Ano eleitoral. E uma das coisas de que eu mais gostava era o horário político gratuito no rádio e na televisão. Principalmente no rádio, que é menos exigente. Basta ligá-lo e deixá-lo ali, trabalhando por conta própria, enquanto a gente lava a louça, varre a casa, prepara o almoço ou simplesmente continua a vida.
A televisão é diferente. Ela exige presença. É
preciso sentar diante dela, olhar para a tela, prestar atenção. O rádio, não. O
rádio aceita a nossa ausência. É quase uma companhia doméstica.
Mas estou contando tudo isso porque perdi meu tempo
de dona de casa e eleitora. Lavei a louça, ouvi o horário político e, no fim,
não ouvi uma única proposta de trabalho que me parecesse confiável, viável,
capaz de dar um pouco de alento a esta pobre eleitora de mais de sete décadas
de vida.
Ouvi as mesmas palavras de sempre: melhorar a
saúde, melhorar a educação, criar empregos, oferecer moradia.
Tudo muito bonito.
Mas como?
É justamente esse pequeno detalhe — o como — que
parece desaparecer durante as eleições.
E houve uma ausência que me chamou atenção: a de
Romeu Zema. Justamente ele, de quem eu pretendia ouvir as propostas antes de
decidir se valeria a pena levantar cedo, vestir-me, enfrentar a manhã e ir até
a zona eleitoral para dar meu voto de confiança.
Não sou mais obrigada a votar. A idade me concedeu
esse pequeno privilégio de poder ficar em casa.
Mas eu iria.
Iria por vontade própria, porque votar, depois de
tantos anos de vida, já não é apenas uma obrigação. Pode ser uma escolha consciente.
Uma maneira de dizer: ainda estou aqui e ainda me importo com o que acontece
neste país.
Mas, afinal, Zema, por onde anda você?
Comecei a desconfiar até de que ele fosse
candidato.
Não vejo propaganda dele na internet. Não ouço no
rádio. Minha televisão queimou com o último raio e, como o dinheiro anda curto,
o conserto ficou para depois. Ainda bem que tenho o rádio, tem a moça do tempo que, embora não resolva
problema algum, pelo menos me faz companhia com suas conversas sobre o clima.
Antes das eleições, cheguei a ver alguns reels de
Zema falando sobre uma questão que me chamou a atenção: o apagão de mão de obra
na indústria e na agricultura, ao mesmo tempo em que existe um número enorme de
adultos fortes, em idade de trabalhar, recebendo ajuda do governo.
É um assunto delicado.
Há pessoas que não querem um emprego formal porque
têm medo de perder o benefício. Não querem registro, não querem contribuir para
o INSS. E eu compreendo que uma pessoa pobre tenha medo de perder aquilo que
garante sua sobrevivência.
Mas também fico pensando na conta.
Poucos trabalhando e contribuindo, muitos recebendo
e alguns recebendo por toda a vida.
Uma hora a contabilidade não fecha.
E quando a conta não fecha, quem paga?
Essas são perguntas que eu gostaria de ouvir durante
uma campanha eleitoral. Não apenas promessas de que tudo vai melhorar, porque
melhorar é uma palavra muito fácil. Quero saber como. Quero ouvir números,
caminhos, dificuldades, soluções possíveis. Quero que alguém tenha a coragem de
dizer que certas coisas custam caro e que não existe governo capaz de
distribuir dinheiro que não arrecadou.
Talvez eu esteja exigindo demais.
Afinal, sou apenas uma mulher com mais de setenta
anos, sentada em casa, ouvindo rádio enquanto lava a louça.
Mas já vivi o suficiente para desconfiar de
promessas muito bonitas.
E continuo procurando.
Procuro no rádio.
Procuro na internet.
Procuro até nas conversas da rua.
E há outra coisa que acho curiosa: essas pesquisas
de opinião.
Sempre fui uma pessoa que ficou muito na rua.
Andei, conversei, observei. E nunca fui abordada para responder a uma pesquisa
eleitoral.
Ninguém me perguntou em quem pretendo votar.
Ninguém quis saber o que penso.
Talvez seja por isso que eu ainda tenha dúvidas.
Ou talvez seja simplesmente porque, no meio de
tanta propaganda, tanta promessa e tanta pesquisa, às vezes uma eleitora só
queira ouvir uma coisa muito simples:
“Este é o problema. Este é o custo. Este é o
caminho que pretendo seguir.”
Aí, sim, eu levantaria cedo.
E iria votar.
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