domingo, 27 de setembro de 2026

A conta que não fecha

 


Está chegando mais um domingo de eleição para presidente da República. E, desta vez, vou votar.

Não porque ainda tenha aquela certeza antiga de que, diante da urna, existe sempre um candidato capaz de representar nossas esperanças. Essa certeza, confesso, anda meio desaparecida. Talvez tenha envelhecido junto conosco, depois de tantas promessas, tantos discursos e tantas vezes em que o futuro anunciado nunca chegou exatamente como nos foi prometido.

Vou votar porque, mesmo sem a obrigação, ainda acredito que não escolher também é uma escolha. E porque há coisas que já não consigo olhar com a mesma indiferença.

Olho para a educação e me pergunto quanto tempo levaremos para recuperar a qualidade que perdemos. Olho para a saúde e vejo pessoas esperando por atendimento, enquanto o discurso oficial continua falando em avanços. Olho para a violência, cada vez mais presente na conversa das famílias, e sinto que vivemos em permanente estado de alerta.

Mas, quando penso no futuro, existe uma preocupação que fala mais alto que todas as outras: a aposentadoria.

Quem já se aposentou sabe que tranquilidade não significa necessariamente segurança. O benefício chega todos os meses, mas junto com ele chegam também as contas, os medicamentos, o supermercado, a preocupação com os reajustes e aquela pergunta que ninguém gosta de fazer: até quando?

A conta da Previdência parece cada vez mais difícil de entender. Há menos trabalhadores contribuindo formalmente, enquanto aumenta a quantidade de pessoas que dependem da Previdência ou de programas de assistência. E, quando se ouve a reclamação de empregadores de que há trabalhadores que preferem permanecer na informalidade para não perder determinados benefícios, a preocupação fica ainda maior.

Não sou especialista em Previdência. Sou apenas alguém que olha para os números que aparecem nas notícias e tenta fazer uma conta simples: se há menos gente contribuindo e cada vez mais gente precisando receber, quem pagará essa conta amanhã?

É justamente aí que minha descrença nos candidatos aumenta.

Na televisão, todos parecem ter uma solução. Nas entrevistas, todos conhecem os problemas. Nos palanques, todos falam em futuro. Mas, quando procuro alguém disposto a encarar de frente a difícil matemática da Previdência, encontro mais silêncio do que respostas.

E existe uma ironia nisso tudo: o candidato que, aos meus olhos, parece tocar justamente nessa ferida aparece pouco nas pesquisas de intenção de voto. Os nomes que estão à frente, com possibilidade de chegar ao segundo turno, são justamente os que me fazem pensar duas vezes sobre o futuro de quem já trabalhou uma vida inteira.

Talvez seja essa a parte mais amarga de uma eleição: chegar diante da urna não com entusiasmo, mas com responsabilidade.

A gente não escolhe apenas pensando no próximo ano. Quem já se aposentou ou está perto disso pensa nos próximos dez, quinze, vinte anos. Pensa se o dinheiro continuará pagando as contas. Pensa se haverá médicos, remédios e atendimento. Pensa nos filhos e nos netos, que também poderão depender um dia de um sistema que hoje já parece apertado demais.

No fundo, não estou procurando um salvador.

Estou procurando alguém que tenha coragem de dizer a verdade, mesmo quando a verdade não rende aplausos.

Porque prometer é fácil.

Difícil é olhar para uma conta que não fecha e dizer, com clareza, quem vai pagar a diferença.

E talvez seja justamente por isso que, neste domingo, eu vá à urna não carregando esperança demais, mas carregando perguntas.

Algumas eleições começam assim: não pela certeza de quem escolher, mas pela certeza de que não podemos deixar de pensar no que está em jogo.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Kolynos: quando a infância volta pelo sabor


     Eu a vi na gôndola do supermercado.

Ali estava ela, ou quase ela: a velha Kolynos que acompanhou minha infância, minha adolescência e tantos anos da minha vida. Verde e amarela, como eu a guardava na memória, agora reaparecia em uma edição limitada da Sorriso, inspirada na embalagem e no sabor daquela que um dia desapareceu das prateleiras.

Por alguns segundos, fiquei olhando.

Há coisas que a gente pensa ter esquecido, até que um detalhe as devolva inteiras. Uma cor, um cheiro, uma música, uma embalagem. No meu caso, bastaram o verde e o amarelo da caixinha para que uma porta se abrisse dentro de mim. E, quando senti o sabor, foi como se o tempo tivesse dado uma volta silenciosa e me levado de volta à infância.

Não resisti.

Comprei.

