quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Brasil venceu a fome? A realidade de quem ainda precisa contar o dinheiro para comer

 

Chegando mais um domingo de eleição. E lá vou eu, diante da difícil tarefa de escolher entre o ruim e o pior, tentando descobrir em qual deles ainda resta alguma esperança. Mesmo não sendo obrigada a votar, irei às urnas. Afinal, se não posso mudar o mundo, talvez possa, ao menos, tentar impedir que ele continue caminhando na direção errada. Gostaria que o futuro da nação encontrasse uma luz no fim do túnel — de preferência, antes que alguém resolva cobrar ingresso para vê-la.

Enquanto penso nos candidatos, minha memória me leva a um assunto bem menos grandioso do que as promessas de campanha, mas infinitamente mais urgente: a comida que chega à mesa do pobre.

Sempre fui pobre. Por isso, não preciso de estatísticas sofisticadas para falar das dificuldades de quem precisa fazer malabarismos com o dinheiro para chegar ao fim do mês. Tenho minha própria história, e ela me ensinou que a pobreza não se mede apenas pelo saldo bancário. Mede-se também pelo tempo que se perde trabalhando, pelas refeições que se substituem por lanches e pelos desejos que, de tanto serem adiados, acabam parecendo luxos.

Houve um tempo em que eu trabalhava em dois empregos para conseguir pagar as contas e fazer quatro refeições dignas por dia. Dinheiro na carteira, eu até tinha. O que me faltava era tempo para desfrutar daquilo que o dinheiro deveria proporcionar.

Eram quatro conduções por dia, que se multiplicavam entre terminais integrados, trens, baldeações e caminhadas apressadas. Eu atravessava a cidade para ganhar o sustento, enquanto o relógio parecia empenhado em me lembrar que a vida não esperava por ninguém. Quando chegava a hora de comer, quase sempre não havia uma mesa posta, mas um lanche improvisado, engolido entre uma obrigação e outra.

Eu tinha dinheiro para comprar comida, mas não tinha tempo para saboreá-la.

Um dia, resolvi fazer uma escolha: deixei um dos empregos. Queria recuperar um pouco da vida que passava depressa demais, sem que eu pudesse acompanhá-la. Ganhei tempo, é verdade. Mas o dinheiro diminuiu, e o supermercado passou a me ensinar uma nova modalidade de economia: comprar não aquilo de que se gosta, mas aquilo que cabe no bolso.

Aprendi a frequentar as prateleiras das promoções com a atenção de quem procura um tesouro. O produto preferido tornou-se secundário; o preço, esse sim, ganhou o privilégio de decidir. A liberdade de escolha, tão celebrada nos discursos, terminava diante da etiqueta vermelha.

Agora, mais velha, reduzi as despesas ao essencial. Faço três refeições por dia, e até o horário do jantar foi estrategicamente escolhido. Não se trata de organização alimentar, como talvez dissesse algum especialista. É uma questão de sobrevivência doméstica: preciso jantar tarde o suficiente para que o estômago não reclame muito antes de dormir.

E um copo de leite antes de deitar? Seria reconfortante. Mas, diante dos preços, até a simplicidade adquiriu ares de artigo de luxo.

É curioso como a vida nos ensina a diminuir os sonhos. Primeiro, queremos uma casa confortável. Depois, desejamos viajar, conhecer lugares, comprar roupas sem culpa. Com o tempo, se a renda não acompanha as necessidades, os sonhos vão encolhendo até caberem no orçamento.

O meu, hoje, é quase constrangedor de tão modesto: gostaria de fazer quatro refeições por dia, comendo o que gosto, e não apenas aquilo que posso pagar.

Gostaria de entrar numa pizzaria, escolher meu sabor preferido e pedir uma pizza sem precisar fazer contas mentais antes de chamar o garçom. Queria convidar amigos para jantar, preparar uma mesa variada, oferecer um café da tarde com bolo, biscoitos,  e outras pequenas delícias que tornam a convivência mais gostosa.

Mas o que tenho a oferecer?

Não é que me falte vontade de receber. Falta-me a folga financeira para transformar a vontade em realidade. E há uma tristeza discreta em perceber que, às vezes, a gente deixa de convidar as pessoas não por falta de afeto, mas por falta de condições de compartilhar aquilo que gostaria de colocar sobre a mesa.

A picanha, por exemplo, faz anos que não marca presença em minha casa. Talvez tenha encontrado residência mais confortável em algum programa eleitoral, onde aparece com frequência, acompanhada de promessas generosas e discursos suculentos. Na minha cozinha, porém, ela parece ter perdido o endereço.

