quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Os tsurus de Sadako

 

Sadako Sasaki tinha dois anos quando a bomba atômica caiu sobre Hiroshima. Estava a cerca de dois quilômetros do lugar da explosão. Ao redor dela, muita gente morreu. Ela, porém, não sofreu nenhum ferimento que pudesse ser visto. Continuou vivendo como tantas outras crianças: cresceu, foi à escola, correu pelas ruas e aprendeu a alegria simples de estar entre os amigos.

Durante anos, ninguém poderia imaginar que aquela menina, aparentemente saudável, carregava dentro de si uma lembrança invisível daquela manhã.

Sadako era uma boa corredora. Corria depressa, e seus colegas gostavam dela. No sétimo ano da escola, durante uma corrida em que ajudou sua equipe a vencer, sentiu uma tontura e um cansaço que não pareciam coisa de menina acostumada a correr. Depois vieram outras tonturas, cada vez mais frequentes, até que um dia ela caiu e não conseguiu se levantar.

Os pais a levaram ao Hospital da Cruz Vermelha.

Foi então que veio a palavra que assustava tanto naquela época: leucemia.

Muitos a chamavam de “doença da bomba atômica”. Havia pouca esperança para aqueles que a contraíam. E Sadako, que ainda era uma menina, precisou aprender cedo demais uma coisa que nenhuma criança deveria aprender: que o corpo pode adoecer sem pedir licença e que há medos que entram em uma casa e mudam o silêncio de todos.

No hospital, entretanto, Sadako continuou sendo Sadako.

Sua melhor amiga, Chizuko, foi visitá-la e levou papéis para dobrar. Foi assim que Sadako conheceu, ou voltou a ouvir, a antiga lenda japonesa do tsuru, o grou. Diz a tradição que essa ave pode viver muitos anos e que aquele que dobrar mil grous de papel terá um desejo realizado.

Talvez uma criança não precise de muita coisa para acreditar.

Um pedaço de papel basta.

Sadako começou a dobrar.

Dobrou com os papéis que encontrava. Pediu pedaços de papel aos funcionários do hospital, aos visitantes, aos amigos. O quarto foi ficando cheio de pequenas aves coloridas. Cada uma parecia guardar um pouco de esperança. Algumas eram grandes; outras, muito pequenas. E havia, entre todas elas, uma menina que ainda acreditava que poderia voltar para casa.

Ela queria se curar.

Quando completou mil tsurus, fez seu pedido. Mas a doença não foi embora.

E, mesmo assim, Sadako continuou dobrando.

Talvez porque a esperança, quando é verdadeira, não desapareça simplesmente porque o primeiro pedido não foi atendido. Talvez porque, a essa altura, aqueles pequenos pássaros já não fossem apenas uma tentativa de escapar da doença. Eram uma maneira de continuar vivendo, de pensar na família, nos amigos e em um mundo que ela desejava ver em paz.

Sadako passou a desejar também que sua família não sofresse e que o mundo pudesse ser um lugar melhor.

Continuou dobrando até os últimos dias.

Em outubro de 1955, aos doze anos, Sadako morreu cercada pela família.

Mais de mil tsurus haviam passado por suas pequenas mãos.

É difícil imaginar uma criança de doze anos dobrando papel enquanto a vida se vai tornando menor ao redor dela. Mas talvez seja justamente essa imagem que permaneceu: não a de uma menina vencida pela doença, mas a de uma criança que, diante de uma coisa enorme e terrível, encontrou alguma coisa pequena que podia fazer.

Dobrar um papel.

Depois outro.

E outro.

Como se cada tsuru dissesse: ainda estou aqui.

Depois de sua morte, os colegas de escola de Sadako não quiseram que sua história terminasse com o silêncio de uma sala de hospital. Eles haviam perdido outros amigos para a doença relacionada à exposição à radiação da bomba. Reuniram-se, organizaram-se e começaram a arrecadar dinheiro para construir um monumento em memória de Sadako e de todas as crianças que morreram em consequência da guerra.

A ideia cresceu muito além da escola.

Estudantes de milhares de escolas japonesas e de outros países contribuíram. Em 5 de maio de 1958, quase três anos depois da morte de Sadako, foi inaugurado, no Parque Memorial da Paz de Hiroshima, o Monumento da Paz das Crianças.

No alto da estátua, uma menina ergue um grande tsuru de papel.

É Sadako.

Ou talvez seja todas as crianças.

Aos pés do monumento, estão escritas palavras que atravessaram o tempo:

“Este é o nosso grito.
Esta é a nossa oração.
Paz no mundo.”

Desde então, milhares de pessoas visitam aquele lugar.

E eu penso que há histórias que não terminam quando a pessoa morre. Algumas continuam vivendo nas mãos de quem as escuta.