Talvez para alguns fosse apenas uma pasta de dentes. Para mim, era uma pequena caixa de memórias.

A Kolynos havia nascido nos Estados Unidos, em 1908, criada pelo dentista Neal Jenkins. Chegou ao Brasil em 1917, inicialmente como produto importado, e, com o passar dos anos, tornou-se parte do cotidiano brasileiro. A fábrica instalada em São Paulo ajudou a ampliar seu alcance, e a marca atravessou décadas até se transformar em uma das mais conhecidas do país.

Eu, entretanto, não conheci essa história toda. Conheci a Kolynos como se conhecem as coisas que fazem parte da vida: sem perguntar de onde vieram, quem as inventou ou quanto tempo permaneceriam conosco.

Ela simplesmente estava ali.

Estava no banheiro de casa, na escovação antes de ir para a escola, nas manhãs apressadas, nas noites de sono. Estava na casa dos parentes, nas pequenas mercearias, nas prateleiras dos supermercados. A caixinha verde e amarela fazia parte da paisagem doméstica de uma geração.

E havia aquele sabor.

Um sabor que hoje talvez seja difícil explicar a quem não o experimentou. Não era apenas refrescante. Era familiar. Tinha alguma coisa de infância, de casa, de toalha pendurada no banheiro, de manhã começando, de mãe chamando para a escola. O paladar também guarda fotografias.

Talvez seja por isso que certas marcas sobrevivam à própria existência.

Nas décadas de 1980 e 1990, a Kolynos chegou a deter cerca de 52% do mercado brasileiro de cremes dentais. Sua embalagem verde e amarela tornou-se imediatamente reconhecível, e suas campanhas publicitárias ajudaram a transformá-la em um símbolo do consumo brasileiro.

Eu fui uma dessas pessoas que cresceram com ela.

E continuei usando-a até que um dia ela simplesmente deixou de estar ali.

A saída não aconteceu porque os consumidores deixaram de gostar dela. Houve uma grande operação empresarial por trás de seu desaparecimento. Em 1995, a Colgate-Palmolive adquiriu a Kolynos. No Brasil, a operação despertou a preocupação das autoridades de defesa da concorrência porque, juntas, as duas marcas alcançariam 78,1% do mercado de cremes dentais.

Em 1996, o CADE aprovou a operação com restrições e determinou a suspensão da utilização da marca Kolynos por quatro anos, justamente para abrir espaço à concorrência.    Em 1997, ela foi retirada do mercado brasileiro. No ano seguinte, surgiu a Sorriso, que ocupou grande parte daquele espaço, para outros brasileiros, não para mim, que, como forma de protesto silêncios e solitário, jamais usei

Foi assim que uma marca que parecia destinada a permanecer para sempre se tornou lembrança. Mas o que as empresas conseguem retirar das prateleiras não conseguem, necessariamente, retirar da memória.

A Kolynos desapareceu do mercado, mas não desapareceu das pessoas.

Passaram-se quase três décadas.

E eis que, um dia, eu estava diante de uma gôndola de supermercado quando vi novamente aquelas cores. A edição limitada da Sorriso recuperava a identidade visual da antiga Kolynos e buscava justamente alcançar esse território delicado da memória afetiva. A proposta declarada pela própria empresa era aproximar antigas e novas gerações, resgatando o sabor que permanecera na lembrança de quem usou a marca.

E então compreendi que aquilo não era apenas uma estratégia de mercado.

Era também um reencontro.

Para quem nasceu depois, talvez seja apenas uma edição diferente de uma pasta de dentes. Para quem viveu a época, porém, ela pode funcionar como uma máquina do tempo miúda, dessas que cabem na mão e entram no carrinho de supermercado.

A sociedade mudou. As casas mudaram. As crianças cresceram. Algumas pessoas que dividiam conosco aquelas manhãs já partiram. Outras envelheceram. Muitas das casas onde a Kolynos esteve já não existem como antes.

Mas a memória permanece.

Talvez seja esse o verdadeiro poder de uma marca que atravessou gerações: ela deixa de ser apenas um nome comercial e passa a habitar a história cotidiana das pessoas.

A edição limitada toca justamente nesse lugar.

Ela não devolve a Kolynos que existiu. Devolve, por alguns instantes, a sensação de ter sido quem éramos quando ela existia.

Foi isso que senti diante daquela gôndola.

Olhei para a caixinha verde e amarela e, antes mesmo de pegá-la, já havia voltado no tempo.

Depois, senti o sabor.

E a infância, que eu julgava distante, voltou inteira.

Comprei.

