domingo, 6 de setembro de 2026

Agricultura, segurança e voto: por que estou de olho em Ronaldo Caiado

 Idosa não gosta de sair de casa à toa.

Pode até parecer preguiça para quem não conhece  e convive, mas não é. É prudência. A gente primeiro olha pela janela, vê se o tempo está firme, calcula a distância, pensa no sapato e só depois decide se vale a pena enfrentar o mundo.

Com eleição é quase a mesma coisa.

Ainda mais depois dos setenta.

Nessa idade, a gente já não é obrigada a votar, o que é uma maneira delicada que a vida encontrou de nos dizer: agora você vai se quiser. E eu gosto disso. Gosto de poder escolher até mesmo se vou sair de casa.

Por isso, para me tirar de casa num domingo de eleição, o candidato precisa me dar algum motivo.

Não basta dizer que vai melhorar a saúde, a educação, a segurança, a economia, a felicidade do povo e, se possível, o preço do tomate.

Isso todo mundo promete.

O que eu quero saber é como.

Foi pensando nisso que comecei a prestar atenção em Ronaldo Caiado.

Não porque tenha me apaixonado por candidato algum. Deus me livre. Depois de tantos anos de vida, já aprendi que paixão e política são duas coisas que convém manter a uma distância segura.

Mas algumas propostas dele me fizeram parar para ouvir.

Uma delas é o apoio ao agricultor.

Talvez quem mora em apartamento e compra tudo já embalado no supermercado não perceba, mas a comida não nasce na prateleira. Antes de chegar bonita, limpa e etiquetada, passou pela mão de alguém que acordou cedo, enfrentou sol, chuva, dívida, preço de insumo, estrada ruim e, muitas vezes, a incerteza de não saber quanto vai receber pela produção.

Eu gosto de gente que fala do agricultor.

Talvez porque Goiás seja dessas terras em que a gente ainda entende que café não nasce no supermercado e que leite não aparece espontaneamente dentro da caixinha.

Agricultura precisa de apoio, mas precisa também de segurança.

E aí entra outra questão que me interessa: a segurança pública.

Não adianta produzir se o agricultor não consegue dormir sossegado. Não adianta trabalhar, investir, plantar, criar gado, colher, transportar, se no meio do caminho aparece alguém para levar o fruto de meses — às vezes anos — de trabalho.

Segurança não é luxo.

É condição para trabalhar.

E talvez seja justamente aí que eu tenha encontrado alguma coisa diferente nas propostas de Caiado: a ideia de que produção e segurança não podem andar separadas, como se fossem assuntos de departamentos diferentes.

O agricultor precisa de terra para plantar, crédito para produzir, estrada para transportar e segurança para continuar fazendo tudo isso.

Parece simples.

Talvez por ser simples ninguém tenha muita paciência para explicar.

Mas eu tenho.

Depois de certa idade, a gente aprende a desconfiar das coisas complicadas demais. Se a proposta precisa de cinquenta palavras difíceis para explicar o que pretende fazer, talvez nem o candidato saiba direito.

Caiado não é minha primeira opção.

Faço questão de dizer.

Minha primeira opção continua sendo aquela que me convencer de que está falando sério, que conhece os problemas do país e que não vai apenas trocar as palavras de lugar para parecer que descobriu uma solução nova.

Mas, se a minha primeira escolha não estiver no caminho que eu considero correto, Caiado é minha segunda opção.

E isso, para uma eleitora que já tem mais de sete décadas de vida, não é pouca coisa.

Porque eu não voto mais por obrigação.

Voto se achar que vale a pena.

E há uma diferença enorme entre ser obrigada a votar e decidir levantar da cama porque alguém conseguiu despertar em você um pouco de esperança.

Ainda mais se for um dia chuvoso.

Porque, sejamos honestos: se estiver aquele chuvisco fino, insistente, que deixa a rua brilhando e o céu com cara de segunda-feira, eu vou pensar duas vezes.

Vou olhar pela janela.

Vou tomar meu café.

Vou talvez esperar a chuva diminuir.

E então vou lembrar que alguém precisa decidir o rumo das coisas.

Nesse caso, talvez eu procure meu guarda-chuva, calce um sapato que não escorregue e vá.

Primeiro, procurarei minha primeira opção.

Se não me convencer, já sei em quem pensar.

Caiado.

Minha segunda opção para enfrentar a chuva, a fila e mais uma eleição.

Porque depois dos setenta a gente não tem mais obrigação de fazer muita coisa.

