Você já teve a sensação de que sua cabeça é um terreno fértil
demais para o tamanho das suas mãos?
Eu tenho. Ideias me atravessam com a força de cataratas — quase
como as de Foz do Iguaçu — caudalosas, barulhentas, insistentes. Elas chegam
sem pedir licença, ocupam espaço, fazem promessas. E, como toda abundância,
trazem consigo uma espécie de ironia: a incapacidade de dar conta de tudo o que
nasce.
Porque ter ideias, caro leitor, não é o mesmo que realizá-las.
E foi assim que, há décadas, encontrei um destino possível para as
minhas: o vento.
Todo ano eleitoral, enquanto muitos escolhem lados, eu escolho
remetentes. Escrevo para candidatos — muitos deles — e envio minhas sugestões
como quem solta sementes no ar, sem saber onde cairão. Faço isso em silêncio.
Não por modéstia, mas por sobrevivência social. Há sempre alguém pronto para
lembrar qual é o nosso lugar na tal pirâmide — como se inteligência tivesse
CEP, como se criatividade obedecesse à renda.
Então eu me calo.
Mas observo.
E, vez ou outra, reconheço um broto.
Uma ideia que foi minha — um dia, escrita às pressas, enviada sem
protocolo — surge por aí, vestida com outro nome, outra assinatura, outro dono.
Confesso: não é simples assistir a isso sem um certo incômodo. Há um desejo
humano, quase infantil, de dizer “fui eu”. De colher o aplauso, de receber o
crédito, de existir publicamente naquela criação.
Mas, veja bem, também há algo maior.
Outro dia, por exemplo, passei por uma praça e vi gente dançando.
Aulas gratuitas, abertas, alegres. Gente que talvez nunca pudesse pagar uma
academia agora ocupando o espaço público com o corpo leve. Eu reconheci aquela
ideia. Era minha — ou, ao menos, já tinha passado por mim. E ali estava ela,
viva, útil, transformando pequenas rotinas.
Naquele momento, entendi: algumas sementes não precisam de nome
para florescer.
Hoje, tive outra dessas experiências. Vi um candidato à
presidência usar, como peça de campanha, uma sugestão que lhe enviei — três
vezes, para ser exata. Não direi qual. Não por mistério literário, mas por
prudência: vivemos tempos em que até o vento pode ser processado.
Mas posso te dizer o que senti.
Um orgulho quieto.
Uma vaidade contida.
E, acima de tudo, uma estranha forma de gratidão.
Porque, no fim das contas, aquela ideia — que um dia foi só
pensamento — agora tem o potencial de alcançar milhões. E talvez, quem sabe,
ajudar pessoas a deixarem de ser dependentes da caridade para se tornarem
construtoras do próprio caminho.
E isso, convenhamos, vale mais do que qualquer assinatura.
Por isso, eu te pergunto, leitor: o que você faz com as suas
ideias?
Você as guarda, esperando o momento perfeito que nunca chega? Ou
as deixa ir, correndo o risco de nunca mais reconhecê-las?
Talvez nem todos possamos ser jardineiros de tudo o que
imaginamos. Mas isso não nos impede de lançar sementes.
Algumas se perderão, é verdade. Outras cairão em solo árido. Mas
haverá aquelas — sempre há — que encontrarão mãos mais hábeis, terrenos mais
férteis, condições melhores.
E florescerão.
Então, se um dia você tiver uma ideia capaz de melhorar o mundo,
ainda que um centímetro, não a aprisione por falta de recursos, medo ou vaidade.
Solte-a.
O vento sabe trabalhar.
E o mundo, às vezes, precisa exatamente disso: de sementes
anônimas e de coragem silenciosa.
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