sábado, 24 de janeiro de 2026

À margem do Corrégo

 

Hoje o céu amanheceu fechado, desses que parecem economizar luz. À margem do córrego, quase despercebida por quem passa apressado, a flor Asclepias curassavica ( se impôs com cores que não combinam com dias nublados. Vermelho aceso, amarelo insolente. Como se ignorasse o humor do tempo.

Disseram-me depois que ela é tóxica. Mata-rato. O nome popular carrega uma sentença. No caule, quando ferido, escorre um leite branco — defesa química, estratégia antiga. Não é agressiva; é precavida. A toxicidade não está ali para matar por prazer, mas para garantir sobrevivência.

Curioso é que algumas borboletas se alimentam justamente dessa flor. Absorvem o veneno e o transformam em armadura. Tornam-se amargas ao paladar dos predadores. Vivem porque aprenderam a usar o perigo como proteção. Aquilo que mata uns, salva outros.

Fiquei pensando que o amor se parece com isso.

Há amores que curam, sustentam, dão cor a dias cinzentos. Há outros que intoxicam, corroem, adoecem devagar. O mesmo sentimento, duas consequências. O que muda não é o amor em si, mas como ele é oferecido, recebido e metabolizado.

Amar exige defesa. Sem limites, o amor vira excesso; sem cuidado, vira veneno. Mas quando assimilado com consciência, pode fortalecer, tornar mais resistente, menos vulnerável aos ataques do mundo.

A flor segue ali, à beira do córrego, ensinando sem discurso. Não pede que a toquem. Apenas floresce. E talvez o maior aprendizado seja esse:
nem todo amor precisa ser acessível,
nem toda entrega é saudável,
nem toda doçura é segura.

Algumas coisas existem para lembrar que viver é, antes de tudo, saber até onde se pode chegar.


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