Sadako morreu aos doze anos. Não teve tempo de crescer, de correr outras corridas, de conhecer o mundo que ainda não conhecia. Não pôde saber o que seus amigos fariam depois dela, nem que um dia crianças de outros países conheceriam seu nome.

Mas os pequenos pássaros de papel continuaram voando.

Não pelo céu — porque papel não voa tão longe.

Voam de mão em mão, de criança em criança, de uma geração para outra.

E talvez seja esse o milagre mais bonito da história de Sadako: ela não conseguiu vencer a doença, mas conseguiu transformar uma pequena dobradura em uma mensagem que o tempo não desfez.

Um tsuru é apenas um pedaço de papel dobrado.

Mas, quando uma criança o faz com esperança, ele pode carregar um desejo.

E quando milhares de pessoas o fazem pela paz, já não é apenas papel.

É memória.

É oração.

sábado, 22 de agosto de 2026

O que fica depois de nós

Há certas conversas de família que começam falando de paredes, infiltrações e aluguéis, mas, quando a gente percebe, já estão falando de coisas muito maiores: responsabilidade, memória e do que faremos com aquilo que recebemos de quem veio antes de nós.

Quando sugeri ao inquilino que procurasse outro espaço, não foi por capricho. Havia água entrando pela fiação elétrica e chuva atravessando a sacada. A água, quando encontra a eletricidade, não entende de inventário, de partilha ou de parentesco. Ela simplesmente desce, e um dia pode levar consigo alguma coisa que não se conserta depois.

Por isso, o imóvel deveria permanecer vazio até que fossem feitas as adequações necessárias. Depois, com tudo em ordem, poderia voltar a ser alugado, pelo valor que o mercado determinar.

Na partilha, você poderá escolher esse imóvel para compor o seu quinhão. É uma escolha que talvez mereça ser pensada com calma, porque o segundo andar, voltado para a Rua das Flores Amarelas, tem uma valorização maior por metro quadrado. Há coisas que parecem apenas detalhes numa escritura, mas que, com o passar dos anos, tornam-se diferenças importantes.

Hoje, entretanto, você ocupa integralmente o térreo e o segundo andar. Talvez isso ultrapasse aquilo que lhe cabe. E, se houver cobrança de aluguel pelo espaço excedente, será mais prudente regularizar essa situação. Não precisamos acrescentar mais uma pedra ao caminho de um inventário que já encontrou pedras demais.

O térreo parece ser, por enquanto, o lugar mais seguro para você permanecer. Ali, atendendo às suas clientes, poderá continuar trabalhando, reunir recursos para as despesas e, sobretudo, evitar uma discussão futura sobre a extensão do seu quinhão.

Há ainda o IPTU, que já ultrapassa R$ 2.500,00 por unidade, além das contas de água e energia. O patrimônio não se sustenta sozinho. Uma casa abandonada se deteriora; um prédio sem cuidado envelhece depressa; e uma herança, quando não é tratada com zelo, pode transformar-se de lembrança em problema.

Zelar pelo patrimônio é dever de todas nós. Não basta receber as paredes; é preciso cuidar delas. A construção precisa oferecer condições  de habitabilidade  e se for necessário recorrer aos meios jurídicos para que essas adequações sejam realizadas, eles serão utilizados.

Mas existe uma razão maior que a lei.

Um dia, alguém herdará aquilo que hoje estamos decidindo. E talvez essa pessoa não saiba quantas conversas tivemos, quantos aborrecimentos enfrentamos ou quantas vezes uma de nós precisou insistir para que uma parede fosse reparada. Encontrará apenas o prédio — ou aquilo que tivermos feito dele.

Talvez essa seja a verdadeira medida de uma herança: não apenas o que recebemos, mas aquilo que conseguimos entregar.

Pesquisei também sobre a sua função na igreja e encontrei nela algo positivo, ligado à fraternidade, ao serviço e à construção do bem. E pensei que seria bonito se alguma dessas coisas pudesse atravessar a porta da igreja e chegar também à vida prática. Porque é fácil falar de paz quando estamos entre pessoas que concordam conosco. Mais difícil é construir a paz quando existem interesses diferentes, dinheiro envolvido e velhas mágoas sentadas à mesa.

Ainda assim, é justamente aí que ela tem algum valor.

Um prédio pode ser apenas um conjunto de paredes, portas e janelas. Ou pode ser o lugar onde uma família demonstra que aprendeu alguma coisa com a própria história.

Gostaria que escolhêssemos a segunda possibilidade.

Que o espaço herdado não seja motivo de disputa permanente, mas de cuidado. Que seja seguro para quem trabalha, digno para quem aluga e justo para quem herdará. Que as próximas gerações possam olhar para ele sem vergonha do que deixamos, mas com a tranquila sensação de que, apesar das nossas diferenças, soubemos preservar alguma coisa.

