quinta-feira, 25 de junho de 2020

Diário do isolamento social - 100º dia

                               Nesta quinta-feira ensolarada e de temperatura amena estou completando exatamente cem dias de quarentena, e como todo sofrimento  traz um aprendizado, este valeu-me  para saber que eu estou sozinha e que a solidariedade humana não é muito persistente. Logo nos primeiros dias, recebi mensagens de algumas pessoas que  se dispuseram a ajudar-me com as compras, mas já  no final dos primeiros trintas dias nem sequer  enviavam mensagens  para saber como eu estava. Registro também que até as mensagens padronizadas e as terríveis figurinhas  cessaram com o decorrer dos dias. Nenhum vizinho tocou a campainha para saber como eu estou. Caí no esquecimento. Apenas a amiga, aquela que lhe enviei o doce de Araxá, MG, telefonou uma vez, pedindo noticias, mas como ela tem quase vinte anos a mais do que eu, nada pode fazer por mim, caso eu precise de ajuda. O calor de uma voz humana, mesmo  por telefone, já é um acalanto. Estou só! Tenho que enfrentar esta dura realidade de que não tenho amigos, apenas colegas de academia e demais atividades sociais. E parentes? Não fui agraciada com a dádiva de gerar uma  vida, o marido se foi a anos e agora amargo a solidão, consequência de não ter dado atenção necessária a minha família de origem, após o meu casamento e até o meu namorado afastou-se de mim. Doravante meu nome é solidão!
             E nestes cem dias de  isolamento social,  pude comprovar a teoria dos educadores financeiros que afirmam que o vazamento de dinheiro  acontece principalmente em coisas pequenas. Tive uma redução considerável nos  gastos mensais e devo manter este dinheiro em caixa porque já circulam noticias que as contas de luz e água estão sendo cobradas por média e não por consumo real e que após a quarentena, a correção será feita e  com certeza virá um valor bem acima  e também terei gastos com  cabeleireira  e manicura. Com um protocolo rigoroso, já ouvi notícias da reabertura de salão de beleza, bares e restaurantes. Os shoppings estão batalhando para que o horário de atendimento seja expandido de 4 horas para 6,  e de 20% para 30% de clientes circulando porque o total de faturamento está em apenas 15% o que não dá para cobrir os custos. Tempos difíceis!
            Em cem dias de reclusão, acompanhei a vida lá fora segundo o ponto de vista dos jornalistas que priorizam em noticiar as desgraças e  com esta atitude faz minar a esperança em dias melhores. A corrupção esteve em pauta, e não apenas dos políticos, mas também de pessoas comuns. Até o  momento, já foram apurados que oito milhões de brasileiros  usaram de má fé e conseguiram receber o auxílio emergencial, o qual não tinham direito. Sobre os governantes, não houve um dia sequer que não noticiou desviou de verbas, superfaturamentos, na compra de respiradores e medicamentos, e  principalmente, na construção de  hospitais de campanha, e que já estão falando em desmontá-los, o que não é prudente, porque estamos no  início do inverno, época em que aumentam as doenças respiratórias naturalmente, e com a chegada do coronavírus, é a combinação perfeita para conhecer São Pedro, bem antes do previsto. E  para completar este quadro tétrico, as ações contraditórias  no transporte público continuam. Acabei de ver na  televisão que o  a frota de ônibus de São Paulo foi reduzida em 9%. Recomenda-se evitar aglomerações  mas o trabalhador depende do transporte público. O discurso é um e a prática é outra!