Enquanto isso, ouvimos falar de governos populares, de avanços sociais e de vitórias históricas contra a fome. Reconheço que políticas públicas podem melhorar a vida de muita gente e que a pobreza não se combate apenas com discursos de oposição. Mas também me pergunto: se a fome foi vencida tantas vezes nos pronunciamentos oficiais, por que ainda há brasileiros que precisam organizar o dia em função da próxima refeição?

São milhares, talvez milhões, de pessoas que conhecem essa realidade de perto. Gente que trabalha, que trabalhou durante décadas, que pagou suas contas como pôde e que, na velhice, descobre que a aposentadoria nem sempre garante sequer a tranquilidade de comer sem preocupação.

A fome nem sempre aparece nas fotografias dramáticas que costumam ilustrar as campanhas de conscientização. Às vezes, ela mora numa casa arrumada, numa geladeira com o básico, numa despensa que dura até o fim do mês porque seu dono aprendeu a calcular cada porção. Não faz barulho nas ruas. Faz contas dentro de casa.

E há uma ironia dolorosa nisso tudo: o cidadão passa a vida trabalhando para conquistar o direito de viver com dignidade, mas, quando finalmente consegue algum tempo para si, descobre que lhe falta dinheiro para usufruí-lo. Trabalha para comer; depois, economiza na comida para pagar as contas. E, se ousa desejar um pouco mais, corre o risco de ser acusado pela própria consciência de estar querendo demais.

No domingo, diante da urna, pensarei em tudo isso.

Não espero que um presidente resolva, por decreto, todos os problemas do país. Sei que governar é complexo e que a pobreza tem raízes profundas. Mas espero, ao menos, que os candidatos compreendam que combater a fome não significa apenas garantir que alguém tenha alguma coisa para colocar no prato. Significa permitir que as pessoas comam o suficiente, com qualidade, sem viver permanentemente sob a ameaça de faltar.

Significa também devolver ao trabalhador e ao aposentado o direito de planejar a vida sem que cada desejo seja submetido a uma auditoria financeira.

Talvez eu esteja pedindo muito. Afinal, querer quatro refeições dignas, um café da tarde variado ou uma pizza do sabor preferido parece pouco diante das grandes questões nacionais. Mas é justamente aí que mora o problema: quando as necessidades básicas se tornam sonhos, alguma coisa está profundamente errada.

No próximo domingo, votarei com a esperança que ainda me resta e com a desconfiança que os anos me ensinaram a cultivar. Não quero escolher um salvador da pátria, muito menos acreditar em milagres de palanque. Quero escolher alguém que entenda que a economia de um país não se mede apenas por gráficos, índices e discursos comemorativos, mas também pelo que acontece nas cozinhas de seus cidadãos.

Porque a fome não desaparece só porque alguém anuncia sua extinção. E a dignidade não se conquista com um slogan.

Quanto a mim, continuarei fazendo minhas contas, escolhendo os produtos em promoção e adiando a pizza. Mas, ao apertar os números da urna, levarei comigo uma pergunta que não cabe em nenhum jingle eleitoral:

De que vale um país anunciar que venceu a fome se tantos brasileiros ainda precisam aprender a conviver com ela?

E, se algum candidato quiser conhecer a resposta, não precisa organizar uma grande cerimônia nem contratar uma pesquisa de opinião. Basta sentar-se à mesa de um aposentado, abrir a geladeira e perguntar o que ele gostaria de comer — e por que não come.

Talvez, nesse momento, descubra que o Brasil real não está apenas nos palanques, nas estatísticas ou nas promessas de prosperidade.

Está também no prato vazio de desejos que o dinheiro não permite realizar.

E eu, que já trabalhei tanto para ter uma vida melhor, ainda sonho com o dia em que poderei entrar numa pizzaria, escolher meu sabor preferido e comer sem fazer contas.

Não é um sonho grandioso. Mas, pelo preço das coisas e pela distância entre as promessas e a realidade, parece que estou exigindo um banquete presidencial.

sábado, 17 de outubro de 2026

O fio do bigode e os fios da Justiça

 


Quem o visse sentado à porta de casa, fumando seu cigarro de palha, na chácara à beira da estrada principal que levava ao Arraial da Saudade, ou abrindo a porteira com um largo sorriso para receber os visitantes, dificilmente deixaria de acreditar que estava diante de um homem de bem.

Afonso era hospitaleiro. Oferecia água fresca, café coado na hora e frutas da estação. Se alguém demonstrasse apreço por uma delas, logo providenciava uma sacolinha plástica para que levasse algumas para os que haviam ficado em casa. Tinha sempre uma palavra amável e parecia encontrar satisfação nas pequenas gentilezas da vida.

