domingo, 19 de abril de 2026

Sementes ao vento

 


Você já teve a sensação de que sua cabeça é um terreno fértil demais para o tamanho das suas mãos?

Eu tenho. Ideias me atravessam com a força de cataratas — quase como as de Foz do Iguaçu — caudalosas, barulhentas, insistentes. Elas chegam sem pedir licença, ocupam espaço, fazem promessas. E, como toda abundância, trazem consigo uma espécie de ironia: a incapacidade de dar conta de tudo o que nasce.

Porque ter ideias, caro leitor, não é o mesmo que realizá-las.

E foi assim que, há décadas, encontrei um destino possível para as minhas: o vento.

Todo ano eleitoral, enquanto muitos escolhem lados, eu escolho remetentes. Escrevo para candidatos — muitos deles — e envio minhas sugestões como quem solta sementes no ar, sem saber onde cairão. Faço isso em silêncio. Não por modéstia, mas por sobrevivência social. Há sempre alguém pronto para lembrar qual é o nosso lugar na tal pirâmide — como se inteligência tivesse CEP, como se criatividade obedecesse à renda.

Então eu me calo.

Mas observo.

E, vez ou outra, reconheço um broto.

Uma ideia que foi minha — um dia, escrita às pressas, enviada sem protocolo — surge por aí, vestida com outro nome, outra assinatura, outro dono. Confesso: não é simples assistir a isso sem um certo incômodo. Há um desejo humano, quase infantil, de dizer “fui eu”. De colher o aplauso, de receber o crédito, de existir publicamente naquela criação.

Mas, veja bem, também há algo maior.

Outro dia, por exemplo, passei por uma praça e vi gente dançando. Aulas gratuitas, abertas, alegres. Gente que talvez nunca pudesse pagar uma academia agora ocupando o espaço público com o corpo leve. Eu reconheci aquela ideia. Era minha — ou, ao menos, já tinha passado por mim. E ali estava ela, viva, útil, transformando pequenas rotinas.

Naquele momento, entendi: algumas sementes não precisam de nome para florescer.

Hoje, tive outra dessas experiências. Vi um candidato à presidência usar, como peça de campanha, uma sugestão que lhe enviei — três vezes, para ser exata. Não direi qual. Não por mistério literário, mas por prudência: vivemos tempos em que até o vento pode ser processado.

Mas posso te dizer o que senti.

Um orgulho quieto.

Uma vaidade contida.

E, acima de tudo, uma estranha forma de gratidão.

Porque, no fim das contas, aquela ideia — que um dia foi só pensamento — agora tem o potencial de alcançar milhões. E talvez, quem sabe, ajudar pessoas a deixarem de ser dependentes da caridade para se tornarem construtoras do próprio caminho.

E isso, convenhamos, vale mais do que qualquer assinatura.

Por isso, eu te pergunto, leitor: o que você faz com as suas ideias?

Você as guarda, esperando o momento perfeito que nunca chega? Ou as deixa ir, correndo o risco de nunca mais reconhecê-las?

Talvez nem todos possamos ser jardineiros de tudo o que imaginamos. Mas isso não nos impede de lançar sementes.

Algumas se perderão, é verdade. Outras cairão em solo árido. Mas haverá aquelas — sempre há — que encontrarão mãos mais hábeis, terrenos mais férteis, condições melhores.

E florescerão.

Então, se um dia você tiver uma ideia capaz de melhorar o mundo, ainda que um centímetro, não a aprisione por falta de recursos, medo ou vaidade.

Solte-a.

O vento sabe trabalhar.

E o mundo, às vezes, precisa exatamente disso: de sementes anônimas e de coragem silenciosa.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Do leite e do tempo: um manifesto silencioso contra a pressa


Dizem que vivemos tempos líquidos. Não fui eu quem disse — foi a ciência social, com seus termos elegantes para explicar o que o coração já sente antes mesmo da cabeça entender. Tudo escorre: afetos, vínculos, promessas. As relações, antes sólidas como o banco da praça onde se sentavam velhos amigos, hoje evaporam como água ao sol do meio-dia.

E eu, que ainda insisto em guardar nomes, rostos e histórias como quem guarda fotografias em caixa de sapato, me vejo deslocada — um peixe fora d’água nadando em terra firme. Não por escolha estética, mas por inaptidão prática: não sei habitar plenamente o mundo das telas. Minha dificuldade com a tecnologia não é só técnica; é quase existencial. Falta-me o instinto de substituir o toque pelo clique, o olhar pelo emoji, o silêncio compartilhado por uma notificação.

