sábado, 27 de junho de 2026

Sonhei com meu pai, uma leoa e uma casa em ruínas. Ao acordar, entendi algo sobre a vida


 Esta madrugada, um sonho me conduziu por uma estrada de terra. Não era eu quem dirigia. Viajava de carona com um homem de quem mal conhecia o rosto, desses personagens que surgem nos sonhos apenas para nos lembrar de que nem sempre somos nós a conduzir os caminhos da própria existência.

A poeira da estrada parecia antiga, como se carregasse as pegadas de muitas gerações. De repente, à margem do caminho, surgiu uma cena que interrompeu qualquer pressa: uma fêmea de leão, imóvel, velava dois filhotes mortos. Não havia rugidos, nem violência. Apenas um silêncio solene, desses que a natureza conhece melhor do que nós. Pela primeira vez, pensei que até a força precisa de tempo para chorar.

Seguimos viagem.

Mais adiante, uma lagoa de águas cristalinas atravessava o caminho. O carro entrou na água como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Os vidros permaneciam abertos, mas nenhuma gota nos alcançava. Cruzávamos a água sem nos molhar, como quem atravessa as próprias emoções sem se deixar afogar por elas. Talvez seja essa uma das maiores virtudes que a maturidade ensina: não evitar as águas profundas, mas aprender a passar por elas.

Então pedi ao motorista que voltasse.

Não queria seguir para o destino desconhecido. Queria retornar à fazenda dos meus pais.

Nos sonhos, a morte não possui a última palavra. Os ausentes continuam habitando as paisagens da memória. Meu pai e minha mãe estavam vivos.

Chegando lá, porém, encontrei uma casa em ruínas. As paredes já não sustentavam o tempo como antes, e os sinais do abandono pareciam contar a história de tudo aquilo que o relógio insiste em levar. Minha mãe trabalhava ao lado de outras pessoas. Nem percebeu minha chegada. Não era descaso; era a vida cumprindo sua antiga obrigação de continuar.

Caminhei até meu pai.

Estava num canto, debilitado, preso por amarras que eu não compreendia. Tentava falar, mas as palavras pareciam aprisionadas antes mesmo de alcançarem os lábios. Acordei exatamente nesse instante, levando comigo uma conversa que jamais aconteceu.

Passei boa parte do dia pensando no que aquele sonho poderia significar. Não porque acredite que os sonhos anunciem o futuro, mas porque eles costumam revelar o presente que escondemos de nós mesmos.

Talvez a leoa não estivesse velando apenas seus filhotes. Talvez estivesse nos lembrando de que toda vida conhece perdas, e que nenhuma força elimina a necessidade do luto.

Talvez a lagoa mostrasse que há dores que precisam ser atravessadas, não contornadas.

Talvez a casa em ruínas fosse apenas a arquitetura inevitável da memória, onde o tempo derruba paredes, mas nunca consegue demolir completamente os afetos.

E talvez meu pai, silencioso e preso, representasse todas as palavras que deixamos para depois. As perguntas que nunca fizemos. Os agradecimentos que supusemos desnecessários. Os abraços adiados pela ilusão de que sempre haveria outro domingo.

A ciência explica que os sonhos organizam lembranças, emoções e experiências. A literatura prefere dizer que eles escrevem cartas que a alma envia à consciência. Gosto mais da segunda hipótese. Ela não pretende competir com a razão; apenas reconhece que existem verdades que chegam até nós pela delicadeza dos símbolos.

Ao despertar, percebi que a viagem daquela noite não era sobre uma estrada de terra. Era sobre o caminho invisível que todos percorremos em direção às nossas origens. Um percurso em que encontramos o luto, atravessamos as águas da memória e, quase sempre, voltamos para casa apenas para descobrir que as paredes envelheceram, mas o amor continua habitando as ruínas.

Talvez seja justamente isso que os sonhos nos ensinem: algumas viagens acontecem de olhos fechados para que possamos enxergar melhor quando amanhece.

 

 


domingo, 21 de junho de 2026

Quando Entendi que Alguns Sonhos Não Eram Meus

 

Metade do ano escorrera pelo ralo dos dias comuns, e os velhos erros, esses inquilinos insistentes da alma, continuavam morando no mesmo endereço. Seis meses repetindo caminhos conhecidos, tropeçando nas mesmas pedras, alimentando a mesma dificuldade de viver a minha própria vida em vez da vida que imaginei que deveria viver.

A velhice tem uma crueldade peculiar: ela nos tira a ilusão de que ainda há tempo infinito para resolver o que ficou mal resolvido. Quase aos oitenta anos, olho para trás e percebo que algumas feridas envelhecem conosco. Não desaparecem. Apenas mudam de roupa.

Minha mãe sonhava com uma vida diferente. Falava da importância do estudo, de conhecer outros mundos, outras pessoas, outros horizontes. Durante muito tempo acreditei que aquele sonho também era meu. Hoje suspeito que não. Talvez eu apenas o tenha adotado porque desejava desesperadamente ser vista por ela.

A psicologia chama isso de busca por validação. A criança que não se sente suficientemente amada aprende a perseguir reconhecimento como quem corre atrás de água no deserto. Cresce acreditando que, se fizer mais, se trabalhar mais, se agradar mais, se alcançar mais, finalmente será escolhida.

Mas algumas escolhas nunca chegam.

Minha mãe tinha olhos para os outros filhos. Eu era a filha do serviço pesado, a mula de carga da família. Enquanto os irmãos recebiam tarefas leves, eu carregava o peso que sobrava. Não havia medalhas, elogios ou recompensas. Apenas a expectativa silenciosa de continuar carregando.

O problema é que a infância acaba, mas certas necessidades não.

E aqui estou eu, décadas depois, ainda tentando ser vista. Ainda oferecendo demais de mim. Ainda acreditando, em algum canto escondido do coração, que existe um prêmio esperando no final da estrada. Um olhar de aprovação. Um gesto de reconhecimento. Um amor que diga: "Agora você basta."

Mas meus pais morreram.

E essa talvez seja a verdade mais dura e mais libertadora que conheço.

Eles morreram, e com eles morreu também a possibilidade de receber aquilo que nunca veio. A carência que permanece não pertence à mulher de quase oitenta anos. Pertence à menina rejeitada que continua sentada dentro dela, esperando ser chamada para perto.

Só que ninguém virá.

E talvez a liberdade comece exatamente aí.

Há algum tempo venho correndo atrás de uma ideia de vida que não combina comigo. Sonhos emprestados. Ambições importadas. Fantasias de pertencimento a uma alta sociedade que nunca foi o meu lugar.

