu despertar em você um pouco de esperança.

Ainda mais se for um dia chuvoso.

Porque, sejamos honestos: se estiver aquele chuvisco fino, insistente, que deixa a rua brilhando e o céu com cara de segunda-feira, eu vou pensar duas vezes.

Vou olhar pela janela.

Vou tomar meu café.

Vou talvez esperar a chuva diminuir.

E então vou lembrar que alguém precisa decidir o rumo das coisas.

Nesse caso, talvez eu procure meu guarda-chuva, calce um sapato que não escorregue e vá.

Primeiro, procurarei minha primeira opção.

Se não me convencer, já sei em quem pensar.

Caiado.

Minha segunda opção para enfrentar a chuva, a fila e mais uma eleição.

Porque depois dos setenta a gente não tem mais obrigação de fazer muita coisa.

Mas ainda tem o direito — e, quem sabe, a teimosia — de escolher em quem confiar.

 

Zema, por onde anda você? Uma eleitora procura seu candidato

 

Ano eleitoral. E uma das coisas de que eu mais gostava era o horário político gratuito no rádio e na televisão. Principalmente no rádio, que é menos exigente. Basta ligá-lo e deixá-lo ali, trabalhando por conta própria, enquanto a gente lava a louça, varre a casa, prepara o almoço ou simplesmente continua a vida.

A televisão é diferente. Ela exige presença. É preciso sentar diante dela, olhar para a tela, prestar atenção. O rádio, não. O rádio aceita a nossa ausência. É quase uma companhia doméstica.

Mas estou contando tudo isso porque perdi meu tempo de dona de casa e eleitora. Lavei a louça, ouvi o horário político e, no fim, não ouvi uma única proposta de trabalho que me parecesse confiável, viável, capaz de dar um pouco de alento a esta pobre eleitora de mais de sete décadas de vida.

Ouvi as mesmas palavras de sempre: melhorar a saúde, melhorar a educação, criar empregos, oferecer moradia.

Tudo muito bonito.

Mas como?

É justamente esse pequeno detalhe — o como — que parece desaparecer durante as eleições.

E houve uma ausência que me chamou atenção: a de Romeu Zema. Justamente ele, de quem eu pretendia ouvir as propostas antes de decidir se valeria a pena levantar cedo, vestir-me, enfrentar a manhã e ir até a zona eleitoral para dar meu voto de confiança.

Não sou mais obrigada a votar. A idade me concedeu esse pequeno privilégio de poder ficar em casa.

Mas eu iria.

Iria por vontade própria, porque votar, depois de tantos anos de vida, já não é apenas uma obrigação. Pode ser uma escolha consciente. Uma maneira de dizer: ainda estou aqui e ainda me importo com o que acontece neste país.

Mas, afinal, Zema, por onde anda você?

Comecei a desconfiar até de que ele fosse candidato.

Não vejo propaganda dele na internet. Não ouço no rádio. Minha televisão queimou com o último raio e, como o dinheiro anda curto, o conserto ficou para depois. Ainda bem que tenho o rádio,  tem a moça do tempo que, embora não resolva problema algum, pelo menos me faz companhia com suas conversas sobre o clima.

Antes das eleições, cheguei a ver alguns reels de Zema falando sobre uma questão que me chamou a atenção: o apagão de mão de obra na indústria e na agricultura, ao mesmo tempo em que existe um número enorme de adultos fortes, em idade de trabalhar, recebendo ajuda do governo.

É um assunto delicado.

Há pessoas que não querem um emprego formal porque têm medo de perder o benefício. Não querem registro, não querem contribuir para o INSS. E eu compreendo que uma pessoa pobre tenha medo de perder aquilo que garante sua sobrevivência.

Mas também fico pensando na conta.

Poucos trabalhando e contribuindo, muitos recebendo e alguns recebendo por toda a vida.

Uma hora a contabilidade não fecha.

E quando a conta não fecha, quem paga?

Essas são perguntas que eu gostaria de ouvir durante uma campanha eleitoral. Não apenas promessas de que tudo vai melhorar, porque melhorar é uma palavra muito fácil. Quero saber como. Quero ouvir números, caminhos, dificuldades, soluções possíveis. Quero que alguém tenha a coragem de dizer que certas coisas custam caro e que não existe governo capaz de distribuir dinheiro que não arrecadou.

Talvez eu esteja exigindo demais.

Afinal, sou apenas uma mulher com mais de setenta anos, sentada em casa, ouvindo rádio enquanto lava a louça.

Mas já vivi o suficiente para desconfiar de promessas muito bonitas.

E continuo procurando.

Procuro no rádio.

Procuro na internet.

Procuro até nas conversas da rua.

E há outra coisa que acho curiosa: essas pesquisas de opinião.

Sempre fui uma pessoa que ficou muito na rua. Andei, conversei, observei. E nunca fui abordada para responder a uma pesquisa eleitoral.

Ninguém me perguntou em quem pretendo votar.

Ninguém quis saber o que penso.

Talvez seja por isso que eu ainda tenha dúvidas.

Ou talvez seja simplesmente porque, no meio de tanta propaganda, tanta promessa e tanta pesquisa, às vezes uma eleitora só queira ouvir uma coisa muito simples:

“Este é o problema. Este é o custo. Este é o caminho que pretendo seguir.”

Aí, sim, eu levantaria cedo.

E iria votar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Lei da Viúva: depois de décadas de trabalho, os filhos podem perder o patrimônio construído pelos pais?

 


Há histórias de família que começam sem patrimônio algum. Começam, quase sempre, com duas pessoas, algumas esperanças e a disposição de trabalhar. Foi assim com meus pais.