Mas ainda tem o direito — e, quem sabe, a teimosia — de escolher em quem confiar.

 

Zema, por onde anda você? Uma eleitora procura seu candidato

 

Ano eleitoral. E uma das coisas de que eu mais gostava era o horário político gratuito no rádio e na televisão. Principalmente no rádio, que é menos exigente. Basta ligá-lo e deixá-lo ali, trabalhando por conta própria, enquanto a gente lava a louça, varre a casa, prepara o almoço ou simplesmente continua a vida.

A televisão é diferente. Ela exige presença. É preciso sentar diante dela, olhar para a tela, prestar atenção. O rádio, não. O rádio aceita a nossa ausência. É quase uma companhia doméstica.

Mas estou contando tudo isso porque perdi meu tempo de dona de casa e eleitora. Lavei a louça, ouvi o horário político e, no fim, não ouvi uma única proposta de trabalho que me parecesse confiável, viável, capaz de dar um pouco de alento a esta pobre eleitora de mais de sete décadas de vida.

Ouvi as mesmas palavras de sempre: melhorar a saúde, melhorar a educação, criar empregos, oferecer moradia.

Tudo muito bonito.

Mas como?

É justamente esse pequeno detalhe — o como — que parece desaparecer durante as eleições.

E houve uma ausência que me chamou atenção: a de Romeu Zema. Justamente ele, de quem eu pretendia ouvir as propostas antes de decidir se valeria a pena levantar cedo, vestir-me, enfrentar a manhã e ir até a zona eleitoral para dar meu voto de confiança.

Não sou mais obrigada a votar. A idade me concedeu esse pequeno privilégio de poder ficar em casa.

Mas eu iria.

Iria por vontade própria, porque votar, depois de tantos anos de vida, já não é apenas uma obrigação. Pode ser uma escolha consciente. Uma maneira de dizer: ainda estou aqui e ainda me importo com o que acontece neste país.

Mas, afinal, Zema, por onde anda você?

Comecei a desconfiar até de que ele fosse candidato.

Não vejo propaganda dele na internet. Não ouço no rádio. Minha televisão queimou com o último raio e, como o dinheiro anda curto, o conserto ficou para depois. Ainda bem que tenho o rádio,  tem a moça do tempo que, embora não resolva problema algum, pelo menos me faz companhia com suas conversas sobre o clima.

Antes das eleições, cheguei a ver alguns reels de Zema falando sobre uma questão que me chamou a atenção: o apagão de mão de obra na indústria e na agricultura, ao mesmo tempo em que existe um número enorme de adultos fortes, em idade de trabalhar, recebendo ajuda do governo.

É um assunto delicado.

Há pessoas que não querem um emprego formal porque têm medo de perder o benefício. Não querem registro, não querem contribuir para o INSS. E eu compreendo que uma pessoa pobre tenha medo de perder aquilo que garante sua sobrevivência.

Mas também fico pensando na conta.

Poucos trabalhando e contribuindo, muitos recebendo e alguns recebendo por toda a vida.

Uma hora a contabilidade não fecha.

E quando a conta não fecha, quem paga?

Essas são perguntas que eu gostaria de ouvir durante uma campanha eleitoral. Não apenas promessas de que tudo vai melhorar, porque melhorar é uma palavra muito fácil. Quero saber como. Quero ouvir números, caminhos, dificuldades, soluções possíveis. Quero que alguém tenha a coragem de dizer que certas coisas custam caro e que não existe governo capaz de distribuir dinheiro que não arrecadou.

Talvez eu esteja exigindo demais.

Afinal, sou apenas uma mulher com mais de setenta anos, sentada em casa, ouvindo rádio enquanto lava a louça.

Mas já vivi o suficiente para desconfiar de promessas muito bonitas.

E continuo procurando.

Procuro no rádio.

Procuro na internet.

Procuro até nas conversas da rua.

E há outra coisa que acho curiosa: essas pesquisas de opinião.

Sempre fui uma pessoa que ficou muito na rua. Andei, conversei, observei. E nunca fui abordada para responder a uma pesquisa eleitoral.

Ninguém me perguntou em quem pretendo votar.

Ninguém quis saber o que penso.

Talvez seja por isso que eu ainda tenha dúvidas.

Ou talvez seja simplesmente porque, no meio de tanta propaganda, tanta promessa e tanta pesquisa, às vezes uma eleitora só queira ouvir uma coisa muito simples:

“Este é o problema. Este é o custo. Este é o caminho que pretendo seguir.”

Aí, sim, eu levantaria cedo.

E iria votar.