Idosa não gosta de sair de casa à toa.
Pode até parecer preguiça para quem não
conhece e convive, mas não é. É
prudência. A gente primeiro olha pela janela, vê se o tempo está firme, calcula
a distância, pensa no sapato e só depois decide se vale a pena enfrentar o
mundo.
Com eleição é quase a mesma coisa.
Ainda mais depois dos setenta.
Nessa idade, a gente já não é obrigada a votar, o
que é uma maneira delicada que a vida encontrou de nos dizer: agora você vai se
quiser. E eu gosto disso. Gosto de poder escolher até mesmo se vou sair de
casa.
Por isso, para me tirar de casa num domingo de
eleição, o candidato precisa me dar algum motivo.
Não basta dizer que vai melhorar a saúde, a
educação, a segurança, a economia, a felicidade do povo e, se possível, o preço
do tomate.
Isso todo mundo promete.
O que eu quero saber é como.
Foi pensando nisso que comecei a prestar atenção em
Ronaldo Caiado.
Não porque tenha me apaixonado por candidato algum.
Deus me livre. Depois de tantos anos de vida, já aprendi que paixão e política
são duas coisas que convém manter a uma distância segura.
Mas algumas propostas dele me fizeram parar para
ouvir.
Uma delas é o apoio ao agricultor.
Talvez quem mora em apartamento e compra tudo já
embalado no supermercado não perceba, mas a comida não nasce na prateleira.
Antes de chegar bonita, limpa e etiquetada, passou pela mão de alguém que
acordou cedo, enfrentou sol, chuva, dívida, preço de insumo, estrada ruim e,
muitas vezes, a incerteza de não saber quanto vai receber pela produção.
Eu gosto de gente que fala do agricultor.
Talvez porque Goiás seja dessas terras em que a
gente ainda entende que café não nasce no supermercado e que leite não aparece
espontaneamente dentro da caixinha.
Agricultura precisa de apoio, mas precisa também de
segurança.
E aí entra outra questão que me interessa: a
segurança pública.
Não adianta produzir se o agricultor não consegue
dormir sossegado. Não adianta trabalhar, investir, plantar, criar gado, colher,
transportar, se no meio do caminho aparece alguém para levar o fruto de meses —
às vezes anos — de trabalho.
Segurança não é luxo.
É condição para trabalhar.
E talvez seja justamente aí que eu tenha encontrado
alguma coisa diferente nas propostas de Caiado: a ideia de que produção e
segurança não podem andar separadas, como se fossem assuntos de departamentos
diferentes.
O agricultor precisa de terra para plantar, crédito
para produzir, estrada para transportar e segurança para continuar fazendo tudo
isso.
Parece simples.
Talvez por ser simples ninguém tenha muita
paciência para explicar.
Mas eu tenho.
Depois de certa idade, a gente aprende a desconfiar
das coisas complicadas demais. Se a proposta precisa de cinquenta palavras
difíceis para explicar o que pretende fazer, talvez nem o candidato saiba
direito.
Caiado não é minha primeira opção.
Faço questão de dizer.
Minha primeira opção continua sendo aquela que me
convencer de que está falando sério, que conhece os problemas do país e que não
vai apenas trocar as palavras de lugar para parecer que descobriu uma solução
nova.
Mas, se a minha primeira escolha não estiver no
caminho que eu considero correto, Caiado é minha segunda opção.
E isso, para uma eleitora que já tem mais de sete
décadas de vida, não é pouca coisa.
Porque eu não voto mais por obrigação.
Voto se achar que vale a pena.
E há uma diferença enorme entre ser obrigada a
votar e decidir levantar da cama porque alguém conseguiu despertar em você um
pouco de esperança.
Ainda mais se for um dia chuvoso.
Porque, sejamos honestos: se estiver aquele
chuvisco fino, insistente, que deixa a rua brilhando e o céu com cara de
segunda-feira, eu vou pensar duas vezes.
Vou olhar pela janela.
Vou tomar meu café.
Vou talvez esperar a chuva diminuir.
E então vou lembrar que alguém precisa decidir o
rumo das coisas.
Nesse caso, talvez eu procure meu guarda-chuva,
calce um sapato que não escorregue e vá.
Primeiro, procurarei minha primeira opção.
Se não me convencer, já sei em quem pensar.
Caiado.
Minha segunda opção para enfrentar a chuva, a fila
e mais uma eleição.
Porque depois dos setenta a gente não tem mais obrigação
de fazer muita coisa.
Mas ainda tem o direito — e, quem sabe, a teimosia
— de escolher em quem confiar.