Era para ser apenas um antídoto contra a solidão.
Um círculo de convivência, simples, sem pretensões acadêmicas, sem diplomas
pendurados na parede. Eu, com minhas sete décadas de vida, buscava apenas
companhia, vozes que preenchessem o silêncio da casa. Mas o que nasceu como
remédio para mim, tornou-se bálsamo para outras.
Descobri, quase por acaso, que aquilo que fazíamos
juntos tinha nome: terapia da reminiscência. Uma prática reconhecida,
estudada, aplicada em grupos de idosos, que consiste em revisitar lembranças,
ouvir músicas que marcaram épocas, ler histórias que se entrelaçam com a vida
real, e permitir que cada memória se transforme em ponte entre passado e
presente.
A teoria explica que recordar não é apenas reviver:
é reorganizar a própria identidade, dar sentido ao que se viveu e ao que ainda
se vive. Ao compartilhar lembranças, cada participante reafirma sua história,
encontra pertencimento e fortalece laços. A memória, que poderia ser apenas um
arquivo silencioso, torna-se viva, dialoga, emociona, cura.
Eu sequer sabia que existia essa tal terapia. Não
inventei nada, apenas juntei pedaços de experiências adquiridas em grupos,
palestras, encontros. E, sem perceber, estava aplicando com minhas companheiras
de roda. O resultado? Riso, lágrimas, cumplicidade. O que começou como
tentativa de suportar minha própria solidão, revelou-se como espaço de
acolhimento coletivo.
Em tempos de relações líquidas, em que tudo escorre
pelos dedos, decidi buscar cursos e palestras online, gratuitos, para me
aprimorar. Não por vaidade, mas para melhor ajudar. Porque percebi que, ao
oferecer esse espaço, não apenas encontro sentido para minha vida, mas também
ajudo outras a reencontrarem o fio da própria história.
Há quem diga que quem não gera filhos ou não planta
árvores é peso morto para a terra. Eu discordo. Plantar memórias também é
semear. Cada lembrança compartilhada é raiz que se aprofunda, cada história
contada é galho que se abre. No círculo da reminiscência, não somos peso: somos
árvore frondosa, oferecendo sombra e frutos invisíveis, mas essenciais.
E assim, entre músicas antigas e histórias que se
confundem com nossas próprias vidas, seguimos. Não como mortos que nada
oferecem, mas como vivos que, ao recordar, continuam a dar.
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