            Durante os cem dias de quarentena, noticia-se todos os dias o aumento da violência doméstica e do crescente número de assaltos em residências e   no trânsito, sendo as principais vítimas, os motoristas. O impensável está acontecendo. Até a inocente e saudável brincadeira popular de empinar pipa está sendo usada para  cometer crimes. Em um ponto do Rodoanel, que não consegui identificar,  criminosos disfarçam de jovens soltando  pipa e quando  percebem   o momento propício, em bandos, cercam as vítimas e levam  todos os seus pertences e em muitas vezes até a vida.
            Nestes  cem  dias de isolamento social, acompanhei o sofrimento  dos povos indígenas, que enfrentam a mais de quinhentos anos, grileiros, mineradores,  madeireiros, incêndios criminosos e agora a Covid-19  e estão praticamente esquecidos pelo poder público. Bravos guerreiros  que lutam a  cinco séculos pelo direito de viver e manter as suas tradicionais milenares. Que Tupã olhe por eles!
            Em cem dias de isolamento social, pude observar o quanto é  grande  a distância entre a teoria e a prática. Fale-se constantemente em solidariedade, em união dos brasileiros, em poupar vidas  e  na prática, cria-se situações para aglomerações e não há uma  orientação a pedestres que circulam sem máscaras e em bandos. Fecha-se  áreas comuns em condomínio, parques e praias, tira-se da população a oportunidade de tomar sol e  melhorar a imunidade do corpo e aliviar o estresse e  reduz a frota de ônibus e  volta o rodízio de carro. Repete-se a exaustão  a recomendação do uso da máscara, lavar as mãos e do álcool gel, porém, milhões de brasileiros não dispõem de saneamento básico, água potável e vivem abaixo da linha pobreza. Nestas condições, terão eles meios para seguir este protocolo?
            Durante cem dias  de isolamento social, tenho acompanhado pela imprensa,  a politização da pandemia e com tristeza, percebo que a oposição brasileira, não está nem um pouco preocupada com os seus eleitores, mas sim, em derrubar o governo para  voltar ao poder e agir em benefício próprio.  E o mais preocupante são as notícias que circulam pelas redes sócias de que os protocolos de  tratamento da Covid-19 estão veiculados a ideologia política. Se isto for verdade, é assustador!
            Cem dias em isolamento social, acompanhando a vida pela janela e pela televisão, vejo que não houve uma  mudança para melhor  nos brasileiros, apenas  a intensificação de uma discurso humanitário e uma prática egoísta.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Diário do isolamento social- 99º dia

