Há
mulheres que passam pela história.
E há
mulheres que fazem a história tropeçar.
Talvez
seja por isso que algumas nunca tenham recebido o devido reconhecimento
enquanto estavam vivas. A sociedade costuma ser generosa com mulheres depois
que elas morrem. Mortas, tornam-se homenagens. Fotografias. Nomes de ruas.
Estátuas. Frases bonitas.
Vivas,
entretanto, incomodam.
Dona Beja
incomodou.
Cora
Coralina incomodou.
Nise da
Silveira incomodou.
Irena
Sendler incomodou.
Zilda
Arns incomodou.
Joenia
Wapichana incomodou.
Maninha
Xucuru-Kariri incomodou.
Cada uma
à sua maneira, em seu tempo, em seu território, enfrentou alguma espécie de
porta fechada.
E talvez
seja justamente aí que essas histórias deixem de pertencer ao passado.
Porque as
portas continuam existindo.
Mudaram
apenas de aparência.
Dona Beja
aprendeu cedo que uma mulher pode ser vítima e, ainda assim, ser julgada como
culpada.
Aos
quinze anos, depois de uma história de violência e abandono, voltou para Araxá.
Mas a sociedade não enxergou primeiro a menina que havia sofrido. Preferiu
enxergar a mulher bonita, sedutora, perigosa.
É uma
velha habilidade social: quando não sabemos o que fazer com a dor de uma
mulher, transformamos sua dor em culpa.
Dona Beja
sobreviveu.
E
sobreviveu de uma maneira que não cabia exatamente nos moldes que esperavam
dela. Construiu sua trajetória, criou as filhas, mudou-se para Bagagem e seguiu
a vida. Hoje, seu nome está definitivamente ligado à memória de Araxá.
Talvez a
história tenha tentado transformá-la em lenda porque não soube lidar com a
mulher.
Cora
Coralina nos ensina outra coisa: o tempo também pode ser um preconceito.
Quem
disse que uma pessoa precisa realizar seus sonhos aos vinte, trinta ou quarenta
anos?
Cora
publicou seu primeiro livro aos 75.
Setenta e
cinco.
Há algo
quase insolente nessa idade para quem vive numa sociedade que transforma
juventude em passaporte para tudo.
Cora
chegou tarde?
Não.
Chegou
quando pôde.
E talvez
essa seja uma das maiores crueldades que cometemos contra nós mesmos: acreditar
que perdemos o momento certo simplesmente porque ainda não aconteceu.
Nise da
Silveira também poderia ter escolhido o caminho mais confortável.
Não
escolheu.
Foi uma
das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil e a única mulher entre
157 homens de sua turma. Mais tarde, enfrentou perseguição política, prisão e
um sistema psiquiátrico que ela ajudaria a transformar.
Em vez de
enxergar apenas doença, procurou enxergar pessoas.
Em vez de
aceitar respostas prontas, procurou outras possibilidades.
E talvez
seja justamente isso que mais assuste numa mulher: uma mulher que pensa por
conta própria.
Irena
Sendler fez o que parecia impossível em um dos períodos mais sombrios da
humanidade. Zilda Arns transformou o cuidado com crianças pobres em uma grande
ação social.
Uma
enfrentou a guerra.
Outra
enfrentou a miséria.
Nenhuma
das duas tinha o luxo de esperar que o mundo melhorasse sozinho.
E talvez
seja essa a parte mais difícil de admitir:
O mundo
quase nunca muda porque alguém pediu educadamente.
Muda
porque alguém insistiu.
Joenia
Wapichana e Maninha Xucuru-Kariri acrescentam outra camada a essa história.
Porque há
mulheres que precisam lutar não apenas contra o machismo, mas também contra o
preconceito, contra o apagamento de seus povos e contra a velha ideia de que
alguns lugares pertencem naturalmente a determinadas pessoas.
Joenia
chegou ao Direito, ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso.
Maninha
liderou a defesa do território e da identidade de seu povo.
São
histórias que lembram uma coisa elementar, embora frequentemente esquecida:
representação não é favor.
É
direito.
E nós?
Nós
continuamos aqui.
Na
segunda-feira, reclamando do trânsito.
Na terça,
cansados.
Na
quarta, adiando alguma decisão.
Na
quinta, prometendo que amanhã será diferente.
Na sexta,
fazendo contas para descobrir onde foi parar a semana.
E talvez
seja justamente nesse cotidiano aparentemente pequeno que essas mulheres tenham
alguma coisa a nos dizer.
Não
precisamos salvar uma cidade.
Não
precisamos entrar para os livros de história.
Não
precisamos ser extraordinários.
Mas
talvez precisemos parar de aceitar como destino aquilo que é apenas repetição.
Há uma
diferença enorme entre não poder mudar e ter medo de mudar.
Entre
estar preso e permanecer na mesma porta porque ela se tornou conhecida.
Entre não
ter escolha e não querer pagar o preço de escolher.
Talvez
seja essa a parte amarga de lembrar mulheres como Cora, Nise, Zilda, Irena,
Joenia, Maninha e tantas outras.
Elas nos
tiram algumas desculpas.
Porque,
quando alguém atravessa uma época inteira lutando contra o impossível, fica um
pouco mais difícil justificar nossa própria acomodação.
Mas não é
uma cobrança.
É um
convite.
O passado
não precisa ser uma sentença.
Pode ser
apenas um lugar de onde finalmente aprendemos alguma coisa.
A semana
vai terminar.
Outra vai
começar.
E nós
continuaremos repetindo os mesmos gestos, as mesmas reclamações, os mesmos
medos, se nada fizermos.
Ou
podemos experimentar uma pequena desobediência.
Uma
conversa que nunca tivemos.
Um
projeto que sempre adiamos.
Uma porta
que finalmente abrimos.
Uma vida
que decidimos começar a viver de maneira diferente.
Talvez
seja isso que essas mulheres deixaram como herança.
Não a
obrigação de sermos heroicos.
Mas a
coragem de não sermos completamente submissos às circunstâncias.
Porque
algumas mulheres passaram pela história.
Outras
enfrentaram a história.
E algumas
tiveram a ousadia de dizer que a história estava errada.
Talvez
seja por isso que ainda falamos delas.
E talvez
seja por isso que, nesta semana, devêssemos prestar atenção não apenas às
mulheres que mudaram o mundo.
Mas
àquela mulher — conhecida ou desconhecida — que, em algum lugar, está tentando
mudar o próprio mundo.
Às vezes,
é assim que uma revolução começa.
Sem
plateia.
Sem
aplausos.
Numa
manhã qualquer.
Quando
alguém finalmente decide:
“A minha
história não precisa terminar onde disseram que terminaria.”