domingo, 15 de fevereiro de 2026

Sonhar: Esse Hábito Inútil de Procurar Sentido

 

Neste domingo de carnaval 2026, depois do almoço, o mundo parece sempre um pouco mais lento. Não importa se lá fora o sol continua firme: dentro de casa, o tempo se curva, dobra o joelho e cochila conosco. Talvez por isso a soneca da tarde seja uma das últimas resistências contra a pressa. Ela não serve para nada — e justamente por isso é tão necessária.

Depois de um estrogonofe generoso, desses que abraçam por dentro, o corpo pede trégua. Não é sono de noite, não é descanso planejado. É um desmaio socialmente aceito. Deitei com a intenção nobre de fechar os olhos por “dez minutinhos”, expressão que sempre mente, porque a alma, quando encontra silêncio, aproveita para abrir gavetas antigas.

E então sonhei.

Sonhei que estava na casa do Carlos, um homem que foi abrigo num tempo em que eu precisava de teto e, talvez mais do que isso, de testemunha da minha sobrevivência. No sonho, eu não alugava mais. Eu estava de favor. Há algo profundamente humilhante nessa palavra, mesmo quando não é dita. Ela pesa na espinha, altera a postura, faz a gente andar pela casa como quem pede desculpa por respirar.

Carlos me pediu para comprar arroz.
Pedi o dinheiro.

Ele ficou furioso. Disse que todo mundo comia ali e ninguém contribuía. A fúria dele não era apenas dele. Era coletiva, antiga, acumulada. Era o medo universal de ser visto como peso, como dívida, como excesso. No sonho, a vergonha veio rápido, como sempre vem na vida real: sem direito a defesa.

Saí para o mercado.

O curioso é que os sonhos nunca economizam simbolismo. Eles são exagerados, dramáticos, quase literários. No caminho, o mercado estava fechando. O mundo sempre fecha quando a gente chega atrasado. Essa é uma das primeiras lições da existência: as oportunidades têm horário comercial.

E havia o curral.

Dois touros furiosos bloqueavam a passagem.

Não era apenas medo. Era uma espécie de convocação. Eu queria passar, mas também queria ficar. Queria entender. Havia algo ali que não era só obstáculo. Era mensagem. Era teste. Era pergunta.

E acordei.

Talvez seja isso que mais incomode nos sonhos: eles nos deixam no meio da frase. Como certos amores, certos projetos, certas versões de nós mesmos.

Mas o que mais me impressiona não é o sonho em si. É o fato de que, ao acordar, sentimos uma urgência quase infantil de entender. Por que precisamos decifrar sonhos? Por que não aceitamos simplesmente que a mente, cansada, produziu imagens aleatórias? Por que insistimos em procurar sentido, como arqueólogos de nós mesmos?

Talvez porque a vida acordada seja dura demais para ser apenas literal.

Os dois touros podem ser muitas coisas: medo e desejo, impulso e prudência, coragem e paralisia. Mas talvez sejam também duas forças mais antigas: sobreviver e compreender. A maioria das pessoas passa correndo pelos touros. Algumas poucas param para observar. E isso também é uma escolha.

A casa do Carlos pode ser abrigo, mas também pode ser o passado cobrando maturidade. O arroz pode ser sustento, mas também responsabilidade. A vergonha pode ser ferida, mas também bússola. O mercado fechando pode ser urgência, mas também aviso: a vida não espera que a gente se organize emocionalmente.

E os sonhos?
Os sonhos talvez sejam a única linguagem que o inconsciente encontra para nos chamar pelo nome completo.

A soneca de domingo tem essa estranha dignidade: ela nos devolve àquilo que fingimos não saber durante a semana. No trabalho, nas conversas, nos compromissos, somos racionais, práticos, eficientes. No cochilo da tarde, somos novamente simbólicos, frágeis, primitivos.

Sonhar é um ato de desobediência contra a superficialidade.

Queremos entender os sonhos porque queremos acreditar que existe um enredo maior. Que nossas vergonhas não são inúteis. Que nossos medos não são gratuitos. Que nossos obstáculos não são apenas azar. Que há, por trás de cada curral bloqueando o caminho, uma iniciação.

Talvez nunca descubramos o significado exato. Talvez não exista.

Mas, no fundo, a necessidade de entender sonhos é a mesma de entender a própria vida: não queremos apenas passar pelos touros. Queremos saber por que eles estavam ali.

E, quem sabe, descobrir que eles não bloqueavam a passagem — estavam apenas esperando que a gente deixasse de fugir e começasse a olhar.