Saio à tarde, como quem ainda acredita na antiga liturgia da convivência: uma brisa leve, um banco qualquer, talvez um conhecido que passe. Mas as praças estão vazias — ou pior, povoadas por ausências. Quando há gente, há também um tipo curioso de invisibilidade: corpos presentes, almas sequestradas por pequenas telas luminosas. Cada um agarrado ao próprio aparelho como se ali estivesse não apenas o mundo, mas a razão última de existir.

A igreja, que antes reunia mais do que fé — reunia gente — agora ecoa passos solitários. Até o silêncio perdeu sua função de encontro.

Penso então: talvez na rodoviária ainda haja resquícios de humanidade. Gente de passagem, gente simples, gente que ainda acredita em dois dedos de prosa enquanto espera o ônibus atrasado. Sento-me ali, invento a expectativa de alguém que não vem. Mas o cenário se repete, como um experimento científico cujo resultado já se sabe de antemão: olhos baixos, dedos inquietos, telas acesas. O mundo ao redor, apagado.

Tomo uma decisão quase dramática, mas profundamente coerente com minha condição: vou ao posto de saúde. Velho sempre tem uma dor — e, se não tem, inventa. Não pela dor em si, mas pela promessa de conversa. Antes, a sala de espera era uma espécie de assembleia informal da vida: trocavam-se histórias, receitas, queixas e até risadas. Hoje, nem isso. Cada paciente isolado em seu pequeno universo digital, como se o aparelho fosse capaz de curar não apenas as juntas, mas todas as mazelas da existência.

Desisto da consulta. Meu diagnóstico já estava feito antes mesmo de entrar: solidão em meio à multidão conectada.

No mercado, busco apenas um lanche barato na padaria — um gesto prático, sem grandes expectativas. Mas é ali, no lugar mais improvável, que algo acontece. Uma ruptura silenciosa no fluxo líquido do mundo.

Vejo uma mulher.

Simples, inteira, ocupando seu espaço com uma naturalidade quase subversiva. Um filho agarrado à saia, outro nos braços. E ela — amamentando. Sem pressa, sem constrangimento, sem pedir licença ao mundo. Como se aquilo, de fato, fosse o que sempre foi: natural.

E talvez seja justamente isso que mais surpreende — o natural ter se tornado raro.

Não havia celular em suas mãos. Nem nas do homem ao seu lado, que logo percebo ser o pai das crianças. Quatro pessoas. Quatro corpos presentes. Quatro existências ancoradas no instante.

Senti um leve temor — confesso. Não por eles, mas pelo mundo ao redor. Pensei, com ironia quase trágica, que poderiam ser confundidos com algo estranho, deslocado, quase extraterrestre. Afinal, em tempos líquidos, a solidez de um gesto ancestral pode parecer uma anomalia.

Fiquei ali, olhando discretamente, como quem testemunha um fenômeno raro. Porque era, de fato, raro: não o ato de amamentar, mas o contexto em que ele acontecia. Um gesto que atravessa milênios, sustentado por uma biologia precisa — hormônios, vínculos, sobrevivência — e, ao mesmo tempo, carregado de uma simbologia que nenhuma tecnologia conseguiu substituir.

A ciência explica a liquidez das relações modernas: a velocidade das conexões, a descartabilidade dos vínculos, a constante busca por novidade. Mas ali, diante de mim, havia uma outra ciência em ação — mais antiga, mais silenciosa. A do corpo que nutre, do vínculo que se constrói no toque, do tempo que desacelera para permitir que alguém simplesmente seja.

Talvez ainda haja resistência, pensei.

Não nas grandes revoluções, nem nos discursos inflamados, mas nesses pequenos atos de permanência. Amamentar em público. Estar junto sem mediação. Existir sem precisar ser traduzido em pixels.

Saí dali com o lanche nas mãos e uma estranha sensação de esperança. Não a esperança grandiosa, que muda o mundo de uma vez, mas aquela miúda, quase invisível — como o leite que alimenta, como o tempo que insiste em não escorrer completamente pelos nossos dedos.

Talvez nem tudo esteja perdido.

Talvez ainda haja quem saiba permanecer.