Afinal, há lembranças que não queremos apenas recordar.

Às vezes, queremos levá-las para casa.


domingo, 6 de setembro de 2026

Agricultura, segurança e voto: por que estou de olho em Ronaldo Caiado

 Idosa não gosta de sair de casa à toa.

Pode até parecer preguiça para quem não conhece  e convive, mas não é. É prudência. A gente primeiro olha pela janela, vê se o tempo está firme, calcula a distância, pensa no sapato e só depois decide se vale a pena enfrentar o mundo.

Com eleição é quase a mesma coisa.

Ainda mais depois dos setenta.

Nessa idade, a gente já não é obrigada a votar, o que é uma maneira delicada que a vida encontrou de nos dizer: agora você vai se quiser. E eu gosto disso. Gosto de poder escolher até mesmo se vou sair de casa.

Por isso, para me tirar de casa num domingo de eleição, o candidato precisa me dar algum motivo.

Não basta dizer que vai melhorar a saúde, a educação, a segurança, a economia, a felicidade do povo e, se possível, o preço do tomate.

Isso todo mundo promete.

O que eu quero saber é como.

Foi pensando nisso que comecei a prestar atenção em Ronaldo Caiado.

Não porque tenha me apaixonado por candidato algum. Deus me livre. Depois de tantos anos de vida, já aprendi que paixão e política são duas coisas que convém manter a uma distância segura.

Mas algumas propostas dele me fizeram parar para ouvir.

Uma delas é o apoio ao agricultor.

Talvez quem mora em apartamento e compra tudo já embalado no supermercado não perceba, mas a comida não nasce na prateleira. Antes de chegar bonita, limpa e etiquetada, passou pela mão de alguém que acordou cedo, enfrentou sol, chuva, dívida, preço de insumo, estrada ruim e, muitas vezes, a incerteza de não saber quanto vai receber pela produção.

Eu gosto de gente que fala do agricultor.

Talvez porque Goiás seja dessas terras em que a gente ainda entende que café não nasce no supermercado e que leite não aparece espontaneamente dentro da caixinha.

Agricultura precisa de apoio, mas precisa também de segurança.

E aí entra outra questão que me interessa: a segurança pública.

Não adianta produzir se o agricultor não consegue dormir sossegado. Não adianta trabalhar, investir, plantar, criar gado, colher, transportar, se no meio do caminho aparece alguém para levar o fruto de meses — às vezes anos — de trabalho.

Segurança não é luxo.

É condição para trabalhar.

E talvez seja justamente aí que eu tenha encontrado alguma coisa diferente nas propostas de Caiado: a ideia de que produção e segurança não podem andar separadas, como se fossem assuntos de departamentos diferentes.

O agricultor precisa de terra para plantar, crédito para produzir, estrada para transportar e segurança para continuar fazendo tudo isso.

Parece simples.

Talvez por ser simples ninguém tenha muita paciência para explicar.

Mas eu tenho.

Depois de certa idade, a gente aprende a desconfiar das coisas complicadas demais. Se a proposta precisa de cinquenta palavras difíceis para explicar o que pretende fazer, talvez nem o candidato saiba direito.

Caiado não é minha primeira opção.

Faço questão de dizer.

Minha primeira opção continua sendo aquela que me convencer de que está falando sério, que conhece os problemas do país e que não vai apenas trocar as palavras de lugar para parecer que descobriu uma solução nova.

Mas, se a minha primeira escolha não estiver no caminho que eu considero correto, Caiado é minha segunda opção.

E isso, para uma eleitora que já tem mais de sete décadas de vida, não é pouca coisa.

Porque eu não voto mais por obrigação.

Voto se achar que vale a pena.

E há uma diferença enorme entre ser obrigada a votar e decidir levantar da cama porque alguém conseguiu despertar em você um pouco de esperança.

Ainda mais se for um dia chuvoso.

Porque, sejamos honestos: se estiver aquele chuvisco fino, insistente, que deixa a rua brilhando e o céu com cara de segunda-feira, eu vou pensar duas vezes.

Vou olhar pela janela.

Vou tomar meu café.

Vou talvez esperar a chuva diminuir.

E então vou lembrar que alguém precisa decidir o rumo das coisas.

Nesse caso, talvez eu procure meu guarda-chuva, calce um sapato que não escorregue e vá.

Primeiro, procurarei minha primeira opção.

Se não me convencer, já sei em quem pensar.

Caiado.

Minha segunda opção para enfrentar a chuva, a fila e mais uma eleição.

Porque depois dos setenta a gente não tem mais obrigação de fazer muita coisa.