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Crônica da Fome que Não se Mastiga


Tenho travado uma guerra silenciosa contra um inimigo pequeno, fino e luminoso. Ele cabe na palma da mão, vibra como quem chama pelo nome e promete distração — essa palavra elegante para dizer fuga. Falo do celular, esse oráculo contemporâneo que nunca dorme e que, generosamente, me oferece vídeos curtos, inúteis e infinitos.

Deito-me dizendo que verei “só um”. Duas horas depois, estou com os olhos ardendo, lutando contra o sono, assistindo a algo que esquecerei antes mesmo que o próximo vídeo comece. E ele começa. Sempre começa. O algoritmo — essa entidade invisível que parece me conhecer melhor do que eu — envia mais e mais conteúdos sob medida para minha distração. E eu, obediente, assisto. Há algo de tragicômico nisso: uma sucessão de risadas vazias, receitas que não farei, opiniões que não pedi, danças que não aprenderei. Quando percebo, não sei o que vi, mas sei que estou exausta.

A psicologia tem nome para esse fenômeno. O design das redes sociais é estruturado com base no reforço intermitente, conceito estudado por B. F. Skinner. É o mesmo princípio das máquinas caça-níqueis: você nunca sabe quando virá algo interessante, então continua tentando. Um vídeo pode ser banal, o próximo também — mas, de repente, surge um que provoca riso, curiosidade ou identificação. Essa imprevisibilidade mantém o cérebro preso num ciclo de expectativa e recompensa, alimentado pela dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação.

Não é falta de caráter. É neurociência.

E foi no meio dessa avalanche de inutilidades que, acidentalmente, apareceu um vídeo útil. Ele falava sobre fome emocional. Parei. Prestei atenção. Pela primeira vez em semanas, não deslizei o dedo para cima.

A fome física é simples: o estômago ronca, o corpo pede energia, qualquer comida resolve. Já a fome emocional é exigente e insistente. Ela não quer arroz; quer consolo. Não quer pão; quer presença. É a tentativa de mastigar a solidão, de engolir o silêncio da casa, de preencher com comida aquilo que é ausência de afeto.

A psicóloga Susan Albers, especialista em alimentação consciente, explica que muitas vezes comemos para regular emoções difíceis — ansiedade, tristeza, tédio. A comida se torna anestesia rápida e socialmente aceita. E, se o celular distrai da solidão, a comida distrai do vazio que o celular não conseguiu tapar.

Percebi então que estava duplamente dependente: da tela e da mastigação. Uma para ocupar os olhos; a outra, para ocupar o peito.

A teoria da regulação emocional sugere que, quando não aprendemos a lidar diretamente com sentimentos desconfortáveis, buscamos estratégias externas para modulá-los — comer, rolar a tela, comprar, trabalhar em excesso. Não porque somos fracos, mas porque somos humanos e desejamos aliviar a dor. O problema é que esses alívios são temporários e, muitas vezes, ampliam o desconforto depois.

Hoje tenho dois desafios concretos: libertar-me da dependência do celular e aprender a comer nas horas certas, em quantidade suficiente, ignorando essa vontade contínua de estar sempre mastigando algo. É quase como reaprender a habitar o próprio corpo — sem distrações, sem petiscos emocionais.

A psicologia comportamental sugere estratégias práticas:

·         Estabelecer limites ambientais (não levar o celular para a cama; definir horários específicos para uso).

·         Substituir o hábito, não apenas suprimi-lo (trocar vídeos por leitura breve; trocar beliscos por um chá e alguns minutos de respiração consciente).

·         Praticar alimentação consciente: perguntar antes de comer — “Estou com fome física ou emocional?”

·         Criar rituais de conexão real: uma ligação para alguém querido, uma caminhada ao ar livre, escrever o que se sente.

Pequenas mudanças repetidas constroem novas rotas neurais. O cérebro aprende — inclusive a se libertar.

Caro leitor, escrevo não como quem ensina, mas como quem confessa. Descobri que minha fome não era apenas de comida nem apenas de vídeos. Era de presença. De sentido. De pausa.

Talvez a verdadeira libertação não esteja em abandonar o celular ou fechar a geladeira, mas em encarar, sem anestesia, aquilo que dói quando o silêncio chega.

