sexta-feira, 29 de maio de 2026

Crônica da Solidão Semeada


Às vezes, a vida se apresenta como um espelho rachado: cada fragmento devolve uma imagem distorcida de quem somos. Pergunto-me, em silêncio corrosivo, se não passo de uma presença desagradável, incapaz de sustentar vínculos, ou se carrego ideias tão adiantadas que ainda não encontram terreno fértil. Psicologia chamaria isso de dissonância cognitiva — o conflito entre o que acredito ser e o que o mundo insiste em me mostrar. Misticismo chamaria de karma não resolvido, uma lição que retorna em ciclos até que seja compreendida.

Decidi criar um grupo de estudos sobre maturidade, como quem planta sementes em solo árido. Convidei cinquenta pessoas, preparei o espaço, li, anotei, elaborei perguntas. E apenas uma presença se fez carne diante de mim. Uma única alma, enquanto as demais se dissolviam em desculpas, celulares e ausências. A psicologia explica: o ser humano busca pertencimento em massa, segue o fluxo, evita o risco de se destacar. O misticismo, por sua vez, sussurra que cada encontro é guiado por forças invisíveis, e talvez aquela única pessoa fosse a escolhida para ouvir, para ser espelho, para me lembrar que até uma chama solitária ilumina a escuridão.

Mas a dor não se apaga. Fiquei envergonhada, como se minha voz fosse um eco sem paredes para se refletir. A corrosiva pergunta retorna: por que não consigo formar um círculo, se não de amigos, ao menos de ouvintes? A memória me arrasta às mulheres bíblicas chamadas de secas, estéreis, incapazes de gerar vida. Eu não sou estéril, mas não encontrei o semeador. E, sem semeador, toda fertilidade se torna deserto.

Os homens não se aproximam. Nem os conhecidos, nem os desconhecidos. Enquanto tantas mulheres se queixam do assédio, eu caminho invisível, como se minha presença fosse um véu translúcido. A psicologia poderia falar em autoimagem fragilizada, em padrões inconscientes que afastam. O misticismo poderia falar em missão espiritual de isolamento, como se minha alma tivesse escolhido a solidão como rito de passagem. Mas nenhuma explicação consola. O que dói é o silêncio dos olhares que não se voltam, das mãos que não se estendem, das vozes que não se interessam.

Sou comum, sorridente, simpática. Mas a experiência provou que ninguém aprecia minha companhia. E talvez seja esse o destino de quem semeia o amanhã: caminhar entre espinhos do presente, suportar o peso da incompreensão, e ainda assim insistir em plantar. Porque, no fundo, há uma fé amarga — quase mística — de que um dia, em algum tempo que não é este, minhas sementes florescerão.


domingo, 24 de maio de 2026

“O Padrasto, a Lei e as Consequências Que Poucos Enxergam

 

Há temas que não chegam primeiro pelos livros de Direito, mas pelos sustos da vida. A paternidade socioafetiva, por exemplo, parece ter desembarcado no cotidiano brasileiro desse jeito: em vídeos curtos, debates inflamados na internet e histórias contadas pela metade, onde ninguém sabe ao certo o que é verdade, exagero ou medo coletivo. E talvez seja justamente isso que mais assuste quem envelheceu acreditando que as coisas tinham nome, lugar e permanência.

Viver muito tem suas vantagens e também suas perplexidades. Nasci em um tempo em que os mais velhos falavam e os mais novos ouviam. Não porque os anciãos fossem donos absolutos da razão, mas porque a experiência era considerada um patrimônio da família. A verdade morava na mesa da cozinha, nas conversas depois do jantar e nas recomendações dos pais, dos avós e dos professores.

Na escola, aprendíamos a ler, escrever, fazer contas e respeitar os símbolos da pátria, da religião e da família. Tudo parecia simples: pai era pai, mãe era mãe, filhos pertenciam àquela história e cada geração carregava suas responsabilidades sem precisar de cartório para confirmar afeto.

Depois veio o rádio, e a verdade da comunidade sofreu o primeiro abalo. Mais tarde, a televisão entrou pela sala trazendo novelas, novos costumes e ideias que faziam os mais velhos suspirarem como quem vê o mundo escapar pelas mãos. Agora, com a internet, a sensação é ainda mais estranha: nunca houve tanta informação circulando e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil saber no que acreditar.