Se eu for honesta, existem três razões simples para isso nunca funcionar.

Primeiro, porque não é um sonho meu.

Segundo, porque não tenho dinheiro para sustentar os custos desse mundo.

Terceiro, porque não tenho alma de nobre.

Sou povo.

Gosto de sentar no chão. De comer com o prato na mão. De conversar sem cerimônia. De rir alto quando a vida permite. Passei anos tentando caber em salões onde meu coração nunca entrou.

Talvez o maior desperdício da existência seja dedicar energia a sonhos que não nasceram dentro de nós.

Porque, enquanto perseguia o que os outros valorizavam, fui deixando para depois aquilo que realmente desejava.

E o que eu queria era tão simples.

Uma casa com jardim.

Livros.

Silêncio.

Tempo para escrever a história dos meus antepassados.

Talvez porque, para os meus contemporâneos, eu me sinta invisível. Mas os mortos, curiosamente, ainda me fazem companhia. Nas histórias deles encontro raízes. Encontro sentido. Encontro uma linhagem inteira de pessoas comuns que viveram sem aplausos e, ainda assim, viveram.

Estou começando a aceitar outra verdade desconfortável: para minha família, talvez eu continue invisível.

E tudo bem.

Nem toda batalha merece ser vencida. Algumas precisam apenas ser abandonadas.

Talvez a maturidade não seja conquistar o amor que faltou. Talvez seja parar de mendigá-lo.

Talvez seja construir uma vida pequena, mas verdadeira.

Uma vida de vizinhos que se cumprimentam pelo nome.

De plantas crescendo no quintal.

De tardes de leitura.

De páginas escritas sem pressa.

De descanso sem culpa.

Não posso mudar a menina que fui. Não posso voltar à cozinha da infância nem reescrever os gestos que nunca recebi.

Mas ainda posso cuidar dela.

Ainda posso dizer a essa criança cansada que ela não precisa mais provar nada.

O calendário já avançou para junho. O tempo continua correndo. Mas, pela primeira vez em muito tempo, começo a suspeitar que a vida que procuro não está à minha frente.

Ela está me esperando justamente onde sempre esteve: na simplicidade dos meus próprios desejos.

E talvez ainda haja tempo para realizar ao menos um deles.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Crônica da Solidão Semeada


Às vezes, a vida se apresenta como um espelho rachado: cada fragmento devolve uma imagem distorcida de quem somos. Pergunto-me, em silêncio corrosivo, se não passo de uma presença desagradável, incapaz de sustentar vínculos, ou se carrego ideias tão adiantadas que ainda não encontram terreno fértil. Psicologia chamaria isso de dissonância cognitiva — o conflito entre o que acredito ser e o que o mundo insiste em me mostrar. Misticismo chamaria de karma não resolvido, uma lição que retorna em ciclos até que seja compreendida.

Decidi criar um grupo de estudos sobre maturidade, como quem planta sementes em solo árido. Convidei cinquenta pessoas, preparei o espaço, li, anotei, elaborei perguntas. E apenas uma presença se fez carne diante de mim. Uma única alma, enquanto as demais se dissolviam em desculpas, celulares e ausências. A psicologia explica: o ser humano busca pertencimento em massa, segue o fluxo, evita o risco de se destacar. O misticismo, por sua vez, sussurra que cada encontro é guiado por forças invisíveis, e talvez aquela única pessoa fosse a escolhida para ouvir, para ser espelho, para me lembrar que até uma chama solitária ilumina a escuridão.

Mas a dor não se apaga. Fiquei envergonhada, como se minha voz fosse um eco sem paredes para se refletir. A corrosiva pergunta retorna: por que não consigo formar um círculo, se não de amigos, ao menos de ouvintes? A memória me arrasta às mulheres bíblicas chamadas de secas, estéreis, incapazes de gerar vida. Eu não sou estéril, mas não encontrei o semeador. E, sem semeador, toda fertilidade se torna deserto.

Os homens não se aproximam. Nem os conhecidos, nem os desconhecidos. Enquanto tantas mulheres se queixam do assédio, eu caminho invisível, como se minha presença fosse um véu translúcido. A psicologia poderia falar em autoimagem fragilizada, em padrões inconscientes que afastam. O misticismo poderia falar em missão espiritual de isolamento, como se minha alma tivesse escolhido a solidão como rito de passagem. Mas nenhuma explicação consola. O que dói é o silêncio dos olhares que não se voltam, das mãos que não se estendem, das vozes que não se interessam.

Sou comum, sorridente, simpática. Mas a experiência provou que ninguém aprecia minha companhia. E talvez seja esse o destino de quem semeia o amanhã: caminhar entre espinhos do presente, suportar o peso da incompreensão, e ainda assim insistir em plantar. Porque, no fundo, há uma fé amarga — quase mística — de que um dia, em algum tempo que não é este, minhas sementes florescerão.


domingo, 24 de maio de 2026

“O Padrasto, a Lei e as Consequências Que Poucos Enxergam

 

Há temas que não chegam primeiro pelos livros de Direito, mas pelos sustos da vida. A paternidade socioafetiva, por exemplo, parece ter desembarcado no cotidiano brasileiro desse jeito: em vídeos curtos, debates inflamados na internet e histórias contadas pela metade, onde ninguém sabe ao certo o que é verdade, exagero ou medo coletivo. E talvez seja justamente isso que mais assuste quem envelheceu acreditando que as coisas tinham nome, lugar e permanência.

Viver muito tem suas vantagens e também suas perplexidades. Nasci em um tempo em que os mais velhos falavam e os mais novos ouviam. Não porque os anciãos fossem donos absolutos da razão, mas porque a experiência era considerada um patrimônio da família. A verdade morava na mesa da cozinha, nas conversas depois do jantar e nas recomendações dos pais, dos avós e dos professores.

Na escola, aprendíamos a ler, escrever, fazer contas e respeitar os símbolos da pátria, da religião e da família. Tudo parecia simples: pai era pai, mãe era mãe, filhos pertenciam àquela história e cada geração carregava suas responsabilidades sem precisar de cartório para confirmar afeto.

Depois veio o rádio, e a verdade da comunidade sofreu o primeiro abalo. Mais tarde, a televisão entrou pela sala trazendo novelas, novos costumes e ideias que faziam os mais velhos suspirarem como quem vê o mundo escapar pelas mãos. Agora, com a internet, a sensação é ainda mais estranha: nunca houve tanta informação circulando e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil saber no que acreditar.

