Sadako Sasaki tinha dois anos quando a bomba atômica caiu sobre Hiroshima. Estava a cerca de dois quilômetros do lugar da explosão. Ao redor dela, muita gente morreu. Ela, porém, não sofreu nenhum ferimento que pudesse ser visto. Continuou vivendo como tantas outras crianças: cresceu, foi à escola, correu pelas ruas e aprendeu a alegria simples de estar entre os amigos.
Durante anos, ninguém poderia imaginar que aquela
menina, aparentemente saudável, carregava dentro de si uma lembrança invisível
daquela manhã.
Sadako era uma boa corredora. Corria depressa, e
seus colegas gostavam dela. No sétimo ano da escola, durante uma corrida em que
ajudou sua equipe a vencer, sentiu uma tontura e um cansaço que não pareciam
coisa de menina acostumada a correr. Depois vieram outras tonturas, cada vez
mais frequentes, até que um dia ela caiu e não conseguiu se levantar.
Os pais a levaram ao Hospital da Cruz Vermelha.
Foi então que veio a palavra que assustava tanto
naquela época: leucemia.
Muitos a chamavam de “doença da bomba atômica”.
Havia pouca esperança para aqueles que a contraíam. E Sadako, que ainda era uma
menina, precisou aprender cedo demais uma coisa que nenhuma criança deveria
aprender: que o corpo pode adoecer sem pedir licença e que há medos que entram
em uma casa e mudam o silêncio de todos.
No hospital, entretanto, Sadako continuou sendo
Sadako.
Sua melhor amiga, Chizuko, foi visitá-la e levou
papéis para dobrar. Foi assim que Sadako conheceu, ou voltou a ouvir, a antiga
lenda japonesa do tsuru, o grou. Diz a tradição que essa ave pode viver muitos
anos e que aquele que dobrar mil grous de papel terá um desejo realizado.
Talvez uma criança não precise de muita coisa para
acreditar.
Um pedaço de papel basta.
Sadako começou a dobrar.
Dobrou com os papéis que encontrava. Pediu pedaços
de papel aos funcionários do hospital, aos visitantes, aos amigos. O quarto foi
ficando cheio de pequenas aves coloridas. Cada uma parecia guardar um pouco de
esperança. Algumas eram grandes; outras, muito pequenas. E havia, entre todas
elas, uma menina que ainda acreditava que poderia voltar para casa.
Ela queria se curar.
Quando completou mil tsurus, fez seu pedido. Mas a
doença não foi embora.
E, mesmo assim, Sadako continuou dobrando.
Talvez porque a esperança, quando é verdadeira, não
desapareça simplesmente porque o primeiro pedido não foi atendido. Talvez
porque, a essa altura, aqueles pequenos pássaros já não fossem apenas uma
tentativa de escapar da doença. Eram uma maneira de continuar vivendo, de
pensar na família, nos amigos e em um mundo que ela desejava ver em paz.
Sadako passou a desejar também que sua família não
sofresse e que o mundo pudesse ser um lugar melhor.
Continuou dobrando até os últimos dias.
Em outubro de 1955, aos doze anos, Sadako morreu
cercada pela família.
Mais de mil tsurus haviam passado por suas pequenas
mãos.
É difícil imaginar uma criança de doze anos
dobrando papel enquanto a vida se vai tornando menor ao redor dela. Mas talvez
seja justamente essa imagem que permaneceu: não a de uma menina vencida pela
doença, mas a de uma criança que, diante de uma coisa enorme e terrível,
encontrou alguma coisa pequena que podia fazer.
Dobrar um
papel.
Depois
outro.
E outro.
Como se
cada tsuru dissesse: ainda estou aqui.
Depois de sua morte, os colegas de escola de Sadako
não quiseram que sua história terminasse com o silêncio de uma sala de
hospital. Eles haviam perdido outros amigos para a doença relacionada à
exposição à radiação da bomba. Reuniram-se, organizaram-se e começaram a
arrecadar dinheiro para construir um monumento em memória de Sadako e de todas
as crianças que morreram em consequência da guerra.
A ideia
cresceu muito além da escola.
Estudantes de milhares de escolas japonesas e de
outros países contribuíram. Em 5 de maio de 1958, quase três anos depois da morte
de Sadako, foi inaugurado, no Parque Memorial da Paz de Hiroshima, o Monumento
da Paz das Crianças.
No alto
da estátua, uma menina ergue um grande tsuru de papel.
É Sadako.
Ou talvez
seja todas as crianças.
Aos pés
do monumento, estão escritas palavras que atravessaram o tempo:
“Este é o
nosso grito.
Esta é a nossa oração.
Paz no mundo.”
Desde então, milhares de pessoas visitam aquele
lugar.
E eu penso que há histórias que não terminam quando
a pessoa morre. Algumas continuam vivendo nas mãos de quem as escuta.
Sadako morreu aos doze anos. Não teve tempo de
crescer, de correr outras corridas, de conhecer o mundo que ainda não conhecia.
Não pôde saber o que seus amigos fariam depois dela, nem que um dia crianças de
outros países conheceriam seu nome.
Mas os
pequenos pássaros de papel continuaram voando.
Não pelo
céu — porque papel não voa tão longe.
Voam de
mão em mão, de criança em criança, de uma geração para outra.
E talvez seja esse o milagre mais bonito da
história de Sadako: ela não conseguiu vencer a doença, mas conseguiu
transformar uma pequena dobradura em uma mensagem que o tempo não desfez.
Um tsuru
é apenas um pedaço de papel dobrado.
Mas,
quando uma criança o faz com esperança, ele pode carregar um desejo.
E quando
milhares de pessoas o fazem pela paz, já não é apenas papel.
É
memória.
É oração.