segunda-feira, 23 de março de 2020

Diário do isolamento social - 6º dia

                         
            Estou assustada!  À tarde senti um cansaço inexplicado, tirei um cochilo e acordei  com um mal estar, parecido  com estado febril e já fique preocupada  com medo de estar com  Covide 19. Existe também a possibilidade de ser dengue, estou toda marcada com picada de pernilongo. Não sei mais o que fazer para dar sumiço em um que me atormenta desde que para cá mudei e ele não respeita incenso de citronela, inseticida, alfazema, ventilador, repelente. Tenho tentado de tudo que a ciência e a sabedoria popular afirmam ser armas fatais contra o intruso,  mas nada o faz cair por terra. Dizem que  ele vive apenas trinta dias, mas o daqui já tem é três mil dias. Enfim, voltando a minha preocupação inicial, posso estar contaminada com  um ou outro mal, mas hoje não irei procurar ajuda médica, tenho medo de entrar ruim e sair pior, ou até nunca mais voltar.
            Mais uma vez farei uso da tradição, tomarei bastante água, tomarei um banho quente e na seqüência aquele chá de alho bem quente para  suar bastante. Sempre foi assim em minha família, qualquer sintoma de gripe, chá de alho e cama. Repouso é  o que tenho feito e hoje,  um funcionário do prédio interfonou  para transmitir um recado do Síndico, para avisar que quando precisar de alguma coisa, que ele providenciará, ou seja, até a chance de  sair para comprar alimento me foi tirada.  É uma atitude de cuidado  com os idosos e sei que tenho a agradecer, mas a rebeldia de adolescência já está gritando dentro de mim  e eu preciso controlá-la para o meu bem e dos vizinhos. O que tenho em casa espero que dê até sábado, quando acontece a feira do bairro e com humildade e gratidão  irei pedir ajuda  e preservar a minha vida. Ser idosa é bom, pena  que temos que lidar com a fragilidade do corpo.
            São 20h00 min, um início de noite fresco, apenas 28º graus e umidade do ar 57%. Ainda não choveu, mas por precaução irei fechar todas as janelas para evitar corrente de ar, estou confiante que o chá de alho irá  vencer vírus e bactérias que tentam adentrar em meu corpo cansado de não fazer nada, apesar deste mal estar, tentarei ler mais um capítulo do livro e quem sabe eu consiga entender o que é cibernética.
23 de março de 2020- Pátria Amada, Brasil

domingo, 22 de março de 2020

Diário do isolamento social – 5º dia

                                   
            
         São 18 h e 11 min. Um vento  fresco  deixa  suportável a  temperatura  no interior da minha  residência, não sendo necessário ligar o ventilador  para  suavizar os 29º graus  e a umidade relativa do ar de 59%, o que deixou a minha respiração difícil, mas estou tranquila,  acredito não estar com o vírus covide 19, o mal estar é consequências das atividades realizadas hoje. Para quem está em confinamento, um dia segue o outro e não se faz distinção dos dias da semana e o serviço doméstico vai sendo executado de acordo com a disposição, tanto faz se é quarta-feira ou domingo.  Hoje acordei com o intuído de  vencer a preguiça e até que consegui, lavei a roupa de cama, limpei   e  organizei as gavetas da cômoda e do guarda-roupa e   varri a casa, não consegui  passar pano, estava muito cansada. Bem diz o ditado popular que  a ociosidade é  mãe de todos os males, uns dias sem caminhar e ir à academia e já   fico exausta com tudo, um cansaço físico e mental que não  justifica-se,  um marasmo sem limite, preciso lutar  e movimentar do banheiro para os quartos, dos quartos para a sacada, da sacada para a cozinha e da cozinha para a área de serviço, e agarrar-me com o que está a minha disposição,  o rodo, a vassoura, o balde, o tanque e a pia. Preciso movimentar, senão terminarei  esta quarentena,  com uma depressão profunda que poderá levar-me a morte por inanição. Agradeço a Deus por ter conseguido executar estas pequenas tarefas e amanhã  farei mais, dizem que arrumar as gavetas faz com que arrumemos também o nosso interior,  verdade ou mentira, não sei dizer, mas estou me sentindo bem melhor.
            Encontrei na internet um vídeo de uma  linda canção indígena de cura, estou ouvindo enquanto escrevo, com fé nos meus ancestrais, passarei ilesa por  esta  pandemia. O céu está lindo!  O dia está despedindo-se com  um lindo laranja, prenúncio de um amanhecer ensolarado o que é muito bom, não somente pela alegria que o sol transmite,  mas, principalmente porque o covide 19 não  é muito resistente ao calor oriundo do astro rei, assim diz os especuladores de plantão.
            O efeito colateral da quarentena é o estresse oriundo do excesso de tempo para prestar atenção em tudo o que acontece no prédio, a música irritante de um morador, as conversas vias interfones entre vizinhos, o barulho  das maquinas de lavar, de liquidificador e  gritaria  das mães com as pobres e indefesas crianças, confinadas nos aptos,  sem poder usufruir das áreas comuns. O crepúsculo de outono convida para um passeio, mas não posso sair, a programação da  televisão aberta é  cansativa, vou providenciar uma salada, um banho e um chá calmante e tentarei dormir e espero de coração que a moda dos panelaços não chegue ao meu bairro.