Porque uma herança não termina quando se assina a partilha.

Às vezes, ela começa ali.:::

terça-feira, 11 de agosto de 2026

As mulheres que incomodaram a história

 


Há mulheres que passam pela história.

E há mulheres que fazem a história tropeçar.

Talvez seja por isso que algumas nunca tenham recebido o devido reconhecimento enquanto estavam vivas. A sociedade costuma ser generosa com mulheres depois que elas morrem. Mortas, tornam-se homenagens. Fotografias. Nomes de ruas. Estátuas. Frases bonitas.

Vivas, entretanto, incomodam.

Dona Beja incomodou.

Cora Coralina incomodou.

Nise da Silveira incomodou.

Irena Sendler incomodou.

Zilda Arns incomodou.

Joenia Wapichana incomodou.

Maninha Xucuru-Kariri incomodou.

Cada uma à sua maneira, em seu tempo, em seu território, enfrentou alguma espécie de porta fechada.

E talvez seja justamente aí que essas histórias deixem de pertencer ao passado.

Porque as portas continuam existindo.

Mudaram apenas de aparência.

Dona Beja aprendeu cedo que uma mulher pode ser vítima e, ainda assim, ser julgada como culpada.

Aos quinze anos, depois de uma história de violência e abandono, voltou para Araxá. Mas a sociedade não enxergou primeiro a menina que havia sofrido. Preferiu enxergar a mulher bonita, sedutora, perigosa.

É uma velha habilidade social: quando não sabemos o que fazer com a dor de uma mulher, transformamos sua dor em culpa.

Dona Beja sobreviveu.

E sobreviveu de uma maneira que não cabia exatamente nos moldes que esperavam dela. Construiu sua trajetória, criou as filhas, mudou-se para Bagagem e seguiu a vida. Hoje, seu nome está definitivamente ligado à memória de Araxá.

Talvez a história tenha tentado transformá-la em lenda porque não soube lidar com a mulher.

Cora Coralina nos ensina outra coisa: o tempo também pode ser um preconceito.

Quem disse que uma pessoa precisa realizar seus sonhos aos vinte, trinta ou quarenta anos?

Cora publicou seu primeiro livro aos 75.

Setenta e cinco.

Há algo quase insolente nessa idade para quem vive numa sociedade que transforma juventude em passaporte para tudo.

Cora chegou tarde?

Não.

Chegou quando pôde.

E talvez essa seja uma das maiores crueldades que cometemos contra nós mesmos: acreditar que perdemos o momento certo simplesmente porque ainda não aconteceu.

Nise da Silveira também poderia ter escolhido o caminho mais confortável.

Não escolheu.

Foi uma das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil e a única mulher entre 157 homens de sua turma. Mais tarde, enfrentou perseguição política, prisão e um sistema psiquiátrico que ela ajudaria a transformar.

Em vez de enxergar apenas doença, procurou enxergar pessoas.

Em vez de aceitar respostas prontas, procurou outras possibilidades.

E talvez seja justamente isso que mais assuste numa mulher: uma mulher que pensa por conta própria.

 

Irena Sendler fez o que parecia impossível em um dos períodos mais sombrios da humanidade. Zilda Arns transformou o cuidado com crianças pobres em uma grande ação social.

Uma enfrentou a guerra.

Outra enfrentou a miséria.

Nenhuma das duas tinha o luxo de esperar que o mundo melhorasse sozinho.

E talvez seja essa a parte mais difícil de admitir:

O mundo quase nunca muda porque alguém pediu educadamente.

Muda porque alguém insistiu.

Joenia Wapichana e Maninha Xucuru-Kariri acrescentam outra camada a essa história.

Porque há mulheres que precisam lutar não apenas contra o machismo, mas também contra o preconceito, contra o apagamento de seus povos e contra a velha ideia de que alguns lugares pertencem naturalmente a determinadas pessoas.

Joenia chegou ao Direito, ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso.

Maninha liderou a defesa do território e da identidade de seu povo.

São histórias que lembram uma coisa elementar, embora frequentemente esquecida: representação não é favor.

É direito.

E nós?

Nós continuamos aqui.

Na segunda-feira, reclamando do trânsito.

Na terça, cansados.

Na quarta, adiando alguma decisão.

Na quinta, prometendo que amanhã será diferente.

Na sexta, fazendo contas para descobrir onde foi parar a semana.

E talvez seja justamente nesse cotidiano aparentemente pequeno que essas mulheres tenham alguma coisa a nos dizer.

Não precisamos salvar uma cidade.

Não precisamos entrar para os livros de história.

Não precisamos ser extraordinários.

Mas talvez precisemos parar de aceitar como destino aquilo que é apenas repetição.

Há uma diferença enorme entre não poder mudar e ter medo de mudar.

Entre estar preso e permanecer na mesma porta porque ela se tornou conhecida.

