sábado, 27 de junho de 2026

Sonhei com meu pai, uma leoa e uma casa em ruínas. Ao acordar, entendi algo sobre a vida


 Esta madrugada, um sonho me conduziu por uma estrada de terra. Não era eu quem dirigia. Viajava de carona com um homem de quem mal conhecia o rosto, desses personagens que surgem nos sonhos apenas para nos lembrar de que nem sempre somos nós a conduzir os caminhos da própria existência.

A poeira da estrada parecia antiga, como se carregasse as pegadas de muitas gerações. De repente, à margem do caminho, surgiu uma cena que interrompeu qualquer pressa: uma fêmea de leão, imóvel, velava dois filhotes mortos. Não havia rugidos, nem violência. Apenas um silêncio solene, desses que a natureza conhece melhor do que nós. Pela primeira vez, pensei que até a força precisa de tempo para chorar.

Seguimos viagem.

Mais adiante, uma lagoa de águas cristalinas atravessava o caminho. O carro entrou na água como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Os vidros permaneciam abertos, mas nenhuma gota nos alcançava. Cruzávamos a água sem nos molhar, como quem atravessa as próprias emoções sem se deixar afogar por elas. Talvez seja essa uma das maiores virtudes que a maturidade ensina: não evitar as águas profundas, mas aprender a passar por elas.

Então pedi ao motorista que voltasse.

Não queria seguir para o destino desconhecido. Queria retornar à fazenda dos meus pais.

Nos sonhos, a morte não possui a última palavra. Os ausentes continuam habitando as paisagens da memória. Meu pai e minha mãe estavam vivos.

Chegando lá, porém, encontrei uma casa em ruínas. As paredes já não sustentavam o tempo como antes, e os sinais do abandono pareciam contar a história de tudo aquilo que o relógio insiste em levar. Minha mãe trabalhava ao lado de outras pessoas. Nem percebeu minha chegada. Não era descaso; era a vida cumprindo sua antiga obrigação de continuar.

Caminhei até meu pai.

Estava num canto, debilitado, preso por amarras que eu não compreendia. Tentava falar, mas as palavras pareciam aprisionadas antes mesmo de alcançarem os lábios. Acordei exatamente nesse instante, levando comigo uma conversa que jamais aconteceu.

Passei boa parte do dia pensando no que aquele sonho poderia significar. Não porque acredite que os sonhos anunciem o futuro, mas porque eles costumam revelar o presente que escondemos de nós mesmos.

Talvez a leoa não estivesse velando apenas seus filhotes. Talvez estivesse nos lembrando de que toda vida conhece perdas, e que nenhuma força elimina a necessidade do luto.

Talvez a lagoa mostrasse que há dores que precisam ser atravessadas, não contornadas.

Talvez a casa em ruínas fosse apenas a arquitetura inevitável da memória, onde o tempo derruba paredes, mas nunca consegue demolir completamente os afetos.

E talvez meu pai, silencioso e preso, representasse todas as palavras que deixamos para depois. As perguntas que nunca fizemos. Os agradecimentos que supusemos desnecessários. Os abraços adiados pela ilusão de que sempre haveria outro domingo.

A ciência explica que os sonhos organizam lembranças, emoções e experiências. A literatura prefere dizer que eles escrevem cartas que a alma envia à consciência. Gosto mais da segunda hipótese. Ela não pretende competir com a razão; apenas reconhece que existem verdades que chegam até nós pela delicadeza dos símbolos.

Ao despertar, percebi que a viagem daquela noite não era sobre uma estrada de terra. Era sobre o caminho invisível que todos percorremos em direção às nossas origens. Um percurso em que encontramos o luto, atravessamos as águas da memória e, quase sempre, voltamos para casa apenas para descobrir que as paredes envelheceram, mas o amor continua habitando as ruínas.

Talvez seja justamente isso que os sonhos nos ensinem: algumas viagens acontecem de olhos fechados para que possamos enxergar melhor quando amanhece.

 

 


domingo, 21 de junho de 2026

Quando Entendi que Alguns Sonhos Não Eram Meus

 

Metade do ano escorrera pelo ralo dos dias comuns, e os velhos erros, esses inquilinos insistentes da alma, continuavam morando no mesmo endereço. Seis meses repetindo caminhos conhecidos, tropeçando nas mesmas pedras, alimentando a mesma dificuldade de viver a minha própria vida em vez da vida que imaginei que deveria viver.

