Está chegando mais um domingo de eleição para
presidente da República. E, desta vez, vou votar.
Não porque ainda tenha aquela certeza antiga de
que, diante da urna, existe sempre um candidato capaz de representar nossas
esperanças. Essa certeza, confesso, anda meio desaparecida. Talvez tenha
envelhecido junto conosco, depois de tantas promessas, tantos discursos e
tantas vezes em que o futuro anunciado nunca chegou exatamente como nos foi
prometido.
Vou votar porque, mesmo sem a obrigação, ainda
acredito que não escolher também é uma escolha. E porque há coisas que já não
consigo olhar com a mesma indiferença.
Olho para a educação e me pergunto quanto tempo
levaremos para recuperar a qualidade que perdemos. Olho para a saúde e vejo
pessoas esperando por atendimento, enquanto o discurso oficial continua falando
em avanços. Olho para a violência, cada vez mais presente na conversa das
famílias, e sinto que vivemos em permanente estado de alerta.
Mas, quando penso no futuro, existe uma preocupação
que fala mais alto que todas as outras: a aposentadoria.
Quem já se aposentou sabe que tranquilidade não
significa necessariamente segurança. O benefício chega todos os meses, mas
junto com ele chegam também as contas, os medicamentos, o supermercado, a
preocupação com os reajustes e aquela pergunta que ninguém gosta de fazer: até
quando?
A conta da Previdência parece cada vez mais difícil
de entender. Há menos trabalhadores contribuindo formalmente, enquanto aumenta
a quantidade de pessoas que dependem da Previdência ou de programas de assistência.
E, quando se ouve a reclamação de empregadores de que há trabalhadores que
preferem permanecer na informalidade para não perder determinados benefícios, a
preocupação fica ainda maior.
Não sou especialista em Previdência. Sou apenas
alguém que olha para os números que aparecem nas notícias e tenta fazer uma
conta simples: se há menos gente contribuindo e cada vez mais gente precisando
receber, quem pagará essa conta amanhã?
É justamente aí que minha descrença nos candidatos
aumenta.
Na televisão, todos parecem ter uma solução. Nas
entrevistas, todos conhecem os problemas. Nos palanques, todos falam em futuro.
Mas, quando procuro alguém disposto a encarar de frente a difícil matemática da
Previdência, encontro mais silêncio do que respostas.
E existe uma ironia nisso tudo: o candidato que,
aos meus olhos, parece tocar justamente nessa ferida aparece pouco nas
pesquisas de intenção de voto. Os nomes que estão à frente, com possibilidade
de chegar ao segundo turno, são justamente os que me fazem pensar duas vezes
sobre o futuro de quem já trabalhou uma vida inteira.
Talvez seja essa a parte mais amarga de uma
eleição: chegar diante da urna não com entusiasmo, mas com responsabilidade.
A gente não escolhe apenas pensando no próximo ano.
Quem já se aposentou ou está perto disso pensa nos próximos dez, quinze, vinte
anos. Pensa se o dinheiro continuará pagando as contas. Pensa se haverá
médicos, remédios e atendimento. Pensa nos filhos e nos netos, que também
poderão depender um dia de um sistema que hoje já parece apertado demais.
No fundo, não estou procurando um salvador.
Estou procurando alguém que tenha coragem de dizer
a verdade, mesmo quando a verdade não rende aplausos.
Porque prometer é fácil.
Difícil é olhar para uma conta que não fecha e dizer,
com clareza, quem vai pagar a diferença.
E talvez seja justamente por isso que, neste
domingo, eu vá à urna não carregando esperança demais, mas carregando
perguntas.
Algumas eleições começam assim: não pela certeza de
quem escolher, mas pela certeza de que não podemos deixar de pensar no que está
em jogo.
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