sábado, 21 de março de 2020

Diário do isolamento social 4º dia

               
                       São 21h  34min , a noite está mais fresca, 28º graus e a umidade do ar 67%. No decorrer do dia, choveu esporadicamente, chuva leve e fina e  o dia findou com um belo crepúsculo que pôde ser apreciado somente pela janela. Hoje acordei  mais tarde e cansada porque dormi poucas horas, após o post de ontem,  sem sono e angustiada assisti, pela internet, a novela: As aventuras de Poliana. A que ponto que chega uma idosa enclausurada, perder horas de sono com uma trama infantil, inspirada num grande clássico da literatura universal. Apesar de a novela ser bem moderna eu gostei, artistas bonitos, papo jovial  e fez-me recordar dos meus tempos de estudantes, quando a realidade era bem diferente.
            Após  o café da manhã,  lí  mais um capítulo do livro e continuei sem entender nada. Sem  poder sair de casa, os dias são longos e tristes, e para alegrar o meu  sábado sem pastel da feira, vasculhei  o armário da cozinha e encontrei um pote de pequí em conserva, mas faltou o arroz arbóreo para preparar um delicioso risoto,  assim, fui obrigada a improvisar a receita com  o que tinha,  não o ideal, porém, ficou saboroso. Enquanto  lavava a louça, ouvia o pronunciamento do  governador  Dória, que decretou  quarentena de 24 de março   acho que 07 de abril de 2020.  Por ser do grupo  mais vulnerável, já estou  no quarto de isolamento  social por orientação dos profissionais de saúde, agora, do determinação do governo. Ainda tenho  mantimentos para uma semana,  e estou bastante receosa de  sair às ruas porque o comércio que não pertence ao gênero alimentício está  fechado e são dois quilômetros  para andar sozinha de minha casa até ao supermercado mais próximo e ficar só no ponto de ônibus  é tão perigoso quanto andar solitária  pelas avenidas.  Convidar  uma vizinha para ir junto não é uma boa opção porque a distância  que temos de ter de uma pessoa da outra   é de dois metros e é difícil fazer uma idosa  recém saída da prisão entender isto. Chamar motorista de aplicativo  encarece a compra.
            Estou com medo  de ser contaminada e perecer à míngua em um leito de hospital a espera de respirador,  do sofrimento característico de  toda doença,   da solidão de morrer sozinha  ou de ficar jogada em uma cama, queimando em febre, sem uma pessoa para colocar uma compressa de água fria na testa  para abaixar a temperatura do corpo. Já estou saturada de  mensagens de whatsApp, meus olhos estão  das letras pequenas dos livros e da luminosidade da tela do computador.  Estou cansada de ficar presa em meu próprio lar. Durante minha vida laboral, trabalhei muito e tudo que eu mais almejava era ter tempo para ficar em casa, agora que tenho todo o tempo para  curtir o meu lar, eu quero sair, nem que seja para dar uma volta no quarteirão.  Tenho muitas tarefas a  fazer como  limpar o guarda – roupa, o outono chegou e com ele o companheiro inseparável: o mofo. Quero  atacá-lo,antes que ele invada todas as gavetas, não posso  lavar semanalmente  todas as roupas da casa porque  preciso economizar o sabão em pó que tenho em  estoque. É prudente permanecer no recinto sagrado do lar até segunda ordem. Deus, dê-me forças para suportar o cativeiro e determinação para realizar as tarefas domésticas.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Diário do isolamento social – 3º dia