Na propriedade, havia seis vacas leiteiras, um cavalo e uma cabrita de natureza peralta e apetite voraz, que precisava ficar amarrada debaixo da mangueira para não devorar as plantas do quintal. Os cachorros eram numerosos, segundo ele, por necessidade de segurança da casa e das criações. Havia também galinhas carijós, garnisés, caipiras de pescoço pelado e, principalmente, galinhas-d’angola, com suas plumagens cinzentas salpicadas de branco. Algumas, mais raras, eram inteiramente brancas; do cruzamento entre elas nasceram aves mestiças, que despertavam a curiosidade dos visitantes.

As galinhas-d’angola não estavam ali apenas para alegrar as tardes com seu conhecido chamado — “Tô fraco, tô fraco!” —, mas também para trabalhar. Ciscavam o terreno, alimentavam-se de insetos e pequenas criaturas e, diante de movimentos suspeitos, faziam uma algazarra capaz de alertar os moradores. Naquele pequeno mundo, até as aves pareciam conhecer o seu ofício.

Ao nascer do sol, carros antigos, ciclistas e pedestres já apareciam à procura de leite fresco, tirado na hora e pago no fim do mês. Às sextas-feiras, os netos chegavam para passar o fim de semana com o avô. Cavalgavam, passeavam com a cabrita, empinavam pipas e, sobretudo, aprendiam a ajudá-lo nas tarefas cotidianas. Às quartas-feiras, Afonso também era voluntário na igreja.

Aparentemente, sua única preocupação era o filho, pouco afeito aos estudos e ao trabalho, que passava parte do ano privado de liberdade. Sobre isso, porém, quase ninguém falava. O rapaz não costumava criar problemas com os vizinhos, e o pai, aos olhos da comunidade, continuava sendo um homem respeitado.

Poucos sabiam de onde Afonso viera ou em que circunstâncias adquirira aquela propriedade. Ele costumava recordar, com gratidão, os antigos moradores que o haviam ajudado quando chegara à região. Havia, entretanto, um detalhe curioso: todos estavam mortos havia mais de trinta anos. Sem testemunhas vivas que pudessem contradizê-lo, sua versão dos acontecimentos foi sendo aceita como verdade.

Afonso parecia fazer parte da paisagem havia tanto tempo que ninguém se lembrava de perguntar como chegara até ali. Afinal, quem desconfiaria de um homem que oferecia café, repartia frutas e abria a porteira com um sorriso?

Mas toda porteira tem dois lados. E nem sempre quem está do lado de dentro tem o direito de ali permanecer.

Foi durante o velório de Afonso que uma história antiga voltou à superfície, como lava de um vulcão adormecido. O responsável pela preparação do corpo era o filho de Bastião, o antigo proprietário da chácara. Técnico em tanatopraxia, ele cumpria seu ofício com a discrição exigida pela ocasião. Enquanto preparava o corpo daquele homem que envelhecera e morrera na cadeira da varanda, ouviu comentários sobre a generosidade do falecido, sua vida de trabalho e o patrimônio que deixara.

Alguém comentou:

— Afonso foi um homem de sorte. Chegou aqui sem nada e construiu tudo o que tinha.

O técnico permaneceu calado. Aquelas palavras lhe atravessaram o peito como uma lembrança que jamais cicatrizara.

Sem interromper o trabalho, recordou-se de outra história, contada pelo pai muitas vezes, sempre com a mesma tristeza. Uma história que, durante anos, ele guardara em silêncio, como quem protege uma ferida para que ninguém volte a tocá-la.

Afinal, quem teria interesse em ouvir a versão de um homem que perdera a própria casa?

Anos antes, Afonso chegara à região com a família cansada, faminta e coberta de poeira. Ao avistar a chácara, então pertencente a Bastião, criou coragem e bateu à porta.

— Boa tarde, meu senhor. Desculpe incomodar. Estamos viajando há dias e precisamos de um lugar para passar a noite. Sou homem de serviço. Entendo de roça, de animais, de cerca e de tudo um pouco. Se o senhor souber de algum trabalho por aqui, agradeço.

Bastião, que vivia com  a esposa   e o filho de três anos compadeceu-se daquela família. Estava, inclusive, prestes a partir para o sertão goiano, onde recebera uma proposta para administrar uma carvoaria. Precisava de alguém que cuidasse da propriedade durante sua ausência.

A conversa avançou, e logo encontraram uma solução.

— Salário eu não tenho como pagar — explicou Bastião. — Mas posso deixar você tomando conta da chácara. Cuida das vacas, das galinhas, da plantação e conserva tudo em ordem. O que produzir nesse período fica para você e sua família. Também posso recomendar seus serviços aos parentes e conhecidos.

Afonso abriu um sorriso de alívio.

— O senhor não vai se arrepender. Pode confiar em mim.