Entre não ter escolha e não querer pagar o preço de escolher.

Talvez seja essa a parte amarga de lembrar mulheres como Cora, Nise, Zilda, Irena, Joenia, Maninha e tantas outras.

Elas nos tiram algumas desculpas.

Porque, quando alguém atravessa uma época inteira lutando contra o impossível, fica um pouco mais difícil justificar nossa própria acomodação.

Mas não é uma cobrança.

É um convite.

O passado não precisa ser uma sentença.

Pode ser apenas um lugar de onde finalmente aprendemos alguma coisa.

A semana vai terminar.

Outra vai começar.

E nós continuaremos repetindo os mesmos gestos, as mesmas reclamações, os mesmos medos, se nada fizermos.

Ou podemos experimentar uma pequena desobediência.

Uma conversa que nunca tivemos.

Um projeto que sempre adiamos.

Uma porta que finalmente abrimos.

Uma vida que decidimos começar a viver de maneira diferente.

Talvez seja isso que essas mulheres deixaram como herança.

Não a obrigação de sermos heroicos.

Mas a coragem de não sermos completamente submissos às circunstâncias.

Porque algumas mulheres passaram pela história.

Outras enfrentaram a história.

E algumas tiveram a ousadia de dizer que a história estava errada.

Talvez seja por isso que ainda falamos delas.

E talvez seja por isso que, nesta semana, devêssemos prestar atenção não apenas às mulheres que mudaram o mundo.

Mas àquela mulher — conhecida ou desconhecida — que, em algum lugar, está tentando mudar o próprio mundo.

Às vezes, é assim que uma revolução começa.

Sem plateia.

Sem aplausos.

Numa manhã qualquer.

Quando alguém finalmente decide:

“A minha história não precisa terminar onde disseram que terminaria.”

 

domingo, 26 de julho de 2026

Não foi o show da Xuxa que mais me emocionou. Foi o tempo.

 Há uma realidade pouco comentada na vida daqueles que não nasceram em berço esplêndido: a existência parece dividir-se em três grandes movimentos.

Na juventude, dispõe-se de tempo e energia, mas falta o recurso financeiro para realizar muitos sonhos. Durante a vida laboral, conquista-se certa estabilidade econômica e conserva-se boa parte da disposição física, porém o tempo torna-se escasso, consumido pelas responsabilidades profissionais e familiares. Finalmente, chega a tão almejada aposentadoria. Recupera-se o tempo; com planejamento e disciplina, é possível administrar as finanças. Entretanto, aquilo que a juventude oferecia em abundância — a energia física — já não responde da mesma maneira. Muitos desejos permanecem vivos, mas o corpo passa a impor seus próprios limites.

Durante toda a minha vida, sonhei em assistir a um show da Xuxa. Quando era jovem, faltava dinheiro. Na fase adulta, faltava tempo. Hoje, disponho de tempo e, com algum esforço, conseguiria custear a viagem e o ingresso. Contudo, faltou-me a disposição física para permanecer durante horas em pé, em meio a milhares de pessoas, acompanhando um espetáculo de grande intensidade sonora e visual.

Restou-me, então, aguardar a transmissão disponibilizada no YouTube, plataforma que, de certo modo, cumpre atualmente um papel semelhante ao que a televisão aberta desempenhou durante décadas: democratizar o acesso à cultura para aqueles que, por diferentes razões, não conseguem vivenciar presencialmente os grandes eventos.


Assisti ao espetáculo integralmente e terminei com um sentimento de frustração.


Talvez justamente por pertencer à geração que acompanhou praticamente todos os especiais de fim de ano da artista, eu carregasse uma expectativa muito específica: reencontrar, ainda que por algumas horas, a atmosfera musical que marcou minha infância.

O que encontrei, porém, foi uma proposta estética bastante diferente.

Os novos arranjos privilegiaram uma linguagem pop contemporânea, sustentada por uma base rítmica constante e por uma pulsação eletrônica praticamente uniforme durante grande parte do espetáculo. Do ponto de vista técnico, houve uma homogeneização do material musical. A predominância do mesmo groove, da mesma levada rítmica e de uma instrumentação semelhante reduziu o contraste entre as canções. Consequentemente, músicas originalmente construídas sobre identidades melódicas e harmônicas muito distintas passaram a apresentar sonoridades excessivamente próximas entre si.

Em diversos momentos, tive a sensação de ouvir uma única música em sequência, exigindo atenção para perceber que apenas a letra havia mudado.

Essa impressão não decorre da qualidade das composições, mas da padronização dos arranjos. A riqueza da obra da Xuxa sempre esteve justamente na variedade de atmosferas musicais: havia canções contemplativas, marchinhas, baladas, músicas de roda, influências da música latina e do pop infantil dos anos 1980 e 1990. Quando essas diferenças são reduzidas em favor de uma única estética sonora, perde-se parte da identidade individual de cada composição.


