Acordei à uma hora da madrugada deste domingo, 25 de outubro de 2026, com o barulho de fogos de artifício, buzinas e vozes que atravessavam a rua fria. Um grupo de jovens, aparentemente na casa dos vinte anos, comemorava a candidatura do atual presidente. Alguns carregavam latinhas de cerveja, vestiam roupas leves para aquela madrugada e gritavam como se o destino do Brasil já estivesse resolvido.
Fiquei na cama, ouvindo a algazarra, e algumas
perguntas começaram a desfilar pela minha cabeça.
Onde estarão os pais desses jovens? O que
aprenderam na escola sobre política, história e sociologia? Será que
compreendem a diferença entre torcer por um candidato e entender as
responsabilidades de quem governa um país?
Caro leitor, antes que me acuse de implicância com
a juventude, faço uma ressalva: jovens têm o direito de comemorar, de defender
suas convicções e até de fazer barulho, dentro dos limites da convivência. A
idade não determina a qualidade de uma consciência política, assim como os
cabelos brancos não garantem sabedoria. O problema que me inquieta não é a
festa em si, mas a possibilidade de que a política esteja sendo reduzida a uma
disputa de paixões, na qual o adversário é tratado como inimigo e o candidato
preferido, como um salvador da pátria.
Afinal, governar um país é muito mais complicado do
que gritar um nome numa rua ou deslizar o dedo pela tela do celular.
E é justamente aí que começa minha preocupação.
Entre a juventude e a responsabilidade
Temos ouvido falar dos chamados jovens nem-nem:
aqueles que não estudam nem trabalham. A expressão é conhecida, mas a realidade
por trás dela é mais complexa do que sugere o apelido. Há quem enfrente
dificuldades para conseguir o primeiro emprego, quem precise cuidar de
familiares, quem tenha abandonado os estudos por razões econômicas e quem, de
fato, encontre dificuldades para assumir compromissos com a própria formação e
autonomia.
Não seria justo colocar todos no mesmo saco.
Tampouco seria sensato fingir que a falta de oportunidades, de qualificação e
de perspectivas profissionais não merece atenção.
Mas permitam-me uma pergunta incômoda: como
construiremos um país próspero se não conseguirmos aproximar nossos jovens do
estudo, do trabalho, da participação comunitária e da responsabilidade pela
própria vida?
Não se trata de exigir que todos sigam o mesmo
modelo de família, profissão ou existência. As famílias mudam, os costumes se
transformam e a sociedade democrática deve acolher diferentes modos de viver.
Trata-se, isso sim, de compreender que liberdade não significa ausência de
deveres e que os direitos individuais convivem com responsabilidades coletivas.
A família, qualquer que seja sua configuração, tem
um papel importante na formação dos filhos. A escola também. E a sociedade não
pode transferir toda a responsabilidade de educar para uma dessas instituições,
como se as demais estivessem dispensadas de participar.
A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 205,
estabelece que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família,
com a colaboração da sociedade. Não limita sua finalidade à transmissão de
conteúdos: inclui o pleno desenvolvimento da pessoa, a preparação para a
cidadania e a qualificação para o trabalho.
Ora, se a própria Constituição relaciona educação,
cidadania e trabalho, não deveríamos levar essa conexão mais a sério?
A história que esquecemos de
contar
Depois da barulhenta madrugada, veio a dificuldade
de dormir. Minha cabeça continuava presa a uma questão: será que estamos
ensinando às novas gerações a história das políticas públicas brasileiras com a
amplitude que ela merece?
Tenho a impressão de que, no debate cotidiano,
alguns governos acabam sendo lembrados por uma única medida, enquanto
iniciativas importantes de outros períodos desaparecem da memória coletiva. Sei
que a memória política é seletiva, mas a história de um país não deveria ser
escrita apenas pelas preferências partidárias de cada um.
Tomemos a Constituição de 1988, promulgada durante
o governo de José Sarney. Conhecida como Constituição Cidadã, ela foi resultado
de uma Assembleia Nacional Constituinte, formada por parlamentares, em um
processo de redemocratização. Sua importância não se resume ao governo em que
foi promulgada: representa uma mudança fundamental no reconhecimento de
direitos e garantias dos cidadãos.