É nesse território nebuloso que tenho ouvido falar sobre a chamada paternidade socioafetiva. Não sei dizer onde termina o fato e começa o terrorismo digital contra os homens. Aos 75 anos, a pessoa aprende que questionar certas novidades pode render olhares de piedade, como se envelhecer significasse automaticamente perder a lucidez. Então faço o que ainda sei fazer: observo, leio a lei e penso sozinha.

E o que compreendi até agora me inquieta.

A Constituição Federal e o entendimento consolidado pelo Supremo Tribunal Federal passaram a reconhecer que os laços de afeto também podem gerar parentesco jurídico. Em outras palavras: quem cria, educa e assume publicamente o papel de pai pode vir a ser reconhecido legalmente como tal, mesmo sem vínculo biológico. O princípio parece bonito — afinal, ninguém pode negar a importância do amor na formação de uma criança. O problema começa quando o afeto deixa de ser apenas virtude moral e passa a produzir obrigações permanentes.

Porque o Direito de Família não trabalha apenas com sentimentos; trabalha com consequências.

O pai socioafetivo pode assumir deveres equivalentes aos do pai biológico: alimentos, inclusão em herança e responsabilidades jurídicas que muitas vezes atravessam décadas. O Superior Tribunal de Justiça já decidiu, em diversas ocasiões, que a filiação socioafetiva gera os mesmos efeitos da biológica. E o Supremo Tribunal Federal reconheceu inclusive a possibilidade de multiparentalidade — isto é, alguém possuir oficialmente dois pais no registro civil.

É aqui que a reflexão precisa ultrapassar a emoção.

Quando um homem, tomado pela paixão do momento, decide assumir juridicamente o filho da companheira, talvez não esteja percebendo que não cria apenas um gesto de amor: cria um vínculo legal que alcança toda a família. Seus filhos biológicos passam a dividir patrimônio, atenção e herança. Seus pais — já idosos — podem, em determinadas circunstâncias extremas, ser chamados à chamada pensão avoenga, obrigação subsidiária reconhecida pelo Código Civil e pela jurisprudência quando os pais não conseguem sustentar o menor.

E então o afeto, que deveria nascer livre, começa a adquirir contornos de contrato irrevogável.

Não falo aqui contra o amor entre padrastos e enteados. Ao contrário. Há padrastos que salvam crianças da ausência, da violência e do abandono emocional. Existem vínculos sinceros e profundos construídos na convivência diária. Mas talvez seja preciso perguntar se todo afeto precisa necessariamente transformar-se em parentesco jurídico.

Antigamente, ajudar alguém era virtude. Hoje, às vezes parece imprudência.

Um padrasto pode pagar estudos, ensinar uma profissão, abrir portas, deixar bens em testamento, acompanhar a vida inteira de um enteado sem precisar, necessariamente, alterar a estrutura jurídica da própria família. Porque laços afetivos verdadeiros não nascem de sentença judicial; nascem da convivência, do respeito e da permanência.

O que me causa desconforto é perceber que, em alguns casos, a gratidão parece ter sido substituída pela obrigação legal. E quando isso acontece, corre-se o risco de transformar relações humanas em disputas patrimoniais.

Talvez existam exageros circulando na internet. Talvez metade das histórias seja invenção, como tantas notícias fabricadas que se espalham diariamente. Hoje, a mentira viaja mais rápido que a verdade — principalmente porque a informação séria, investigada e responsável virou produto caro, inacessível para grande parte da população. Muitos acabam acreditando em tudo o que aparece na tela do celular, da mesma forma que antigamente se acreditava no jornal impresso.

Mas confesso que estremeci ao ler notícias sobre crianças registradas com múltiplos pais e recebendo várias pensões. Não sei até onde os casos são exceção ou prenúncio de uma distorção maior. Apenas sei que, quando o Direito deixa de acompanhar a prudência, abre-se espaço para que sentimentos legítimos sejam instrumentalizados financeiramente.

Talvez eu esteja velha mesmo. Talvez pertença a uma geração que ainda acredita que família não deve nascer apenas da emoção do presente, mas também da responsabilidade com o futuro e do respeito pelos vínculos já existentes.

Porque certas decisões tomadas no auge da paixão podem permanecer muito depois que o amor acaba.

 

sábado, 2 de maio de 2026

A herança invisível da desorderm

 Ela odiava a bagunça como quem odeia um espelho. Não era apenas a poeira sobre os móveis, nem a pia tomada por copos engordurados, nem as compras largadas no chão da cozinha havia duas horas. Era a sensação de que a desordem da casa lhe denunciava uma falha íntima, antiga, impossível de esconder.

