Há naturezas que o
tempo não corrige — apenas ilumina com crueldade. São como pinturas antigas: à
distância parecem harmônicas, mas, quando a luz incide em ângulo mais severo,
revelam as fissuras, o escurecimento do verniz, as intenções tortas do pincel.
Nela, a idade não trouxe mudança, trouxe nitidez. Ouve com compostura, inclina
a cabeça em sinal de assentimento e, tão logo as vozes se dispersam, executa,
com diligência silenciosa, exatamente o contrário do que foi dito.
É uma arte social
de alto requinte. Não há portas batidas nem vozes exaltadas. Há apenas o gesto
mínimo, quase imperceptível, de empurrar o mundo alguns centímetros na direção
desejada — e, quando se dá conta, o chão já não coincide com a memória do passo
anterior.
Os fatos, esses
cronistas implacáveis, narraram melhor do que qualquer adjetivo o enredo que se
armava.
No episódio de
Tânia e Carmelita, havia um pacto. Singelo, quase doméstico: um arrendamento
simbólico, legado pela falecida, que não maculava o inventário, não criava
ônus, não acendia discórdias. Sustentava-se apenas na palavra — frágil como
tudo que é humano, mas íntegro como poucas coisas são. Bastou, porém, uma
canetada fora do combinado para que, onde antes havia acordo, surgisse um
peticionamento nos autos. Talvez legítimo, talvez eficaz — mas inegavelmente
dispensável. O que se podia evitar converteu-se em azedume, e o que era
convivência virou contenda.
Depois veio a
afronta mais dolorosa: o atropelo. Quando da morte da matriarca, fui eu quem os
procurou. Disse, com a voz ainda embargada pelo luto, que não seria necessário
advogado, que honraríamos o que fora pactuado. Era um gesto de fé num tempo em
que tudo era ruína e instabilidade. Mas a confiança, quando encontra silêncio
calculado, transmuta-se em ingenuidade — e a ingenuidade cobra juros altos.
Houve também o dia
em que declarei, com a sobriedade de quem deseja apenas conservar o que ainda
respira: “Não vamos mexer no que está dando certo.” Ainda assim, a conta foi
aberta. Ignorar uma voz é um ato sem ruído, mas não sem consequência: não deixa
marcas na superfície, porém cava rachaduras profundas na estrutura.
O episódio de
Petrônio e Dalila… esse prescinde de exegese. Há fatos que se explicam por si
mesmos, como portas que se fecham sem estardalhaço, mas com definitivo estalo
interior.
Você começa
dizendo: “Creio que você há de concordar…”. Mas nunca foi a concordância o
cerne da questão. O nó está na duplicidade: na concordância de fachada e na
decisão subterrânea. A organização é nossa, afirmamos. Quatro pessoas, dois
desígnios comuns: receber o que é de direito e manter distância de você. Um
paradoxo melancólico, porém honesto. Não articularei novos caminhos, pois
conheço o desfecho: o mesmo semblante de quem confiou e terminou com o olhar
oco de quem foi passado para trás.
Processos têm
ritos. Processos litigiosos têm feridas. Acatamos, contestamos, sempre sob
orientação jurídica, sempre buscando o mal menor para todos. Antes do despacho
do juiz e da manifestação da promotoria acerca do pedido de avaliação e venda do
imóvel, tudo é conjectura. E conjectura não paga boleto, não encerra herança,
não recompõe confiança dilapidada.
O concreto, agora,
é a regularização da fábrica. Isso precisa acontecer. É oneroso, é moroso, é
burocrático — e independe de opiniões ou humores. O certo não é o que se acha;
o certo é o que a lei determina. Quem define o rumo não é a vontade pessoal,
mas o advogado, o contador.
Hoje pedimos
apenas o que nos assiste por direito: conhecer a real situação do capital de
giro e do caixa da empresa. Não é provocação, é obrigação de quem administra e
prerrogativa de todos os sócios minoritários. Obstar isso é manufaturar
conflitos desnecessários. Não carecemos de mais um peticionamento para o que
deveria ser simples e transparente.
Se não atrapalhar,
já estará prestando grande auxílio.
Lidamos com uma
fábrica de muitos donos. Isso não comporta achismos nem jogos de força. Ou se
faz o correto, no tempo correto, ou todos pereceremos antes de alcançar o
desfecho — sem jamais usufruir do que ajudamos a erguer com trabalho árduo e
economia severa.
E há ainda os
detalhes, esses delatores sutis da desordem moral. Se deseja celeridade, averbe
o divórcio. No dia em que precisei de sua certidão, ela não estava atualizada.
Passou despercebido por se tratar da prefeitura. Mas nos autos, você figura
como divorciada. Até os papéis sentem quando algo está fora do lugar.
Ao fim, a maior
decepção não é o conflito. É a sua etiqueta. É a elegância com que se ignora o
outro. É a cortesia que mascara a decisão já tomada. É ouvir, concordar… e
seguir só, deixando atrás de si um rastro de gente que acreditou caminhar em
conjunto.
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