O artigo 205 consagrou a educação como direito de
todos e dever do Estado e da família. Já o artigo 196 estabeleceu a saúde como
direito de todos e dever do Estado. São princípios que sustentam a compreensão
contemporânea dos direitos sociais no Brasil.
O Sistema Único de Saúde, por sua vez, não nasceu
de um único ato presidencial. Sua construção está ligada à Reforma Sanitária,
às discussões da Constituinte e à regulamentação promovida pelas Leis nº 8.080
e nº 8.142, de 1990, durante o governo de Fernando Collor. Reconhecer esse
percurso é mais justo do que atribuir toda a criação ou toda a responsabilidade
por um sistema complexo a uma única pessoa.
Na educação, o Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, o Fundef,
foi instituído pela Emenda Constitucional nº 14, de 1996, e regulamentado pela
Lei nº 9.424, daquele ano, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. O
fundo teve papel importante no financiamento do ensino fundamental e na
redistribuição de recursos entre estados e municípios.
E a política habitacional? Também não começou com o
programa Minha Casa, Minha Vida, lançado em 2009. Durante o governo de Eurico
Gaspar Dutra, foi criada, em 1946, a Fundação da Casa Popular. Em 1964, no
governo de Castelo Branco, surgiu o Banco Nacional da Habitação, o BNH, como
parte de uma estrutura de financiamento habitacional.
Isso não significa que todas essas políticas tenham
resolvido os problemas para os quais foram criadas. A existência de um programa
não elimina as falhas de sua execução, nem garante que os benefícios alcancem
todos os que precisam. É justamente por isso que devemos estudar seus
resultados, suas limitações e suas transformações ao longo do tempo.
Caro leitor, percebe a importância dessa memória?
Quando conhecemos a trajetória de uma política
pública, podemos reconhecer seus avanços, identificar seus fracassos e cobrar
melhorias de qualquer governo. Quando desconhecemos essa história, corremos o
risco de acreditar que tudo começou com o governante de nossa preferência e que
nada de relevante existiu antes dele.
A história, afinal, não é uma coleção de
propagandas eleitorais. É um patrimônio coletivo, feito de disputas,
conquistas, erros, correções e participação social.
A escola pode fazer mais?
É nesse ponto que volto à pergunta que me ocorreu
naquela madrugada: o que os jovens estão aprendendo sobre política?
Não espero que a escola determine em quem devem
votar, nem que transforme estudantes em defensores de uma ideologia. Espero
algo mais importante: que os ensine a investigar, comparar informações,
compreender as instituições, reconhecer direitos, identificar responsabilidades
e questionar promessas.
Uma educação política de qualidade não produz
necessariamente eleitores com as mesmas opiniões. Produz condições para que
pessoas diferentes possam justificar suas escolhas, ouvir argumentos contrários
e participar da vida pública com mais autonomia.
Mas seria correto atribuir à escola, sozinha, a
responsabilidade por eventuais falhas nessa formação? Creio que não. A
aprendizagem política acontece também em casa, nas conversas entre amigos, nos
meios de comunicação, nas redes sociais, nas igrejas, nas associações e nas
experiências concretas da vida comunitária.
A escola pode falhar, sim. Pode faltar formação
adequada para professores, tempo para aprofundar determinados temas ou espaço
para desenvolver o pensamento crítico. Porém, sem examinar currículos, práticas
pedagógicas e evidências, não podemos afirmar que toda uma geração desconhece a
história nacional ou que determinada escola deixou de cumprir sua função.
Precisamos de perguntas bem formuladas, não de
condenações antecipadas.
O salvador da pátria e a conta
que fica
Quando uma eleição termina, os fogos se apagam, as
bandeiras são guardadas e os discursos de vitória cedem lugar aos problemas
cotidianos. O preço dos alimentos continua entrando no orçamento doméstico. Os
pacientes continuam precisando de atendimento. Os professores continuam diante
de suas turmas. Os trabalhadores continuam precisando de emprego e os
aposentados continuam dependendo de renda suficiente para viver com dignidade.
E é aqui que a discussão deixa de ser abstrata para
mim.
