domingo, 6 de setembro de 2026

Agricultura, segurança e voto: por que estou de olho em Ronaldo Caiado

 Idosa não gosta de sair de casa à toa.

Pode até parecer preguiça para quem não conhece  e convive, mas não é. É prudência. A gente primeiro olha pela janela, vê se o tempo está firme, calcula a distância, pensa no sapato e só depois decide se vale a pena enfrentar o mundo.

Com eleição é quase a mesma coisa.

Ainda mais depois dos setenta.

Nessa idade, a gente já não é obrigada a votar, o que é uma maneira delicada que a vida encontrou de nos dizer: agora você vai se quiser. E eu gosto disso. Gosto de poder escolher até mesmo se vou sair de casa.

Por isso, para me tirar de casa num domingo de eleição, o candidato precisa me dar algum motivo.

Não basta dizer que vai melhorar a saúde, a educação, a segurança, a economia, a felicidade do povo e, se possível, o preço do tomate.

Isso todo mundo promete.

O que eu quero saber é como.

Foi pensando nisso que comecei a prestar atenção em Ronaldo Caiado.

Não porque tenha me apaixonado por candidato algum. Deus me livre. Depois de tantos anos de vida, já aprendi que paixão e política são duas coisas que convém manter a uma distância segura.

Mas algumas propostas dele me fizeram parar para ouvir.

Uma delas é o apoio ao agricultor.

Talvez quem mora em apartamento e compra tudo já embalado no supermercado não perceba, mas a comida não nasce na prateleira. Antes de chegar bonita, limpa e etiquetada, passou pela mão de alguém que acordou cedo, enfrentou sol, chuva, dívida, preço de insumo, estrada ruim e, muitas vezes, a incerteza de não saber quanto vai receber pela produção.

Eu gosto de gente que fala do agricultor.

Talvez porque Goiás seja dessas terras em que a gente ainda entende que café não nasce no supermercado e que leite não aparece espontaneamente dentro da caixinha.

Agricultura precisa de apoio, mas precisa também de segurança.

E aí entra outra questão que me interessa: a segurança pública.

Não adianta produzir se o agricultor não consegue dormir sossegado. Não adianta trabalhar, investir, plantar, criar gado, colher, transportar, se no meio do caminho aparece alguém para levar o fruto de meses — às vezes anos — de trabalho.

Segurança não é luxo.

É condição para trabalhar.

E talvez seja justamente aí que eu tenha encontrado alguma coisa diferente nas propostas de Caiado: a ideia de que produção e segurança não podem andar separadas, como se fossem assuntos de departamentos diferentes.

O agricultor precisa de terra para plantar, crédito para produzir, estrada para transportar e segurança para continuar fazendo tudo isso.

Parece simples.

Talvez por ser simples ninguém tenha muita paciência para explicar.

Mas eu tenho.

Depois de certa idade, a gente aprende a desconfiar das coisas complicadas demais. Se a proposta precisa de cinquenta palavras difíceis para explicar o que pretende fazer, talvez nem o candidato saiba direito.

Caiado não é minha primeira opção.

Faço questão de dizer.

Minha primeira opção continua sendo aquela que me convencer de que está falando sério, que conhece os problemas do país e que não vai apenas trocar as palavras de lugar para parecer que descobriu uma solução nova.

Mas, se a minha primeira escolha não estiver no caminho que eu considero correto, Caiado é minha segunda opção.

E isso, para uma eleitora que já tem mais de sete décadas de vida, não é pouca coisa.

Porque eu não voto mais por obrigação.

Voto se achar que vale a pena.

E há uma diferença enorme entre ser obrigada a votar e decidir levantar da cama porque alguém conseguiu despertar em você um pouco de esperança.

Ainda mais se for um dia chuvoso.

Porque, sejamos honestos: se estiver aquele chuvisco fino, insistente, que deixa a rua brilhando e o céu com cara de segunda-feira, eu vou pensar duas vezes.

Vou olhar pela janela.

Vou tomar meu café.

Vou talvez esperar a chuva diminuir.

E então vou lembrar que alguém precisa decidir o rumo das coisas.

Nesse caso, talvez eu procure meu guarda-chuva, calce um sapato que não escorregue e vá.

Primeiro, procurarei minha primeira opção.

Se não me convencer, já sei em quem pensar.

Caiado.

Minha segunda opção para enfrentar a chuva, a fila e mais uma eleição.

Porque depois dos setenta a gente não tem mais obrigação de fazer muita coisa.

Mas ainda tem o direito — e, quem sabe, a teimosia — de escolher em quem confiar.

 

Zema, por onde anda você? Uma eleitora procura seu candidato

 

Ano eleitoral. E uma das coisas de que eu mais gostava era o horário político gratuito no rádio e na televisão. Principalmente no rádio, que é menos exigente. Basta ligá-lo e deixá-lo ali, trabalhando por conta própria, enquanto a gente lava a louça, varre a casa, prepara o almoço ou simplesmente continua a vida.

A televisão é diferente. Ela exige presença. É preciso sentar diante dela, olhar para a tela, prestar atenção. O rádio, não. O rádio aceita a nossa ausência. É quase uma companhia doméstica.

Mas estou contando tudo isso porque perdi meu tempo de dona de casa e eleitora. Lavei a louça, ouvi o horário político e, no fim, não ouvi uma única proposta de trabalho que me parecesse confiável, viável, capaz de dar um pouco de alento a esta pobre eleitora de mais de sete décadas de vida.

Ouvi as mesmas palavras de sempre: melhorar a saúde, melhorar a educação, criar empregos, oferecer moradia.