Quando se casaram, não possuíam bens. Ao longo de aproximadamente sessenta anos de união, porém, construíram, com trabalho, esforço e economia, um patrimônio formado principalmente por imóveis. Não foi uma construção rápida, nem simples. Cada bem carregava um pouco da história da família: anos de sacrifício, renúncias, escolhas e, talvez, muitos sonhos adiados.

Quem olha apenas para os documentos pode enxergar casas, terrenos e valores. Mas quem viveu a história sabe que um patrimônio familiar não é feito somente de escritura. Ele também é feito de tempo. De portas abertas. De contas pagas com dificuldade. De filhos que cresceram acompanhando o esforço dos pais e, muitas vezes, também contribuíram para que aquilo fosse preservado.

Minha mãe faleceu, mas seu inventário não foi realizado. Meu pai permaneceu administrando os bens construídos ao longo da vida do casal. Seis anos depois, constituiu união estável com outra viúva, que já recebia pensão por morte do primeiro marido e também havia herdado uma casa dele.

Durante os doze anos em que viveram juntos, meu pai e sua companheira não adquiriram novos bens em conjunto. O patrimônio que existia, porém, não recebeu a manutenção necessária. Alguns imóveis se deterioraram. Com o passar do tempo, aquilo que havia sido construído em seis décadas foi perdendo valor. Quando meu pai faleceu, restava em sua conta bancária aproximadamente mil reais.

Essa realidade impõe uma pergunta incômoda: como preservar um patrimônio quando a vida muda, quando as pessoas mudam e quando novas relações passam a ocupar o espaço das antigas?

Depois da morte de meu pai, sua companheira pleiteou a meação sobre determinados bens sub-rogados e também o direito de concorrer na herança sobre bens particulares do falecido.

É nesse ponto que peço ao leitor que pare por um instante e imagine a cena.

Pense em um casal que começa sem nada. Pense em cinquenta ou sessenta anos de trabalho, economia e renúncias. Pense nos filhos que acompanharam essa trajetória, que cresceram dentro dela e que, de diferentes maneiras, também participaram da construção e da preservação desse patrimônio.

Agora imagine que, depois da morte de um dos cônjuges, uma pessoa que ingressou na família muitos anos mais tarde possa alcançar parte desses bens, concorrendo com os filhos que estiveram ligados à história de sua formação.

Seria justo?

A pergunta não nasce do desejo de desamparar quem sobrevive. A pessoa que permanece ao lado do falecido também pode ter vivido uma relação de afeto, cuidado e companheirismo. Também pode enfrentar a velhice, a solidão e as dificuldades financeiras. Sua proteção é legítima. Em muitos casos, é indispensável.

Mas proteger o cônjuge ou companheiro sobrevivente significa necessariamente permitir que essa proteção alcance bens particulares construídos antes da nova união? E quando existem filhos e outros herdeiros necessários diretamente ligados à origem desse patrimônio? Onde deve estar o limite entre a proteção de quem permanece vivo e o respeito à história de quem construiu?

            Talvez essa seja a questão que o debate sobre a chamada “Lei da Viúva” não possa ignorar.

Não se trata de transformar viúvas e filhos em adversários. Não se trata de negar dignidade a quem envelheceu ao lado do falecido. Trata-se de reconhecer que há diferenças entre o patrimônio construído durante uma união e aquele que já existia antes de uma nova relação.

A herança não é apenas uma transferência de bens. É também a continuidade de uma história. E, quando essa história começou muito antes da nova união, é preciso perguntar se os filhos não deveriam ter uma proteção especial sobre aquilo que seus pais construíram ao longo de décadas.

Há ainda outro aspecto que merece reflexão. Se os filhos perceberem que o patrimônio familiar, acumulado com esforço durante toda uma vida, poderá ser destinado, em determinadas circunstâncias, a um novo companheiro em concorrência com eles, isso poderá gerar insegurança. Poderá até desestimular sua participação na construção, na administração e na preservação dos bens da família.

Afinal, por que alguém se empenharia em manter uma casa, recuperar um imóvel ou ajudar a preservar um patrimônio se não soubesse qual será o destino desses bens no futuro?

 

É importante lembrar que existem instrumentos jurídicos e previdenciários destinados à proteção do companheiro ou cônjuge sobrevivente: testamento, seguro de vida, previdência privada e contribuição previdenciária, entre outros. Esses mecanismos podem contribuir para garantir proteção financeira na velhice e depois da morte do parceiro, sem necessariamente comprometer por completo o patrimônio particular formado antes da nova união.

Por isso, ao discutir esse projeto de lei, peço que também sejam ouvidos os filhos do primeiro casamento. Filhos que cresceram acompanhando a luta dos pais. Que viram o patrimônio ser construído pouco a pouco. Que muitas vezes abriram mão de oportunidades, tempo e recursos para ajudar a família. Filhos que não estão reivindicando apenas bens, mas o reconhecimento de uma história da qual também fazem parte.

No fundo, a discussão não deveria ser sobre escolher entre viúvas e filhos. A vida não precisa ser organizada como uma disputa entre quem merece e quem não merece. O desafio é encontrar um equilíbrio.

De um lado, a proteção necessária àquele que permanece vivo. De outro, o respeito ao patrimônio particular construído antes da nova união e aos direitos dos descendentes que estiveram ligados à sua formação.

Porque uma casa pode ser apenas uma casa para quem olha de fora. Para uma família, entretanto, ela pode representar sessenta anos de trabalho, esperança e sacrifício.

E quando chega o momento de dividir o que restou, talvez seja preciso olhar não apenas para quem está presente no fim da história, mas também para aqueles que estiveram presentes durante toda a sua construção.