Quem já se aposentou sabe que a vida não permite
recomeçar profissionalmente com a mesma facilidade de décadas atrás. As
despesas continuam chegando, os serviços públicos precisam funcionar e a
tranquilidade conquistada depois de tantos anos de trabalho não deveria
depender de promessas repetidas a cada eleição.
Por isso, quando ouço a comemoração em torno de um
candidato, pergunto-me se os eleitores também pensam no dia seguinte. Não
apenas no dia seguinte à posse, mas nos anos seguintes: no financiamento da
saúde, na qualidade da educação, na
sustentabilidade da Previdência, na geração de empregos e no equilíbrio das
contas públicas.
Essas questões exigem planejamento, dados, escolhas
difíceis e acompanhamento dos resultados. Não se resolvem com slogans, tampouco
com a crença de que um presidente, sozinho, poderá consertar tudo.
A Previdência, por exemplo, precisa ser discutida
com seriedade, considerando as receitas, as despesas, as mudanças demográficas,
o mercado de trabalho e as regras de proteção social. Preocupações com o futuro das aposentadorias são legítimas, mas
precisam ser avaliadas à luz de dados e propostas concretas, e não apenas de
impressões ou discursos eleitorais.
O mesmo vale para os programas sociais. É
necessário avaliar se alcançam quem precisa, quais resultados produzem, como
são financiados e de que maneira podem contribuir para que as pessoas ampliem
suas oportunidades. Proteger os mais vulneráveis e estimular a autonomia não
precisam ser objetivos incompatíveis.
Talvez a verdadeira maturidade política comece
quando deixamos de perguntar apenas o que o governo pode nos dar e passamos a
perguntar também como as políticas públicas podem produzir resultados
duradouros para toda a sociedade.
Isso não significa abandonar a cobrança por
direitos. Significa compreender que cidadania envolve tanto exigir o
cumprimento das obrigações do Estado quanto acompanhar, fiscalizar e avaliar a
maneira como os recursos públicos são utilizados.
E agora, caro leitor?
Naquela madrugada, enquanto os jovens comemoravam,
eu pensava na distância entre a alegria de uma vitória eleitoral e a
complexidade de governar o Brasil.
Talvez alguns daqueles rapazes e moças conheçam
profundamente a história política do país. Talvez tenham estudado as propostas
dos candidatos e decidido, conscientemente, manifestar seu apoio. Eu não tinha
como saber. O que vi foi apenas uma cena noturna; o restante eram perguntas que
eu fazia a mim mesma.
E essa distinção também importa. Não podemos exigir
pensamento crítico dos jovens enquanto nos recusamos a examinar criticamente
nossas próprias conclusões.
Ainda assim, permaneço convencida de que precisamos
conversar mais sobre a formação das novas gerações, a importância do trabalho,
a responsabilidade familiar, a participação comunitária e o conhecimento da
história. Não para obrigar todos a viver da mesma maneira, mas para que cada
pessoa tenha melhores condições de construir sua autonomia e compreender o
lugar que ocupa na sociedade.
Quero acreditar que a escola pode ensinar mais do
que fórmulas e datas; que as famílias podem oferecer mais do que sustento
material; que os partidos podem apresentar mais do que promessas; e que os
eleitores podem cobrar mais do que gestos de fidelidade.
Afinal, nenhum presidente é um salvador da pátria.
Governar é administrar interesses diferentes, respeitar as instituições,
executar políticas públicas, prestar contas e responder pelas escolhas feitas.
E nenhuma sociedade amadurece quando entrega a outros toda a responsabilidade
pelo seu futuro.
Quando os fogos se calam, começa a parte menos
festiva da democracia: acompanhar, cobrar, estudar e participar.
Caro leitor, talvez seja essa a lição que
deveríamos ensinar com mais empenho às novas gerações — e recordar também aos
mais velhos: o futuro de um país não cabe inteiro nas mãos de um governante,
nem pode ser construído apenas com a esperança depositada numa urna.
Ele depende, todos os dias, de cidadãos dispostos a
pensar, trabalhar, aprender, discordar e assumir sua parcela de
responsabilidade na vida coletiva.
E isso, convenhamos, dá muito mais trabalho do que
soltar fogos numa madrugada fria.