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Hoje eu tenho algo a comemorar.
Não é aniversário, não é promoção, não é viagem. É menor — e ao mesmo tempo
gigantesco: hoje eu consegui limpar a minha casa de trinta metros quadrados.
Não foi uma faxina de revista, dessas que fazem a
casa cheirar a comercial de produto de limpeza. Não. Apenas puxei os móveis,
varri embaixo, passei um pano no chão. Nada épico. Nada extraordinário. Nada
que merecesse medalha… exceto para mim.
Para mim foi uma vitória.
Há meses eu não fazia isso.
A sujeira me incomoda profundamente. Não é descuido
deliberado. Não é falta de dinheiro para comprar sabão, desinfetante ou pano de
chão. Não é sequer falta de tempo. É algo mais estranho, mais silencioso — como
se existisse uma força invisível que me mantivesse presa a uma espécie de
inércia doméstica.
Os psiquiatras chamam algo parecido de procrastinação
patológica, frequentemente ligada à depressão, à ansiedade ou
àquilo que a psicologia chama de disfunção executiva. É quando o cérebro
sabe exatamente o que precisa ser feito, mas não consegue iniciar a ação.
Entre saber e fazer abre-se um abismo.
Nesse abismo mora o celular.
Eu sento apenas por alguns minutos e começo a rolar
a tela. Vídeos curtos, bobos, repetitivos. Quando largo o aparelho, nem lembro
o que vi. A neurologia explica que esse tipo de conteúdo funciona como pequenas
doses de dopamina, o neurotransmissor do prazer imediato. Ele anestesia
o desconforto e oferece recompensas rápidas, enquanto tarefas reais — como
limpar a casa — exigem esforço antes da recompensa.
Assim, o cérebro escolhe o caminho mais curto.
E eu fico ali, presa.
A sociologia diria que esse fenômeno também é filho
do nosso tempo. Vivemos na economia da atenção, em que aplicativos são
desenhados exatamente para capturar nossas horas e nossa energia mental. O que
parece fraqueza pessoal muitas vezes é uma batalha desigual entre um cérebro
humano e algoritmos treinados para mantê-lo preso.
Mesmo assim, a culpa sempre recai sobre nós.
E eu me culpo.
Tenho
vergonha de convidar pessoas à minha casa.
A casa fica suja, eu fico triste.
Eu fico triste, anestesio no celular.
Anestesiada, deixo a casa suja.
É um
círculo vicioso perfeito.
O curioso é que essa não é a primeira casa. Já
mudei de endereço umas dez vezes. Sempre faço a mesma promessa: na próxima
casa será diferente. A próxima casa será limpa, organizada, luminosa. Um
templo doméstico.
Mas a casa nova nunca vem com um cérebro novo.
E assim a promessa muda de endereço comigo.
Hoje, porém, aconteceu algo pequeno. Peguei a
vassoura. Depois o rodo. Depois o pano de chão. Não foi heroico. Foi apenas um
começo.
Mas a psicologia comportamental diz algo
interessante: a motivação muitas vezes nasce da ação, e não o contrário.
Esperar sentir vontade para agir é um equívoco comum. O movimento, por menor
que seja, é que começa a destravar a engrenagem interna.
Talvez seja por isso que hoje eu me sinta
vitoriosa.
Também tenho pensado em outra possibilidade, menos
científica e mais afetiva. A psicologia sistêmica fala em lealdades
invisíveis dentro das famílias — padrões que repetimos sem perceber, como
se estivéssemos honrando histórias antigas.
Minha mãe trabalhava demais. O excesso de serviço
não lhe deixava tempo para cuidar da casa como gostaria. Às vezes me pergunto
se, de algum modo inconsciente, eu não carrego essa herança. Uma fidelidade
silenciosa.
Mas talvez a verdadeira lealdade seja outra.
Talvez honrar minha mãe não seja repetir suas
faltas de tempo, e sim continuar sua capacidade de trabalho, sua luta, sua
persistência.
Hoje varri o chão.
Pode parecer pouco, mas não foi. Foi um pequeno
golpe nas correntes invisíveis.
E se amanhã eu repetir o gesto, talvez um elo se
rompa.
Quem sabe, um dia, minha casa de trinta metros
quadrados fique finalmente do tamanho da liberdade que eu procuro.
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