É nesse território nebuloso que tenho ouvido falar sobre a chamada paternidade socioafetiva. Não sei dizer onde termina o fato e começa o terrorismo digital contra os homens. Aos 75 anos, a pessoa aprende que questionar certas novidades pode render olhares de piedade, como se envelhecer significasse automaticamente perder a lucidez. Então faço o que ainda sei fazer: observo, leio a lei e penso sozinha.

E o que compreendi até agora me inquieta.

A Constituição Federal e o entendimento consolidado pelo Supremo Tribunal Federal passaram a reconhecer que os laços de afeto também podem gerar parentesco jurídico. Em outras palavras: quem cria, educa e assume publicamente o papel de pai pode vir a ser reconhecido legalmente como tal, mesmo sem vínculo biológico. O princípio parece bonito — afinal, ninguém pode negar a importância do amor na formação de uma criança. O problema começa quando o afeto deixa de ser apenas virtude moral e passa a produzir obrigações permanentes.

Porque o Direito de Família não trabalha apenas com sentimentos; trabalha com consequências.

O pai socioafetivo pode assumir deveres equivalentes aos do pai biológico: alimentos, inclusão em herança e responsabilidades jurídicas que muitas vezes atravessam décadas. O Superior Tribunal de Justiça já decidiu, em diversas ocasiões, que a filiação socioafetiva gera os mesmos efeitos da biológica. E o Supremo Tribunal Federal reconheceu inclusive a possibilidade de multiparentalidade — isto é, alguém possuir oficialmente dois pais no registro civil.

É aqui que a reflexão precisa ultrapassar a emoção.

Quando um homem, tomado pela paixão do momento, decide assumir juridicamente o filho da companheira, talvez não esteja percebendo que não cria apenas um gesto de amor: cria um vínculo legal que alcança toda a família. Seus filhos biológicos passam a dividir patrimônio, atenção e herança. Seus pais — já idosos — podem, em determinadas circunstâncias extremas, ser chamados à chamada pensão avoenga, obrigação subsidiária reconhecida pelo Código Civil e pela jurisprudência quando os pais não conseguem sustentar o menor.

E então o afeto, que deveria nascer livre, começa a adquirir contornos de contrato irrevogável.

Não falo aqui contra o amor entre padrastos e enteados. Ao contrário. Há padrastos que salvam crianças da ausência, da violência e do abandono emocional. Existem vínculos sinceros e profundos construídos na convivência diária. Mas talvez seja preciso perguntar se todo afeto precisa necessariamente transformar-se em parentesco jurídico.

Antigamente, ajudar alguém era virtude. Hoje, às vezes parece imprudência.

Um padrasto pode pagar estudos, ensinar uma profissão, abrir portas, deixar bens em testamento, acompanhar a vida inteira de um enteado sem precisar, necessariamente, alterar a estrutura jurídica da própria família. Porque laços afetivos verdadeiros não nascem de sentença judicial; nascem da convivência, do respeito e da permanência.

O que me causa desconforto é perceber que, em alguns casos, a gratidão parece ter sido substituída pela obrigação legal. E quando isso acontece, corre-se o risco de transformar relações humanas em disputas patrimoniais.

Talvez existam exageros circulando na internet. Talvez metade das histórias seja invenção, como tantas notícias fabricadas que se espalham diariamente. Hoje, a mentira viaja mais rápido que a verdade — principalmente porque a informação séria, investigada e responsável virou produto caro, inacessível para grande parte da população. Muitos acabam acreditando em tudo o que aparece na tela do celular, da mesma forma que antigamente se acreditava no jornal impresso.

Mas confesso que estremeci ao ler notícias sobre crianças registradas com múltiplos pais e recebendo várias pensões. Não sei até onde os casos são exceção ou prenúncio de uma distorção maior. Apenas sei que, quando o Direito deixa de acompanhar a prudência, abre-se espaço para que sentimentos legítimos sejam instrumentalizados financeiramente.

Talvez eu esteja velha mesmo. Talvez pertença a uma geração que ainda acredita que família não deve nascer apenas da emoção do presente, mas também da responsabilidade com o futuro e do respeito pelos vínculos já existentes.

Porque certas decisões tomadas no auge da paixão podem permanecer muito depois que o amor acaba.

 

sábado, 2 de maio de 2026

A herança invisível da desorderm

 Ela odiava a bagunça como quem odeia um espelho. Não era apenas a poeira sobre os móveis, nem a pia tomada por copos engordurados, nem as compras largadas no chão da cozinha havia duas horas. Era a sensação de que a desordem da casa lhe denunciava uma falha íntima, antiga, impossível de esconder.

Havia dias em que caminhava pelos cômodos como uma visitante envergonhada da própria vida. Olhava para os cantos embolorados, para as roupas acumuladas, para os armários esquecidos, e sentia uma espécie de peso invisível empurrando seu corpo para baixo. Não era cansaço físico. Seu corpo era saudável, forte, resistente. Não tomava remédios, não carregava diagnósticos, não tinha justificativas clínicas que pudessem ser exibidas como um salvo-conduto diante do fracasso doméstico.

Ainda assim, não conseguia começar.

Antes da internet, ela se deitava no sofá e encarava o teto. Agora, segurava o celular como quem segura uma anestesia barata. Rolava a tela infinitamente. Vídeos sem importância, frases vazias, rostos desconhecidos, receitas que nunca faria, notícias que esqueceria minutos depois. O tempo escorria por entre os dedos, e ao final sobrava apenas aquele gosto azedo de incompetência.

Era como se existisse dentro dela uma vocação secreta para o sofrimento.

Queria a casa limpa. Sonhava com o cheiro de sabão, com os armários organizados, com a leveza de abrir uma gaveta e encontrar paz. Mas entre o desejo e a ação havia um abismo. E ela permanecia parada à beira dele.

Na tentativa desesperada de reagir, experimentou um método simples: fazer um pouco por dia. Ontem conseguiu limpar a pia e um armário suspenso da cozinha. Passou a tarde inteira naquela tarefa mínima. Quando abriu as portas do armário, encontrou aranhas. Muitas. Teias espessas grudadas nos cantos, como rendas antigas abandonadas pelo tempo.

Havia aranhas até no escorredor de pratos.

Contou quase vinte.

E enquanto arrancava aquelas teias com um pano úmido, pensou, com um desconforto quase simbólico, que talvez estivesse vendo materializado o desenho da própria alma: fios pacientes de autossabotagem tecidos lentamente ao longo dos anos.

Foi então que a memória da mãe apareceu.