Não assinaram contrato, não procuraram testemunhas, tampouco registraram o combinado em cartório. Selaram o acordo à moda antiga, com um aperto de mão e a palavra empenhada.

Era o chamado fio do bigode, expressão que, naquele tempo, simbolizava a honra de um homem: bastava a palavra, porque a consciência deveria valer mais do que qualquer papel.

Bastião partiu tranquilo, acreditando ter encontrado alguém em quem confiar. A ausência, inicialmente prevista para três anos, prolongou-se por quase dez. A vida na carvoaria não lhe trouxe a prosperidade esperada. Com a queda da atividade, centenas de trabalhadores perderam seus empregos. Entre eles estava Bastião, já debilitado pela pneumoconiose, doença pulmonar relacionada à inalação de poeiras do carvão.

Viúvo, doente e com o filho ainda jovem, decidiu retornar à chácara herdada do pai. Não imaginava que a maior dificuldade de sua vida o aguardava justamente no lugar que considerava seu lar.

Numa tarde fria e chuvosa, pai e filho chegaram à porteira. Antes mesmo que pudessem chamar, foram cercados pelos cachorros. Bastião, que mal conseguia sustentar o próprio corpo, apoiou-se no braço do filho.

Afonso apareceu com um pedaço de porrete na mão.

— Boa tarde, Afonso. Sou eu, Bastião. Finalmente voltei. A viagem foi longa, e a saúde não me ajudou. Vamos conversar lá dentro. - O outro não demonstrou surpresa. Pelo contrário, apertou o cabo do porrete e permaneceu diante da entrada.

— Não sei quem o senhor é. Esta propriedade é minha. Tenho escritura registrada em cartório. Se não forem embora, vou chamar a polícia.

Bastião ficou olhando para ele, tentando reconhecer naquele homem o mesmo sujeito a quem oferecera abrigo, trabalho e a oportunidade de recomeçar.

— Como assim, não me conhece? Foi comigo que o senhor combinou de cuidar da chácara! Eu lhe entreguei a casa, os animais e a terra porque precisava viajar. O acordo foi feito entre nós!

— O senhor está enganado. Encontrei tudo abandonado, cuidei do que havia aqui, fiz melhorias e paguei os impostos. A terra é minha.

— Mas nós apertamos as mãos! O senhor me deu sua palavra!

Afonso apontou para a estrada.

— Vá embora antes que eu chame a polícia.

Não houve conversa capaz de demover o homem que, anos antes, prometera não decepcionar seu benfeitor. Sem entender como um acordo tão claro em sua memória podia ser negado com tamanha firmeza, Bastião voltou à cidade com o filho. Naquela noite, dormiram na rodoviária. O frio, a umidade e a angústia agravaram o estado de saúde do antigo proprietário.

Ao amanhecer, Bastião procurou o irmão, Zezão, que o acolheu e o ajudou a buscar a reparação judicial. Foi então que a história encontrou outro obstáculo: como provar o acordo de tantos anos antes, se não havia documento, testemunha viva ou registro escrito que confirmasse a versão do homem?

Afonso apresentou sua escritura e sustentou que encontrara a propriedade abandonada, que pagara os impostos e realizara benfeitorias. Bastião, por sua vez, afirmava ter confiado a chácara aos cuidados de alguém que recebera em sua casa. A disputa não se resumia a saber quem havia trabalhado mais ou quem contava a história com maior convicção. Era preciso demonstrar os fatos por meios que pudessem ser reconhecidos no processo.

A lei brasileira admite, em determinadas condições, que a posse prolongada conduza à aquisição da propriedade por usucapião. Mas o simples decurso do tempo, o pagamento de tributos ou a realização de melhorias não bastam, isoladamente, para assegurar esse direito. A origem da posse, sua natureza e os demais requisitos legais precisam ser examinados. A posse que começa por permissão ou tolerância do proprietário, por exemplo, não se transforma automaticamente em posse apta à usucapião.

O acordo entre Bastião e Afonso, contudo, existira apenas na palavra de um e na negativa do outro. O que havia sido tratado como confiança, na vida cotidiana, tornou-se um problema de prova diante da Justiça. Bastião perdeu a causa.

Decepcionado, enfraquecido pela doença e sem forças para continuar lutando, morreu pouco tempo depois. Deixou o filho aos cuidados de Zezão, que o criou e o ajudou a se tornar um homem honesto. O rapaz aprendeu um ofício, construiu a própria vida e passou a cuidar das responsabilidades que lhe cabiam. Entretanto, havia uma herança que não constava em inventário algum: a mágoa de ter visto o pai perder a casa onde nascera e a terra que pertencera à família. No velório de Afonso, enquanto ouvia os elogios dirigidos ao morto, o filho de Bastião sentiu que chegara a hora de romper o silêncio.

