Eu a vi na gôndola do supermercado.
Ali estava ela, ou quase ela: a velha Kolynos que acompanhou minha infância, minha adolescência e tantos anos da minha vida. Verde e amarela, como eu a guardava na memória, agora reaparecia em uma edição limitada da Sorriso, inspirada na embalagem e no sabor daquela que um dia desapareceu das prateleiras.
Por alguns segundos, fiquei olhando.
Há coisas que a gente pensa ter esquecido, até que um detalhe as devolva inteiras. Uma cor, um cheiro, uma música, uma embalagem. No meu caso, bastaram o verde e o amarelo da caixinha para que uma porta se abrisse dentro de mim. E, quando senti o sabor, foi como se o tempo tivesse dado uma volta silenciosa e me levado de volta à infância.
Não resisti.
Comprei.
Talvez para alguns fosse apenas uma pasta de dentes. Para mim, era uma pequena caixa de memórias.
A Kolynos havia nascido nos Estados Unidos, em 1908, criada pelo dentista Neal Jenkins. Chegou ao Brasil em 1917, inicialmente como produto importado, e, com o passar dos anos, tornou-se parte do cotidiano brasileiro. A fábrica instalada em São Paulo ajudou a ampliar seu alcance, e a marca atravessou décadas até se transformar em uma das mais conhecidas do país.
Eu, entretanto, não conheci essa história toda. Conheci a Kolynos como se conhecem as coisas que fazem parte da vida: sem perguntar de onde vieram, quem as inventou ou quanto tempo permaneceriam conosco.
Ela simplesmente estava ali.
Estava no banheiro de casa, na escovação antes de ir para a escola, nas manhãs apressadas, nas noites de sono. Estava na casa dos parentes, nas pequenas mercearias, nas prateleiras dos supermercados. A caixinha verde e amarela fazia parte da paisagem doméstica de uma geração.
E havia aquele sabor.
Um sabor que hoje talvez seja difícil explicar a quem não o experimentou. Não era apenas refrescante. Era familiar. Tinha alguma coisa de infância, de casa, de toalha pendurada no banheiro, de manhã começando, de mãe chamando para a escola. O paladar também guarda fotografias.
Talvez seja por isso que certas marcas sobrevivam à própria existência.
Nas décadas de 1980 e 1990, a Kolynos chegou a deter cerca de 52% do mercado brasileiro de cremes dentais. Sua embalagem verde e amarela tornou-se imediatamente reconhecível, e suas campanhas publicitárias ajudaram a transformá-la em um símbolo do consumo brasileiro.
Eu fui uma dessas pessoas que cresceram com ela.
E continuei usando-a até que um dia ela simplesmente deixou de estar ali.
A saída não aconteceu porque os consumidores deixaram de gostar dela. Houve uma grande operação empresarial por trás de seu desaparecimento. Em 1995, a Colgate-Palmolive adquiriu a Kolynos. No Brasil, a operação despertou a preocupação das autoridades de defesa da concorrência porque, juntas, as duas marcas alcançariam 78,1% do mercado de cremes dentais.
Em 1996, o CADE aprovou a operação com restrições e determinou a suspensão da utilização da marca Kolynos por quatro anos, justamente para abrir espaço à concorrência. Em 1997, ela foi retirada do mercado brasileiro. No ano seguinte, surgiu a Sorriso, que ocupou grande parte daquele espaço, para outros brasileiros, não para mim, que, como forma de protesto silêncios e solitário, jamais usei
Foi assim que uma marca que parecia destinada a permanecer para sempre se tornou lembrança. Mas o que as empresas conseguem retirar das prateleiras não conseguem, necessariamente, retirar da memória.
A Kolynos desapareceu do mercado, mas não desapareceu das pessoas.
Passaram-se quase três décadas.
E eis que, um dia, eu estava diante de uma gôndola de supermercado quando vi novamente aquelas cores. A edição limitada da Sorriso recuperava a identidade visual da antiga Kolynos e buscava justamente alcançar esse território delicado da memória afetiva. A proposta declarada pela própria empresa era aproximar antigas e novas gerações, resgatando o sabor que permanecera na lembrança de quem usou a marca.
E então compreendi que aquilo não era apenas uma estratégia de mercado.
Era também um reencontro.
Para quem nasceu depois, talvez seja apenas uma edição diferente de uma pasta de dentes. Para quem viveu a época, porém, ela pode funcionar como uma máquina do tempo miúda, dessas que cabem na mão e entram no carrinho de supermercado.
A sociedade mudou. As casas mudaram. As crianças cresceram. Algumas pessoas que dividiam conosco aquelas manhãs já partiram. Outras envelheceram. Muitas das casas onde a Kolynos esteve já não existem como antes.
Mas a memória permanece.
Talvez seja esse o verdadeiro poder de uma marca que atravessou gerações: ela deixa de ser apenas um nome comercial e passa a habitar a história cotidiana das pessoas.
A edição limitada toca justamente nesse lugar.
Ela não devolve a Kolynos que existiu. Devolve, por alguns instantes, a sensação de ter sido quem éramos quando ela existia.
Foi isso que senti diante daquela gôndola.
Olhei para a caixinha verde e amarela e, antes mesmo de pegá-la, já havia voltado no tempo.
Depois, senti o sabor.
E a infância, que eu julgava distante, voltou inteira.
Comprei.
Afinal, há lembranças que não queremos apenas recordar.
Às vezes, queremos levá-las para casa.