A cama desarrumada.

A casa sempre por fazer.

O ressentimento.

Ela criticava a mãe duramente. Dizia que era relaxada, desorganizada, descuidada. Mas a mãe trabalhava o dia inteiro. Saía cedo, voltava cansada, esmagada pela sobrevivência. A filha julgava — e não ajudava.

Agora, décadas depois, percebia-se estranhamente próxima daquela mulher que tanto condenara.

Na perspectiva das Constelações Familiares, existe um conceito chamado lealdade sistêmica: a tendência inconsciente de repetir destinos, comportamentos ou sofrimentos de membros da família como forma de pertencimento. Segundo essa visão, quando um filho rejeita profundamente um pai ou uma mãe, pode acabar reproduzindo justamente aquilo que condenava, numa espécie de fidelidade invisível ao sistema familiar.

Embora essa abordagem seja popular em contextos terapêuticos, é importante dizer que ela não possui comprovação científica robusta segundo os critérios da psicologia baseada em evidências. Ainda assim, algumas ideias dialogam com conceitos estudados pela ciência, como aprendizagem comportamental, transmissão intergeracional de padrões familiares e impactos emocionais da infância sobre hábitos adultos. Estudos em psicologia familiar mostram que crianças absorvem modelos de comportamento doméstico, relações com trabalho, autocuidado e organização emocional dentro do ambiente em que crescem. Muitas vezes, o que mais rejeitamos em nossos pais é justamente o que permanece inscrito em nós de maneira inconsciente.

Talvez por isso ela sentisse aquela paralisia tão funda diante da casa.

Talvez não estivesse lutando apenas contra a bagunça.

Talvez estivesse lutando contra uma herança invisível.

Mas naquela tarde havia algo diferente: ela limpou um armário.

Pouco?

Talvez.

Mas toda travessia começa ridiculamente pequena.

As compras ainda estavam no chão. O desânimo rondava novamente. O livro que comprara vinte anos antes permanecia praticamente intacto, esperando ser aberto como certas versões dela mesma que nunca tiveram coragem de nascer.

Mesmo assim, ela decidiu que limparia mais um armário.

E leria duas páginas.

Duas páginas apenas.

Porque às vezes a salvação de uma vida não chega em grandes revoluções. Às vezes ela começa silenciosamente, quando uma mulher cansada abre a porta de um armário cheio de aranhas — e, pela primeira vez, decide não fechar os olhos.

domingo, 19 de abril de 2026

Sementes ao vento

 


Você já teve a sensação de que sua cabeça é um terreno fértil demais para o tamanho das suas mãos?

Eu tenho. Ideias me atravessam com a força de cataratas — quase como as de Foz do Iguaçu — caudalosas, barulhentas, insistentes. Elas chegam sem pedir licença, ocupam espaço, fazem promessas. E, como toda abundância, trazem consigo uma espécie de ironia: a incapacidade de dar conta de tudo o que nasce.

Porque ter ideias, caro leitor, não é o mesmo que realizá-las.

E foi assim que, há décadas, encontrei um destino possível para as minhas: o vento.

Todo ano eleitoral, enquanto muitos escolhem lados, eu escolho remetentes. Escrevo para candidatos — muitos deles — e envio minhas sugestões como quem solta sementes no ar, sem saber onde cairão. Faço isso em silêncio. Não por modéstia, mas por sobrevivência social. Há sempre alguém pronto para lembrar qual é o nosso lugar na tal pirâmide — como se inteligência tivesse CEP, como se criatividade obedecesse à renda.

Então eu me calo.

Mas observo.

E, vez ou outra, reconheço um broto.

Uma ideia que foi minha — um dia, escrita às pressas, enviada sem protocolo — surge por aí, vestida com outro nome, outra assinatura, outro dono. Confesso: não é simples assistir a isso sem um certo incômodo. Há um desejo humano, quase infantil, de dizer “fui eu”. De colher o aplauso, de receber o crédito, de existir publicamente naquela criação.

Mas, veja bem, também há algo maior.

Outro dia, por exemplo, passei por uma praça e vi gente dançando. Aulas gratuitas, abertas, alegres. Gente que talvez nunca pudesse pagar uma academia agora ocupando o espaço público com o corpo leve. Eu reconheci aquela ideia. Era minha — ou, ao menos, já tinha passado por mim. E ali estava ela, viva, útil, transformando pequenas rotinas.

Naquele momento, entendi: algumas sementes não precisam de nome para florescer.

Hoje, tive outra dessas experiências. Vi um candidato à presidência usar, como peça de campanha, uma sugestão que lhe enviei — três vezes, para ser exata. Não direi qual. Não por mistério literário, mas por prudência: vivemos tempos em que até o vento pode ser processado.

Mas posso te dizer o que senti.

Um orgulho quieto.

Uma vaidade contida.

E, acima de tudo, uma estranha forma de gratidão.

Porque, no fim das contas, aquela ideia — que um dia foi só pensamento — agora tem o potencial de alcançar milhões. E talvez, quem sabe, ajudar pessoas a deixarem de ser dependentes da caridade para se tornarem construtoras do próprio caminho.

E isso, convenhamos, vale mais do que qualquer assinatura.

Por isso, eu te pergunto, leitor: o que você faz com as suas ideias?

Você as guarda, esperando o momento perfeito que nunca chega? Ou as deixa ir, correndo o risco de nunca mais reconhecê-las?

Talvez nem todos possamos ser jardineiros de tudo o que imaginamos. Mas isso não nos impede de lançar sementes.

Algumas se perderão, é verdade. Outras cairão em solo árido. Mas haverá aquelas — sempre há — que encontrarão mãos mais hábeis, terrenos mais férteis, condições melhores.

E florescerão.

Então, se um dia você tiver uma ideia capaz de melhorar o mundo, ainda que um centímetro, não a aprisione por falta de recursos, medo ou vaidade.

Solte-a.

O vento sabe trabalhar.

E o mundo, às vezes, precisa exatamente disso: de sementes anônimas e de coragem silenciosa.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Do leite e do tempo: um manifesto silencioso contra a pressa


Dizem que vivemos tempos líquidos. Não fui eu quem disse — foi a ciência social, com seus termos elegantes para explicar o que o coração já sente antes mesmo da cabeça entender. Tudo escorre: afetos, vínculos, promessas. As relações, antes sólidas como o banco da praça onde se sentavam velhos amigos, hoje evaporam como água ao sol do meio-dia.