                        E viva São João Batista!   É o máximo que posso fazer porque estou em  isolamento social. É a primeira vez que não desfrutarei da alegria e singeleza dos festejos  juninos. Dos armários não sairá a tradicional  camisa de lã xadrez  e o já gasto chapéu de palha   que protegia a cabeça do sereno da madrugada  não apreciará o brilho das estrelas. Eram noites mágicas! E  nesta solidão, lembranças  de minha infância povoam a  cabeça  e  vejo as imagens dos tradicionais terços de São João, na casa dos avós. Para que todos pudessem comparecer, uns rezavam  pela manhã e os ao entardecer. A noite o brilho da fogueira era maior e recordo com saudade  quando as labaredas serpenteavam e  a meninada a observá-las fascinadas acreditavam ver imagens incríveis e se divertiam  enquanto esperavam  o melhor momento, quando enfim, pudessem saborear as deliciosas quitandas. Participávamos da reza porque éramos obrigados, mas  valia a pena  a espera porque findo o terço, após  cantoria  no  momento de levantar o mastro de São João, o sanfoneiro abria o fole, a poeira levantava  e a  anfitriã  e suas companheiras circulavam por entre os convidados com peneiras cheias de deliciosas quitandas sempre a falar sorridente  para pegar mais, insistindo muito o que gerava  um conflito interno  na garotada porque antigamente, antes de sair de casa, as mães tinham o cuidado de oferecer uma refeição aos pequenos e recomendá-los mil vezes que comessem pouco para que os vizinhos não pensassem   que  passavam fome em casa. E havia  fartura. Pé-de-moleque, bolo de milho,  de farinha de trigo, de mandioca, pão de queijo, milho assado na brasa, milho cozinho, pipoca, canjica e para adultos, quentão. E as crianças  que se contentassem com água, leite e  laranjada.  E o desfile de peneiras seguia até o  galo cantar e a fogueira apagar quando, na hora da partida, a anfitriã ainda dizia: coloca um pedaço no bolso para você comer quando chegar a casa.
             Que saudades  daqueles tempo em que tudo era  simples, alegre e afetuoso. Tudo era preparado com muito carinho. Uma semana antes, já começavam os preparativos das quitandas e dos enfeites típicos. O Mastro   com a imagem de São João era enfeito com primor. Havia abundâncias de bandeirinhas de papel de seda de todas as cores  distribuídas  no terreiro  e sempre um pouco afastadas de onde seria acesa a fogueira. As crianças participavam de tudo, desde recortar e colar bandeirinhas a montagem da fogueira, que por sinal, é bem demorada. E este  participar era  o sentimento de pertencimento a uma família, a uma comunidade que se articulava para rezar e  festejar o santo de sua devoção. Oração,  alimento, dança,e  bate papo, assim era o dia de São João Batista antigamente.
            E dizia a tradição que a noite de São João era a minha fria do ano. Hoje o clima mudou, aquela névoa matinal misturada à fumaça que vinha das últimas brasas das fogueiras e das bandeirantes úmidas pelo sereno da madrugada  é apenas uma  saudade   do  terço de São João dos tempos antigos e que eu fiz parte e hoje, sequer posso ir a uma quermesse na igreja porque elas estão fechadas para os fiéis. Até isso o coranavírus tirou de nós. Felizmente ainda existe  pessoas que mantém esta salutar  tradição de rezar em família e eu pude, pelo Facebook, acompanhar a reza do terço  e  fique com água na boca ao ver sobre a mesa, uma peneira repleta de saborosas quitandas caseiras.  Em plena quarentena quem eram os convidados? Apenas filhos, noras e netos. A fogueira outrora com cinco metros de altura, foi reduzida a cinquenta centímetros e  as labaredas vinham de uma vela em seu interior, o mastro de São João, que ficava exporto até o final do mês, reduzido ao cabo de uma vassoura em um canto da  sala. São outros tempos, porém, a essência do terço  de São João em família não se perdeu e aqueceu o meu coração solitário.

