Há uma realidade pouco comentada na vida daqueles que não nasceram em berço esplêndido: a existência parece dividir-se em três grandes movimentos.
Na juventude, dispõe-se de tempo e energia, mas falta o recurso financeiro para realizar muitos sonhos. Durante a vida laboral, conquista-se certa estabilidade econômica e conserva-se boa parte da disposição física, porém o tempo torna-se escasso, consumido pelas responsabilidades profissionais e familiares. Finalmente, chega a tão almejada aposentadoria. Recupera-se o tempo; com planejamento e disciplina, é possível administrar as finanças. Entretanto, aquilo que a juventude oferecia em abundância — a energia física — já não responde da mesma maneira. Muitos desejos permanecem vivos, mas o corpo passa a impor seus próprios limites.
Durante toda a minha vida, sonhei em assistir a um show da Xuxa. Quando era jovem, faltava dinheiro. Na fase adulta, faltava tempo. Hoje, disponho de tempo e, com algum esforço, conseguiria custear a viagem e o ingresso. Contudo, faltou-me a disposição física para permanecer durante horas em pé, em meio a milhares de pessoas, acompanhando um espetáculo de grande intensidade sonora e visual.
Restou-me, então, aguardar a transmissão disponibilizada no YouTube, plataforma que, de certo modo, cumpre atualmente um papel semelhante ao que a televisão aberta desempenhou durante décadas: democratizar o acesso à cultura para aqueles que, por diferentes razões, não conseguem vivenciar presencialmente os grandes eventos.
Assisti ao espetáculo integralmente e terminei com um sentimento de frustração.
Talvez justamente por pertencer à geração que acompanhou praticamente todos os especiais de fim de ano da artista, eu carregasse uma expectativa muito específica: reencontrar, ainda que por algumas horas, a atmosfera musical que marcou minha infância.
O que encontrei, porém, foi uma proposta estética bastante diferente.
Os novos arranjos privilegiaram uma linguagem pop contemporânea, sustentada por uma base rítmica constante e por uma pulsação eletrônica praticamente uniforme durante grande parte do espetáculo. Do ponto de vista técnico, houve uma homogeneização do material musical. A predominância do mesmo groove, da mesma levada rítmica e de uma instrumentação semelhante reduziu o contraste entre as canções. Consequentemente, músicas originalmente construídas sobre identidades melódicas e harmônicas muito distintas passaram a apresentar sonoridades excessivamente próximas entre si.
Em diversos momentos, tive a sensação de ouvir uma única música em sequência, exigindo atenção para perceber que apenas a letra havia mudado.
Essa impressão não decorre da qualidade das composições, mas da padronização dos arranjos. A riqueza da obra da Xuxa sempre esteve justamente na variedade de atmosferas musicais: havia canções contemplativas, marchinhas, baladas, músicas de roda, influências da música latina e do pop infantil dos anos 1980 e 1990. Quando essas diferenças são reduzidas em favor de uma única estética sonora, perde-se parte da identidade individual de cada composição.
Foi exatamente isso que senti ao ouvir Boto Rosa.
Na gravação original, a canção possui uma linha melódica delicada, com caráter quase narrativo, que favorece a imaginação e reforça o clima lúdico da história. No espetáculo, entretanto, o arranjo transformou essa atmosfera em uma versão predominantemente dançante, marcada por batidas fortes e andamento voltado para a participação coletiva do público.
Naturalmente, compreendo a intenção artística. Em grandes shows contemporâneos, busca-se manter elevada energia cênica, favorecendo a interação do público, que canta, dança e acompanha os comandos do artista. Entretanto, essa escolha acabou sacrificando justamente aquilo que tornava a música memorável para quem cresceu ouvindo a versão original.
Outro aspecto que me incomodou foi o excesso de recursos visuais.
A tecnologia deve ampliar a presença do artista, nunca competir com ela. Em vários momentos, projeções, efeitos gráficos, jogos de luz e sobreposições de imagens pareciam disputar a atenção do espectador com a própria protagonista. A impressão era de que a artista desaparecia em meio ao espetáculo tecnológico.
Paradoxalmente, a maior estrela da noite acabou sendo, em alguns instantes, ofuscada pelos efeitos destinados a valorizá-la.
Para aqueles que acompanharam sua trajetória desde os primeiros programas televisivos, bastaria sua presença, seu sorriso, sua espontaneidade e sua capacidade singular de estabelecer uma conexão afetiva com o público.