E eu, que ainda insisto em guardar nomes, rostos e histórias como quem guarda fotografias em caixa de sapato, me vejo deslocada — um peixe fora d’água nadando em terra firme. Não por escolha estética, mas por inaptidão prática: não sei habitar plenamente o mundo das telas. Minha dificuldade com a tecnologia não é só técnica; é quase existencial. Falta-me o instinto de substituir o toque pelo clique, o olhar pelo emoji, o silêncio compartilhado por uma notificação.

Saio à tarde, como quem ainda acredita na antiga liturgia da convivência: uma brisa leve, um banco qualquer, talvez um conhecido que passe. Mas as praças estão vazias — ou pior, povoadas por ausências. Quando há gente, há também um tipo curioso de invisibilidade: corpos presentes, almas sequestradas por pequenas telas luminosas. Cada um agarrado ao próprio aparelho como se ali estivesse não apenas o mundo, mas a razão última de existir.

A igreja, que antes reunia mais do que fé — reunia gente — agora ecoa passos solitários. Até o silêncio perdeu sua função de encontro.

Penso então: talvez na rodoviária ainda haja resquícios de humanidade. Gente de passagem, gente simples, gente que ainda acredita em dois dedos de prosa enquanto espera o ônibus atrasado. Sento-me ali, invento a expectativa de alguém que não vem. Mas o cenário se repete, como um experimento científico cujo resultado já se sabe de antemão: olhos baixos, dedos inquietos, telas acesas. O mundo ao redor, apagado.

Tomo uma decisão quase dramática, mas profundamente coerente com minha condição: vou ao posto de saúde. Velho sempre tem uma dor — e, se não tem, inventa. Não pela dor em si, mas pela promessa de conversa. Antes, a sala de espera era uma espécie de assembleia informal da vida: trocavam-se histórias, receitas, queixas e até risadas. Hoje, nem isso. Cada paciente isolado em seu pequeno universo digital, como se o aparelho fosse capaz de curar não apenas as juntas, mas todas as mazelas da existência.

Desisto da consulta. Meu diagnóstico já estava feito antes mesmo de entrar: solidão em meio à multidão conectada.

No mercado, busco apenas um lanche barato na padaria — um gesto prático, sem grandes expectativas. Mas é ali, no lugar mais improvável, que algo acontece. Uma ruptura silenciosa no fluxo líquido do mundo.

Vejo uma mulher.

Simples, inteira, ocupando seu espaço com uma naturalidade quase subversiva. Um filho agarrado à saia, outro nos braços. E ela — amamentando. Sem pressa, sem constrangimento, sem pedir licença ao mundo. Como se aquilo, de fato, fosse o que sempre foi: natural.

E talvez seja justamente isso que mais surpreende — o natural ter se tornado raro.

Não havia celular em suas mãos. Nem nas do homem ao seu lado, que logo percebo ser o pai das crianças. Quatro pessoas. Quatro corpos presentes. Quatro existências ancoradas no instante.

Senti um leve temor — confesso. Não por eles, mas pelo mundo ao redor. Pensei, com ironia quase trágica, que poderiam ser confundidos com algo estranho, deslocado, quase extraterrestre. Afinal, em tempos líquidos, a solidez de um gesto ancestral pode parecer uma anomalia.

Fiquei ali, olhando discretamente, como quem testemunha um fenômeno raro. Porque era, de fato, raro: não o ato de amamentar, mas o contexto em que ele acontecia. Um gesto que atravessa milênios, sustentado por uma biologia precisa — hormônios, vínculos, sobrevivência — e, ao mesmo tempo, carregado de uma simbologia que nenhuma tecnologia conseguiu substituir.

A ciência explica a liquidez das relações modernas: a velocidade das conexões, a descartabilidade dos vínculos, a constante busca por novidade. Mas ali, diante de mim, havia uma outra ciência em ação — mais antiga, mais silenciosa. A do corpo que nutre, do vínculo que se constrói no toque, do tempo que desacelera para permitir que alguém simplesmente seja.

Talvez ainda haja resistência, pensei.

Não nas grandes revoluções, nem nos discursos inflamados, mas nesses pequenos atos de permanência. Amamentar em público. Estar junto sem mediação. Existir sem precisar ser traduzido em pixels.

Saí dali com o lanche nas mãos e uma estranha sensação de esperança. Não a esperança grandiosa, que muda o mundo de uma vez, mas aquela miúda, quase invisível — como o leite que alimenta, como o tempo que insiste em não escorrer completamente pelos nossos dedos.

Talvez nem tudo esteja perdido.

Talvez ainda haja quem saiba permanecer.

domingo, 15 de março de 2026

Crônica das correntes invisíveis

 

C

Hoje eu tenho algo a comemorar.
Não é aniversário, não é promoção, não é viagem. É menor — e ao mesmo tempo gigantesco: hoje eu consegui limpar a minha casa de trinta metros quadrados.

Não foi uma faxina de revista, dessas que fazem a casa cheirar a comercial de produto de limpeza. Não. Apenas puxei os móveis, varri embaixo, passei um pano no chão. Nada épico. Nada extraordinário. Nada que merecesse medalha… exceto para mim.

Para mim foi uma vitória.

Há meses eu não fazia isso.

A sujeira me incomoda profundamente. Não é descuido deliberado. Não é falta de dinheiro para comprar sabão, desinfetante ou pano de chão. Não é sequer falta de tempo. É algo mais estranho, mais silencioso — como se existisse uma força invisível que me mantivesse presa a uma espécie de inércia doméstica.

Os psiquiatras chamam algo parecido de procrastinação patológica, frequentemente ligada à depressão, à ansiedade ou àquilo que a psicologia chama de disfunção executiva. É quando o cérebro sabe exatamente o que precisa ser feito, mas não consegue iniciar a ação.

Entre saber e fazer abre-se um abismo.

Nesse abismo mora o celular.

Eu sento apenas por alguns minutos e começo a rolar a tela. Vídeos curtos, bobos, repetitivos. Quando largo o aparelho, nem lembro o que vi. A neurologia explica que esse tipo de conteúdo funciona como pequenas doses de dopamina, o neurotransmissor do prazer imediato. Ele anestesia o desconforto e oferece recompensas rápidas, enquanto tarefas reais — como limpar a casa — exigem esforço antes da recompensa.

Assim, o cérebro escolhe o caminho mais curto.

E eu fico ali, presa.

A sociologia diria que esse fenômeno também é filho do nosso tempo. Vivemos na economia da atenção, em que aplicativos são desenhados exatamente para capturar nossas horas e nossa energia mental. O que parece fraqueza pessoal muitas vezes é uma batalha desigual entre um cérebro humano e algoritmos treinados para mantê-lo preso.

