sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Fio Entre o Respeito e o Descaso

Há relações que se constroem em silêncio. Entre locador e locatário, muitas vezes não há proximidade, mas existe um pacto invisível: o da confiança. O proprietário entrega a chave, o inquilino assume o espaço, e juntos inauguram uma convivência que, embora mediada por contratos e imobiliárias, repousa sobre algo mais delicado — o respeito.

No caso da barbearia, o início parecia promissor. O aluguel foi ajustado abaixo do valor de mercado, gesto de compreensão diante da necessidade do barbeiro. Um acordo quase generoso: “se for mais caro, não fico”, disse ele, e os donos aceitaram. Durante todo o período, não houve cobranças excessivas, nem broncas, nem vigilância. O espaço foi cedido com confiança, como quem acredita que a reciprocidade se manifesta na forma de cuidado.

Mas o fim da história revelou outra face. Ao sair, o barbeiro deixou para trás não apenas o imóvel, mas também um rastro de descaso: lixo acumulado, garrafas cheias de lâminas, embalagens vazias, pratos e copos descartáveis. Até mesmo os últimos fios de cabelo e barba foram varridos para o fundo, como se o espaço não merecesse a dignidade de uma despedida limpa.

E é aí que a crônica se instala: não no lixo em si, mas no que ele simboliza. O contrato pode ter sido cumprido, o aluguel pago, mas a relação foi quebrada no detalhe. Porque respeito não se mede em boletos quitados, mas na forma como se devolve aquilo que não nos pertence.

O barbeiro saiu espontaneamente, sem pressão dos donos. Mas deixou uma marca: a lembrança de que confiança é frágil, e que generosidade sem reciprocidade pode se transformar em frustração.

No fundo, essa história fala menos de imóveis e mais de pessoas. De como cada relação — seja comercial, seja pessoal — carrega um fio invisível que pede cuidado. E quando esse fio é rompido, não é apenas o espaço físico que fica sujo; é a memória da convivência que se mancha.

 


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