A frase
está anotada, não em papel — papel exige gesto — mas na cabeça. E gesto é coisa
rara. Repito como quem reza sem fé, esperando que a repetição se torne
movimento. Mas ela volta, intacta, como se tivesse medo de descer para o corpo.
Aprendi
cedo a ser discreta. A invisibilidade é uma arte que se pratica com rigor: não
incomodar, não ocupar espaço demais, não pedir. É uma forma segura de continuar
viva. Só que continuar viva não é o mesmo que viver.
Na
pandemia, o mundo se recolheu. Eu também. Septuagenária, fiquei um ano dentro
de casa. Nenhum irmão, nenhum sobrinho. Apenas o síndico e Dona Israélia, a
porteira, confirmavam que eu ainda existia. O silêncio foi tão absoluto que
parecia uma prova: não sou nada para ninguém.
Hoje, a
luta não é contra a falta de oportunidades. É contra elas. Elas me chamam e eu
recuso. O celular me anestesia por seis horas seguidas. A biblioteca está ao lado,
mas não entro. As aulas de ginástica são gratuitas, mas não vou. Tenho tempo,
internet, desejo antigo de aprender outro idioma — e não tenho gesto.
Critico
os outros porque o movimento deles me fere. Odeio gente mal arrumada, talvez
porque eu mesma saiba que abandono também é uma forma de desleixo, só que
invisível.
O corpo
melhorou um pouco com vitaminas. A alma, não. Porque o problema não está no
ferro. Está no vínculo.
E vínculo
não se compra em farmácia. Ele se constrói no olhar, no gesto mínimo, no
testemunho de que alguém nos vê. Talvez seja isso: ser vista. Nem que seja por
dez minutos na biblioteca, ou por três linhas escritas sobre o dia.
Não é
sobre vencer a apatia. É sobre não deixar que ela decida tudo sozinha.
E, apesar
de tudo, ainda estou aqui. Isso, por si só, já é uma forma de resistência.
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