Neste domingo de carnaval 2026, depois do almoço, o mundo parece sempre um pouco mais lento. Não importa se lá fora o sol continua firme: dentro de casa, o tempo se curva, dobra o joelho e cochila conosco. Talvez por isso a soneca da tarde seja uma das últimas resistências contra a pressa. Ela não serve para nada — e justamente por isso é tão necessária.
Depois de um estrogonofe generoso, desses que
abraçam por dentro, o corpo pede trégua. Não é sono de noite, não é descanso
planejado. É um desmaio socialmente aceito. Deitei com a intenção nobre de
fechar os olhos por “dez minutinhos”, expressão que sempre mente, porque a
alma, quando encontra silêncio, aproveita para abrir gavetas antigas.
E então sonhei.
Sonhei que estava na casa do Carlos, um homem que
foi abrigo num tempo em que eu precisava de teto e, talvez mais do que isso, de
testemunha da minha sobrevivência. No sonho, eu não alugava mais. Eu estava de
favor. Há algo profundamente humilhante nessa palavra, mesmo quando não é dita.
Ela pesa na espinha, altera a postura, faz a gente andar pela casa como quem
pede desculpa por respirar.
Carlos me pediu para comprar arroz.
Pedi o dinheiro.
Ele ficou furioso. Disse que todo mundo comia ali
e ninguém contribuía. A fúria dele não era apenas dele. Era coletiva, antiga,
acumulada. Era o medo universal de ser visto como peso, como dívida, como
excesso. No sonho, a vergonha veio rápido, como sempre vem na vida real: sem
direito a defesa.
Saí para o mercado.
O curioso é que os sonhos nunca economizam
simbolismo. Eles são exagerados, dramáticos, quase literários. No caminho, o
mercado estava fechando. O mundo sempre fecha quando a gente chega atrasado.
Essa é uma das primeiras lições da existência: as oportunidades têm horário
comercial.
E havia o curral.
Dois touros furiosos bloqueavam a passagem.
Não era apenas medo. Era uma espécie de
convocação. Eu queria passar, mas também queria ficar. Queria entender. Havia
algo ali que não era só obstáculo. Era mensagem. Era teste. Era pergunta.
E acordei.
Talvez seja isso que mais incomode nos sonhos:
eles nos deixam no meio da frase. Como certos amores, certos projetos, certas
versões de nós mesmos.
Mas o que mais me impressiona não é o sonho em
si. É o fato de que, ao acordar, sentimos uma urgência quase infantil de
entender. Por que precisamos decifrar sonhos? Por que não aceitamos
simplesmente que a mente, cansada, produziu imagens aleatórias? Por que
insistimos em procurar sentido, como arqueólogos de nós mesmos?
Talvez porque a vida acordada seja dura demais
para ser apenas literal.
Os dois touros podem ser muitas coisas: medo e
desejo, impulso e prudência, coragem e paralisia. Mas talvez sejam também duas
forças mais antigas: sobreviver e compreender. A maioria das pessoas passa
correndo pelos touros. Algumas poucas param para observar. E isso também é uma
escolha.
A casa do Carlos pode ser abrigo, mas também pode
ser o passado cobrando maturidade. O arroz pode ser sustento, mas também
responsabilidade. A vergonha pode ser ferida, mas também bússola. O mercado
fechando pode ser urgência, mas também aviso: a vida não espera que a gente se
organize emocionalmente.
E os sonhos?
Os sonhos talvez sejam a única linguagem que o inconsciente encontra para nos
chamar pelo nome completo.
A soneca de domingo tem essa estranha dignidade:
ela nos devolve àquilo que fingimos não saber durante a semana. No trabalho,
nas conversas, nos compromissos, somos racionais, práticos, eficientes. No
cochilo da tarde, somos novamente simbólicos, frágeis, primitivos.
Sonhar é um ato de desobediência contra a superficialidade.
Queremos entender os sonhos porque queremos
acreditar que existe um enredo maior. Que nossas vergonhas não são inúteis. Que
nossos medos não são gratuitos. Que nossos obstáculos não são apenas azar. Que
há, por trás de cada curral bloqueando o caminho, uma iniciação.
Talvez nunca descubramos o significado exato.
Talvez não exista.
Mas, no fundo, a necessidade de entender sonhos é
a mesma de entender a própria vida: não queremos apenas passar pelos touros.
Queremos saber por que eles estavam ali.
E, quem sabe, descobrir que eles não bloqueavam a
passagem — estavam apenas esperando que a gente deixasse de fugir e começasse a
olhar.
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