Chegando mais um domingo de eleição. E lá vou eu,
diante da difícil tarefa de escolher entre o ruim e o pior, tentando descobrir
em qual deles ainda resta alguma esperança. Mesmo não sendo obrigada a votar,
irei às urnas. Afinal, se não posso mudar o mundo, talvez possa, ao menos,
tentar impedir que ele continue caminhando na direção errada. Gostaria que o
futuro da nação encontrasse uma luz no fim do túnel — de preferência, antes que
alguém resolva cobrar ingresso para vê-la.
Enquanto penso nos candidatos, minha memória me
leva a um assunto bem menos grandioso do que as promessas de campanha, mas
infinitamente mais urgente: a comida que chega à mesa do pobre.
Sempre fui pobre. Por isso, não preciso de
estatísticas sofisticadas para falar das dificuldades de quem precisa fazer
malabarismos com o dinheiro para chegar ao fim do mês. Tenho minha própria
história, e ela me ensinou que a pobreza não se mede apenas pelo saldo bancário.
Mede-se também pelo tempo que se perde trabalhando, pelas refeições que se
substituem por lanches e pelos desejos que, de tanto serem adiados, acabam
parecendo luxos.
Houve um tempo em que eu trabalhava em dois
empregos para conseguir pagar as contas e fazer quatro refeições dignas por
dia. Dinheiro na carteira, eu até tinha. O que me faltava era tempo para
desfrutar daquilo que o dinheiro deveria proporcionar.
Eram quatro conduções por dia, que se multiplicavam
entre terminais integrados, trens, baldeações e caminhadas apressadas. Eu
atravessava a cidade para ganhar o sustento, enquanto o relógio parecia
empenhado em me lembrar que a vida não esperava por ninguém. Quando chegava a
hora de comer, quase sempre não havia uma mesa posta, mas um lanche improvisado,
engolido entre uma obrigação e outra.
Eu tinha dinheiro para comprar comida, mas não
tinha tempo para saboreá-la.
Um dia, resolvi fazer uma escolha: deixei um dos
empregos. Queria recuperar um pouco da vida que passava depressa demais, sem
que eu pudesse acompanhá-la. Ganhei tempo, é verdade. Mas o dinheiro diminuiu,
e o supermercado passou a me ensinar uma nova modalidade de economia: comprar
não aquilo de que se gosta, mas aquilo que cabe no bolso.
Aprendi a frequentar as prateleiras das promoções com
a atenção de quem procura um tesouro. O produto preferido tornou-se secundário;
o preço, esse sim, ganhou o privilégio de decidir. A liberdade de escolha, tão
celebrada nos discursos, terminava diante da etiqueta vermelha.
Agora, mais velha, reduzi as despesas ao essencial.
Faço três refeições por dia, e até o horário do jantar foi estrategicamente
escolhido. Não se trata de organização alimentar, como talvez dissesse algum
especialista. É uma questão de sobrevivência doméstica: preciso jantar tarde o
suficiente para que o estômago não reclame muito antes de dormir.
E um copo de leite antes de deitar? Seria
reconfortante. Mas, diante dos preços, até a simplicidade adquiriu ares de
artigo de luxo.
É curioso como a vida nos ensina a diminuir os
sonhos. Primeiro, queremos uma casa confortável. Depois, desejamos viajar,
conhecer lugares, comprar roupas sem culpa. Com o tempo, se a renda não
acompanha as necessidades, os sonhos vão encolhendo até caberem no orçamento.
O meu, hoje, é quase constrangedor de tão modesto:
gostaria de fazer quatro refeições por dia, comendo o que gosto, e não apenas
aquilo que posso pagar.
Gostaria de entrar numa pizzaria, escolher meu
sabor preferido e pedir uma pizza sem precisar fazer contas mentais antes de
chamar o garçom. Queria convidar amigos para jantar, preparar uma mesa variada,
oferecer um café da tarde com bolo, biscoitos, e outras pequenas delícias que tornam a
convivência mais gostosa.
Mas o que tenho a oferecer?
Não é que me falte vontade de receber. Falta-me a
folga financeira para transformar a vontade em realidade. E há uma tristeza
discreta em perceber que, às vezes, a gente deixa de convidar as pessoas não
por falta de afeto, mas por falta de condições de compartilhar aquilo que
gostaria de colocar sobre a mesa.