                     
            
             São  21h30min, quinta –feira, 20  de março de 2020, temperatura marca 29º. O outono chegou com uma chuva fina, silenciosa e esporádica  o que facilitou bastante porque tive que ir ao centro pegar um  documento no cartório, uma pequena gentileza para um amigo que não pôde fazê-lo porque mora em outro município e a rodoviária está fechada. Apesar de ter ônibus circulando, eu preferi solicitar um motorista de  99, que é mais barato que o Uber; portando documentos originais,  fiquei receosa, não somente com  o risco de contagio pela proximidade das pessoas  dentro de um transporte público,  mas principalmente dos fugitivos da  prisão, que devem estar ávidos para  limpar os  idosos que estão nas ruas. Por mais inexperiente que seja o ladrão, ele sabe que em situação de  pandemia,   os aposentados que estão nas ruas não é para desfilar pés-de-galinha, rugas, manchas sênior,  varizes, estrias e celulites, mas porque têm algo importante a fazer e podem estar portando dinheiro ou alguma outra coisa de valor.
            Durante o trajeto, observei quão vazia está a cidade,  muitas lojas com suas portas fechadas e  dos poucos transeuntes, a metade apresenta atitude suspeita. Agradeci a Deus ter retornado ao meu lar, com a missão  cumprida e sem passar por nenhum dissabor.  Cheguei  cansada, sem disposição para as tarefas de rotina, para estudar o meu inglês; tentei ler o livro de Norbert Wiener “ Cibernética  e Sociedade – o uso humano de seres humanos, edição antiga, de 1954. Não  consegui concentrar  na leitura porque não  estou entendendo nada, sequer consegui  decifrar o que é cibernética. Sempre há campanhas incentivando a leitura, falando de sua importância para o desenvolvimento do cidadão e eu fico a pensar: por que não dá certo comigo? Sempre lí, desde a infância, mas não consigo  discutir sobre o tema lido, lembrar   o conteúdo, às vezes eu tenho a sensação que  minha leitura é mecânica, que apenas pronuncio palavras, assim como um papagaio, que fala sem saber o que está dizendo. Além de  minha dificuldade de concentração, por três vezes tive que  deixar o texto de lado para  atender o interfone.  Uma grande perda de tempo, sempre a mesma vizinha,  pedindo algum favor e querendo tirar dúvida sobre as face news do whatsApp.
            Para descansar a cabeça, ligo televisão e  sempre as mesma noticias, já repetidas a exaustão, com o intuito de esclarecer a população. A novidade foi que não haverá atividades de  Semana Santa, que até pela internet, estão vendendo álcool gel falsificado, uma receita de fundo de quintal-  gel  para os cabelos, misturados com álcool, o mais barato, com 30 º. -  As pessoas, na ânsia de  levar vantagem em tudo, sequer  prestam atenção  se  há rotulo na embalagem.  A única noticia que valeu a pena foi a que  as redes de farmácia e supermercados venderão álcool gel a preço  de custo. Assim findou o tedioso terceiro dia de cativeiro.

Deixe o seu comentário falando de sua rotina durante  o isolamento.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Diário do isolamento Covide 19 - 2º dia