Foi exatamente isso que senti ao ouvir Boto Rosa.


Na gravação original, a canção possui uma linha melódica delicada, com caráter quase narrativo, que favorece a imaginação e reforça o clima lúdico da história. No espetáculo, entretanto, o arranjo transformou essa atmosfera em uma versão predominantemente dançante, marcada por batidas fortes e andamento voltado para a participação coletiva do público.

Naturalmente, compreendo a intenção artística. Em grandes shows contemporâneos, busca-se manter elevada energia cênica, favorecendo a interação do público, que canta, dança e acompanha os comandos do artista. Entretanto, essa escolha acabou sacrificando justamente aquilo que tornava a música memorável para quem cresceu ouvindo a versão original.

Outro aspecto que me incomodou foi o excesso de recursos visuais.

A tecnologia deve ampliar a presença do artista, nunca competir com ela. Em vários momentos, projeções, efeitos gráficos, jogos de luz e sobreposições de imagens pareciam disputar a atenção do espectador com a própria protagonista. A impressão era de que a artista desaparecia em meio ao espetáculo tecnológico.

Paradoxalmente, a maior estrela da noite acabou sendo, em alguns instantes, ofuscada pelos efeitos destinados a valorizá-la.

Para aqueles que acompanharam sua trajetória desde os primeiros programas televisivos, bastaria sua presença, seu sorriso, sua espontaneidade e sua capacidade singular de estabelecer uma conexão afetiva com o público.

A entrada e entraa da nave foi foi profundamete emocinante.

Durante décadas, ela representou um dos símbolos mais marcantes do imaginário infantil brasileiro. Contudo, a opção por fazê-la descer suspensa por cabos rompeu, para mim, parte da magia construída ao longo dos anos. Na memória afetiva de toda uma geração, a nave possuía um ritual próprio: a porta se abria, Xuxa surgia, embarcava novamente e partia, preservando a fantasia que sempre acompanhou aquele universo.

Percebi, então, que a frustração de não ter conseguido comparecer ao espetáculo foi substituída por outra, inesperada: a de não reconhecer plenamente a artista que marcou minha infância naquele formato de apresentação.


Ainda assim, saí da experiência com uma reflexão maior do que qualquer decepção estética.


A despedida da nave revelou-se um gesto de extraordinária sensibilidade. Encerrar, em vida, um dos maiores símbolos de sua carreira representa um raro exercício de maturidade artística. Socialmente, esse gesto possui enorme relevância, pois naturaliza o envelhecimento diante de milhões de pessoas.

Vivemos em uma sociedade que insiste em transformar a juventude em obrigação permanente. Ver uma personalidade da dimensão de Xuxa reconhecer, com serenidade, a passagem do tempo ajuda a romper essa ilusão coletiva.

Quando afirmou: "Estou velha", não havia derrota naquela frase. Havia verdade.

Ela envelheceu.

ós que crescemos com ela, também.

E alvez essa seja a maior mensagem de todo o espetáculo: compreender que cada fase da existência possui sua própria beleza. A infância vive na memória, a maturidade ensina novos significados e a velhice, apesar das limitações e da solidão que por vezes impõe, continua sendo um privilégio concedido apenas àqueles que tiveram a oportunidade de atravessar o tempo.

Talvez por isso eu continue aguardando, todos os anos, o especial de Roberto Carlos. Não apenas pelas canções, mas porque esses encontros televisivos nos recordam da importância de agradecer a Deus pelo dom da vida e pela lucidez que nos permite revisitar nossas lembranças.

Envelhecer não é perder a beleza da existência.

É aprender que alguns sonhos mudam de forma, mas jamais deixam de iluminar a memória.

Há uma realidade pouco comentada na vida daqueles que não nasceram em berço esplêndido: a existência parece dividir-se em três grandes movimentos.

Na juventude, dispõe-se de tempo e energia, mas falta o recurso financeiro para realizar muitos sonhos. Durante a vida laboral, conquista-se certa estabilidade econômica e conserva-se boa parte da disposição física, porém o tempo torna-se escasso, consumido pelas responsabilidades profissionais e familiares. Finalmente, chega a tão almejada aposentadoria. Recupera-se o tempo; com planejamento e disciplina, é possível administrar as finanças. Entretanto, aquilo que a juventude oferecia em abundância — a energia física — já não responde da mesma maneira. Muitos desejos permanecem vivos, mas o corpo passa a impor seus próprios limites.

Durante toda a minha vida, sonhei em assistir a um show da Xuxa. Quando era jovem, faltava dinheiro. Na fase adulta, faltava tempo. Hoje, disponho de tempo e, com algum esforço, conseguiria custear a viagem e o ingresso. Contudo, faltou-me a disposição física para permanecer durante horas em pé, em meio a milhares de pessoas, acompanhando um espetáculo de grande intensidade sonora e visual.