Não desejava desrespeitar a morte nem transformar a despedida em espetáculo. Queria apenas que a história de seu pai deixasse de ser uma lembrança sem voz.

Ao encontrar um conhecido da região, disse, em tom baixo:

— O senhor sabia que esta chácara foi do meu pai?

O homem se espantou.

— Do seu pai? Mas Afonso dizia que a encontrou abandonada!

— Meu pai confiou nele. Deu-lhe abrigo, deixou a família dele morar aqui e entregou a propriedade aos seus cuidados. Meu pai acreditou na palavra de um homem. Quando voltou da carvoaria, ouviu que não era dono nem da própria história.

O interlocutor ficou em silêncio.

— Mas ele tinha escritura — arriscou dizer.

— Eu sei. E sei também que, quando meu pai procurou a Justiça, não conseguiu provar o acordo. Não estou dizendo que um juiz deva decidir com base apenas na palavra de alguém. Estou dizendo que, às vezes, a vida acontece de um jeito que é muito difícil de demonstrar depois. Meu pai perdeu a terra, mas nunca deixou de saber o que tinha combinado.

-Usucapião – disse baixando os olhos. Pela primeira vez, os elogios ao falecido pareciam insuficientes para explicar aquela história.

O técnico em tanatopraxia respirou fundo. Durante anos, imaginara como seria o dia em que contaria a verdade. Não sentia prazer em expor o passado de Afonso, tampouco desejava vingança. O que o movia era a necessidade de devolver ao pai aquilo que o tempo e a derrota judicial não haviam conseguido apagar: sua dignidade.

Naquela noite, compreendeu que o silêncio também pode perpetuar uma injustiça. A memória, quando encontra coragem para falar, não devolve necessariamente o que foi perdido, mas impede que a perda seja confundida com uma história de merecimento.

Afonso foi sepultado, e a chácara continuou à beira da estrada. As vacas precisavam ser ordenhadas, as galinhas continuavam ciscando e os cachorros ainda latiam para os visitantes. A vida, indiferente às histórias humanas, seguia seu curso.

Talvez os que passassem por ali continuassem vendo apenas um homem que trabalhara muito, criara os filhos e construíra um patrimônio. Outros, depois de conhecerem o relato de Bastião, passariam a enxergar também a família que perdera sua morada.

É fácil admirar o resultado quando desconhecemos o caminho percorrido. Uma propriedade bem cuidada, uma mesa farta e uma vida aparentemente tranquila podem esconder dores que jamais chegaram ao conhecimento público. E uma sentença judicial, necessária para resolver conflitos e preservar a segurança das relações, nem sempre consegue reconstituir integralmente aquilo que aconteceu entre quatro paredes ou sob o céu aberto de uma propriedade rural.

A Justiça não pode dispensar provas nem decidir apenas pela simpatia que uma história desperta. Mas a sociedade precisa compreender que a dificuldade de provar um fato não significa, necessariamente, que ele nunca tenha ocorrido. Por isso, documentos, contratos, testemunhas e registros não são inimigos da confiança: são formas de protegê-la.

Bastião confiara na palavra de um homem e não se preocupara em resguardar por escrito o próprio patrimônio. Talvez tenha cometido um erro, mas seu erro não apaga o valor da ajuda que ofereceu. Afonso, por sua vez, pôde sustentar sua versão diante das instituições; a verdade de Bastião não encontrou força suficiente para prevalecer no processo.

Quem poderá medir a extensão dessa perda? O valor da terra, as árvores plantadas, os anos de trabalho ou a humilhação de voltar à própria casa e ser tratado como intruso?

O filho de Bastião nunca encontrou resposta para essas perguntas. Durante muito tempo, acreditou que o silêncio o protegeria da dor. Depois compreendeu que calar também poderia condenar o pai a desaparecer da memória coletiva, enquanto o homem que o desamparara seria lembrado apenas por suas virtudes aparentes.

E decidiu contar.

Não para condenar novamente um morto, nem para substituir a decisão dos tribunais por um julgamento feito à beira de uma estrada. Contar para lembrar que a confiança exige responsabilidade, que a boa-fé merece proteção e que a dignidade de uma pessoa não pode ser medida apenas pelos bens que conseguiu acumular.

            Porque, no fim, o que resta de um homem não é somente a terra que possui, a casa que constrói ou a escritura que guarda. Resta, também, o modo como tratou aqueles que lhe estenderam a mão quando ele não tinha nada. O fio do bigode já não vale como garantia jurídica, mas a palavra empenhada continua sendo uma medida moral, ainda que não substitua as provas de que a Justiça precisa. E talvez resida aí a reflexão mais dolorosa desta história: quando a palavra perde o valor e a verdade não encontra meios de ser provada, não perde apenas aquele que ficou sem a terra. Perde também a comunidade, quando corre o risco de confundir esperteza com mérito e deixar que o silêncio transforme a injustiça em esquecimento.