Tudo muito bonito.

Mas como?

É justamente esse pequeno detalhe — o como — que parece desaparecer durante as eleições.

E houve uma ausência que me chamou atenção: a de Romeu Zema. Justamente ele, de quem eu pretendia ouvir as propostas antes de decidir se valeria a pena levantar cedo, vestir-me, enfrentar a manhã e ir até a zona eleitoral para dar meu voto de confiança.

Não sou mais obrigada a votar. A idade me concedeu esse pequeno privilégio de poder ficar em casa.

Mas eu iria.

Iria por vontade própria, porque votar, depois de tantos anos de vida, já não é apenas uma obrigação. Pode ser uma escolha consciente. Uma maneira de dizer: ainda estou aqui e ainda me importo com o que acontece neste país.

Mas, afinal, Zema, por onde anda você?

Comecei a desconfiar até de que ele fosse candidato.

Não vejo propaganda dele na internet. Não ouço no rádio. Minha televisão queimou com o último raio e, como o dinheiro anda curto, o conserto ficou para depois. Ainda bem que tenho o rádio,  tem a moça do tempo que, embora não resolva problema algum, pelo menos me faz companhia com suas conversas sobre o clima.

Antes das eleições, cheguei a ver alguns reels de Zema falando sobre uma questão que me chamou a atenção: o apagão de mão de obra na indústria e na agricultura, ao mesmo tempo em que existe um número enorme de adultos fortes, em idade de trabalhar, recebendo ajuda do governo.

É um assunto delicado.

Há pessoas que não querem um emprego formal porque têm medo de perder o benefício. Não querem registro, não querem contribuir para o INSS. E eu compreendo que uma pessoa pobre tenha medo de perder aquilo que garante sua sobrevivência.

Mas também fico pensando na conta.

Poucos trabalhando e contribuindo, muitos recebendo e alguns recebendo por toda a vida.

Uma hora a contabilidade não fecha.

E quando a conta não fecha, quem paga?

Essas são perguntas que eu gostaria de ouvir durante uma campanha eleitoral. Não apenas promessas de que tudo vai melhorar, porque melhorar é uma palavra muito fácil. Quero saber como. Quero ouvir números, caminhos, dificuldades, soluções possíveis. Quero que alguém tenha a coragem de dizer que certas coisas custam caro e que não existe governo capaz de distribuir dinheiro que não arrecadou.

Talvez eu esteja exigindo demais.

Afinal, sou apenas uma mulher com mais de setenta anos, sentada em casa, ouvindo rádio enquanto lava a louça.

Mas já vivi o suficiente para desconfiar de promessas muito bonitas.

E continuo procurando.

Procuro no rádio.

Procuro na internet.

Procuro até nas conversas da rua.

E há outra coisa que acho curiosa: essas pesquisas de opinião.

Sempre fui uma pessoa que ficou muito na rua. Andei, conversei, observei. E nunca fui abordada para responder a uma pesquisa eleitoral.

Ninguém me perguntou em quem pretendo votar.

Ninguém quis saber o que penso.

Talvez seja por isso que eu ainda tenha dúvidas.

Ou talvez seja simplesmente porque, no meio de tanta propaganda, tanta promessa e tanta pesquisa, às vezes uma eleitora só queira ouvir uma coisa muito simples:

“Este é o problema. Este é o custo. Este é o caminho que pretendo seguir.”

Aí, sim, eu levantaria cedo.

E iria votar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Lei da Viúva: depois de décadas de trabalho, os filhos podem perder o patrimônio construído pelos pais?

 


Há histórias de família que começam sem patrimônio algum. Começam, quase sempre, com duas pessoas, algumas esperanças e a disposição de trabalhar. Foi assim com meus pais.

Quando se casaram, não possuíam bens. Ao longo de aproximadamente sessenta anos de união, porém, construíram, com trabalho, esforço e economia, um patrimônio formado principalmente por imóveis. Não foi uma construção rápida, nem simples. Cada bem carregava um pouco da história da família: anos de sacrifício, renúncias, escolhas e, talvez, muitos sonhos adiados.

Quem olha apenas para os documentos pode enxergar casas, terrenos e valores. Mas quem viveu a história sabe que um patrimônio familiar não é feito somente de escritura. Ele também é feito de tempo. De portas abertas. De contas pagas com dificuldade. De filhos que cresceram acompanhando o esforço dos pais e, muitas vezes, também contribuíram para que aquilo fosse preservado.

Minha mãe faleceu, mas seu inventário não foi realizado. Meu pai permaneceu administrando os bens construídos ao longo da vida do casal. Seis anos depois, constituiu união estável com outra viúva, que já recebia pensão por morte do primeiro marido e também havia herdado uma casa dele.

Durante os doze anos em que viveram juntos, meu pai e sua companheira não adquiriram novos bens em conjunto. O patrimônio que existia, porém, não recebeu a manutenção necessária. Alguns imóveis se deterioraram. Com o passar do tempo, aquilo que havia sido construído em seis décadas foi perdendo valor. Quando meu pai faleceu, restava em sua conta bancária aproximadamente mil reais.

Essa realidade impõe uma pergunta incômoda: como preservar um patrimônio quando a vida muda, quando as pessoas mudam e quando novas relações passam a ocupar o espaço das antigas?

Depois da morte de meu pai, sua companheira pleiteou a meação sobre determinados bens sub-rogados e também o direito de concorrer na herança sobre bens particulares do falecido.

É nesse ponto que peço ao leitor que pare por um instante e imagine a cena.