terça-feira, 23 de junho de 2020

Diário do isolamento social- 98º dia

                                           O sol brilha em um lindo céu azul e eu dentro de casa, criando coragem para ir ao mercado  para reabastecer os armários e a Prefeitura, pedir umas  informações para uma amiga que viajou às vésperas da quarentena e ainda não teve como retornar. Sair torna-se cada dia mais perigoso porque o número de desempregados cresce assustadoramente e a possibilidade de ser assalta cresce na mesma proporção e depois, tem ainda o terror da chegada, com todos os cuidados necessários, segundo a Vigilância da Saúde e que para nós, que brincávamos em ruas de terra, comíamos frutas do pé e dormíamos  no chão da varanda em dias quentes de verão é um verdadeiro suplício porque o nosso conceito de higiene é outro e como dizia nossas avós, muita higiene enfraquece o sistema imunológico, que não cria anticorpos de defesa.  Mas ter tido a benção de muitos anos de vida tem quer arcar com o seu ônus: a fragilidade em todos os sentidos!
            Tenho ciência que estou em uma situação privilegiada  porque recebo regularmente a pensão de meu falecido marido, que estou aparentemente segura em minha residência  que fica próximo a UPA, Posto de Saúde e Hospital, o oposto do sofrimento enfrentado pelos nossos irmãos indígenas, principalmente os que vivem nas periferias das cidades, esquecidos pelo Poder Público o que os deixa em situação de maior vulnerabilidade  a epidemias em função  de condições  sociais, econômicas  e de atendimento à saúde bem piores que os não indígenas. Entre os povos nativos, contabiliza-se oficialmente, 4.423 contaminados e 119  óbitos por Covid - 19 Aliado a exposição a pandemia e todo o tipo de preconceitos, neste final de semana, os  guaranis que habitam a região do Pico do Jaraguá tiveram que enfrentar um incêndio, provavelmente provocado pela queda de um balão, o que é muito comum nos meses de junho e julho e vale ressaltar que soltar balões é proibido, mas infelizmente, esta pratica continua  causando grandes prejuízos á natureza e a inocentes que nada tem a ver com a brincadeira. Os bombeiros demoraram  a atender a ocorrência, chegaram tarde e  partiram cedo, e munidos apenas com três facões e galhos de árvores, os bravos guerreiros guaranis , da aldeia Tekoa Itakupe, lutaram durante  mais de treze horas para conter as chamas que queimaram mais de 20 hectares de mata  e durante a batalha, estes heróis  tiveram mãos, rostos queimados e  arranhões e cortes  em seus corpos exaustos. Que Tupã protege os guaranis!
            E os  desmandos continuam. Já ando com medo até de olhar as mensagens de WhatsApp porque  quase todo dia  leio os avisos de parentes e amigos para não depositarem dinheiro em suas contas porque seus celulares foram clonados e  os meliantes estão pedindo depósitos. Meu primo, quando recebeu a mensagem do picareta esticou o papo se fez de sonso e disse que preferiria entregar em mãos o dinheiro, para que ele passasse  na Delegacia, no horário do plantão dele e eles aproveitariam para matar a saudade e depois desta resposta espirituosa, o papo foi encerrado e a visita nunca aconteceu. Assistir o noticiário então é capaz de arrepiar cabelos de carecas.  Cada dia um desmando pior que o outro, de pessoas indiferentes ao sofrimento das pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Além dos já tradicionais superfaturamento, há também os roubos de carga de insumos e de entrega errada de compras. Um hospital comprou uma carga de testes para Covid-19 e recebeu testes de gravidez. E para dar continuidade ao terror iniciado no final do verão, que perdurou por todo o outono e continua no inverno, especialistas não entram em um acordo quantos aos melhores tratamentos para a Covid-19 e se já passamos pelo pico da pandemia, se a curva  já está em declínio. Nada de concreto, apenas especulações que tem como consequências  a perda de credibilidade nas autoridades  e o relaxamento das medidas profiláticas por parte da população confusa, insegura e faminta.

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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Diário do isolamento social - 97º dia