Fim

 

 

 

domingo, 27 de setembro de 2026

A conta que não fecha

 


Está chegando mais um domingo de eleição para presidente da República. E, desta vez, vou votar.

Não porque ainda tenha aquela certeza antiga de que, diante da urna, existe sempre um candidato capaz de representar nossas esperanças. Essa certeza, confesso, anda meio desaparecida. Talvez tenha envelhecido junto conosco, depois de tantas promessas, tantos discursos e tantas vezes em que o futuro anunciado nunca chegou exatamente como nos foi prometido.

Vou votar porque, mesmo sem a obrigação, ainda acredito que não escolher também é uma escolha. E porque há coisas que já não consigo olhar com a mesma indiferença.

Olho para a educação e me pergunto quanto tempo levaremos para recuperar a qualidade que perdemos. Olho para a saúde e vejo pessoas esperando por atendimento, enquanto o discurso oficial continua falando em avanços. Olho para a violência, cada vez mais presente na conversa das famílias, e sinto que vivemos em permanente estado de alerta.

Mas, quando penso no futuro, existe uma preocupação que fala mais alto que todas as outras: a aposentadoria.

Quem já se aposentou sabe que tranquilidade não significa necessariamente segurança. O benefício chega todos os meses, mas junto com ele chegam também as contas, os medicamentos, o supermercado, a preocupação com os reajustes e aquela pergunta que ninguém gosta de fazer: até quando?

A conta da Previdência parece cada vez mais difícil de entender. Há menos trabalhadores contribuindo formalmente, enquanto aumenta a quantidade de pessoas que dependem da Previdência ou de programas de assistência. E, quando se ouve a reclamação de empregadores de que há trabalhadores que preferem permanecer na informalidade para não perder determinados benefícios, a preocupação fica ainda maior.

Não sou especialista em Previdência. Sou apenas alguém que olha para os números que aparecem nas notícias e tenta fazer uma conta simples: se há menos gente contribuindo e cada vez mais gente precisando receber, quem pagará essa conta amanhã?

É justamente aí que minha descrença nos candidatos aumenta.

Na televisão, todos parecem ter uma solução. Nas entrevistas, todos conhecem os problemas. Nos palanques, todos falam em futuro. Mas, quando procuro alguém disposto a encarar de frente a difícil matemática da Previdência, encontro mais silêncio do que respostas.

E existe uma ironia nisso tudo: o candidato que, aos meus olhos, parece tocar justamente nessa ferida aparece pouco nas pesquisas de intenção de voto. Os nomes que estão à frente, com possibilidade de chegar ao segundo turno, são justamente os que me fazem pensar duas vezes sobre o futuro de quem já trabalhou uma vida inteira.

Talvez seja essa a parte mais amarga de uma eleição: chegar diante da urna não com entusiasmo, mas com responsabilidade.

A gente não escolhe apenas pensando no próximo ano. Quem já se aposentou ou está perto disso pensa nos próximos dez, quinze, vinte anos. Pensa se o dinheiro continuará pagando as contas. Pensa se haverá médicos, remédios e atendimento. Pensa nos filhos e nos netos, que também poderão depender um dia de um sistema que hoje já parece apertado demais.

No fundo, não estou procurando um salvador.

Estou procurando alguém que tenha coragem de dizer a verdade, mesmo quando a verdade não rende aplausos.

Porque prometer é fácil.

Difícil é olhar para uma conta que não fecha e dizer, com clareza, quem vai pagar a diferença.

E talvez seja justamente por isso que, neste domingo, eu vá à urna não carregando esperança demais, mas carregando perguntas.

Algumas eleições começam assim: não pela certeza de quem escolher, mas pela certeza de que não podemos deixar de pensar no que está em jogo.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Kolynos: quando a infância volta pelo sabor


     Eu a vi na gôndola do supermercado.

Ali estava ela, ou quase ela: a velha Kolynos que acompanhou minha infância, minha adolescência e tantos anos da minha vida. Verde e amarela, como eu a guardava na memória, agora reaparecia em uma edição limitada da Sorriso, inspirada na embalagem e no sabor daquela que um dia desapareceu das prateleiras.

Por alguns segundos, fiquei olhando.

Há coisas que a gente pensa ter esquecido, até que um detalhe as devolva inteiras. Uma cor, um cheiro, uma música, uma embalagem. No meu caso, bastaram o verde e o amarelo da caixinha para que uma porta se abrisse dentro de mim. E, quando senti o sabor, foi como se o tempo tivesse dado uma volta silenciosa e me levado de volta à infância.