Pense em um casal que começa sem nada. Pense em cinquenta ou sessenta anos de trabalho, economia e renúncias. Pense nos filhos que acompanharam essa trajetória, que cresceram dentro dela e que, de diferentes maneiras, também participaram da construção e da preservação desse patrimônio.

Agora imagine que, depois da morte de um dos cônjuges, uma pessoa que ingressou na família muitos anos mais tarde possa alcançar parte desses bens, concorrendo com os filhos que estiveram ligados à história de sua formação.

Seria justo?

A pergunta não nasce do desejo de desamparar quem sobrevive. A pessoa que permanece ao lado do falecido também pode ter vivido uma relação de afeto, cuidado e companheirismo. Também pode enfrentar a velhice, a solidão e as dificuldades financeiras. Sua proteção é legítima. Em muitos casos, é indispensável.

Mas proteger o cônjuge ou companheiro sobrevivente significa necessariamente permitir que essa proteção alcance bens particulares construídos antes da nova união? E quando existem filhos e outros herdeiros necessários diretamente ligados à origem desse patrimônio? Onde deve estar o limite entre a proteção de quem permanece vivo e o respeito à história de quem construiu?

            Talvez essa seja a questão que o debate sobre a chamada “Lei da Viúva” não possa ignorar.

Não se trata de transformar viúvas e filhos em adversários. Não se trata de negar dignidade a quem envelheceu ao lado do falecido. Trata-se de reconhecer que há diferenças entre o patrimônio construído durante uma união e aquele que já existia antes de uma nova relação.

A herança não é apenas uma transferência de bens. É também a continuidade de uma história. E, quando essa história começou muito antes da nova união, é preciso perguntar se os filhos não deveriam ter uma proteção especial sobre aquilo que seus pais construíram ao longo de décadas.

Há ainda outro aspecto que merece reflexão. Se os filhos perceberem que o patrimônio familiar, acumulado com esforço durante toda uma vida, poderá ser destinado, em determinadas circunstâncias, a um novo companheiro em concorrência com eles, isso poderá gerar insegurança. Poderá até desestimular sua participação na construção, na administração e na preservação dos bens da família.

Afinal, por que alguém se empenharia em manter uma casa, recuperar um imóvel ou ajudar a preservar um patrimônio se não soubesse qual será o destino desses bens no futuro?

 

É importante lembrar que existem instrumentos jurídicos e previdenciários destinados à proteção do companheiro ou cônjuge sobrevivente: testamento, seguro de vida, previdência privada e contribuição previdenciária, entre outros. Esses mecanismos podem contribuir para garantir proteção financeira na velhice e depois da morte do parceiro, sem necessariamente comprometer por completo o patrimônio particular formado antes da nova união.

Por isso, ao discutir esse projeto de lei, peço que também sejam ouvidos os filhos do primeiro casamento. Filhos que cresceram acompanhando a luta dos pais. Que viram o patrimônio ser construído pouco a pouco. Que muitas vezes abriram mão de oportunidades, tempo e recursos para ajudar a família. Filhos que não estão reivindicando apenas bens, mas o reconhecimento de uma história da qual também fazem parte.

No fundo, a discussão não deveria ser sobre escolher entre viúvas e filhos. A vida não precisa ser organizada como uma disputa entre quem merece e quem não merece. O desafio é encontrar um equilíbrio.

De um lado, a proteção necessária àquele que permanece vivo. De outro, o respeito ao patrimônio particular construído antes da nova união e aos direitos dos descendentes que estiveram ligados à sua formação.

Porque uma casa pode ser apenas uma casa para quem olha de fora. Para uma família, entretanto, ela pode representar sessenta anos de trabalho, esperança e sacrifício.

E quando chega o momento de dividir o que restou, talvez seja preciso olhar não apenas para quem está presente no fim da história, mas também para aqueles que estiveram presentes durante toda a sua construção.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Os tsurus de Sadako

 

Sadako Sasaki tinha dois anos quando a bomba atômica caiu sobre Hiroshima. Estava a cerca de dois quilômetros do lugar da explosão. Ao redor dela, muita gente morreu. Ela, porém, não sofreu nenhum ferimento que pudesse ser visto. Continuou vivendo como tantas outras crianças: cresceu, foi à escola, correu pelas ruas e aprendeu a alegria simples de estar entre os amigos.

Durante anos, ninguém poderia imaginar que aquela menina, aparentemente saudável, carregava dentro de si uma lembrança invisível daquela manhã.

Sadako era uma boa corredora. Corria depressa, e seus colegas gostavam dela. No sétimo ano da escola, durante uma corrida em que ajudou sua equipe a vencer, sentiu uma tontura e um cansaço que não pareciam coisa de menina acostumada a correr. Depois vieram outras tonturas, cada vez mais frequentes, até que um dia ela caiu e não conseguiu se levantar.

Os pais a levaram ao Hospital da Cruz Vermelha.

Foi então que veio a palavra que assustava tanto naquela época: leucemia.

Muitos a chamavam de “doença da bomba atômica”. Havia pouca esperança para aqueles que a contraíam. E Sadako, que ainda era uma menina, precisou aprender cedo demais uma coisa que nenhuma criança deveria aprender: que o corpo pode adoecer sem pedir licença e que há medos que entram em uma casa e mudam o silêncio de todos.

No hospital, entretanto, Sadako continuou sendo Sadako.

Sua melhor amiga, Chizuko, foi visitá-la e levou papéis para dobrar. Foi assim que Sadako conheceu, ou voltou a ouvir, a antiga lenda japonesa do tsuru, o grou. Diz a tradição que essa ave pode viver muitos anos e que aquele que dobrar mil grous de papel terá um desejo realizado.