Se houver um ensinamento nisso tudo, talvez seja este: nem toda fome se resolve com comida, e nem todo vazio se preenche com movimento de dedo. Algumas carências pedem coragem — e isso, infelizmente, não vem em vídeos de trinta segundos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O preço das palavras

 


Há quem diga que os sonhos são como sementes: precisam de silêncio, de sombra e de tempo para germinar. Mas há quem, como eu, não resista à tentação de expô-los ao sol antes da hora, como se a simples partilha fosse garantia de flores. Os sábios da antiguidade já alertavam: falar demais sobre os próprios projetos é como gastar energia antes da obra começar. Eu não ouvi.

Contei aos parentes que escreveria um livro sobre nossos antepassados. Pedi histórias, mexi em memórias, despertei curiosidades. E, ao perceber que não daria conta da promessa, inventei uma versão infantil. Resultado: a compulsão de falar me levou ao compromisso de pagar pela edição de um livro que, sei bem, não terá leitores além de mim. O homenageado nasceu no século XIX, e hoje é apenas um traço genético perdido em descendentes que nem sabem de sua existência.

Recebi o arquivo para revisão e não gostei. Mas já estava pago. O dinheiro saiu não da necessidade, mas da boca: da palavra que escapou antes de amadurecer. Eis o sofrimento — gastar não por desejo, mas por coerência com aquilo que se disse.

A psicologia explica: há uma compulsão em expor sonhos que nasce da carência de validação. Ao falar, buscamos reconhecimento, aplauso, cumplicidade. É como se o projeto só existisse quando ecoa nos ouvidos alheios. Mas esse impulso tem um preço: a ansiedade de corresponder ao que foi dito, mesmo quando o coração já não sustenta o plano.

Comprei um apartamento na praia. E desta vez, prometi a mim mesmo: silêncio. Porque talvez o verdadeiro poder esteja em guardar, em deixar que o sonho cresça protegido, sem a pressão das expectativas externas.

Preciso controlar a língua, aprender que nem todo objetivo precisa ser anunciado. O silêncio, afinal, é também uma forma de liberdade. Talvez seja nele que os sonhos encontrem espaço para florescer sem cobranças, sem dívidas, sem o peso das palavras que custam mais caro do que o próprio sonho.

E você, leitor, já se pegou falando demais? Já sentiu a língua escapar, como se tivesse vida própria, revelando planos que ainda estavam verdes dentro da cabeça? Não lhe parece que, muitas vezes, o silêncio é mais sábio do que qualquer discurso? Talvez você também carregue essa luta: conter a língua dentro da boca, como quem guarda um segredo precioso. Afinal, quem nunca se arrependeu de ter falado antes da hora?

sábado, 24 de janeiro de 2026

À margem do Corrégo

 

Hoje o céu amanheceu fechado, desses que parecem economizar luz. À margem do córrego, quase despercebida por quem passa apressado, a flor Asclepias curassavica ( se impôs com cores que não combinam com dias nublados. Vermelho aceso, amarelo insolente. Como se ignorasse o humor do tempo.

Disseram-me depois que ela é tóxica. Mata-rato. O nome popular carrega uma sentença. No caule, quando ferido, escorre um leite branco — defesa química, estratégia antiga. Não é agressiva; é precavida. A toxicidade não está ali para matar por prazer, mas para garantir sobrevivência.

Curioso é que algumas borboletas se alimentam justamente dessa flor. Absorvem o veneno e o transformam em armadura. Tornam-se amargas ao paladar dos predadores. Vivem porque aprenderam a usar o perigo como proteção. Aquilo que mata uns, salva outros.

Fiquei pensando que o amor se parece com isso.

Há amores que curam, sustentam, dão cor a dias cinzentos. Há outros que intoxicam, corroem, adoecem devagar. O mesmo sentimento, duas consequências. O que muda não é o amor em si, mas como ele é oferecido, recebido e metabolizado.

Amar exige defesa. Sem limites, o amor vira excesso; sem cuidado, vira veneno. Mas quando assimilado com consciência, pode fortalecer, tornar mais resistente, menos vulnerável aos ataques do mundo.

A flor segue ali, à beira do córrego, ensinando sem discurso. Não pede que a toquem. Apenas floresce. E talvez o maior aprendizado seja esse:
nem todo amor precisa ser acessível,
nem toda entrega é saudável,
nem toda doçura é segura.

Algumas coisas existem para lembrar que viver é, antes de tudo, saber até onde se pode chegar.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Círculo da Memória

 

 


Era para ser apenas um antídoto contra a solidão. Um círculo de convivência, simples, sem pretensões acadêmicas, sem diplomas pendurados na parede. Eu, com minhas sete décadas de vida, buscava apenas companhia, vozes que preenchessem o silêncio da casa. Mas o que nasceu como remédio para mim, tornou-se bálsamo para outras.