Mesmo assim, a culpa sempre recai sobre nós.

E eu me culpo.

Tenho vergonha de convidar pessoas à minha casa.
A casa fica suja, eu fico triste.
Eu fico triste, anestesio no celular.
Anestesiada, deixo a casa suja.

É um círculo vicioso perfeito.

O curioso é que essa não é a primeira casa. Já mudei de endereço umas dez vezes. Sempre faço a mesma promessa: na próxima casa será diferente. A próxima casa será limpa, organizada, luminosa. Um templo doméstico.

Mas a casa nova nunca vem com um cérebro novo.

E assim a promessa muda de endereço comigo.

Hoje, porém, aconteceu algo pequeno. Peguei a vassoura. Depois o rodo. Depois o pano de chão. Não foi heroico. Foi apenas um começo.

Mas a psicologia comportamental diz algo interessante: a motivação muitas vezes nasce da ação, e não o contrário. Esperar sentir vontade para agir é um equívoco comum. O movimento, por menor que seja, é que começa a destravar a engrenagem interna.

Talvez seja por isso que hoje eu me sinta vitoriosa.

Também tenho pensado em outra possibilidade, menos científica e mais afetiva. A psicologia sistêmica fala em lealdades invisíveis dentro das famílias — padrões que repetimos sem perceber, como se estivéssemos honrando histórias antigas.

Minha mãe trabalhava demais. O excesso de serviço não lhe deixava tempo para cuidar da casa como gostaria. Às vezes me pergunto se, de algum modo inconsciente, eu não carrego essa herança. Uma fidelidade silenciosa.

Mas talvez a verdadeira lealdade seja outra.

Talvez honrar minha mãe não seja repetir suas faltas de tempo, e sim continuar sua capacidade de trabalho, sua luta, sua persistência.

Hoje varri o chão.

Pode parecer pouco, mas não foi. Foi um pequeno golpe nas correntes invisíveis.

E se amanhã eu repetir o gesto, talvez um elo se rompa.

Quem sabe, um dia, minha casa de trinta metros quadrados fique finalmente do tamanho da liberdade que eu procuro.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Fio Entre o Respeito e o Descaso

Há relações que se constroem em silêncio. Entre locador e locatário, muitas vezes não há proximidade, mas existe um pacto invisível: o da confiança. O proprietário entrega a chave, o inquilino assume o espaço, e juntos inauguram uma convivência que, embora mediada por contratos e imobiliárias, repousa sobre algo mais delicado — o respeito.

No caso da barbearia, o início parecia promissor. O aluguel foi ajustado abaixo do valor de mercado, gesto de compreensão diante da necessidade do barbeiro. Um acordo quase generoso: “se for mais caro, não fico”, disse ele, e os donos aceitaram. Durante todo o período, não houve cobranças excessivas, nem broncas, nem vigilância. O espaço foi cedido com confiança, como quem acredita que a reciprocidade se manifesta na forma de cuidado.

Mas o fim da história revelou outra face. Ao sair, o barbeiro deixou para trás não apenas o imóvel, mas também um rastro de descaso: lixo acumulado, garrafas cheias de lâminas, embalagens vazias, pratos e copos descartáveis. Até mesmo os últimos fios de cabelo e barba foram varridos para o fundo, como se o espaço não merecesse a dignidade de uma despedida limpa.

E é aí que a crônica se instala: não no lixo em si, mas no que ele simboliza. O contrato pode ter sido cumprido, o aluguel pago, mas a relação foi quebrada no detalhe. Porque respeito não se mede em boletos quitados, mas na forma como se devolve aquilo que não nos pertence.

O barbeiro saiu espontaneamente, sem pressão dos donos. Mas deixou uma marca: a lembrança de que confiança é frágil, e que generosidade sem reciprocidade pode se transformar em frustração.

No fundo, essa história fala menos de imóveis e mais de pessoas. De como cada relação — seja comercial, seja pessoal — carrega um fio invisível que pede cuidado. E quando esse fio é rompido, não é apenas o espaço físico que fica sujo; é a memória da convivência que se mancha.

 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Sonhar: Esse Hábito Inútil de Procurar Sentido

 

Neste domingo de carnaval 2026, depois do almoço, o mundo parece sempre um pouco mais lento. Não importa se lá fora o sol continua firme: dentro de casa, o tempo se curva, dobra o joelho e cochila conosco. Talvez por isso a soneca da tarde seja uma das últimas resistências contra a pressa. Ela não serve para nada — e justamente por isso é tão necessária.

Depois de um estrogonofe generoso, desses que abraçam por dentro, o corpo pede trégua. Não é sono de noite, não é descanso planejado. É um desmaio socialmente aceito. Deitei com a intenção nobre de fechar os olhos por “dez minutinhos”, expressão que sempre mente, porque a alma, quando encontra silêncio, aproveita para abrir gavetas antigas.

E então sonhei.

Sonhei que estava na casa do Carlos, um homem que foi abrigo num tempo em que eu precisava de teto e, talvez mais do que isso, de testemunha da minha sobrevivência. No sonho, eu não alugava mais. Eu estava de favor. Há algo profundamente humilhante nessa palavra, mesmo quando não é dita. Ela pesa na espinha, altera a postura, faz a gente andar pela casa como quem pede desculpa por respirar.

Carlos me pediu para comprar arroz.
Pedi o dinheiro.

Ele ficou furioso. Disse que todo mundo comia ali e ninguém contribuía. A fúria dele não era apenas dele. Era coletiva, antiga, acumulada. Era o medo universal de ser visto como peso, como dívida, como excesso. No sonho, a vergonha veio rápido, como sempre vem na vida real: sem direito a defesa.

Saí para o mercado.

O curioso é que os sonhos nunca economizam simbolismo. Eles são exagerados, dramáticos, quase literários. No caminho, o mercado estava fechando. O mundo sempre fecha quando a gente chega atrasado. Essa é uma das primeiras lições da existência: as oportunidades têm horário comercial.

E havia o curral.

Dois touros furiosos bloqueavam a passagem.

Não era apenas medo. Era uma espécie de convocação. Eu queria passar, mas também queria ficar. Queria entender. Havia algo ali que não era só obstáculo. Era mensagem. Era teste. Era pergunta.

E acordei.

Talvez seja isso que mais incomode nos sonhos: eles nos deixam no meio da frase. Como certos amores, certos projetos, certas versões de nós mesmos.