A velhice tem uma crueldade peculiar: ela nos tira a ilusão de que ainda há tempo infinito para resolver o que ficou mal resolvido. Quase aos oitenta anos, olho para trás e percebo que algumas feridas envelhecem conosco. Não desaparecem. Apenas mudam de roupa.

Minha mãe sonhava com uma vida diferente. Falava da importância do estudo, de conhecer outros mundos, outras pessoas, outros horizontes. Durante muito tempo acreditei que aquele sonho também era meu. Hoje suspeito que não. Talvez eu apenas o tenha adotado porque desejava desesperadamente ser vista por ela.

A psicologia chama isso de busca por validação. A criança que não se sente suficientemente amada aprende a perseguir reconhecimento como quem corre atrás de água no deserto. Cresce acreditando que, se fizer mais, se trabalhar mais, se agradar mais, se alcançar mais, finalmente será escolhida.

Mas algumas escolhas nunca chegam.

Minha mãe tinha olhos para os outros filhos. Eu era a filha do serviço pesado, a mula de carga da família. Enquanto os irmãos recebiam tarefas leves, eu carregava o peso que sobrava. Não havia medalhas, elogios ou recompensas. Apenas a expectativa silenciosa de continuar carregando.

O problema é que a infância acaba, mas certas necessidades não.

E aqui estou eu, décadas depois, ainda tentando ser vista. Ainda oferecendo demais de mim. Ainda acreditando, em algum canto escondido do coração, que existe um prêmio esperando no final da estrada. Um olhar de aprovação. Um gesto de reconhecimento. Um amor que diga: "Agora você basta."

Mas meus pais morreram.

E essa talvez seja a verdade mais dura e mais libertadora que conheço.

Eles morreram, e com eles morreu também a possibilidade de receber aquilo que nunca veio. A carência que permanece não pertence à mulher de quase oitenta anos. Pertence à menina rejeitada que continua sentada dentro dela, esperando ser chamada para perto.

Só que ninguém virá.

E talvez a liberdade comece exatamente aí.

Há algum tempo venho correndo atrás de uma ideia de vida que não combina comigo. Sonhos emprestados. Ambições importadas. Fantasias de pertencimento a uma alta sociedade que nunca foi o meu lugar.

Se eu for honesta, existem três razões simples para isso nunca funcionar.

Primeiro, porque não é um sonho meu.

Segundo, porque não tenho dinheiro para sustentar os custos desse mundo.

Terceiro, porque não tenho alma de nobre.

Sou povo.

Gosto de sentar no chão. De comer com o prato na mão. De conversar sem cerimônia. De rir alto quando a vida permite. Passei anos tentando caber em salões onde meu coração nunca entrou.

Talvez o maior desperdício da existência seja dedicar energia a sonhos que não nasceram dentro de nós.

Porque, enquanto perseguia o que os outros valorizavam, fui deixando para depois aquilo que realmente desejava.

E o que eu queria era tão simples.

Uma casa com jardim.

Livros.

Silêncio.

Tempo para escrever a história dos meus antepassados.

Talvez porque, para os meus contemporâneos, eu me sinta invisível. Mas os mortos, curiosamente, ainda me fazem companhia. Nas histórias deles encontro raízes. Encontro sentido. Encontro uma linhagem inteira de pessoas comuns que viveram sem aplausos e, ainda assim, viveram.

Estou começando a aceitar outra verdade desconfortável: para minha família, talvez eu continue invisível.

E tudo bem.

Nem toda batalha merece ser vencida. Algumas precisam apenas ser abandonadas.

Talvez a maturidade não seja conquistar o amor que faltou. Talvez seja parar de mendigá-lo.

Talvez seja construir uma vida pequena, mas verdadeira.

Uma vida de vizinhos que se cumprimentam pelo nome.

De plantas crescendo no quintal.

De tardes de leitura.

De páginas escritas sem pressa.

De descanso sem culpa.

Não posso mudar a menina que fui. Não posso voltar à cozinha da infância nem reescrever os gestos que nunca recebi.

Mas ainda posso cuidar dela.

Ainda posso dizer a essa criança cansada que ela não precisa mais provar nada.

O calendário já avançou para junho. O tempo continua correndo. Mas, pela primeira vez em muito tempo, começo a suspeitar que a vida que procuro não está à minha frente.

Ela está me esperando justamente onde sempre esteve: na simplicidade dos meus próprios desejos.

E talvez ainda haja tempo para realizar ao menos um deles.