Descobri, quase por acaso, que aquilo que fazíamos juntos tinha nome: terapia da reminiscência. Uma prática reconhecida, estudada, aplicada em grupos de idosos, que consiste em revisitar lembranças, ouvir músicas que marcaram épocas, ler histórias que se entrelaçam com a vida real, e permitir que cada memória se transforme em ponte entre passado e presente.

A teoria explica que recordar não é apenas reviver: é reorganizar a própria identidade, dar sentido ao que se viveu e ao que ainda se vive. Ao compartilhar lembranças, cada participante reafirma sua história, encontra pertencimento e fortalece laços. A memória, que poderia ser apenas um arquivo silencioso, torna-se viva, dialoga, emociona, cura.

Eu sequer sabia que existia essa tal terapia. Não inventei nada, apenas juntei pedaços de experiências adquiridas em grupos, palestras, encontros. E, sem perceber, estava aplicando com minhas companheiras de roda. O resultado? Riso, lágrimas, cumplicidade. O que começou como tentativa de suportar minha própria solidão, revelou-se como espaço de acolhimento coletivo.

Em tempos de relações líquidas, em que tudo escorre pelos dedos, decidi buscar cursos e palestras online, gratuitos, para me aprimorar. Não por vaidade, mas para melhor ajudar. Porque percebi que, ao oferecer esse espaço, não apenas encontro sentido para minha vida, mas também ajudo outras a reencontrarem o fio da própria história.

Há quem diga que quem não gera filhos ou não planta árvores é peso morto para a terra. Eu discordo. Plantar memórias também é semear. Cada lembrança compartilhada é raiz que se aprofunda, cada história contada é galho que se abre. No círculo da reminiscência, não somos peso: somos árvore frondosa, oferecendo sombra e frutos invisíveis, mas essenciais.

E assim, entre músicas antigas e histórias que se confundem com nossas próprias vidas, seguimos. Não como mortos que nada oferecem, mas como vivos que, ao recordar, continuam a dar.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A educação de quem nunca concorda

 


Há naturezas que o tempo não corrige — apenas ilumina com crueldade. São como pinturas antigas: à distância parecem harmônicas, mas, quando a luz incide em ângulo mais severo, revelam as fissuras, o escurecimento do verniz, as intenções tortas do pincel. Nela, a idade não trouxe mudança, trouxe nitidez. Ouve com compostura, inclina a cabeça em sinal de assentimento e, tão logo as vozes se dispersam, executa, com diligência silenciosa, exatamente o contrário do que foi dito.

É uma arte social de alto requinte. Não há portas batidas nem vozes exaltadas. Há apenas o gesto mínimo, quase imperceptível, de empurrar o mundo alguns centímetros na direção desejada — e, quando se dá conta, o chão já não coincide com a memória do passo anterior.

Os fatos, esses cronistas implacáveis, narraram melhor do que qualquer adjetivo o enredo que se armava.

No episódio de Tânia e Carmelita, havia um pacto. Singelo, quase doméstico: um arrendamento simbólico, legado pela falecida, que não maculava o inventário, não criava ônus, não acendia discórdias. Sustentava-se apenas na palavra — frágil como tudo que é humano, mas íntegro como poucas coisas são. Bastou, porém, uma canetada fora do combinado para que, onde antes havia acordo, surgisse um peticionamento nos autos. Talvez legítimo, talvez eficaz — mas inegavelmente dispensável. O que se podia evitar converteu-se em azedume, e o que era convivência virou contenda.

Depois veio a afronta mais dolorosa: o atropelo. Quando da morte da matriarca, fui eu quem os procurou. Disse, com a voz ainda embargada pelo luto, que não seria necessário advogado, que honraríamos o que fora pactuado. Era um gesto de fé num tempo em que tudo era ruína e instabilidade. Mas a confiança, quando encontra silêncio calculado, transmuta-se em ingenuidade — e a ingenuidade cobra juros altos.

Houve também o dia em que declarei, com a sobriedade de quem deseja apenas conservar o que ainda respira: “Não vamos mexer no que está dando certo.” Ainda assim, a conta foi aberta. Ignorar uma voz é um ato sem ruído, mas não sem consequência: não deixa marcas na superfície, porém cava rachaduras profundas na estrutura.