Restou-me, então, aguardar a transmissão disponibilizada no YouTube, plataforma que, de certo modo, cumpre atualmente um papel semelhante ao que a televisão aberta desempenhou durante décadas: democratizar o acesso à cultura para aqueles que, por diferentes razões, não conseguem vivenciar presencialmente os grandes eventos.

Assisti ao espetáculo integralmente e terminei com um sentimento de frustração.

Talvez justamente por pertencer à geração que acompanhou praticamente todos os especiais de fim de ano da artista, eu carregasse uma expectativa muito específica: reencontrar, ainda que por algumas horas, a atmosfera musical que marcou minha infância.

O que encontrei, porém, foi uma proposta estética bastante diferente.

Os novos arranjos privilegiaram uma linguagem pop contemporânea, sustentada por uma base rítmica constante e por uma pulsação eletrônica praticamente uniforme durante grande parte do espetáculo. Do ponto de vista técnico, houve uma homogeneização do material musical. A predominância do mesmo groove, da mesma levada rítmica e de uma instrumentação semelhante reduziu o contraste entre as canções. Consequentemente, músicas originalmente construídas sobre identidades melódicas e harmônicas muito distintas passaram a apresentar sonoridades excessivamente próximas entre si.

Em diversos momentos, tive a sensação de ouvir uma única música em sequência, exigindo atenção para perceber que apenas a letra havia mudado.

Essa impressão não decorre da qualidade das composições, mas da padronização dos arranjos. A riqueza da obra da Xuxa sempre esteve justamente na variedade de atmosferas musicais: havia canções contemplativas, marchinhas, baladas, músicas de roda, influências da música latina e do pop infantil dos anos 1980 e 1990. Quando essas diferenças são reduzidas em favor de uma única estética sonora, perde-se parte da identidade individual de cada composição.

Foi exatamente isso que senti ao ouvir Boto Rosa.

Na gravação original, a canção possui uma linha melódica delicada, com caráter quase narrativo, que favorece a imaginação e reforça o clima lúdico da história. No espetáculo, entretanto, o arranjo transformou essa atmosfera em uma versão predominantemente dançante, marcada por batidas fortes e andamento voltado para a participação coletiva do público.

Naturalmente, compreendo a intenção artística. Em grandes shows contemporâneos, busca-se manter elevada energia cênica, favorecendo a interação do público, que canta, dança e acompanha os comandos do artista. Entretanto, essa escolha acabou sacrificando justamente aquilo que tornava a música memorável para quem cresceu ouvindo a versão original.

Outro aspecto que me incomodou foi o excesso de recursos visuais.

A tecnologia deve ampliar a presença do artista, nunca competir com ela. Em vários momentos, projeções, efeitos gráficos, jogos de luz e sobreposições de imagens pareciam disputar a atenção do espectador com a própria protagonista. A impressão era de que a artista desaparecia em meio ao espetáculo tecnológico.

Paradoxalmente, a maior estrela da noite acabou sendo, em alguns instantes, ofuscada pelos efeitos destinados a valorizá-la.

Para aqueles que acompanharam sua trajetória desde os primeiros programas televisivos, bastaria sua presença, seu sorriso, sua espontaneidade e sua capacidade singular de estabelecer uma conexão afetiva com o público.

A entrada da nave foi profundamente emocionante.

Durante décadas, ela representou um dos símbolos mais marcantes do imaginário infantil brasileiro. Contudo, a opção por fazê-la descer suspensa por cabos rompeu, para mim, parte da magia construída ao longo dos anos. Na memória afetiva de toda uma geração, a nave possuía um ritual próprio: a porta se abria, Xuxa surgia, embarcava novamente e partia, preservando a fantasia que sempre acompanhou aquele universo.

Percebi, então, que a frustração de não ter conseguido comparecer ao espetáculo foi substituída por outra, inesperada: a de não reconhecer plenamente a artista que marcou minha infância naquele formato de apresentação.

Ainda assim, saí da experiência com uma reflexão maior do que qualquer decepção estética.

A despedida da nave revelou-se um gesto de extraordinária sensibilidade. Encerrar, em vida, um dos maiores símbolos de sua carreira representa um raro exercício de maturidade artística. Socialmente, esse gesto possui enorme relevância, pois naturaliza o envelhecimento diante de milhões de pessoas.

Vivemos em uma sociedade que insiste em transformar a juventude em obrigação permanente. Ver uma personalidade da dimensão de Xuxa reconhecer, com serenidade, a passagem do tempo ajuda a romper essa ilusão coletiva.

Quando afirmou: "Estou velha", não havia derrota naquela frase. Havia verdade.

Ela envelheceu.

Nós, que crescemos com ela, também.