Mas o que mais me impressiona não é o sonho em si. É o fato de que, ao acordar, sentimos uma urgência quase infantil de entender. Por que precisamos decifrar sonhos? Por que não aceitamos simplesmente que a mente, cansada, produziu imagens aleatórias? Por que insistimos em procurar sentido, como arqueólogos de nós mesmos?

Talvez porque a vida acordada seja dura demais para ser apenas literal.

Os dois touros podem ser muitas coisas: medo e desejo, impulso e prudência, coragem e paralisia. Mas talvez sejam também duas forças mais antigas: sobreviver e compreender. A maioria das pessoas passa correndo pelos touros. Algumas poucas param para observar. E isso também é uma escolha.

A casa do Carlos pode ser abrigo, mas também pode ser o passado cobrando maturidade. O arroz pode ser sustento, mas também responsabilidade. A vergonha pode ser ferida, mas também bússola. O mercado fechando pode ser urgência, mas também aviso: a vida não espera que a gente se organize emocionalmente.

E os sonhos?
Os sonhos talvez sejam a única linguagem que o inconsciente encontra para nos chamar pelo nome completo.

A soneca de domingo tem essa estranha dignidade: ela nos devolve àquilo que fingimos não saber durante a semana. No trabalho, nas conversas, nos compromissos, somos racionais, práticos, eficientes. No cochilo da tarde, somos novamente simbólicos, frágeis, primitivos.

Sonhar é um ato de desobediência contra a superficialidade.

Queremos entender os sonhos porque queremos acreditar que existe um enredo maior. Que nossas vergonhas não são inúteis. Que nossos medos não são gratuitos. Que nossos obstáculos não são apenas azar. Que há, por trás de cada curral bloqueando o caminho, uma iniciação.

Talvez nunca descubramos o significado exato. Talvez não exista.

Mas, no fundo, a necessidade de entender sonhos é a mesma de entender a própria vida: não queremos apenas passar pelos touros. Queremos saber por que eles estavam ali.

E, quem sabe, descobrir que eles não bloqueavam a passagem — estavam apenas esperando que a gente deixasse de fugir e começasse a olhar.

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Crônica da Fome que Não se Mastiga


Tenho travado uma guerra silenciosa contra um inimigo pequeno, fino e luminoso. Ele cabe na palma da mão, vibra como quem chama pelo nome e promete distração — essa palavra elegante para dizer fuga. Falo do celular, esse oráculo contemporâneo que nunca dorme e que, generosamente, me oferece vídeos curtos, inúteis e infinitos.

Deito-me dizendo que verei “só um”. Duas horas depois, estou com os olhos ardendo, lutando contra o sono, assistindo a algo que esquecerei antes mesmo que o próximo vídeo comece. E ele começa. Sempre começa. O algoritmo — essa entidade invisível que parece me conhecer melhor do que eu — envia mais e mais conteúdos sob medida para minha distração. E eu, obediente, assisto. Há algo de tragicômico nisso: uma sucessão de risadas vazias, receitas que não farei, opiniões que não pedi, danças que não aprenderei. Quando percebo, não sei o que vi, mas sei que estou exausta.

A psicologia tem nome para esse fenômeno. O design das redes sociais é estruturado com base no reforço intermitente, conceito estudado por B. F. Skinner. É o mesmo princípio das máquinas caça-níqueis: você nunca sabe quando virá algo interessante, então continua tentando. Um vídeo pode ser banal, o próximo também — mas, de repente, surge um que provoca riso, curiosidade ou identificação. Essa imprevisibilidade mantém o cérebro preso num ciclo de expectativa e recompensa, alimentado pela dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação.

Não é falta de caráter. É neurociência.

E foi no meio dessa avalanche de inutilidades que, acidentalmente, apareceu um vídeo útil. Ele falava sobre fome emocional. Parei. Prestei atenção. Pela primeira vez em semanas, não deslizei o dedo para cima.

A fome física é simples: o estômago ronca, o corpo pede energia, qualquer comida resolve. Já a fome emocional é exigente e insistente. Ela não quer arroz; quer consolo. Não quer pão; quer presença. É a tentativa de mastigar a solidão, de engolir o silêncio da casa, de preencher com comida aquilo que é ausência de afeto.

A psicóloga Susan Albers, especialista em alimentação consciente, explica que muitas vezes comemos para regular emoções difíceis — ansiedade, tristeza, tédio. A comida se torna anestesia rápida e socialmente aceita. E, se o celular distrai da solidão, a comida distrai do vazio que o celular não conseguiu tapar.

Percebi então que estava duplamente dependente: da tela e da mastigação. Uma para ocupar os olhos; a outra, para ocupar o peito.

A teoria da regulação emocional sugere que, quando não aprendemos a lidar diretamente com sentimentos desconfortáveis, buscamos estratégias externas para modulá-los — comer, rolar a tela, comprar, trabalhar em excesso. Não porque somos fracos, mas porque somos humanos e desejamos aliviar a dor. O problema é que esses alívios são temporários e, muitas vezes, ampliam o desconforto depois.

Hoje tenho dois desafios concretos: libertar-me da dependência do celular e aprender a comer nas horas certas, em quantidade suficiente, ignorando essa vontade contínua de estar sempre mastigando algo. É quase como reaprender a habitar o próprio corpo — sem distrações, sem petiscos emocionais.

A psicologia comportamental sugere estratégias práticas:

·         Estabelecer limites ambientais (não levar o celular para a cama; definir horários específicos para uso).

·         Substituir o hábito, não apenas suprimi-lo (trocar vídeos por leitura breve; trocar beliscos por um chá e alguns minutos de respiração consciente).

·         Praticar alimentação consciente: perguntar antes de comer — “Estou com fome física ou emocional?”

·         Criar rituais de conexão real: uma ligação para alguém querido, uma caminhada ao ar livre, escrever o que se sente.

Pequenas mudanças repetidas constroem novas rotas neurais. O cérebro aprende — inclusive a se libertar.

Caro leitor, escrevo não como quem ensina, mas como quem confessa. Descobri que minha fome não era apenas de comida nem apenas de vídeos. Era de presença. De sentido. De pausa.

Talvez a verdadeira libertação não esteja em abandonar o celular ou fechar a geladeira, mas em encarar, sem anestesia, aquilo que dói quando o silêncio chega.