O episódio de Petrônio e Dalila… esse prescinde de exegese. Há fatos que se explicam por si mesmos, como portas que se fecham sem estardalhaço, mas com definitivo estalo interior.

Você começa dizendo: “Creio que você há de concordar…”. Mas nunca foi a concordância o cerne da questão. O nó está na duplicidade: na concordância de fachada e na decisão subterrânea. A organização é nossa, afirmamos. Quatro pessoas, dois desígnios comuns: receber o que é de direito e manter distância de você. Um paradoxo melancólico, porém honesto. Não articularei novos caminhos, pois conheço o desfecho: o mesmo semblante de quem confiou e terminou com o olhar oco de quem foi passado para trás.

Processos têm ritos. Processos litigiosos têm feridas. Acatamos, contestamos, sempre sob orientação jurídica, sempre buscando o mal menor para todos. Antes do despacho do juiz e da manifestação da promotoria acerca do pedido de avaliação e venda do imóvel, tudo é conjectura. E conjectura não paga boleto, não encerra herança, não recompõe confiança dilapidada.

O concreto, agora, é a regularização da fábrica. Isso precisa acontecer. É oneroso, é moroso, é burocrático — e independe de opiniões ou humores. O certo não é o que se acha; o certo é o que a lei determina. Quem define o rumo não é a vontade pessoal, mas o advogado, o contador.

Hoje pedimos apenas o que nos assiste por direito: conhecer a real situação do capital de giro e do caixa da empresa. Não é provocação, é obrigação de quem administra e prerrogativa de todos os sócios minoritários. Obstar isso é manufaturar conflitos desnecessários. Não carecemos de mais um peticionamento para o que deveria ser simples e transparente.

Se não atrapalhar, já estará prestando grande auxílio.

Lidamos com uma fábrica de muitos donos. Isso não comporta achismos nem jogos de força. Ou se faz o correto, no tempo correto, ou todos pereceremos antes de alcançar o desfecho — sem jamais usufruir do que ajudamos a erguer com trabalho árduo e economia severa.

E há ainda os detalhes, esses delatores sutis da desordem moral. Se deseja celeridade, averbe o divórcio. No dia em que precisei de sua certidão, ela não estava atualizada. Passou despercebido por se tratar da prefeitura. Mas nos autos, você figura como divorciada. Até os papéis sentem quando algo está fora do lugar.

Ao fim, a maior decepção não é o conflito. É a sua etiqueta. É a elegância com que se ignora o outro. É a cortesia que mascara a decisão já tomada. É ouvir, concordar… e seguir só, deixando atrás de si um rastro de gente que acreditou caminhar em conjunto.

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A vida que me chama e eu finjo não ouvir

 


A frase está anotada, não em papel — papel exige gesto — mas na cabeça. E gesto é coisa rara. Repito como quem reza sem fé, esperando que a repetição se torne movimento. Mas ela volta, intacta, como se tivesse medo de descer para o corpo.

Aprendi cedo a ser discreta. A invisibilidade é uma arte que se pratica com rigor: não incomodar, não ocupar espaço demais, não pedir. É uma forma segura de continuar viva. Só que continuar viva não é o mesmo que viver.

Na pandemia, o mundo se recolheu. Eu também. Septuagenária, fiquei um ano dentro de casa. Nenhum irmão, nenhum sobrinho. Apenas o síndico e Dona Israélia, a porteira, confirmavam que eu ainda existia. O silêncio foi tão absoluto que parecia uma prova: não sou nada para ninguém.

Hoje, a luta não é contra a falta de oportunidades. É contra elas. Elas me chamam e eu recuso. O celular me anestesia por seis horas seguidas. A biblioteca está ao lado, mas não entro. As aulas de ginástica são gratuitas, mas não vou. Tenho tempo, internet, desejo antigo de aprender outro idioma — e não tenho gesto.

Critico os outros porque o movimento deles me fere. Odeio gente mal arrumada, talvez porque eu mesma saiba que abandono também é uma forma de desleixo, só que invisível.

O corpo melhorou um pouco com vitaminas. A alma, não. Porque o problema não está no ferro. Está no vínculo.

E vínculo não se compra em farmácia. Ele se constrói no olhar, no gesto mínimo, no testemunho de que alguém nos vê. Talvez seja isso: ser vista. Nem que seja por dez minutos na biblioteca, ou por três linhas escritas sobre o dia.

Não é sobre vencer a apatia. É sobre não deixar que ela decida tudo sozinha.

E, apesar de tudo, ainda estou aqui. Isso, por si só, já é uma forma de resistência.