                                  Assim que a quarentena foi anunciada, um misto  de medo e alegria apossou-se de mim. A possibilidade de dar uma pausa  no convívio exaustivo com  colegas  e estranhos em atividades  recreativas e culturais parecia ser  agradável e em anexo  vinha o medo do que estava por vir, a incerteza de quanto tempo teríamos que permanecer em isolamento e como  o país iria  conseguir alimentar seus filhos. Mas já estou em meu 97º dia de reclusão e  confesso que tenho feito malabarismo para encontrar formas de distração para fugir da realidade e já tentei varias coisas, a começar pelo diário, leitura, curso de inglês, séries na TV, limpeza de armários e gavetas, descansando de não fazer nada e torcendo pelo melhor para a nação.
            Evito sair e acompanho a vida lá fora pela janela e já ví muitas coisas: panelaços contra o presidente  e bem ruidosos por sinal e também presenciei discretas homenagens aos profissionais de saúde, que eram ovacionados  no início da  pandemia mas com o decorrer dos dias o seu valor já caiu no esquecimento. Também presenciei os primeiros ataques de limpeza e  acredite, homens limpando as janelas e dependurando roupas nos varais.  Uma raridade!  E  com tanto tempo ocioso, fico a observar os  pássaros que pousam nos fios elétricos  e  após tantos anos  residindo neste local, somente agora, consegui desfrutar da  magia  que é o canto dos pássaros e isso, graças  ao Coronavírus que parou o mundo e com menos carros na avenida outros sons  deliciam os meus ouvidos  torturados pelos escapamentos das motos e cantar de pneus.Também não passou despercebido, os carros que  estacionam no ponto de ônibus lá pelas 20 horas. Casa dia um e lá permanece por uns 40 minutos, parece que há uma escala. Fico intrigada! Será que são namorados aproveitando a falta de iluminação do local para trocar salivas? Vai saber!
            Em mais de  três meses de quarentena, devo ter saído  somente umas dez vezes e por extrema necessidade: supermercado e farmácia. Infelizmente terei que enfrentar  o medo e fazer uma visita ao dentista, estou sentindo que o meu implante está  frouxo e espero que precise apenas de ser apertado e que não tenha mais problemas, acho muito arriscado fazer tratamento odontológico em plena  pandemia; o dentista  usa máscara, luvas e touca, mas eu não  confio em 100% de proteção.
            Neste período  o contato que tive com as pessoas está reduzido  aos  atendentes  e caixas de mercado e farmácia. Quando saio á rua, vou de lenço, máscara e  ando em zig zag para  manter a distância recomendada  e por prudência, espero a hora da novela para colocar o lixo lá fora, assim evito o contato com  os vizinhos.  Gosto de  jogar conversa fora, mas no momento,   eu prefiro  manter monólogos comigo mesma a arriscar receber gotículas de salivas alheias  e tenho observado a vizinhança quando  vão varrer a calçada, passear com o cão  o fazem, na maioria das vezes, sem máscaras. Não nego que estou entediada. Tenho muito  trabalho a fazer, mas a procrastinação está mais forte  que o desejo de realizar com primor as atividades propostas.
            Já cansei das live motivacionais e dos conselhos de como aproveitar a quarenta e já executei quase todos. Já organizei armários e gavetas, lavei e passei toda a roupa, lavei os azulejos da cozinha e banheiro umas três vezes;  limpei e organizei todos os sapatos, descartei sacolas  e sacolas de tranqueiras acumuladas no decorrer dos anos.  Comecei a estudar inglês, assisti inúmeros filmes séries, vídeos inúteis, porém divertidos, como os do Guri de Uruguaiana e Chico da Tiana e o que há de melhor a fazer que é saborear receitas novas está difícil porque sempre falta  um ingrediente e no final, sempre acabo no trivial simples de todo o dia, arroz, feijão, ovo e salada de alface com tomate e sem a tradicional batata frita para não subir o colesterol. Sempre é alface porque é a verdura que está sempre fresca, no varejão ao lado e eles tem entrega em domicílio.  
            Os conselhos  que afirmam que é preciso ser produtivo  e  tirar o melhor de cada segundo do confinamento é uma utopia porque  quando o tédio bate, é difícil de lidar com ele e  a esta altura, encontrar um ombro amigo para  chorar as pitangas é impossível,  a nação inteira está no mesmo barco, o que varia é a intensidade do tédio. E a mais triste constatação:  “ não estudo porque não tenho tempo” é apenas desculpa.  Em confinamento tenho tempo de sobra e falta atitude.  Chego a pensar que a vida realmente acontece é fora do nosso lar, em um concerto musical,  na academia do clube, nos restaurantes e na interação com as pessoas. Sempre é bom voltar para casa e jogar-se displicentemente no sofá, mas estar em casa quase cem dias é realmente um pesadelo.
            Para aliviar o meu tédio, acho que vou protestar toda vez que eu ver uma publicação aconselhando a  movimentar-se pela casa, dançar com a vassoura e fazer abdominais, flexões, vou sentar e tomar um  suco e  se por azar, deparar com um vídeo de mulheres ensinando a organizar armários eu vou deixar meu corpo cansado cair lentamente no sofá e cochilar até o horário da  próxima refeição e quem sabe, esta atitude de rebeldia ajudará  disseminar o tédio. Sonho com o dia em que poderei voltar a minha antiga rotina  e inventar desculpas esfarrapadas para as amigas quando estiver sem dinheiro para sair e  ficar solitária no sofá esperando o dia do pagamento da pensão para enfim, voltar a circular pelos espaços de lazer.