Talvez uma criança não precise de muita coisa para acreditar.

Um pedaço de papel basta.

Sadako começou a dobrar.

Dobrou com os papéis que encontrava. Pediu pedaços de papel aos funcionários do hospital, aos visitantes, aos amigos. O quarto foi ficando cheio de pequenas aves coloridas. Cada uma parecia guardar um pouco de esperança. Algumas eram grandes; outras, muito pequenas. E havia, entre todas elas, uma menina que ainda acreditava que poderia voltar para casa.

Ela queria se curar.

Quando completou mil tsurus, fez seu pedido. Mas a doença não foi embora.

E, mesmo assim, Sadako continuou dobrando.

Talvez porque a esperança, quando é verdadeira, não desapareça simplesmente porque o primeiro pedido não foi atendido. Talvez porque, a essa altura, aqueles pequenos pássaros já não fossem apenas uma tentativa de escapar da doença. Eram uma maneira de continuar vivendo, de pensar na família, nos amigos e em um mundo que ela desejava ver em paz.

Sadako passou a desejar também que sua família não sofresse e que o mundo pudesse ser um lugar melhor.

Continuou dobrando até os últimos dias.

Em outubro de 1955, aos doze anos, Sadako morreu cercada pela família.

Mais de mil tsurus haviam passado por suas pequenas mãos.

É difícil imaginar uma criança de doze anos dobrando papel enquanto a vida se vai tornando menor ao redor dela. Mas talvez seja justamente essa imagem que permaneceu: não a de uma menina vencida pela doença, mas a de uma criança que, diante de uma coisa enorme e terrível, encontrou alguma coisa pequena que podia fazer.

Dobrar um papel.

Depois outro.

E outro.

Como se cada tsuru dissesse: ainda estou aqui.

Depois de sua morte, os colegas de escola de Sadako não quiseram que sua história terminasse com o silêncio de uma sala de hospital. Eles haviam perdido outros amigos para a doença relacionada à exposição à radiação da bomba. Reuniram-se, organizaram-se e começaram a arrecadar dinheiro para construir um monumento em memória de Sadako e de todas as crianças que morreram em consequência da guerra.

A ideia cresceu muito além da escola.

Estudantes de milhares de escolas japonesas e de outros países contribuíram. Em 5 de maio de 1958, quase três anos depois da morte de Sadako, foi inaugurado, no Parque Memorial da Paz de Hiroshima, o Monumento da Paz das Crianças.

No alto da estátua, uma menina ergue um grande tsuru de papel.

É Sadako.

Ou talvez seja todas as crianças.

Aos pés do monumento, estão escritas palavras que atravessaram o tempo:

“Este é o nosso grito.
Esta é a nossa oração.
Paz no mundo.”

Desde então, milhares de pessoas visitam aquele lugar.

E eu penso que há histórias que não terminam quando a pessoa morre. Algumas continuam vivendo nas mãos de quem as escuta.

Sadako morreu aos doze anos. Não teve tempo de crescer, de correr outras corridas, de conhecer o mundo que ainda não conhecia. Não pôde saber o que seus amigos fariam depois dela, nem que um dia crianças de outros países conheceriam seu nome.

Mas os pequenos pássaros de papel continuaram voando.

Não pelo céu — porque papel não voa tão longe.

Voam de mão em mão, de criança em criança, de uma geração para outra.

E talvez seja esse o milagre mais bonito da história de Sadako: ela não conseguiu vencer a doença, mas conseguiu transformar uma pequena dobradura em uma mensagem que o tempo não desfez.

Um tsuru é apenas um pedaço de papel dobrado.

Mas, quando uma criança o faz com esperança, ele pode carregar um desejo.

E quando milhares de pessoas o fazem pela paz, já não é apenas papel.

É memória.

É oração.

sábado, 22 de agosto de 2026

O que fica depois de nós

Há certas conversas de família que começam falando de paredes, infiltrações e aluguéis, mas, quando a gente percebe, já estão falando de coisas muito maiores: responsabilidade, memória e do que faremos com aquilo que recebemos de quem veio antes de nós.

Quando sugeri ao inquilino que procurasse outro espaço, não foi por capricho. Havia água entrando pela fiação elétrica e chuva atravessando a sacada. A água, quando encontra a eletricidade, não entende de inventário, de partilha ou de parentesco. Ela simplesmente desce, e um dia pode levar consigo alguma coisa que não se conserta depois.

Por isso, o imóvel deveria permanecer vazio até que fossem feitas as adequações necessárias. Depois, com tudo em ordem, poderia voltar a ser alugado, pelo valor que o mercado determinar.

Na partilha, você poderá escolher esse imóvel para compor o seu quinhão. É uma escolha que talvez mereça ser pensada com calma, porque o segundo andar, voltado para a Rua das Flores Amarelas, tem uma valorização maior por metro quadrado. Há coisas que parecem apenas detalhes numa escritura, mas que, com o passar dos anos, tornam-se diferenças importantes.

Hoje, entretanto, você ocupa integralmente o térreo e o segundo andar. Talvez isso ultrapasse aquilo que lhe cabe. E, se houver cobrança de aluguel pelo espaço excedente, será mais prudente regularizar essa situação. Não precisamos acrescentar mais uma pedra ao caminho de um inventário que já encontrou pedras demais.

O térreo parece ser, por enquanto, o lugar mais seguro para você permanecer. Ali, atendendo às suas clientes, poderá continuar trabalhando, reunir recursos para as despesas e, sobretudo, evitar uma discussão futura sobre a extensão do seu quinhão.