E talvez essa seja a maior mensagem de todo o espetáculo: compreender que cada fase da existência possui sua própria beleza. A infância vive na memória, a maturidade ensina novos significados e a velhice, apesar das limitações e da solidão que por vezes impõe, continua sendo um privilégio concedido apenas àqueles que tiveram a oportunidade de atravessar o tempo.

Talvez por isso eu continue aguardando, todos os anos, o especial de Roberto Carlos. Não apenas pelas canções, mas porque esses encontros televisivos nos recordam da importância de agradecer a Deus pelo dom da vida e pela lucidez que nos permite revisitar nossas lembranças.

Envelhecer não é perder a beleza da existência.

É aprender que alguns sonhos mudam de forma, mas jamais deixam de iluminar a memória.


sábado, 27 de junho de 2026

Sonhei com meu pai, uma leoa e uma casa em ruínas. Ao acordar, entendi algo sobre a vida


 Esta madrugada, um sonho me conduziu por uma estrada de terra. Não era eu quem dirigia. Viajava de carona com um homem de quem mal conhecia o rosto, desses personagens que surgem nos sonhos apenas para nos lembrar de que nem sempre somos nós a conduzir os caminhos da própria existência.

A poeira da estrada parecia antiga, como se carregasse as pegadas de muitas gerações. De repente, à margem do caminho, surgiu uma cena que interrompeu qualquer pressa: uma fêmea de leão, imóvel, velava dois filhotes mortos. Não havia rugidos, nem violência. Apenas um silêncio solene, desses que a natureza conhece melhor do que nós. Pela primeira vez, pensei que até a força precisa de tempo para chorar.

Seguimos viagem.

Mais adiante, uma lagoa de águas cristalinas atravessava o caminho. O carro entrou na água como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Os vidros permaneciam abertos, mas nenhuma gota nos alcançava. Cruzávamos a água sem nos molhar, como quem atravessa as próprias emoções sem se deixar afogar por elas. Talvez seja essa uma das maiores virtudes que a maturidade ensina: não evitar as águas profundas, mas aprender a passar por elas.

Então pedi ao motorista que voltasse.

Não queria seguir para o destino desconhecido. Queria retornar à fazenda dos meus pais.

Nos sonhos, a morte não possui a última palavra. Os ausentes continuam habitando as paisagens da memória. Meu pai e minha mãe estavam vivos.

Chegando lá, porém, encontrei uma casa em ruínas. As paredes já não sustentavam o tempo como antes, e os sinais do abandono pareciam contar a história de tudo aquilo que o relógio insiste em levar. Minha mãe trabalhava ao lado de outras pessoas. Nem percebeu minha chegada. Não era descaso; era a vida cumprindo sua antiga obrigação de continuar.

Caminhei até meu pai.

Estava num canto, debilitado, preso por amarras que eu não compreendia. Tentava falar, mas as palavras pareciam aprisionadas antes mesmo de alcançarem os lábios. Acordei exatamente nesse instante, levando comigo uma conversa que jamais aconteceu.

Passei boa parte do dia pensando no que aquele sonho poderia significar. Não porque acredite que os sonhos anunciem o futuro, mas porque eles costumam revelar o presente que escondemos de nós mesmos.

Talvez a leoa não estivesse velando apenas seus filhotes. Talvez estivesse nos lembrando de que toda vida conhece perdas, e que nenhuma força elimina a necessidade do luto.

Talvez a lagoa mostrasse que há dores que precisam ser atravessadas, não contornadas.

Talvez a casa em ruínas fosse apenas a arquitetura inevitável da memória, onde o tempo derruba paredes, mas nunca consegue demolir completamente os afetos.

E talvez meu pai, silencioso e preso, representasse todas as palavras que deixamos para depois. As perguntas que nunca fizemos. Os agradecimentos que supusemos desnecessários. Os abraços adiados pela ilusão de que sempre haveria outro domingo.

A ciência explica que os sonhos organizam lembranças, emoções e experiências. A literatura prefere dizer que eles escrevem cartas que a alma envia à consciência. Gosto mais da segunda hipótese. Ela não pretende competir com a razão; apenas reconhece que existem verdades que chegam até nós pela delicadeza dos símbolos.

Ao despertar, percebi que a viagem daquela noite não era sobre uma estrada de terra. Era sobre o caminho invisível que todos percorremos em direção às nossas origens. Um percurso em que encontramos o luto, atravessamos as águas da memória e, quase sempre, voltamos para casa apenas para descobrir que as paredes envelheceram, mas o amor continua habitando as ruínas.

Talvez seja justamente isso que os sonhos nos ensinem: algumas viagens acontecem de olhos fechados para que possamos enxergar melhor quando amanhece.

