Tenho travado uma
guerra silenciosa contra um inimigo pequeno, fino e luminoso. Ele cabe na palma
da mão, vibra como quem chama pelo nome e promete distração — essa palavra
elegante para dizer fuga. Falo do celular, esse oráculo contemporâneo que nunca
dorme e que, generosamente, me oferece vídeos curtos, inúteis e infinitos.
Deito-me dizendo
que verei “só um”. Duas horas depois, estou com os olhos ardendo, lutando
contra o sono, assistindo a algo que esquecerei antes mesmo que o próximo vídeo
comece. E ele começa. Sempre começa. O algoritmo — essa entidade invisível que
parece me conhecer melhor do que eu — envia mais e mais conteúdos sob medida
para minha distração. E eu, obediente, assisto. Há algo de tragicômico nisso:
uma sucessão de risadas vazias, receitas que não farei, opiniões que não pedi,
danças que não aprenderei. Quando percebo, não sei o que vi, mas sei que estou
exausta.
A psicologia tem
nome para esse fenômeno. O design das redes sociais é estruturado com base no reforço
intermitente, conceito estudado por B. F. Skinner. É o mesmo princípio
das máquinas caça-níqueis: você nunca sabe quando virá algo interessante, então
continua tentando. Um vídeo pode ser banal, o próximo também — mas, de repente,
surge um que provoca riso, curiosidade ou identificação. Essa imprevisibilidade
mantém o cérebro preso num ciclo de expectativa e recompensa, alimentado pela
dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação.
Não é falta de
caráter. É neurociência.
E foi no meio
dessa avalanche de inutilidades que, acidentalmente, apareceu um vídeo útil.
Ele falava sobre fome emocional. Parei. Prestei atenção. Pela
primeira vez em semanas, não deslizei o dedo para cima.
A fome física é
simples: o estômago ronca, o corpo pede energia, qualquer comida resolve. Já a
fome emocional é exigente e insistente. Ela não quer arroz; quer consolo. Não
quer pão; quer presença. É a tentativa de mastigar a solidão, de engolir o
silêncio da casa, de preencher com comida aquilo que é ausência de afeto.
A psicóloga Susan
Albers, especialista em alimentação consciente, explica que muitas vezes
comemos para regular emoções difíceis — ansiedade, tristeza, tédio. A comida se
torna anestesia rápida e socialmente aceita. E, se o celular distrai da
solidão, a comida distrai do vazio que o celular não conseguiu tapar.
Percebi então que
estava duplamente dependente: da tela e da mastigação. Uma para ocupar os
olhos; a outra, para ocupar o peito.
A teoria da regulação
emocional sugere que, quando não aprendemos a lidar diretamente com
sentimentos desconfortáveis, buscamos estratégias externas para modulá-los —
comer, rolar a tela, comprar, trabalhar em excesso. Não porque somos fracos,
mas porque somos humanos e desejamos aliviar a dor. O problema é que esses
alívios são temporários e, muitas vezes, ampliam o desconforto depois.
Hoje tenho dois
desafios concretos: libertar-me da dependência do celular e aprender a comer
nas horas certas, em quantidade suficiente, ignorando essa vontade contínua de
estar sempre mastigando algo. É quase como reaprender a habitar o próprio corpo
— sem distrações, sem petiscos emocionais.
A psicologia
comportamental sugere estratégias práticas:
·
Estabelecer
limites ambientais (não levar o
celular para a cama; definir horários específicos para uso).
·
Substituir
o hábito, não apenas suprimi-lo
(trocar vídeos por leitura breve; trocar beliscos por um chá e alguns minutos
de respiração consciente).
·
Praticar
alimentação consciente:
perguntar antes de comer — “Estou com fome física ou emocional?”
·
Criar
rituais de conexão real: uma
ligação para alguém querido, uma caminhada ao ar livre, escrever o que se
sente.
Pequenas mudanças
repetidas constroem novas rotas neurais. O cérebro aprende — inclusive a se
libertar.
Caro leitor,
escrevo não como quem ensina, mas como quem confessa. Descobri que minha fome
não era apenas de comida nem apenas de vídeos. Era de presença. De sentido. De
pausa.
Talvez a
verdadeira libertação não esteja em abandonar o celular ou fechar a geladeira,
mas em encarar, sem anestesia, aquilo que dói quando o silêncio chega.
Se houver um
ensinamento nisso tudo, talvez seja este: nem toda fome se resolve com comida,
e nem todo vazio se preenche com movimento de dedo. Algumas carências pedem
coragem — e isso, infelizmente, não vem em vídeos de trinta segundos.
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