Não resisti.

Comprei.

Talvez para alguns fosse apenas uma pasta de dentes. Para mim, era uma pequena caixa de memórias.

A Kolynos havia nascido nos Estados Unidos, em 1908, criada pelo dentista Neal Jenkins. Chegou ao Brasil em 1917, inicialmente como produto importado, e, com o passar dos anos, tornou-se parte do cotidiano brasileiro. A fábrica instalada em São Paulo ajudou a ampliar seu alcance, e a marca atravessou décadas até se transformar em uma das mais conhecidas do país.

Eu, entretanto, não conheci essa história toda. Conheci a Kolynos como se conhecem as coisas que fazem parte da vida: sem perguntar de onde vieram, quem as inventou ou quanto tempo permaneceriam conosco.

Ela simplesmente estava ali.

Estava no banheiro de casa, na escovação antes de ir para a escola, nas manhãs apressadas, nas noites de sono. Estava na casa dos parentes, nas pequenas mercearias, nas prateleiras dos supermercados. A caixinha verde e amarela fazia parte da paisagem doméstica de uma geração.

E havia aquele sabor.

Um sabor que hoje talvez seja difícil explicar a quem não o experimentou. Não era apenas refrescante. Era familiar. Tinha alguma coisa de infância, de casa, de toalha pendurada no banheiro, de manhã começando, de mãe chamando para a escola. O paladar também guarda fotografias.

Talvez seja por isso que certas marcas sobrevivam à própria existência.

Nas décadas de 1980 e 1990, a Kolynos chegou a deter cerca de 52% do mercado brasileiro de cremes dentais. Sua embalagem verde e amarela tornou-se imediatamente reconhecível, e suas campanhas publicitárias ajudaram a transformá-la em um símbolo do consumo brasileiro.

Eu fui uma dessas pessoas que cresceram com ela.

E continuei usando-a até que um dia ela simplesmente deixou de estar ali.

A saída não aconteceu porque os consumidores deixaram de gostar dela. Houve uma grande operação empresarial por trás de seu desaparecimento. Em 1995, a Colgate-Palmolive adquiriu a Kolynos. No Brasil, a operação despertou a preocupação das autoridades de defesa da concorrência porque, juntas, as duas marcas alcançariam 78,1% do mercado de cremes dentais.

Em 1996, o CADE aprovou a operação com restrições e determinou a suspensão da utilização da marca Kolynos por quatro anos, justamente para abrir espaço à concorrência.    Em 1997, ela foi retirada do mercado brasileiro. No ano seguinte, surgiu a Sorriso, que ocupou grande parte daquele espaço, para outros brasileiros, não para mim, que, como forma de protesto silêncios e solitário, jamais usei

Foi assim que uma marca que parecia destinada a permanecer para sempre se tornou lembrança. Mas o que as empresas conseguem retirar das prateleiras não conseguem, necessariamente, retirar da memória.

A Kolynos desapareceu do mercado, mas não desapareceu das pessoas.

Passaram-se quase três décadas.

E eis que, um dia, eu estava diante de uma gôndola de supermercado quando vi novamente aquelas cores. A edição limitada da Sorriso recuperava a identidade visual da antiga Kolynos e buscava justamente alcançar esse território delicado da memória afetiva. A proposta declarada pela própria empresa era aproximar antigas e novas gerações, resgatando o sabor que permanecera na lembrança de quem usou a marca.

E então compreendi que aquilo não era apenas uma estratégia de mercado.

Era também um reencontro.

Para quem nasceu depois, talvez seja apenas uma edição diferente de uma pasta de dentes. Para quem viveu a época, porém, ela pode funcionar como uma máquina do tempo miúda, dessas que cabem na mão e entram no carrinho de supermercado.

A sociedade mudou. As casas mudaram. As crianças cresceram. Algumas pessoas que dividiam conosco aquelas manhãs já partiram. Outras envelheceram. Muitas das casas onde a Kolynos esteve já não existem como antes.

Mas a memória permanece.

Talvez seja esse o verdadeiro poder de uma marca que atravessou gerações: ela deixa de ser apenas um nome comercial e passa a habitar a história cotidiana das pessoas.

A edição limitada toca justamente nesse lugar.

Ela não devolve a Kolynos que existiu. Devolve, por alguns instantes, a sensação de ter sido quem éramos quando ela existia.

Foi isso que senti diante daquela gôndola.

Olhei para a caixinha verde e amarela e, antes mesmo de pegá-la, já havia voltado no tempo.

Depois, senti o sabor.

E a infância, que eu julgava distante, voltou inteira.

