Dizem que vivemos tempos líquidos. Não fui eu quem
disse — foi a ciência social, com seus termos elegantes para explicar o que o
coração já sente antes mesmo da cabeça entender. Tudo escorre: afetos,
vínculos, promessas. As relações, antes sólidas como o banco da praça onde se
sentavam velhos amigos, hoje evaporam como água ao sol do meio-dia.
E eu, que ainda insisto em guardar nomes, rostos e
histórias como quem guarda fotografias em caixa de sapato, me vejo deslocada —
um peixe fora d’água nadando em terra firme. Não por escolha estética, mas por
inaptidão prática: não sei habitar plenamente o mundo das telas. Minha
dificuldade com a tecnologia não é só técnica; é quase existencial. Falta-me o
instinto de substituir o toque pelo clique, o olhar pelo emoji, o silêncio
compartilhado por uma notificação.
Saio à tarde, como quem ainda acredita na antiga
liturgia da convivência: uma brisa leve, um banco qualquer, talvez um conhecido
que passe. Mas as praças estão vazias — ou pior, povoadas por ausências. Quando
há gente, há também um tipo curioso de invisibilidade: corpos presentes, almas
sequestradas por pequenas telas luminosas. Cada um agarrado ao próprio aparelho
como se ali estivesse não apenas o mundo, mas a razão última de existir.
A igreja, que antes reunia mais do que fé — reunia
gente — agora ecoa passos solitários. Até o silêncio perdeu sua função de
encontro.
Penso então: talvez na rodoviária ainda haja
resquícios de humanidade. Gente de passagem, gente simples, gente que ainda
acredita em dois dedos de prosa enquanto espera o ônibus atrasado. Sento-me
ali, invento a expectativa de alguém que não vem. Mas o cenário se repete, como
um experimento científico cujo resultado já se sabe de antemão: olhos baixos,
dedos inquietos, telas acesas. O mundo ao redor, apagado.
Tomo uma decisão quase dramática, mas profundamente
coerente com minha condição: vou ao posto de saúde. Velho sempre tem uma dor —
e, se não tem, inventa. Não pela dor em si, mas pela promessa de conversa.
Antes, a sala de espera era uma espécie de assembleia informal da vida:
trocavam-se histórias, receitas, queixas e até risadas. Hoje, nem isso. Cada
paciente isolado em seu pequeno universo digital, como se o aparelho fosse
capaz de curar não apenas as juntas, mas todas as mazelas da existência.
Desisto da consulta. Meu diagnóstico já estava
feito antes mesmo de entrar: solidão em meio à multidão conectada.
No mercado, busco apenas um lanche barato na
padaria — um gesto prático, sem grandes expectativas. Mas é ali, no lugar mais
improvável, que algo acontece. Uma ruptura silenciosa no fluxo líquido do
mundo.
Vejo uma mulher.
Simples, inteira, ocupando seu espaço com uma
naturalidade quase subversiva. Um filho agarrado à saia, outro nos braços. E
ela — amamentando. Sem pressa, sem constrangimento, sem pedir licença ao mundo.
Como se aquilo, de fato, fosse o que sempre foi: natural.
E talvez seja justamente isso que mais surpreende —
o natural ter se tornado raro.
Não havia celular em suas mãos. Nem nas do homem ao
seu lado, que logo percebo ser o pai das crianças. Quatro pessoas. Quatro
corpos presentes. Quatro existências ancoradas no instante.
Senti um leve temor — confesso. Não por eles, mas
pelo mundo ao redor. Pensei, com ironia quase trágica, que poderiam ser
confundidos com algo estranho, deslocado, quase extraterrestre. Afinal, em
tempos líquidos, a solidez de um gesto ancestral pode parecer uma anomalia.
Fiquei ali, olhando discretamente, como quem
testemunha um fenômeno raro. Porque era, de fato, raro: não o ato de amamentar,
mas o contexto em que ele acontecia. Um gesto que atravessa milênios,
sustentado por uma biologia precisa — hormônios, vínculos, sobrevivência — e,
ao mesmo tempo, carregado de uma simbologia que nenhuma tecnologia conseguiu
substituir.
A ciência explica a liquidez das relações modernas:
a velocidade das conexões, a descartabilidade dos vínculos, a constante busca
por novidade. Mas ali, diante de mim, havia uma outra ciência em ação — mais
antiga, mais silenciosa. A do corpo que nutre, do vínculo que se constrói no toque,
do tempo que desacelera para permitir que alguém simplesmente seja.
Talvez ainda haja resistência, pensei.
Não nas grandes revoluções, nem nos discursos
inflamados, mas nesses pequenos atos de permanência. Amamentar em público.
Estar junto sem mediação. Existir sem precisar ser traduzido em pixels.
Saí dali com o lanche nas mãos e uma estranha
sensação de esperança. Não a esperança grandiosa, que muda o mundo de uma vez,
mas aquela miúda, quase invisível — como o leite que alimenta, como o tempo que
insiste em não escorrer completamente pelos nossos dedos.
Talvez nem tudo esteja perdido.
Talvez ainda haja quem saiba permanecer.