Às vezes, a vida se apresenta como um espelho rachado: cada fragmento devolve uma imagem distorcida de quem somos. Pergunto-me, em silêncio corrosivo, se não passo de uma presença desagradável, incapaz de sustentar vínculos, ou se carrego ideias tão adiantadas que ainda não encontram terreno fértil. Psicologia chamaria isso de dissonância cognitiva — o conflito entre o que acredito ser e o que o mundo insiste em me mostrar. Misticismo chamaria de karma não resolvido, uma lição que retorna em ciclos até que seja compreendida.
Decidi criar um grupo de estudos sobre maturidade, como quem planta sementes em solo árido. Convidei cinquenta pessoas, preparei o espaço, li, anotei, elaborei perguntas. E apenas uma presença se fez carne diante de mim. Uma única alma, enquanto as demais se dissolviam em desculpas, celulares e ausências. A psicologia explica: o ser humano busca pertencimento em massa, segue o fluxo, evita o risco de se destacar. O misticismo, por sua vez, sussurra que cada encontro é guiado por forças invisíveis, e talvez aquela única pessoa fosse a escolhida para ouvir, para ser espelho, para me lembrar que até uma chama solitária ilumina a escuridão.
Mas a dor não se apaga. Fiquei envergonhada, como se minha voz fosse um eco sem paredes para se refletir. A corrosiva pergunta retorna: por que não consigo formar um círculo, se não de amigos, ao menos de ouvintes? A memória me arrasta às mulheres bíblicas chamadas de secas, estéreis, incapazes de gerar vida. Eu não sou estéril, mas não encontrei o semeador. E, sem semeador, toda fertilidade se torna deserto.
Os homens não se aproximam. Nem os conhecidos, nem os desconhecidos. Enquanto tantas mulheres se queixam do assédio, eu caminho invisível, como se minha presença fosse um véu translúcido. A psicologia poderia falar em autoimagem fragilizada, em padrões inconscientes que afastam. O misticismo poderia falar em missão espiritual de isolamento, como se minha alma tivesse escolhido a solidão como rito de passagem. Mas nenhuma explicação consola. O que dói é o silêncio dos olhares que não se voltam, das mãos que não se estendem, das vozes que não se interessam.
Sou comum, sorridente, simpática. Mas a experiência provou que ninguém aprecia minha companhia. E talvez seja esse o destino de quem semeia o amanhã: caminhar entre espinhos do presente, suportar o peso da incompreensão, e ainda assim insistir em plantar. Porque, no fundo, há uma fé amarga — quase mística — de que um dia, em algum tempo que não é este, minhas sementes florescerão.
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