Se houver um ensinamento nisso tudo, talvez seja este: nem toda fome se resolve com comida, e nem todo vazio se preenche com movimento de dedo. Algumas carências pedem coragem — e isso, infelizmente, não vem em vídeos de trinta segundos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O preço das palavras

 


Há quem diga que os sonhos são como sementes: precisam de silêncio, de sombra e de tempo para germinar. Mas há quem, como eu, não resista à tentação de expô-los ao sol antes da hora, como se a simples partilha fosse garantia de flores. Os sábios da antiguidade já alertavam: falar demais sobre os próprios projetos é como gastar energia antes da obra começar. Eu não ouvi.

Contei aos parentes que escreveria um livro sobre nossos antepassados. Pedi histórias, mexi em memórias, despertei curiosidades. E, ao perceber que não daria conta da promessa, inventei uma versão infantil. Resultado: a compulsão de falar me levou ao compromisso de pagar pela edição de um livro que, sei bem, não terá leitores além de mim. O homenageado nasceu no século XIX, e hoje é apenas um traço genético perdido em descendentes que nem sabem de sua existência.

Recebi o arquivo para revisão e não gostei. Mas já estava pago. O dinheiro saiu não da necessidade, mas da boca: da palavra que escapou antes de amadurecer. Eis o sofrimento — gastar não por desejo, mas por coerência com aquilo que se disse.

A psicologia explica: há uma compulsão em expor sonhos que nasce da carência de validação. Ao falar, buscamos reconhecimento, aplauso, cumplicidade. É como se o projeto só existisse quando ecoa nos ouvidos alheios. Mas esse impulso tem um preço: a ansiedade de corresponder ao que foi dito, mesmo quando o coração já não sustenta o plano.

Comprei um apartamento na praia. E desta vez, prometi a mim mesmo: silêncio. Porque talvez o verdadeiro poder esteja em guardar, em deixar que o sonho cresça protegido, sem a pressão das expectativas externas.

Preciso controlar a língua, aprender que nem todo objetivo precisa ser anunciado. O silêncio, afinal, é também uma forma de liberdade. Talvez seja nele que os sonhos encontrem espaço para florescer sem cobranças, sem dívidas, sem o peso das palavras que custam mais caro do que o próprio sonho.

E você, leitor, já se pegou falando demais? Já sentiu a língua escapar, como se tivesse vida própria, revelando planos que ainda estavam verdes dentro da cabeça? Não lhe parece que, muitas vezes, o silêncio é mais sábio do que qualquer discurso? Talvez você também carregue essa luta: conter a língua dentro da boca, como quem guarda um segredo precioso. Afinal, quem nunca se arrependeu de ter falado antes da hora?

sábado, 24 de janeiro de 2026

À margem do Corrégo

 

Hoje o céu amanheceu fechado, desses que parecem economizar luz. À margem do córrego, quase despercebida por quem passa apressado, a flor Asclepias curassavica ( se impôs com cores que não combinam com dias nublados. Vermelho aceso, amarelo insolente. Como se ignorasse o humor do tempo.

Disseram-me depois que ela é tóxica. Mata-rato. O nome popular carrega uma sentença. No caule, quando ferido, escorre um leite branco — defesa química, estratégia antiga. Não é agressiva; é precavida. A toxicidade não está ali para matar por prazer, mas para garantir sobrevivência.

Curioso é que algumas borboletas se alimentam justamente dessa flor. Absorvem o veneno e o transformam em armadura. Tornam-se amargas ao paladar dos predadores. Vivem porque aprenderam a usar o perigo como proteção. Aquilo que mata uns, salva outros.

Fiquei pensando que o amor se parece com isso.

Há amores que curam, sustentam, dão cor a dias cinzentos. Há outros que intoxicam, corroem, adoecem devagar. O mesmo sentimento, duas consequências. O que muda não é o amor em si, mas como ele é oferecido, recebido e metabolizado.

Amar exige defesa. Sem limites, o amor vira excesso; sem cuidado, vira veneno. Mas quando assimilado com consciência, pode fortalecer, tornar mais resistente, menos vulnerável aos ataques do mundo.

A flor segue ali, à beira do córrego, ensinando sem discurso. Não pede que a toquem. Apenas floresce. E talvez o maior aprendizado seja esse:
nem todo amor precisa ser acessível,
nem toda entrega é saudável,
nem toda doçura é segura.

Algumas coisas existem para lembrar que viver é, antes de tudo, saber até onde se pode chegar.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Círculo da Memória

 

 


Era para ser apenas um antídoto contra a solidão. Um círculo de convivência, simples, sem pretensões acadêmicas, sem diplomas pendurados na parede. Eu, com minhas sete décadas de vida, buscava apenas companhia, vozes que preenchessem o silêncio da casa. Mas o que nasceu como remédio para mim, tornou-se bálsamo para outras.

Descobri, quase por acaso, que aquilo que fazíamos juntos tinha nome: terapia da reminiscência. Uma prática reconhecida, estudada, aplicada em grupos de idosos, que consiste em revisitar lembranças, ouvir músicas que marcaram épocas, ler histórias que se entrelaçam com a vida real, e permitir que cada memória se transforme em ponte entre passado e presente.

A teoria explica que recordar não é apenas reviver: é reorganizar a própria identidade, dar sentido ao que se viveu e ao que ainda se vive. Ao compartilhar lembranças, cada participante reafirma sua história, encontra pertencimento e fortalece laços. A memória, que poderia ser apenas um arquivo silencioso, torna-se viva, dialoga, emociona, cura.

Eu sequer sabia que existia essa tal terapia. Não inventei nada, apenas juntei pedaços de experiências adquiridas em grupos, palestras, encontros. E, sem perceber, estava aplicando com minhas companheiras de roda. O resultado? Riso, lágrimas, cumplicidade. O que começou como tentativa de suportar minha própria solidão, revelou-se como espaço de acolhimento coletivo.

Em tempos de relações líquidas, em que tudo escorre pelos dedos, decidi buscar cursos e palestras online, gratuitos, para me aprimorar. Não por vaidade, mas para melhor ajudar. Porque percebi que, ao oferecer esse espaço, não apenas encontro sentido para minha vida, mas também ajudo outras a reencontrarem o fio da própria história.

Há quem diga que quem não gera filhos ou não planta árvores é peso morto para a terra. Eu discordo. Plantar memórias também é semear. Cada lembrança compartilhada é raiz que se aprofunda, cada história contada é galho que se abre. No círculo da reminiscência, não somos peso: somos árvore frondosa, oferecendo sombra e frutos invisíveis, mas essenciais.

E assim, entre músicas antigas e histórias que se confundem com nossas próprias vidas, seguimos. Não como mortos que nada oferecem, mas como vivos que, ao recordar, continuam a dar.