Há ainda o IPTU, que já ultrapassa R$ 2.500,00 por unidade, além das contas de água e energia. O patrimônio não se sustenta sozinho. Uma casa abandonada se deteriora; um prédio sem cuidado envelhece depressa; e uma herança, quando não é tratada com zelo, pode transformar-se de lembrança em problema.

Zelar pelo patrimônio é dever de todas nós. Não basta receber as paredes; é preciso cuidar delas. A construção precisa oferecer condições  de habitabilidade  e se for necessário recorrer aos meios jurídicos para que essas adequações sejam realizadas, eles serão utilizados.

Mas existe uma razão maior que a lei.

Um dia, alguém herdará aquilo que hoje estamos decidindo. E talvez essa pessoa não saiba quantas conversas tivemos, quantos aborrecimentos enfrentamos ou quantas vezes uma de nós precisou insistir para que uma parede fosse reparada. Encontrará apenas o prédio — ou aquilo que tivermos feito dele.

Talvez essa seja a verdadeira medida de uma herança: não apenas o que recebemos, mas aquilo que conseguimos entregar.

Pesquisei também sobre a sua função na igreja e encontrei nela algo positivo, ligado à fraternidade, ao serviço e à construção do bem. E pensei que seria bonito se alguma dessas coisas pudesse atravessar a porta da igreja e chegar também à vida prática. Porque é fácil falar de paz quando estamos entre pessoas que concordam conosco. Mais difícil é construir a paz quando existem interesses diferentes, dinheiro envolvido e velhas mágoas sentadas à mesa.

Ainda assim, é justamente aí que ela tem algum valor.

Um prédio pode ser apenas um conjunto de paredes, portas e janelas. Ou pode ser o lugar onde uma família demonstra que aprendeu alguma coisa com a própria história.

Gostaria que escolhêssemos a segunda possibilidade.

Que o espaço herdado não seja motivo de disputa permanente, mas de cuidado. Que seja seguro para quem trabalha, digno para quem aluga e justo para quem herdará. Que as próximas gerações possam olhar para ele sem vergonha do que deixamos, mas com a tranquila sensação de que, apesar das nossas diferenças, soubemos preservar alguma coisa.

Porque uma herança não termina quando se assina a partilha.

Às vezes, ela começa ali.:::

terça-feira, 11 de agosto de 2026

As mulheres que incomodaram a história

 


Há mulheres que passam pela história.

E há mulheres que fazem a história tropeçar.

Talvez seja por isso que algumas nunca tenham recebido o devido reconhecimento enquanto estavam vivas. A sociedade costuma ser generosa com mulheres depois que elas morrem. Mortas, tornam-se homenagens. Fotografias. Nomes de ruas. Estátuas. Frases bonitas.

Vivas, entretanto, incomodam.

Dona Beja incomodou.

Cora Coralina incomodou.

Nise da Silveira incomodou.

Irena Sendler incomodou.

Zilda Arns incomodou.

Joenia Wapichana incomodou.

Maninha Xucuru-Kariri incomodou.

Cada uma à sua maneira, em seu tempo, em seu território, enfrentou alguma espécie de porta fechada.

E talvez seja justamente aí que essas histórias deixem de pertencer ao passado.

Porque as portas continuam existindo.

Mudaram apenas de aparência.

Dona Beja aprendeu cedo que uma mulher pode ser vítima e, ainda assim, ser julgada como culpada.

Aos quinze anos, depois de uma história de violência e abandono, voltou para Araxá. Mas a sociedade não enxergou primeiro a menina que havia sofrido. Preferiu enxergar a mulher bonita, sedutora, perigosa.

É uma velha habilidade social: quando não sabemos o que fazer com a dor de uma mulher, transformamos sua dor em culpa.

Dona Beja sobreviveu.

E sobreviveu de uma maneira que não cabia exatamente nos moldes que esperavam dela. Construiu sua trajetória, criou as filhas, mudou-se para Bagagem e seguiu a vida. Hoje, seu nome está definitivamente ligado à memória de Araxá.

Talvez a história tenha tentado transformá-la em lenda porque não soube lidar com a mulher.

Cora Coralina nos ensina outra coisa: o tempo também pode ser um preconceito.

Quem disse que uma pessoa precisa realizar seus sonhos aos vinte, trinta ou quarenta anos?

Cora publicou seu primeiro livro aos 75.

Setenta e cinco.

Há algo quase insolente nessa idade para quem vive numa sociedade que transforma juventude em passaporte para tudo.

Cora chegou tarde?

Não.

Chegou quando pôde.

E talvez essa seja uma das maiores crueldades que cometemos contra nós mesmos: acreditar que perdemos o momento certo simplesmente porque ainda não aconteceu.

Nise da Silveira também poderia ter escolhido o caminho mais confortável.

Não escolheu.

Foi uma das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil e a única mulher entre 157 homens de sua turma. Mais tarde, enfrentou perseguição política, prisão e um sistema psiquiátrico que ela ajudaria a transformar.

Em vez de enxergar apenas doença, procurou enxergar pessoas.

Em vez de aceitar respostas prontas, procurou outras possibilidades.

E talvez seja justamente isso que mais assuste numa mulher: uma mulher que pensa por conta própria.

 

Irena Sendler fez o que parecia impossível em um dos períodos mais sombrios da humanidade. Zilda Arns transformou o cuidado com crianças pobres em uma grande ação social.

Uma enfrentou a guerra.