domingo, 21 de junho de 2020

Diário do isolamento social-96º dia

                                  O inverno chegou com temperatura alta e baixa umidade do ar, mas este é o menor dos problemas.  Pelas noticias veiculadas não há esperança que a vida volte ao normal  nesta estação porque o Brasil que já contabilizava 29 milhões de profissionais  informais  com o alto número de falências terá este número aumentado e muito.  Outro triste número é o  de desempregados, mais de um milhão  durante o outono, e infelizmente, sem perspectiva de conseguirem  ocupação a curto e médio prazo. Ironicamente, no outono, estação da colheita e da fartura na natureza, os brasileiros colheram a miséria e o  desespero, consequentemente, violência e medo.
            Além do horizonte não há esperança a vista de que possamos caminhar livremente pelas ruas e nem entregar-se serenamente aos braços de Morfeu  porque cresce a cada dia o número de arrastões em condomínio e invasão de residências  e eles não  tem misericórdia.  Um casal de idosos, acima de oitenta anos de idade, moradores  de uma chácara,  teve  a  sua casa invadida  por um grupo de meliantes que sequer deixou um celular para que eles pudessem pedir ajuda após o furto. Lá ficaram  sem comunicação até que o filho, após estranhar o fato de eles não atenderem o celular, desconfiou e foi ver o que  havia acontecido.
            As confusões com as melhores medidas a serem tomadas continuam. Abrem-se shopping, mas os parques continuam fechados o que confunde as pessoas, ninguém mais sabe qual  é o ambiente mais propício a contaminação comunitária se  circular dentro de um ambiente fechado e com ar condicionado ou  caminhar livremente ao ar livre.  O Prefeito  entrevistas afirmando  que é necessário evitar aglomerações, porém,  retoma o rodízio de veículos o que automaticamente,  superlota o transporte público.
            Prefeito de São Paulo, Bruno Covas ameaçou  em público demitir o secretário   municipal de Mobilidade e Transportes, caso ele não conseguisse  com que os ônibus rodassem somente com passageiros sentados,  medida que gerou polêmica pela dificuldade de ser cumprida pelos motoristas e cobradores. Mas esta medida já foi revogada após duas semanas de implantação com alegação  baseada em uma consulta à Vigilância Sanitária que esclareceu que a posição em que o passageiro  viaja não é fator preponderante na transmissibilidade da doença.  Usar  máscara e álcool em gel,  é fácil para o  usuário, mas o distanciamento social, numa condução em horário de pico fica difícil. Circula pelas redes sociais mensagem de esclarecimentos que afirmam que o transporte  é o segundo local de maior contaminação comunitária. Afinal, quem está com a razão?
            Para completar o pânico  que já assola os  brasileiros com o  mínimo de discernimento, a imprensa ressuscitou a   terrível gripe espanhola que assolou o Brasil em 1918, durante a sua segunda onda, cujas orientações eram as mesmas: Distanciamento social e higiene. Bares, fábricas e teatros foram fechados, como agora.
Com a politização da pandemia e a disseminação de fake news, fica impossível saber o que de fato está acontecendo. Fale-se muito e esclarece  pouco.  Um grupo defende medicamento X, já grupo Y diz que X  é placebo e afirma que a solução é  o respirador. Aprece outra corrente que atesta com veemência  que a solução  chegará  com a vacina e ponto final.  E diante destas falácias eleitoreiras a  insegurança perdura na  população  que ainda nem sabe  se já atingimos o pico da pandemia e espera aflita  pela segunda onda, como na gripe espanhola, temendo sem o próximo a partir para a pátria celestial.

