domingo, 6 de setembro de 2026

Zema, por onde anda você? Uma eleitora procura seu candidato

 

Ano eleitoral. E uma das coisas de que eu mais gostava era o horário político gratuito no rádio e na televisão. Principalmente no rádio, que é menos exigente. Basta ligá-lo e deixá-lo ali, trabalhando por conta própria, enquanto a gente lava a louça, varre a casa, prepara o almoço ou simplesmente continua a vida.

A televisão é diferente. Ela exige presença. É preciso sentar diante dela, olhar para a tela, prestar atenção. O rádio, não. O rádio aceita a nossa ausência. É quase uma companhia doméstica.

Mas estou contando tudo isso porque perdi meu tempo de dona de casa e eleitora. Lavei a louça, ouvi o horário político e, no fim, não ouvi uma única proposta de trabalho que me parecesse confiável, viável, capaz de dar um pouco de alento a esta pobre eleitora de mais de sete décadas de vida.

Ouvi as mesmas palavras de sempre: melhorar a saúde, melhorar a educação, criar empregos, oferecer moradia.

Tudo muito bonito.

Mas como?

É justamente esse pequeno detalhe — o como — que parece desaparecer durante as eleições.

E houve uma ausência que me chamou atenção: a de Romeu Zema. Justamente ele, de quem eu pretendia ouvir as propostas antes de decidir se valeria a pena levantar cedo, vestir-me, enfrentar a manhã e ir até a zona eleitoral para dar meu voto de confiança.

Não sou mais obrigada a votar. A idade me concedeu esse pequeno privilégio de poder ficar em casa.

Mas eu iria.

Iria por vontade própria, porque votar, depois de tantos anos de vida, já não é apenas uma obrigação. Pode ser uma escolha consciente. Uma maneira de dizer: ainda estou aqui e ainda me importo com o que acontece neste país.

Mas, afinal, Zema, por onde anda você?

Comecei a desconfiar até de que ele fosse candidato.

Não vejo propaganda dele na internet. Não ouço no rádio. Minha televisão queimou com o último raio e, como o dinheiro anda curto, o conserto ficou para depois. Ainda bem que tenho o rádio,  tem a moça do tempo que, embora não resolva problema algum, pelo menos me faz companhia com suas conversas sobre o clima.

Antes das eleições, cheguei a ver alguns reels de Zema falando sobre uma questão que me chamou a atenção: o apagão de mão de obra na indústria e na agricultura, ao mesmo tempo em que existe um número enorme de adultos fortes, em idade de trabalhar, recebendo ajuda do governo.

É um assunto delicado.

Há pessoas que não querem um emprego formal porque têm medo de perder o benefício. Não querem registro, não querem contribuir para o INSS. E eu compreendo que uma pessoa pobre tenha medo de perder aquilo que garante sua sobrevivência.

Mas também fico pensando na conta.

Poucos trabalhando e contribuindo, muitos recebendo e alguns recebendo por toda a vida.

Uma hora a contabilidade não fecha.

E quando a conta não fecha, quem paga?

Essas são perguntas que eu gostaria de ouvir durante uma campanha eleitoral. Não apenas promessas de que tudo vai melhorar, porque melhorar é uma palavra muito fácil. Quero saber como. Quero ouvir números, caminhos, dificuldades, soluções possíveis. Quero que alguém tenha a coragem de dizer que certas coisas custam caro e que não existe governo capaz de distribuir dinheiro que não arrecadou.

Talvez eu esteja exigindo demais.

Afinal, sou apenas uma mulher com mais de setenta anos, sentada em casa, ouvindo rádio enquanto lava a louça.

Mas já vivi o suficiente para desconfiar de promessas muito bonitas.

E continuo procurando.

Procuro no rádio.

Procuro na internet.

Procuro até nas conversas da rua.

E há outra coisa que acho curiosa: essas pesquisas de opinião.

Sempre fui uma pessoa que ficou muito na rua. Andei, conversei, observei. E nunca fui abordada para responder a uma pesquisa eleitoral.

Ninguém me perguntou em quem pretendo votar.

Ninguém quis saber o que penso.

Talvez seja por isso que eu ainda tenha dúvidas.

Ou talvez seja simplesmente porque, no meio de tanta propaganda, tanta promessa e tanta pesquisa, às vezes uma eleitora só queira ouvir uma coisa muito simples:

“Este é o problema. Este é o custo. Este é o caminho que pretendo seguir.”

Aí, sim, eu levantaria cedo.

E iria votar.

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