domingo, 15 de março de 2026

Crônica das correntes invisíveis

 

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Hoje eu tenho algo a comemorar.
Não é aniversário, não é promoção, não é viagem. É menor — e ao mesmo tempo gigantesco: hoje eu consegui limpar a minha casa de trinta metros quadrados.

Não foi uma faxina de revista, dessas que fazem a casa cheirar a comercial de produto de limpeza. Não. Apenas puxei os móveis, varri embaixo, passei um pano no chão. Nada épico. Nada extraordinário. Nada que merecesse medalha… exceto para mim.

Para mim foi uma vitória.

Há meses eu não fazia isso.

A sujeira me incomoda profundamente. Não é descuido deliberado. Não é falta de dinheiro para comprar sabão, desinfetante ou pano de chão. Não é sequer falta de tempo. É algo mais estranho, mais silencioso — como se existisse uma força invisível que me mantivesse presa a uma espécie de inércia doméstica.

Os psiquiatras chamam algo parecido de procrastinação patológica, frequentemente ligada à depressão, à ansiedade ou àquilo que a psicologia chama de disfunção executiva. É quando o cérebro sabe exatamente o que precisa ser feito, mas não consegue iniciar a ação.

Entre saber e fazer abre-se um abismo.

Nesse abismo mora o celular.

Eu sento apenas por alguns minutos e começo a rolar a tela. Vídeos curtos, bobos, repetitivos. Quando largo o aparelho, nem lembro o que vi. A neurologia explica que esse tipo de conteúdo funciona como pequenas doses de dopamina, o neurotransmissor do prazer imediato. Ele anestesia o desconforto e oferece recompensas rápidas, enquanto tarefas reais — como limpar a casa — exigem esforço antes da recompensa.

Assim, o cérebro escolhe o caminho mais curto.

E eu fico ali, presa.

A sociologia diria que esse fenômeno também é filho do nosso tempo. Vivemos na economia da atenção, em que aplicativos são desenhados exatamente para capturar nossas horas e nossa energia mental. O que parece fraqueza pessoal muitas vezes é uma batalha desigual entre um cérebro humano e algoritmos treinados para mantê-lo preso.

Mesmo assim, a culpa sempre recai sobre nós.

E eu me culpo.

Tenho vergonha de convidar pessoas à minha casa.
A casa fica suja, eu fico triste.
Eu fico triste, anestesio no celular.
Anestesiada, deixo a casa suja.

É um círculo vicioso perfeito.

O curioso é que essa não é a primeira casa. Já mudei de endereço umas dez vezes. Sempre faço a mesma promessa: na próxima casa será diferente. A próxima casa será limpa, organizada, luminosa. Um templo doméstico.

Mas a casa nova nunca vem com um cérebro novo.

E assim a promessa muda de endereço comigo.

Hoje, porém, aconteceu algo pequeno. Peguei a vassoura. Depois o rodo. Depois o pano de chão. Não foi heroico. Foi apenas um começo.

Mas a psicologia comportamental diz algo interessante: a motivação muitas vezes nasce da ação, e não o contrário. Esperar sentir vontade para agir é um equívoco comum. O movimento, por menor que seja, é que começa a destravar a engrenagem interna.

Talvez seja por isso que hoje eu me sinta vitoriosa.

Também tenho pensado em outra possibilidade, menos científica e mais afetiva. A psicologia sistêmica fala em lealdades invisíveis dentro das famílias — padrões que repetimos sem perceber, como se estivéssemos honrando histórias antigas.

Minha mãe trabalhava demais. O excesso de serviço não lhe deixava tempo para cuidar da casa como gostaria. Às vezes me pergunto se, de algum modo inconsciente, eu não carrego essa herança. Uma fidelidade silenciosa.

Mas talvez a verdadeira lealdade seja outra.

Talvez honrar minha mãe não seja repetir suas faltas de tempo, e sim continuar sua capacidade de trabalho, sua luta, sua persistência.

Hoje varri o chão.

Pode parecer pouco, mas não foi. Foi um pequeno golpe nas correntes invisíveis.

E se amanhã eu repetir o gesto, talvez um elo se rompa.

Quem sabe, um dia, minha casa de trinta metros quadrados fique finalmente do tamanho da liberdade que eu procuro.

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