Há certas conversas de família que começam falando de paredes, infiltrações e aluguéis, mas, quando a gente percebe, já estão falando de coisas muito maiores: responsabilidade, memória e do que faremos com aquilo que recebemos de quem veio antes de nós.
Quando sugeri ao inquilino que procurasse outro espaço, não foi por capricho. Havia água entrando pela fiação elétrica e chuva atravessando a sacada. A água, quando encontra a eletricidade, não entende de inventário, de partilha ou de parentesco. Ela simplesmente desce, e um dia pode levar consigo alguma coisa que não se conserta depois.
Por isso, o imóvel deveria permanecer vazio até que fossem feitas as adequações necessárias. Depois, com tudo em ordem, poderia voltar a ser alugado, pelo valor que o mercado determinar.
Na partilha, você poderá escolher esse imóvel para compor o seu quinhão. É uma escolha que talvez mereça ser pensada com calma, porque o segundo andar, voltado para a Rua das Flores Amarelas, tem uma valorização maior por metro quadrado. Há coisas que parecem apenas detalhes numa escritura, mas que, com o passar dos anos, tornam-se diferenças importantes.
Hoje, entretanto, você ocupa integralmente o térreo e o segundo andar. Talvez isso ultrapasse aquilo que lhe cabe. E, se houver cobrança de aluguel pelo espaço excedente, será mais prudente regularizar essa situação. Não precisamos acrescentar mais uma pedra ao caminho de um inventário que já encontrou pedras demais.
O térreo parece ser, por enquanto, o lugar mais seguro para você permanecer. Ali, atendendo às suas clientes, poderá continuar trabalhando, reunir recursos para as despesas e, sobretudo, evitar uma discussão futura sobre a extensão do seu quinhão.
Há ainda o IPTU, que já ultrapassa R$ 2.500,00 por unidade, além das contas de água e energia. O patrimônio não se sustenta sozinho. Uma casa abandonada se deteriora; um prédio sem cuidado envelhece depressa; e uma herança, quando não é tratada com zelo, pode transformar-se de lembrança em problema.
Zelar pelo patrimônio é dever de todas nós. Não basta receber as paredes; é preciso cuidar delas. A construção precisa oferecer condições de habitabilidade e se for necessário recorrer aos meios jurídicos para que essas adequações sejam realizadas, eles serão utilizados.
Mas existe uma razão maior que a lei.
Um dia, alguém herdará aquilo que hoje estamos decidindo. E talvez essa pessoa não saiba quantas conversas tivemos, quantos aborrecimentos enfrentamos ou quantas vezes uma de nós precisou insistir para que uma parede fosse reparada. Encontrará apenas o prédio — ou aquilo que tivermos feito dele.
Talvez essa seja a verdadeira medida de uma herança: não apenas o que recebemos, mas aquilo que conseguimos entregar.
Pesquisei também sobre a sua função na igreja e encontrei nela algo positivo, ligado à fraternidade, ao serviço e à construção do bem. E pensei que seria bonito se alguma dessas coisas pudesse atravessar a porta da igreja e chegar também à vida prática. Porque é fácil falar de paz quando estamos entre pessoas que concordam conosco. Mais difícil é construir a paz quando existem interesses diferentes, dinheiro envolvido e velhas mágoas sentadas à mesa.
Ainda assim, é justamente aí que ela tem algum valor.
Um prédio pode ser apenas um conjunto de paredes, portas e janelas. Ou pode ser o lugar onde uma família demonstra que aprendeu alguma coisa com a própria história.
Gostaria que escolhêssemos a segunda possibilidade.
Que o espaço herdado não seja motivo de disputa permanente, mas de cuidado. Que seja seguro para quem trabalha, digno para quem aluga e justo para quem herdará. Que as próximas gerações possam olhar para ele sem vergonha do que deixamos, mas com a tranquila sensação de que, apesar das nossas diferenças, soubemos preservar alguma coisa.
Porque uma herança não termina quando se assina a partilha.
Às vezes, ela começa ali.:::