sábado, 20 de junho de 2020

Diário do isolamento social.- 95º dia

                                    Independente das mazelas  humanas  a natureza segue o seu ritmo e o inverno chegou e com ele a esperança de  que a curva do coronavírus achate e que a vida retome o seu curso antes da primavera. Não sei como será esta estação porque ainda estamos em quarentena, com abertura do comércio  e prestação de serviço  em horários diferenciados, e nestas condições,   imagino o fluxo das pessoas circulando pela cidade com cheiro de ano passado  de qualquer closet. Com a crise financeira que  o país inteiro enfrenta, poucos são aqueles que podem se dar ao luxo de  lavar as roupas de inverno e comprar novas é não é uma boa alternativa  porque  não houve lançamento de novas coleções.  
            É de uma beleza impar as manhãs com neblina serpenteando entre todos os espaços vagos  e destacando no  branco pontos coloridos formandos por gorros, cachecóis, casacos de lã coloridos e  charmosas botas de couro. É a estação da elegância!   Dos confins dos armários são desenterradas antigas agulhas, herança da avó e  da tríade formada por agulhas, novelos e mãos habilidosas nascem peças bonitas tricotadas com afeto durante o lento passar das horas dos curtos e frios dias do inverno.
            Inverno  é a estação propícia para cometer o pecado da gula. Ah! As quermesses! Como resistir aos caldos, quentão e o   fondue, marca registrada do inverno. É inadmissível deixar de lado as comidas gordurosas e deliciosas; quanto aos quilos a mais na balança, serão perdidos na primavera, em corridas pelos parques e  maçantes horas nas academias. Não há como negar que  nos dias frios no aconchego do lar,  dormir torna-se um prazer que vai além do  repouso necessário para a revitalização biológica do corpo. Dormir é tudo que me resta. Estamos no ápice da pandemia.
            Este inverno será diferente e como pertenço ao grupo de risco de contágio pelo coranavírus, mesmo com a abertura progressiva da economia, o bom senso recomenda que eu permaneça reclusa a reviver em minha memória a deliciosa sensação de sair de casa bem agasalhada e sentir o vento cortante, enquanto caminho rumo  a um festival de  inverno onde se pode ouvir uma boa música e ver gente bonita e elegante se acotovelando e se desculpando sem a menor preocupação com o terrível distanciamento social. Apreciar a beleza dos ipês que acalantam e trazem belezas aos olhos dos transeuntes apressados. Por estar privada parcialmente de minha liberdade de ir e vir  temo que a tristeza se apodere de meu coração.
             Gripe, resfriado, bronquite, rinite, sinusite e pneumonia são freqüentes no inverno e  somado a estas doenças, agora temos a Covid-19 que nos privou do melhor tratamento: o afago das pessoas queridas.  Esta será a estação da solidão  que perdurará até que um raio de sol  em forma  de vacina,  ilumine  e afaste o fantasma da morte que ronda os  lares dos  brasileiros.  Acolhi a palavra vacina como um mantra protetor e aceito a minha própria condição de vulnerabilidade. Não estou feliz nem triste, apenas  esperançosa com a possibilidade do fim da politização da pandemia e da criação de  um eficiente protocolo capaz de  salva a vida de todos pacientes.
            Que bom seria se aqueles que possuem o poder de decidir sobre as melhores ações a serem executadas para findar a pandemia,  rompessem definitivamente o ciclo de interesses próprios e políticos/partidários e decidem pelo bem da nação, pela cura. Dizem as pessoas que vivem no campo que  a missão do inverno é renovar   a esperança  e que ele  contém as sementes que germinarão da primavera e que florescera saúde e justiça social.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Diário do isolamento social - 94º