A picanha, por exemplo, faz anos que não marca
presença em minha casa. Talvez tenha encontrado residência mais confortável em
algum programa eleitoral, onde aparece com frequência, acompanhada de promessas
generosas e discursos suculentos. Na minha cozinha, porém, ela parece ter
perdido o endereço.
Enquanto isso, ouvimos falar de governos populares,
de avanços sociais e de vitórias históricas contra a fome. Reconheço que
políticas públicas podem melhorar a vida de muita gente e que a pobreza não se
combate apenas com discursos de oposição. Mas também me pergunto: se a fome foi
vencida tantas vezes nos pronunciamentos oficiais, por que ainda há brasileiros
que precisam organizar o dia em função da próxima refeição?
São milhares, talvez milhões, de pessoas que
conhecem essa realidade de perto. Gente que trabalha, que trabalhou durante
décadas, que pagou suas contas como pôde e que, na velhice, descobre que a
aposentadoria nem sempre garante sequer a tranquilidade de comer sem
preocupação.
A fome nem sempre aparece nas fotografias
dramáticas que costumam ilustrar as campanhas de conscientização. Às vezes, ela
mora numa casa arrumada, numa geladeira com o básico, numa despensa que dura
até o fim do mês porque seu dono aprendeu a calcular cada porção. Não faz
barulho nas ruas. Faz contas dentro de casa.
E há uma ironia dolorosa nisso tudo: o cidadão
passa a vida trabalhando para conquistar o direito de viver com dignidade, mas,
quando finalmente consegue algum tempo para si, descobre que lhe falta dinheiro
para usufruí-lo. Trabalha para comer; depois, economiza na comida para pagar as
contas. E, se ousa desejar um pouco mais, corre o risco de ser acusado pela
própria consciência de estar querendo demais.
No domingo, diante da urna, pensarei em tudo isso.
Não espero que um presidente resolva, por decreto,
todos os problemas do país. Sei que governar é complexo e que a pobreza tem
raízes profundas. Mas espero, ao menos, que os candidatos compreendam que
combater a fome não significa apenas garantir que alguém tenha alguma coisa
para colocar no prato. Significa permitir que as pessoas comam o suficiente,
com qualidade, sem viver permanentemente sob a ameaça de faltar.
Significa também devolver ao trabalhador e ao
aposentado o direito de planejar a vida sem que cada desejo seja submetido a
uma auditoria financeira.
Talvez eu esteja pedindo muito. Afinal, querer
quatro refeições dignas, um café da tarde variado ou uma pizza do sabor
preferido parece pouco diante das grandes questões nacionais. Mas é justamente
aí que mora o problema: quando as necessidades básicas se tornam sonhos, alguma
coisa está profundamente errada.
No próximo domingo, votarei com a esperança que
ainda me resta e com a desconfiança que os anos me ensinaram a cultivar. Não
quero escolher um salvador da pátria, muito menos acreditar em milagres de
palanque. Quero escolher alguém que entenda que a economia de um país não se
mede apenas por gráficos, índices e discursos comemorativos, mas também pelo
que acontece nas cozinhas de seus cidadãos.
Porque a fome não desaparece só porque alguém
anuncia sua extinção. E a dignidade não se conquista com um slogan.
Quanto a mim, continuarei fazendo minhas contas,
escolhendo os produtos em promoção e adiando a pizza. Mas, ao apertar os
números da urna, levarei comigo uma pergunta que não cabe em nenhum jingle
eleitoral:
De que vale um país anunciar que venceu a fome se
tantos brasileiros ainda precisam aprender a conviver com ela?
E, se algum candidato quiser conhecer a resposta,
não precisa organizar uma grande cerimônia nem contratar uma pesquisa de
opinião. Basta sentar-se à mesa de um aposentado, abrir a geladeira e perguntar
o que ele gostaria de comer — e por que não come.
Talvez, nesse momento, descubra que o Brasil real
não está apenas nos palanques, nas estatísticas ou nas promessas de
prosperidade.
Está também no prato vazio de desejos que o
dinheiro não permite realizar.
E eu, que já trabalhei tanto para ter uma vida
melhor, ainda sonho com o dia em que poderei entrar numa pizzaria, escolher meu
sabor preferido e comer sem fazer contas.
Não é um sonho grandioso. Mas, pelo preço das
coisas e pela distância entre as promessas e a realidade, parece que estou
exigindo um banquete presidencial.