Metade do ano escorrera pelo ralo dos dias comuns, e os velhos erros, esses inquilinos insistentes da alma, continuavam morando no mesmo endereço. Seis meses repetindo caminhos conhecidos, tropeçando nas mesmas pedras, alimentando a mesma dificuldade de viver a minha própria vida em vez da vida que imaginei que deveria viver.
A velhice tem uma crueldade peculiar: ela nos tira
a ilusão de que ainda há tempo infinito para resolver o que ficou mal
resolvido. Quase aos oitenta anos, olho para trás e percebo que algumas feridas
envelhecem conosco. Não desaparecem. Apenas mudam de roupa.
Minha mãe sonhava com uma vida diferente. Falava da
importância do estudo, de conhecer outros mundos, outras pessoas, outros
horizontes. Durante muito tempo acreditei que aquele sonho também era meu. Hoje
suspeito que não. Talvez eu apenas o tenha adotado porque desejava
desesperadamente ser vista por ela.
A psicologia chama isso de busca por validação. A
criança que não se sente suficientemente amada aprende a perseguir reconhecimento
como quem corre atrás de água no deserto. Cresce acreditando que, se fizer
mais, se trabalhar mais, se agradar mais, se alcançar mais, finalmente será
escolhida.
Mas algumas escolhas nunca chegam.
Minha mãe tinha olhos para os outros filhos. Eu era
a filha do serviço pesado, a mula de carga da família. Enquanto os irmãos
recebiam tarefas leves, eu carregava o peso que sobrava. Não havia medalhas,
elogios ou recompensas. Apenas a expectativa silenciosa de continuar
carregando.
O problema é que a infância acaba, mas certas
necessidades não.
E aqui estou eu, décadas depois, ainda tentando ser
vista. Ainda oferecendo demais de mim. Ainda acreditando, em algum canto
escondido do coração, que existe um prêmio esperando no final da estrada. Um
olhar de aprovação. Um gesto de reconhecimento. Um amor que diga: "Agora
você basta."
Mas meus pais morreram.
E essa talvez seja a verdade mais dura e mais
libertadora que conheço.
Eles morreram, e com eles morreu também a
possibilidade de receber aquilo que nunca veio. A carência que permanece não
pertence à mulher de quase oitenta anos. Pertence à menina rejeitada que
continua sentada dentro dela, esperando ser chamada para perto.
Só que ninguém virá.
E talvez a liberdade comece exatamente aí.
Há algum tempo venho correndo atrás de uma ideia de
vida que não combina comigo. Sonhos emprestados. Ambições importadas. Fantasias
de pertencimento a uma alta sociedade que nunca foi o meu lugar.
Se eu for honesta, existem três razões simples para
isso nunca funcionar.
Primeiro, porque não é um sonho meu.
Segundo, porque não tenho dinheiro para sustentar
os custos desse mundo.
Terceiro, porque não tenho alma de nobre.
Sou povo.
Gosto de sentar no chão. De comer com o prato na
mão. De conversar sem cerimônia. De rir alto quando a vida permite. Passei anos
tentando caber em salões onde meu coração nunca entrou.
Talvez o maior desperdício da existência seja
dedicar energia a sonhos que não nasceram dentro de nós.
Porque, enquanto perseguia o que os outros
valorizavam, fui deixando para depois aquilo que realmente desejava.
E o que eu queria era tão simples.
Uma casa com jardim.
Livros.
Silêncio.
Tempo para escrever a história dos meus
antepassados.
Talvez porque, para os meus contemporâneos, eu me
sinta invisível. Mas os mortos, curiosamente, ainda me fazem companhia. Nas
histórias deles encontro raízes. Encontro sentido. Encontro uma linhagem
inteira de pessoas comuns que viveram sem aplausos e, ainda assim, viveram.
Estou começando a aceitar outra verdade
desconfortável: para minha família, talvez eu continue invisível.
E tudo bem.
Nem toda batalha merece ser vencida. Algumas
precisam apenas ser abandonadas.
Talvez a maturidade não seja conquistar o amor que
faltou. Talvez seja parar de mendigá-lo.
Talvez seja construir uma vida pequena, mas
verdadeira.
Uma vida de vizinhos que se cumprimentam pelo nome.
De plantas crescendo no quintal.
De tardes de leitura.
De páginas escritas sem pressa.
De descanso sem culpa.
Não posso mudar a menina que fui. Não posso voltar
à cozinha da infância nem reescrever os gestos que nunca recebi.
Mas ainda posso cuidar dela.
Ainda posso dizer a essa criança cansada que ela
não precisa mais provar nada.
O calendário já avançou para junho. O tempo
continua correndo. Mas, pela primeira vez em muito tempo, começo a suspeitar
que a vida que procuro não está à minha frente.
Ela está me esperando justamente onde sempre
esteve: na simplicidade dos meus próprios desejos.
E talvez ainda haja tempo para realizar ao menos um
deles.
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