                                 Com os olhos da alma e do coração bem abertos, podemos compreender a simbologia da estação que se inicia após o verão e antes do  inverno e  tem como principal característica a redução da luz solar diária ao longo de sua duração, graças ao fenômeno denominado equinócio de outono, os dias tornam-se  menores  em relação as noites e as temperaturas são  amenas  e  há uma considerável  diminuição das chuvas e maior ocorrência de ventos e  nevoeiros. Nesta época do ano,   os frutos e as folhas desprendem dos galhos e as árvores se  preparam para o descanso durante o inverno para que possam renascer com todo o esplendor que lhe  é característico na  primavera, portanto,  o outono é a época do desprendimento.
            Desprendimento é uma tática eficaz de sobrevivência da natureza; ela sabe que  é preciso deixar o velho para  que o novo possa florescer. Este processo natural de desapego também é necessário na vida humana. Nossa existência é marcada por fases de transição: A gestação, infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice. Em seu tempo, todos  retornam ao ventre da  terra, a grande mãe,  e assim a vida vai seguindo os  seus ciclos, sempre a renovar-se, e durante estas fases de transição é natural que  homem vá deixando  para trás  não apenas o que  lhe é peculiar a cada faixa etária, mas também os objetos  que lhes eram úteis, porém, existem aqueles que recusam a abandoná-los  e  começar a acumular além das   inutilidades, mágoas, ressentimentos e também doces lembranças que  transbordam e não dão espaço para novas experiências  e aquisições.
            É comum, frente a  necessidade de mudança, algumas pessoas ficarem acuadas, principalmente quando a transformação exige que se abra mão de algo considerado uma  relíquia que parece ser  a parte mais enraizada de quem  se é, e esta postura impede de viver o novo e a  vida continua tediosa porque está estagnada.
            Nem tudo que é antigo pode ser descartado porque todos precisam de raízes firmes para avançar rumo ao futuro incerto, porém, faz-se necessário uma autoanálise   constante do ponto de partida, o que deve ser aprimorado ou descartado  e seguir o exemplo da natureza,  que perde a flor  para que  o fruto cresça, ela não carrega  peso de uma estação para outra e isto é inspirador.
            O mundo está em constante  evolução não somente em  descobertas de novas tecnologias, mas também de valores que regem novos comportamentos, e todos precisam adequar-se aos novos tempos para sobreviver e  será que algumas lembranças guardadas desde a infância não estão  impedindo-o de ajustar-se a nova era? Caso conclua que esta memória, companheira de tantos anos não está lhe ajudando a  trilhar o  seu novo caminho procure transforma-la  em algo positivo e desprenda-se  de dores passadas. Volte o seu olhar cansado para a natureza e veja que a transição é requisito obrigatório para a continuidade de vida. Imagine se as árvores se recusassem  a deixar cair suas folhas? Mas elas não fazem isto porque  estariam impedindo a sobrevivência  da essência que as mantêm vivas e assim continuam a renascer a cada estação. Que belo exemplo a seguir!
            Olhar atento as transformações do mundo e desprender-se de  tudo que puder, significa apenas a oportunidade de abraçar a possibilidade da mudança. Neste último dia do outono de 2020, a estação em que  o povo paulistano passou em isolamento social, é o momento propício  para o exercício do desprendimento e do desapego.  Abrir os armários e estantes  e desfazer-se de  tudo que não lhe serve que está ocupando espaço há anos é abrir espaço para as novidades  que  poderão chegar  no decorrer da próxima estação.
            O simbolismo do outono, a estação da transição, pode ajudar no processo de  desapego  e se desejar aprimorar-se mais, analise seus comportamentos e quais atitudes   inadequadas têm lhe acompanhado sem que você sequer tenha notado e decida por desprender-se de tudo que não achar necessário. Assim, quando   a pandemia tiver fechado o seu ciclo, retome a sua rotina com mais leveza e o coração pleno de esperança em dias melhores.  É hora do adeus ao  outono e  de  saudar a chegada do inverno e  abraçar as oportunidades infinitas de mudança, e seguir em frente,  levando na bagagem os novos hábitos  de higiene   adquiridos  em virtude da Covid-19 e seguir o exemplo da natureza que  o cerca.
Feliz inverno para todos e sem coronavírus!