Outra enfrentou a miséria.

Nenhuma das duas tinha o luxo de esperar que o mundo melhorasse sozinho.

E talvez seja essa a parte mais difícil de admitir:

O mundo quase nunca muda porque alguém pediu educadamente.

Muda porque alguém insistiu.

Joenia Wapichana e Maninha Xucuru-Kariri acrescentam outra camada a essa história.

Porque há mulheres que precisam lutar não apenas contra o machismo, mas também contra o preconceito, contra o apagamento de seus povos e contra a velha ideia de que alguns lugares pertencem naturalmente a determinadas pessoas.

Joenia chegou ao Direito, ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso.

Maninha liderou a defesa do território e da identidade de seu povo.

São histórias que lembram uma coisa elementar, embora frequentemente esquecida: representação não é favor.

É direito.

E nós?

Nós continuamos aqui.

Na segunda-feira, reclamando do trânsito.

Na terça, cansados.

Na quarta, adiando alguma decisão.

Na quinta, prometendo que amanhã será diferente.

Na sexta, fazendo contas para descobrir onde foi parar a semana.

E talvez seja justamente nesse cotidiano aparentemente pequeno que essas mulheres tenham alguma coisa a nos dizer.

Não precisamos salvar uma cidade.

Não precisamos entrar para os livros de história.

Não precisamos ser extraordinários.

Mas talvez precisemos parar de aceitar como destino aquilo que é apenas repetição.

Há uma diferença enorme entre não poder mudar e ter medo de mudar.

Entre estar preso e permanecer na mesma porta porque ela se tornou conhecida.

Entre não ter escolha e não querer pagar o preço de escolher.

Talvez seja essa a parte amarga de lembrar mulheres como Cora, Nise, Zilda, Irena, Joenia, Maninha e tantas outras.

Elas nos tiram algumas desculpas.

Porque, quando alguém atravessa uma época inteira lutando contra o impossível, fica um pouco mais difícil justificar nossa própria acomodação.

Mas não é uma cobrança.

É um convite.

O passado não precisa ser uma sentença.

Pode ser apenas um lugar de onde finalmente aprendemos alguma coisa.

A semana vai terminar.

Outra vai começar.

E nós continuaremos repetindo os mesmos gestos, as mesmas reclamações, os mesmos medos, se nada fizermos.

Ou podemos experimentar uma pequena desobediência.

Uma conversa que nunca tivemos.

Um projeto que sempre adiamos.

Uma porta que finalmente abrimos.

Uma vida que decidimos começar a viver de maneira diferente.

Talvez seja isso que essas mulheres deixaram como herança.

Não a obrigação de sermos heroicos.

Mas a coragem de não sermos completamente submissos às circunstâncias.

Porque algumas mulheres passaram pela história.

Outras enfrentaram a história.

E algumas tiveram a ousadia de dizer que a história estava errada.

Talvez seja por isso que ainda falamos delas.

E talvez seja por isso que, nesta semana, devêssemos prestar atenção não apenas às mulheres que mudaram o mundo.

Mas àquela mulher — conhecida ou desconhecida — que, em algum lugar, está tentando mudar o próprio mundo.

Às vezes, é assim que uma revolução começa.

Sem plateia.

Sem aplausos.

Numa manhã qualquer.

Quando alguém finalmente decide:

“A minha história não precisa terminar onde disseram que terminaria.”

 

domingo, 26 de julho de 2026

Não foi o show da Xuxa que mais me emocionou. Foi o tempo.

 Há uma realidade pouco comentada na vida daqueles que não nasceram em berço esplêndido: a existência parece dividir-se em três grandes movimentos.

Na juventude, dispõe-se de tempo e energia, mas falta o recurso financeiro para realizar muitos sonhos. Durante a vida laboral, conquista-se certa estabilidade econômica e conserva-se boa parte da disposição física, porém o tempo torna-se escasso, consumido pelas responsabilidades profissionais e familiares. Finalmente, chega a tão almejada aposentadoria. Recupera-se o tempo; com planejamento e disciplina, é possível administrar as finanças. Entretanto, aquilo que a juventude oferecia em abundância — a energia física — já não responde da mesma maneira. Muitos desejos permanecem vivos, mas o corpo passa a impor seus próprios limites.

Durante toda a minha vida, sonhei em assistir a um show da Xuxa. Quando era jovem, faltava dinheiro. Na fase adulta, faltava tempo. Hoje, disponho de tempo e, com algum esforço, conseguiria custear a viagem e o ingresso. Contudo, faltou-me a disposição física para permanecer durante horas em pé, em meio a milhares de pessoas, acompanhando um espetáculo de grande intensidade sonora e visual.

Restou-me, então, aguardar a transmissão disponibilizada no YouTube, plataforma que, de certo modo, cumpre atualmente um papel semelhante ao que a televisão aberta desempenhou durante décadas: democratizar o acesso à cultura para aqueles que, por diferentes razões, não conseguem vivenciar presencialmente os grandes eventos.


Assisti ao espetáculo integralmente e terminei com um sentimento de frustração.


Talvez justamente por pertencer à geração que acompanhou praticamente todos os especiais de fim de ano da artista, eu carregasse uma expectativa muito específica: reencontrar, ainda que por algumas horas, a atmosfera musical que marcou minha infância.

O que encontrei, porém, foi uma proposta estética bastante diferente.