A entrada e entraa da nave foi foi profundamete emocinante.
Durante décadas, ela representou um dos símbolos mais marcantes do imaginário infantil brasileiro. Contudo, a opção por fazê-la descer suspensa por cabos rompeu, para mim, parte da magia construída ao longo dos anos. Na memória afetiva de toda uma geração, a nave possuía um ritual próprio: a porta se abria, Xuxa surgia, embarcava novamente e partia, preservando a fantasia que sempre acompanhou aquele universo.
Percebi, então, que a frustração de não ter conseguido comparecer ao espetáculo foi substituída por outra, inesperada: a de não reconhecer plenamente a artista que marcou minha infância naquele formato de apresentação.
Ainda assim, saí da experiência com uma reflexão maior do que qualquer decepção estética.
A despedida da nave revelou-se um gesto de extraordinária sensibilidade. Encerrar, em vida, um dos maiores símbolos de sua carreira representa um raro exercício de maturidade artística. Socialmente, esse gesto possui enorme relevância, pois naturaliza o envelhecimento diante de milhões de pessoas.
Vivemos em uma sociedade que insiste em transformar a juventude em obrigação permanente. Ver uma personalidade da dimensão de Xuxa reconhecer, com serenidade, a passagem do tempo ajuda a romper essa ilusão coletiva.
Quando afirmou: "Estou velha", não havia derrota naquela frase. Havia verdade.
Ela envelheceu.
ós que crescemos com ela, também.
E alvez essa seja a maior mensagem de todo o espetáculo: compreender que cada fase da existência possui sua própria beleza. A infância vive na memória, a maturidade ensina novos significados e a velhice, apesar das limitações e da solidão que por vezes impõe, continua sendo um privilégio concedido apenas àqueles que tiveram a oportunidade de atravessar o tempo.
Talvez por isso eu continue aguardando, todos os anos, o especial de Roberto Carlos. Não apenas pelas canções, mas porque esses encontros televisivos nos recordam da importância de agradecer a Deus pelo dom da vida e pela lucidez que nos permite revisitar nossas lembranças.
Envelhecer não é perder a beleza da existência.
É aprender que alguns sonhos mudam de forma, mas jamais deixam de iluminar a memória.
Há uma realidade pouco comentada na vida daqueles que não nasceram em berço esplêndido: a existência parece dividir-se em três grandes movimentos.
Na juventude, dispõe-se de tempo e energia, mas falta o recurso financeiro para realizar muitos sonhos. Durante a vida laboral, conquista-se certa estabilidade econômica e conserva-se boa parte da disposição física, porém o tempo torna-se escasso, consumido pelas responsabilidades profissionais e familiares. Finalmente, chega a tão almejada aposentadoria. Recupera-se o tempo; com planejamento e disciplina, é possível administrar as finanças. Entretanto, aquilo que a juventude oferecia em abundância — a energia física — já não responde da mesma maneira. Muitos desejos permanecem vivos, mas o corpo passa a impor seus próprios limites.
Durante toda a minha vida, sonhei em assistir a um show da Xuxa. Quando era jovem, faltava dinheiro. Na fase adulta, faltava tempo. Hoje, disponho de tempo e, com algum esforço, conseguiria custear a viagem e o ingresso. Contudo, faltou-me a disposição física para permanecer durante horas em pé, em meio a milhares de pessoas, acompanhando um espetáculo de grande intensidade sonora e visual.
Restou-me, então, aguardar a transmissão disponibilizada no YouTube, plataforma que, de certo modo, cumpre atualmente um papel semelhante ao que a televisão aberta desempenhou durante décadas: democratizar o acesso à cultura para aqueles que, por diferentes razões, não conseguem vivenciar presencialmente os grandes eventos.
Assisti ao espetáculo integralmente e terminei com um sentimento de frustração.
Talvez justamente por pertencer à geração que acompanhou praticamente todos os especiais de fim de ano da artista, eu carregasse uma expectativa muito específica: reencontrar, ainda que por algumas horas, a atmosfera musical que marcou minha infância.
O que encontrei, porém, foi uma proposta estética bastante diferente.
Os novos arranjos privilegiaram uma linguagem pop contemporânea, sustentada por uma base rítmica constante e por uma pulsação eletrônica praticamente uniforme durante grande parte do espetáculo. Do ponto de vista técnico, houve uma homogeneização do material musical. A predominância do mesmo groove, da mesma levada rítmica e de uma instrumentação semelhante reduziu o contraste entre as canções. Consequentemente, músicas originalmente construídas sobre identidades melódicas e harmônicas muito distintas passaram a apresentar sonoridades excessivamente próximas entre si.