Havia dias em que caminhava pelos cômodos como uma visitante envergonhada da própria vida. Olhava para os cantos embolorados, para as roupas acumuladas, para os armários esquecidos, e sentia uma espécie de peso invisível empurrando seu corpo para baixo. Não era cansaço físico. Seu corpo era saudável, forte, resistente. Não tomava remédios, não carregava diagnósticos, não tinha justificativas clínicas que pudessem ser exibidas como um salvo-conduto diante do fracasso doméstico.

Ainda assim, não conseguia começar.

Antes da internet, ela se deitava no sofá e encarava o teto. Agora, segurava o celular como quem segura uma anestesia barata. Rolava a tela infinitamente. Vídeos sem importância, frases vazias, rostos desconhecidos, receitas que nunca faria, notícias que esqueceria minutos depois. O tempo escorria por entre os dedos, e ao final sobrava apenas aquele gosto azedo de incompetência.

Era como se existisse dentro dela uma vocação secreta para o sofrimento.

Queria a casa limpa. Sonhava com o cheiro de sabão, com os armários organizados, com a leveza de abrir uma gaveta e encontrar paz. Mas entre o desejo e a ação havia um abismo. E ela permanecia parada à beira dele.

Na tentativa desesperada de reagir, experimentou um método simples: fazer um pouco por dia. Ontem conseguiu limpar a pia e um armário suspenso da cozinha. Passou a tarde inteira naquela tarefa mínima. Quando abriu as portas do armário, encontrou aranhas. Muitas. Teias espessas grudadas nos cantos, como rendas antigas abandonadas pelo tempo.

Havia aranhas até no escorredor de pratos.

Contou quase vinte.

E enquanto arrancava aquelas teias com um pano úmido, pensou, com um desconforto quase simbólico, que talvez estivesse vendo materializado o desenho da própria alma: fios pacientes de autossabotagem tecidos lentamente ao longo dos anos.

Foi então que a memória da mãe apareceu.

A cama desarrumada.

A casa sempre por fazer.

O ressentimento.

Ela criticava a mãe duramente. Dizia que era relaxada, desorganizada, descuidada. Mas a mãe trabalhava o dia inteiro. Saía cedo, voltava cansada, esmagada pela sobrevivência. A filha julgava — e não ajudava.

Agora, décadas depois, percebia-se estranhamente próxima daquela mulher que tanto condenara.

Na perspectiva das Constelações Familiares, existe um conceito chamado lealdade sistêmica: a tendência inconsciente de repetir destinos, comportamentos ou sofrimentos de membros da família como forma de pertencimento. Segundo essa visão, quando um filho rejeita profundamente um pai ou uma mãe, pode acabar reproduzindo justamente aquilo que condenava, numa espécie de fidelidade invisível ao sistema familiar.

Embora essa abordagem seja popular em contextos terapêuticos, é importante dizer que ela não possui comprovação científica robusta segundo os critérios da psicologia baseada em evidências. Ainda assim, algumas ideias dialogam com conceitos estudados pela ciência, como aprendizagem comportamental, transmissão intergeracional de padrões familiares e impactos emocionais da infância sobre hábitos adultos. Estudos em psicologia familiar mostram que crianças absorvem modelos de comportamento doméstico, relações com trabalho, autocuidado e organização emocional dentro do ambiente em que crescem. Muitas vezes, o que mais rejeitamos em nossos pais é justamente o que permanece inscrito em nós de maneira inconsciente.

Talvez por isso ela sentisse aquela paralisia tão funda diante da casa.

Talvez não estivesse lutando apenas contra a bagunça.

Talvez estivesse lutando contra uma herança invisível.

Mas naquela tarde havia algo diferente: ela limpou um armário.

Pouco?

Talvez.

Mas toda travessia começa ridiculamente pequena.

As compras ainda estavam no chão. O desânimo rondava novamente. O livro que comprara vinte anos antes permanecia praticamente intacto, esperando ser aberto como certas versões dela mesma que nunca tiveram coragem de nascer.

Mesmo assim, ela decidiu que limparia mais um armário.

E leria duas páginas.

Duas páginas apenas.

Porque às vezes a salvação de uma vida não chega em grandes revoluções. Às vezes ela começa silenciosamente, quando uma mulher cansada abre a porta de um armário cheio de aranhas — e, pela primeira vez, decide não fechar os olhos.