Os novos arranjos privilegiaram uma linguagem pop contemporânea, sustentada por uma base rítmica constante e por uma pulsação eletrônica praticamente uniforme durante grande parte do espetáculo. Do ponto de vista técnico, houve uma homogeneização do material musical. A predominância do mesmo groove, da mesma levada rítmica e de uma instrumentação semelhante reduziu o contraste entre as canções. Consequentemente, músicas originalmente construídas sobre identidades melódicas e harmônicas muito distintas passaram a apresentar sonoridades excessivamente próximas entre si.

Em diversos momentos, tive a sensação de ouvir uma única música em sequência, exigindo atenção para perceber que apenas a letra havia mudado.

Essa impressão não decorre da qualidade das composições, mas da padronização dos arranjos. A riqueza da obra da Xuxa sempre esteve justamente na variedade de atmosferas musicais: havia canções contemplativas, marchinhas, baladas, músicas de roda, influências da música latina e do pop infantil dos anos 1980 e 1990. Quando essas diferenças são reduzidas em favor de uma única estética sonora, perde-se parte da identidade individual de cada composição.


Foi exatamente isso que senti ao ouvir Boto Rosa.


Na gravação original, a canção possui uma linha melódica delicada, com caráter quase narrativo, que favorece a imaginação e reforça o clima lúdico da história. No espetáculo, entretanto, o arranjo transformou essa atmosfera em uma versão predominantemente dançante, marcada por batidas fortes e andamento voltado para a participação coletiva do público.

Naturalmente, compreendo a intenção artística. Em grandes shows contemporâneos, busca-se manter elevada energia cênica, favorecendo a interação do público, que canta, dança e acompanha os comandos do artista. Entretanto, essa escolha acabou sacrificando justamente aquilo que tornava a música memorável para quem cresceu ouvindo a versão original.

Outro aspecto que me incomodou foi o excesso de recursos visuais.

A tecnologia deve ampliar a presença do artista, nunca competir com ela. Em vários momentos, projeções, efeitos gráficos, jogos de luz e sobreposições de imagens pareciam disputar a atenção do espectador com a própria protagonista. A impressão era de que a artista desaparecia em meio ao espetáculo tecnológico.

Paradoxalmente, a maior estrela da noite acabou sendo, em alguns instantes, ofuscada pelos efeitos destinados a valorizá-la.

Para aqueles que acompanharam sua trajetória desde os primeiros programas televisivos, bastaria sua presença, seu sorriso, sua espontaneidade e sua capacidade singular de estabelecer uma conexão afetiva com o público.

A entrada e entraa da nave foi foi profundamete emocinante.

Durante décadas, ela representou um dos símbolos mais marcantes do imaginário infantil brasileiro. Contudo, a opção por fazê-la descer suspensa por cabos rompeu, para mim, parte da magia construída ao longo dos anos. Na memória afetiva de toda uma geração, a nave possuía um ritual próprio: a porta se abria, Xuxa surgia, embarcava novamente e partia, preservando a fantasia que sempre acompanhou aquele universo.

Percebi, então, que a frustração de não ter conseguido comparecer ao espetáculo foi substituída por outra, inesperada: a de não reconhecer plenamente a artista que marcou minha infância naquele formato de apresentação.


Ainda assim, saí da experiência com uma reflexão maior do que qualquer decepção estética.


A despedida da nave revelou-se um gesto de extraordinária sensibilidade. Encerrar, em vida, um dos maiores símbolos de sua carreira representa um raro exercício de maturidade artística. Socialmente, esse gesto possui enorme relevância, pois naturaliza o envelhecimento diante de milhões de pessoas.

Vivemos em uma sociedade que insiste em transformar a juventude em obrigação permanente. Ver uma personalidade da dimensão de Xuxa reconhecer, com serenidade, a passagem do tempo ajuda a romper essa ilusão coletiva.

Quando afirmou: "Estou velha", não havia derrota naquela frase. Havia verdade.

Ela envelheceu.

ós que crescemos com ela, também.

E alvez essa seja a maior mensagem de todo o espetáculo: compreender que cada fase da existência possui sua própria beleza. A infância vive na memória, a maturidade ensina novos significados e a velhice, apesar das limitações e da solidão que por vezes impõe, continua sendo um privilégio concedido apenas àqueles que tiveram a oportunidade de atravessar o tempo.

Talvez por isso eu continue aguardando, todos os anos, o especial de Roberto Carlos. Não apenas pelas canções, mas porque esses encontros televisivos nos recordam da importância de agradecer a Deus pelo dom da vida e pela lucidez que nos permite revisitar nossas lembranças.

Envelhecer não é perder a beleza da existência.

É aprender que alguns sonhos mudam de forma, mas jamais deixam de iluminar a memória.

Há uma realidade pouco comentada na vida daqueles que não nasceram em berço esplêndido: a existência parece dividir-se em três grandes movimentos.

Na juventude, dispõe-se de tempo e energia, mas falta o recurso financeiro para realizar muitos sonhos. Durante a vida laboral, conquista-se certa estabilidade econômica e conserva-se boa parte da disposição física, porém o tempo torna-se escasso, consumido pelas responsabilidades profissionais e familiares. Finalmente, chega a tão almejada aposentadoria. Recupera-se o tempo; com planejamento e disciplina, é possível administrar as finanças. Entretanto, aquilo que a juventude oferecia em abundância — a energia física — já não responde da mesma maneira. Muitos desejos permanecem vivos, mas o corpo passa a impor seus próprios limites.

Durante toda a minha vida, sonhei em assistir a um show da Xuxa. Quando era jovem, faltava dinheiro. Na fase adulta, faltava tempo. Hoje, disponho de tempo e, com algum esforço, conseguiria custear a viagem e o ingresso. Contudo, faltou-me a disposição física para permanecer durante horas em pé, em meio a milhares de pessoas, acompanhando um espetáculo de grande intensidade sonora e visual.