Em diversos momentos, tive a sensação de ouvir uma única música em sequência, exigindo atenção para perceber que apenas a letra havia mudado.
Essa impressão não decorre da qualidade das composições, mas da padronização dos arranjos. A riqueza da obra da Xuxa sempre esteve justamente na variedade de atmosferas musicais: havia canções contemplativas, marchinhas, baladas, músicas de roda, influências da música latina e do pop infantil dos anos 1980 e 1990. Quando essas diferenças são reduzidas em favor de uma única estética sonora, perde-se parte da identidade individual de cada composição.
Foi exatamente isso que senti ao ouvir Boto Rosa.
Na gravação original, a canção possui uma linha melódica delicada, com caráter quase narrativo, que favorece a imaginação e reforça o clima lúdico da história. No espetáculo, entretanto, o arranjo transformou essa atmosfera em uma versão predominantemente dançante, marcada por batidas fortes e andamento voltado para a participação coletiva do público.
Naturalmente, compreendo a intenção artística. Em grandes shows contemporâneos, busca-se manter elevada energia cênica, favorecendo a interação do público, que canta, dança e acompanha os comandos do artista. Entretanto, essa escolha acabou sacrificando justamente aquilo que tornava a música memorável para quem cresceu ouvindo a versão original.
Outro aspecto que me incomodou foi o excesso de recursos visuais.
A tecnologia deve ampliar a presença do artista, nunca competir com ela. Em vários momentos, projeções, efeitos gráficos, jogos de luz e sobreposições de imagens pareciam disputar a atenção do espectador com a própria protagonista. A impressão era de que a artista desaparecia em meio ao espetáculo tecnológico.
Paradoxalmente, a maior estrela da noite acabou sendo, em alguns instantes, ofuscada pelos efeitos destinados a valorizá-la.
Para aqueles que acompanharam sua trajetória desde os primeiros programas televisivos, bastaria sua presença, seu sorriso, sua espontaneidade e sua capacidade singular de estabelecer uma conexão afetiva com o público.
A entrada da nave foi profundamente emocionante.
Durante décadas, ela representou um dos símbolos mais marcantes do imaginário infantil brasileiro. Contudo, a opção por fazê-la descer suspensa por cabos rompeu, para mim, parte da magia construída ao longo dos anos. Na memória afetiva de toda uma geração, a nave possuía um ritual próprio: a porta se abria, Xuxa surgia, embarcava novamente e partia, preservando a fantasia que sempre acompanhou aquele universo.
Percebi, então, que a frustração de não ter conseguido comparecer ao espetáculo foi substituída por outra, inesperada: a de não reconhecer plenamente a artista que marcou minha infância naquele formato de apresentação.
Ainda assim, saí da experiência com uma reflexão maior do que qualquer decepção estética.
A despedida da nave revelou-se um gesto de extraordinária sensibilidade. Encerrar, em vida, um dos maiores símbolos de sua carreira representa um raro exercício de maturidade artística. Socialmente, esse gesto possui enorme relevância, pois naturaliza o envelhecimento diante de milhões de pessoas.
Vivemos em uma sociedade que insiste em transformar a juventude em obrigação permanente. Ver uma personalidade da dimensão de Xuxa reconhecer, com serenidade, a passagem do tempo ajuda a romper essa ilusão coletiva.
Quando afirmou: "Estou velha", não havia derrota naquela frase. Havia verdade.
Ela envelheceu.
Nós, que crescemos com ela, também.
E talvez essa seja a maior mensagem de todo o espetáculo: compreender que cada fase da existência possui sua própria beleza. A infância vive na memória, a maturidade ensina novos significados e a velhice, apesar das limitações e da solidão que por vezes impõe, continua sendo um privilégio concedido apenas àqueles que tiveram a oportunidade de atravessar o tempo.
Talvez por isso eu continue aguardando, todos os anos, o especial de Roberto Carlos. Não apenas pelas canções, mas porque esses encontros televisivos nos recordam da importância de agradecer a Deus pelo dom da vida e pela lucidez que nos permite revisitar nossas lembranças.
Envelhecer não é perder a beleza da existência.
É aprender que alguns sonhos mudam de forma, mas jamais deixam de iluminar a memória.