Mas ainda tem o direito — e, quem sabe, a teimosia — de escolher em quem confiar.

 

Zema, por onde anda você? Uma eleitora procura seu candidato

 

Ano eleitoral. E uma das coisas de que eu mais gostava era o horário político gratuito no rádio e na televisão. Principalmente no rádio, que é menos exigente. Basta ligá-lo e deixá-lo ali, trabalhando por conta própria, enquanto a gente lava a louça, varre a casa, prepara o almoço ou simplesmente continua a vida.

A televisão é diferente. Ela exige presença. É preciso sentar diante dela, olhar para a tela, prestar atenção. O rádio, não. O rádio aceita a nossa ausência. É quase uma companhia doméstica.

Mas estou contando tudo isso porque perdi meu tempo de dona de casa e eleitora. Lavei a louça, ouvi o horário político e, no fim, não ouvi uma única proposta de trabalho que me parecesse confiável, viável, capaz de dar um pouco de alento a esta pobre eleitora de mais de sete décadas de vida.

Ouvi as mesmas palavras de sempre: melhorar a saúde, melhorar a educação, criar empregos, oferecer moradia.

Tudo muito bonito.

Mas como?

É justamente esse pequeno detalhe — o como — que parece desaparecer durante as eleições.

E houve uma ausência que me chamou atenção: a de Romeu Zema. Justamente ele, de quem eu pretendia ouvir as propostas antes de decidir se valeria a pena levantar cedo, vestir-me, enfrentar a manhã e ir até a zona eleitoral para dar meu voto de confiança.

Não sou mais obrigada a votar. A idade me concedeu esse pequeno privilégio de poder ficar em casa.

Mas eu iria.

Iria por vontade própria, porque votar, depois de tantos anos de vida, já não é apenas uma obrigação. Pode ser uma escolha consciente. Uma maneira de dizer: ainda estou aqui e ainda me importo com o que acontece neste país.

Mas, afinal, Zema, por onde anda você?

Comecei a desconfiar até de que ele fosse candidato.

Não vejo propaganda dele na internet. Não ouço no rádio. Minha televisão queimou com o último raio e, como o dinheiro anda curto, o conserto ficou para depois. Ainda bem que tenho o rádio,  tem a moça do tempo que, embora não resolva problema algum, pelo menos me faz companhia com suas conversas sobre o clima.

Antes das eleições, cheguei a ver alguns reels de Zema falando sobre uma questão que me chamou a atenção: o apagão de mão de obra na indústria e na agricultura, ao mesmo tempo em que existe um número enorme de adultos fortes, em idade de trabalhar, recebendo ajuda do governo.

É um assunto delicado.

Há pessoas que não querem um emprego formal porque têm medo de perder o benefício. Não querem registro, não querem contribuir para o INSS. E eu compreendo que uma pessoa pobre tenha medo de perder aquilo que garante sua sobrevivência.

Mas também fico pensando na conta.

Poucos trabalhando e contribuindo, muitos recebendo e alguns recebendo por toda a vida.

Uma hora a contabilidade não fecha.

E quando a conta não fecha, quem paga?

Essas são perguntas que eu gostaria de ouvir durante uma campanha eleitoral. Não apenas promessas de que tudo vai melhorar, porque melhorar é uma palavra muito fácil. Quero saber como. Quero ouvir números, caminhos, dificuldades, soluções possíveis. Quero que alguém tenha a coragem de dizer que certas coisas custam caro e que não existe governo capaz de distribuir dinheiro que não arrecadou.

Talvez eu esteja exigindo demais.

Afinal, sou apenas uma mulher com mais de setenta anos, sentada em casa, ouvindo rádio enquanto lava a louça.

Mas já vivi o suficiente para desconfiar de promessas muito bonitas.

E continuo procurando.

Procuro no rádio.

Procuro na internet.

Procuro até nas conversas da rua.

E há outra coisa que acho curiosa: essas pesquisas de opinião.

Sempre fui uma pessoa que ficou muito na rua. Andei, conversei, observei. E nunca fui abordada para responder a uma pesquisa eleitoral.

Ninguém me perguntou em quem pretendo votar.

Ninguém quis saber o que penso.

Talvez seja por isso que eu ainda tenha dúvidas.

Ou talvez seja simplesmente porque, no meio de tanta propaganda, tanta promessa e tanta pesquisa, às vezes uma eleitora só queira ouvir uma coisa muito simples:

“Este é o problema. Este é o custo. Este é o caminho que pretendo seguir.”

Aí, sim, eu levantaria cedo.

E iria votar.