Restou-me, então, aguardar a transmissão disponibilizada no YouTube, plataforma que, de certo modo, cumpre atualmente um papel semelhante ao que a televisão aberta desempenhou durante décadas: democratizar o acesso à cultura para aqueles que, por diferentes razões, não conseguem vivenciar presencialmente os grandes eventos.

Assisti ao espetáculo integralmente e terminei com um sentimento de frustração.

Talvez justamente por pertencer à geração que acompanhou praticamente todos os especiais de fim de ano da artista, eu carregasse uma expectativa muito específica: reencontrar, ainda que por algumas horas, a atmosfera musical que marcou minha infância.

O que encontrei, porém, foi uma proposta estética bastante diferente.

Os novos arranjos privilegiaram uma linguagem pop contemporânea, sustentada por uma base rítmica constante e por uma pulsação eletrônica praticamente uniforme durante grande parte do espetáculo. Do ponto de vista técnico, houve uma homogeneização do material musical. A predominância do mesmo groove, da mesma levada rítmica e de uma instrumentação semelhante reduziu o contraste entre as canções. Consequentemente, músicas originalmente construídas sobre identidades melódicas e harmônicas muito distintas passaram a apresentar sonoridades excessivamente próximas entre si.

Em diversos momentos, tive a sensação de ouvir uma única música em sequência, exigindo atenção para perceber que apenas a letra havia mudado.

Essa impressão não decorre da qualidade das composições, mas da padronização dos arranjos. A riqueza da obra da Xuxa sempre esteve justamente na variedade de atmosferas musicais: havia canções contemplativas, marchinhas, baladas, músicas de roda, influências da música latina e do pop infantil dos anos 1980 e 1990. Quando essas diferenças são reduzidas em favor de uma única estética sonora, perde-se parte da identidade individual de cada composição.

Foi exatamente isso que senti ao ouvir Boto Rosa.

Na gravação original, a canção possui uma linha melódica delicada, com caráter quase narrativo, que favorece a imaginação e reforça o clima lúdico da história. No espetáculo, entretanto, o arranjo transformou essa atmosfera em uma versão predominantemente dançante, marcada por batidas fortes e andamento voltado para a participação coletiva do público.

Naturalmente, compreendo a intenção artística. Em grandes shows contemporâneos, busca-se manter elevada energia cênica, favorecendo a interação do público, que canta, dança e acompanha os comandos do artista. Entretanto, essa escolha acabou sacrificando justamente aquilo que tornava a música memorável para quem cresceu ouvindo a versão original.

Outro aspecto que me incomodou foi o excesso de recursos visuais.

A tecnologia deve ampliar a presença do artista, nunca competir com ela. Em vários momentos, projeções, efeitos gráficos, jogos de luz e sobreposições de imagens pareciam disputar a atenção do espectador com a própria protagonista. A impressão era de que a artista desaparecia em meio ao espetáculo tecnológico.

Paradoxalmente, a maior estrela da noite acabou sendo, em alguns instantes, ofuscada pelos efeitos destinados a valorizá-la.

Para aqueles que acompanharam sua trajetória desde os primeiros programas televisivos, bastaria sua presença, seu sorriso, sua espontaneidade e sua capacidade singular de estabelecer uma conexão afetiva com o público.

A entrada da nave foi profundamente emocionante.

Durante décadas, ela representou um dos símbolos mais marcantes do imaginário infantil brasileiro. Contudo, a opção por fazê-la descer suspensa por cabos rompeu, para mim, parte da magia construída ao longo dos anos. Na memória afetiva de toda uma geração, a nave possuía um ritual próprio: a porta se abria, Xuxa surgia, embarcava novamente e partia, preservando a fantasia que sempre acompanhou aquele universo.

Percebi, então, que a frustração de não ter conseguido comparecer ao espetáculo foi substituída por outra, inesperada: a de não reconhecer plenamente a artista que marcou minha infância naquele formato de apresentação.

Ainda assim, saí da experiência com uma reflexão maior do que qualquer decepção estética.

A despedida da nave revelou-se um gesto de extraordinária sensibilidade. Encerrar, em vida, um dos maiores símbolos de sua carreira representa um raro exercício de maturidade artística. Socialmente, esse gesto possui enorme relevância, pois naturaliza o envelhecimento diante de milhões de pessoas.

Vivemos em uma sociedade que insiste em transformar a juventude em obrigação permanente. Ver uma personalidade da dimensão de Xuxa reconhecer, com serenidade, a passagem do tempo ajuda a romper essa ilusão coletiva.

Quando afirmou: "Estou velha", não havia derrota naquela frase. Havia verdade.

Ela envelheceu.

Nós, que crescemos com ela, também.

E talvez essa seja a maior mensagem de todo o espetáculo: compreender que cada fase da existência possui sua própria beleza. A infância vive na memória, a maturidade ensina novos significados e a velhice, apesar das limitações e da solidão que por vezes impõe, continua sendo um privilégio concedido apenas àqueles que tiveram a oportunidade de atravessar o tempo.

Talvez por isso eu continue aguardando, todos os anos, o especial de Roberto Carlos. Não apenas pelas canções, mas porque esses encontros televisivos nos recordam da importância de agradecer a Deus pelo dom da vida e pela lucidez que nos permite revisitar nossas lembranças.

Envelhecer não é perder a beleza da existência.

É aprender que alguns sonhos mudam de forma, mas jamais deixam de iluminar a memória.