 

 


domingo, 21 de junho de 2026

Quando Entendi que Alguns Sonhos Não Eram Meus

 

Metade do ano escorrera pelo ralo dos dias comuns, e os velhos erros, esses inquilinos insistentes da alma, continuavam morando no mesmo endereço. Seis meses repetindo caminhos conhecidos, tropeçando nas mesmas pedras, alimentando a mesma dificuldade de viver a minha própria vida em vez da vida que imaginei que deveria viver.

A velhice tem uma crueldade peculiar: ela nos tira a ilusão de que ainda há tempo infinito para resolver o que ficou mal resolvido. Quase aos oitenta anos, olho para trás e percebo que algumas feridas envelhecem conosco. Não desaparecem. Apenas mudam de roupa.

Minha mãe sonhava com uma vida diferente. Falava da importância do estudo, de conhecer outros mundos, outras pessoas, outros horizontes. Durante muito tempo acreditei que aquele sonho também era meu. Hoje suspeito que não. Talvez eu apenas o tenha adotado porque desejava desesperadamente ser vista por ela.

A psicologia chama isso de busca por validação. A criança que não se sente suficientemente amada aprende a perseguir reconhecimento como quem corre atrás de água no deserto. Cresce acreditando que, se fizer mais, se trabalhar mais, se agradar mais, se alcançar mais, finalmente será escolhida.

Mas algumas escolhas nunca chegam.

Minha mãe tinha olhos para os outros filhos. Eu era a filha do serviço pesado, a mula de carga da família. Enquanto os irmãos recebiam tarefas leves, eu carregava o peso que sobrava. Não havia medalhas, elogios ou recompensas. Apenas a expectativa silenciosa de continuar carregando.

O problema é que a infância acaba, mas certas necessidades não.

E aqui estou eu, décadas depois, ainda tentando ser vista. Ainda oferecendo demais de mim. Ainda acreditando, em algum canto escondido do coração, que existe um prêmio esperando no final da estrada. Um olhar de aprovação. Um gesto de reconhecimento. Um amor que diga: "Agora você basta."

Mas meus pais morreram.

E essa talvez seja a verdade mais dura e mais libertadora que conheço.

Eles morreram, e com eles morreu também a possibilidade de receber aquilo que nunca veio. A carência que permanece não pertence à mulher de quase oitenta anos. Pertence à menina rejeitada que continua sentada dentro dela, esperando ser chamada para perto.

Só que ninguém virá.

E talvez a liberdade comece exatamente aí.

Há algum tempo venho correndo atrás de uma ideia de vida que não combina comigo. Sonhos emprestados. Ambições importadas. Fantasias de pertencimento a uma alta sociedade que nunca foi o meu lugar.

Se eu for honesta, existem três razões simples para isso nunca funcionar.

Primeiro, porque não é um sonho meu.

Segundo, porque não tenho dinheiro para sustentar os custos desse mundo.

Terceiro, porque não tenho alma de nobre.

Sou povo.

Gosto de sentar no chão. De comer com o prato na mão. De conversar sem cerimônia. De rir alto quando a vida permite. Passei anos tentando caber em salões onde meu coração nunca entrou.

Talvez o maior desperdício da existência seja dedicar energia a sonhos que não nasceram dentro de nós.

Porque, enquanto perseguia o que os outros valorizavam, fui deixando para depois aquilo que realmente desejava.

E o que eu queria era tão simples.

Uma casa com jardim.

Livros.

Silêncio.

Tempo para escrever a história dos meus antepassados.

Talvez porque, para os meus contemporâneos, eu me sinta invisível. Mas os mortos, curiosamente, ainda me fazem companhia. Nas histórias deles encontro raízes. Encontro sentido. Encontro uma linhagem inteira de pessoas comuns que viveram sem aplausos e, ainda assim, viveram.

Estou começando a aceitar outra verdade desconfortável: para minha família, talvez eu continue invisível.

E tudo bem.

Nem toda batalha merece ser vencida. Algumas precisam apenas ser abandonadas.

Talvez a maturidade não seja conquistar o amor que faltou. Talvez seja parar de mendigá-lo.

Talvez seja construir uma vida pequena, mas verdadeira.

Uma vida de vizinhos que se cumprimentam pelo nome.

De plantas crescendo no quintal.

De tardes de leitura.

De páginas escritas sem pressa.

De descanso sem culpa.

Não posso mudar a menina que fui. Não posso voltar à cozinha da infância nem reescrever os gestos que nunca recebi.

Mas ainda posso cuidar dela.

Ainda posso dizer a essa criança cansada que ela não precisa mais provar nada.

O calendário já avançou para junho. O tempo continua correndo. Mas, pela primeira vez em muito tempo, começo a suspeitar que a vida que procuro não está à minha frente.

Ela está me esperando justamente onde sempre esteve: na simplicidade dos meus próprios desejos.

E talvez ainda haja tempo para realizar ao menos um deles.