Comprei.

Afinal, há lembranças que não queremos apenas recordar.

Às vezes, queremos levá-las para casa.


domingo, 6 de setembro de 2026

Agricultura, segurança e voto: por que estou de olho em Ronaldo Caiado

 Idosa não gosta de sair de casa à toa.

Pode até parecer preguiça para quem não conhece  e convive, mas não é. É prudência. A gente primeiro olha pela janela, vê se o tempo está firme, calcula a distância, pensa no sapato e só depois decide se vale a pena enfrentar o mundo.

Com eleição é quase a mesma coisa.

Ainda mais depois dos setenta.

Nessa idade, a gente já não é obrigada a votar, o que é uma maneira delicada que a vida encontrou de nos dizer: agora você vai se quiser. E eu gosto disso. Gosto de poder escolher até mesmo se vou sair de casa.

Por isso, para me tirar de casa num domingo de eleição, o candidato precisa me dar algum motivo.

Não basta dizer que vai melhorar a saúde, a educação, a segurança, a economia, a felicidade do povo e, se possível, o preço do tomate.

Isso todo mundo promete.

O que eu quero saber é como.

Foi pensando nisso que comecei a prestar atenção em Ronaldo Caiado.

Não porque tenha me apaixonado por candidato algum. Deus me livre. Depois de tantos anos de vida, já aprendi que paixão e política são duas coisas que convém manter a uma distância segura.

Mas algumas propostas dele me fizeram parar para ouvir.

Uma delas é o apoio ao agricultor.

Talvez quem mora em apartamento e compra tudo já embalado no supermercado não perceba, mas a comida não nasce na prateleira. Antes de chegar bonita, limpa e etiquetada, passou pela mão de alguém que acordou cedo, enfrentou sol, chuva, dívida, preço de insumo, estrada ruim e, muitas vezes, a incerteza de não saber quanto vai receber pela produção.

Eu gosto de gente que fala do agricultor.

Talvez porque Goiás seja dessas terras em que a gente ainda entende que café não nasce no supermercado e que leite não aparece espontaneamente dentro da caixinha.

Agricultura precisa de apoio, mas precisa também de segurança.

E aí entra outra questão que me interessa: a segurança pública.

Não adianta produzir se o agricultor não consegue dormir sossegado. Não adianta trabalhar, investir, plantar, criar gado, colher, transportar, se no meio do caminho aparece alguém para levar o fruto de meses — às vezes anos — de trabalho.

Segurança não é luxo.

É condição para trabalhar.

E talvez seja justamente aí que eu tenha encontrado alguma coisa diferente nas propostas de Caiado: a ideia de que produção e segurança não podem andar separadas, como se fossem assuntos de departamentos diferentes.

O agricultor precisa de terra para plantar, crédito para produzir, estrada para transportar e segurança para continuar fazendo tudo isso.

Parece simples.

Talvez por ser simples ninguém tenha muita paciência para explicar.

Mas eu tenho.

Depois de certa idade, a gente aprende a desconfiar das coisas complicadas demais. Se a proposta precisa de cinquenta palavras difíceis para explicar o que pretende fazer, talvez nem o candidato saiba direito.

Caiado não é minha primeira opção.

Faço questão de dizer.

Minha primeira opção continua sendo aquela que me convencer de que está falando sério, que conhece os problemas do país e que não vai apenas trocar as palavras de lugar para parecer que descobriu uma solução nova.

Mas, se a minha primeira escolha não estiver no caminho que eu considero correto, Caiado é minha segunda opção.

E isso, para uma eleitora que já tem mais de sete décadas de vida, não é pouca coisa.

Porque eu não voto mais por obrigação.

Voto se achar que vale a pena.

E há uma diferença enorme entre ser obrigada a votar e decidir levantar da cama porque alguém conseguiu despertar em você um pouco de esperança.

Ainda mais se for um dia chuvoso.

Porque, sejamos honestos: se estiver aquele chuvisco fino, insistente, que deixa a rua brilhando e o céu com cara de segunda-feira, eu vou pensar duas vezes.

Vou olhar pela janela.

Vou tomar meu café.

Vou talvez esperar a chuva diminuir.

E então vou lembrar que alguém precisa decidir o rumo das coisas.

Nesse caso, talvez eu procure meu guarda-chuva, calce um sapato que não escorregue e vá.

Primeiro, procurarei minha primeira opção.

Se não me convencer, já sei em quem pensar.

Caiado.

Minha segunda opção para enfrentar a chuva, a fila e mais uma eleição.

Porque depois dos setenta a gente não tem mais obrigação de fazer muita coisa.

Mas ainda tem o direito — e, quem sabe, a teimosia — de escolher em quem confiar.