                               
São 21h e 30 min do dia 19 de março de 2020, para os católicos, o dia de São José, mas eu  não fui a missa porque simplesmente não houve celebração, todas as igrejas estão fechadas,  mesmo antes da determinação do prefeito. O dia amanheceu nublado, pela tarde ameaçou chover, ouviu-se até uns trovões distantes, mas a tradicional enchente de São José, fechando o verão não aconteceu, pelo menos, aqui em minha cidade que está muito quente, precisando água  celestial para refrescar, o termômetro está marcando 31º, mas, a sensação térmica está bem acima, a umidade do ar, 79%.
            Hoje levantei com mais disposição, treinei duas páginas de conversação, em meu livro de inglês para viagens, almocei,  lavei  a louça e quando ia descansar um pouco, o interfone tocou, era uma vizinha idosa e promíscua, solicitando  que eu fosse à sua residência ajudá-la com uns telefonemas, o que deixou-me apreensiva porque limpeza, não é o forte dela e nós duas somos pessoas vulneráveis, quanto mais higiene, menos chance de contrair o vírus.  Envelhecer sozinha é muito difícil e não se pode dar ao luxo de negar auxílio, porque  na fragilidade da velhice, um dia você estende a mão e no outro você segura a mão de alguém. Tão logo  desvincilhei – me dela,  higienizei as mão fui ao mercado. O  sol ardia que nem  fogueira de São João Batista e  abri a sombrinha, pelo caminho, encontrei pessoas com máscaras, dentro do mercado também. Comprei o  que precisava e voltei  correndo para casa. Ao guardar as compras, uma grande preocupação: o álcool vendido no mercado é de 30º  e as autoridades orientam  para usar o de 70º, isto é grave, não se encontra o produto eficaz e usei o que consegui para limpar os produtos e fique a divagar sobre as embalagens,  passam por tantas mãos antes de  chegar ao  destino final. Que risco o consumidor está  correndo? Tudo pronto, agradeço a Deus que consegui  vencer  a procrastinação e varri a casa,  mas não tive disposição para passar o pano e limpar os móveis, amanhã farei isto. Depois sai para  caminhar com a vizinha  e fomos extremamente criticadas pelos funcionários do prédio e transeuntes. Duas idosas na rua.
            Ao retornar ao lar, fui  ver as mensagens  do WathsApp e  fique assustada com as medidas tomadas pelos  prefeitos da região, enérgicas, porém necessárias: Shopping,  academias, rodoviárias, e acesso à cidade  controlado. Supermercados e farmácias  abertos, porém, com controle de entrada de clientes entre outras.  A nós, pobre munícipes, cabe cumprí-las ou  uma morte lenta e dolorosa porque o sistema de saúde já está  lotado. Felizmente tenho comida para uma semana, agora é vencer a preguiça, limpar armários, arrumar gavetas, ler bons livros e rezar para acalmar o coração.


quarta-feira, 18 de março de 2020

Diário de meu isolamento domiciliar – Covide 19

                       



            Diário  de meu isolamento domiciliar – Covide 19
            Agora são  18 horas  do dia 18 de março de 2020, final de verão.  O termômetro marca 31º e a umidade relativa de ar, 71%, mas a sensação térmica é bem menos, já que não estou transpirando como um  funcionário da Prefeitura, consertando os intermináveis buracos no asfalto da cidade, e nem como um soldado do Corpo de Bombeiros, apagando  incêndio de grande proporções. Por que decidi  escrever este diário? Para passar o tempo e também, para o caso de um lapso de memória, eu ter a certeza de que a Pandemia do Coronavírus existiu mesmo. Hoje eu tive  ciência da gravidade da situação pela qual o país e o mundo estão passando. Como eu cheguei  a esta conclusão? Não apenas pelo noticiário, mas, principalmente pela experiência   vivida quando eu saí para resolver os problemas característicos de toda dona de casa.
            Ás noves horas, fui ao consultório do meu dentista, e  para minha surpresa, a sala de espera estava vazia e eu fui atendida  no horário marcado. Faz mais de dez anos que sou paciente do Dr Joselito  e sempre suportei em média um atraso de trinta  minutos. Já fique apreensiva!
            Como o Banco fica em  meu trajeto, resolvi aproveitar para  pagar a conta de água e sacar algum dinheiro e fazer a  tão famosa prova de vida, a que todo aposentado é submetido, embora eu ache desnecessário, já que  o caixa eletrônico  é digitalizado e o dedo indicador é fundamental para  que eu possa efetuar qualquer transação,  e surpresa!  Havia apenas eu na agência. Fique bem preocupada!
            Aproveitando que já estava na rua, fui  fazer a renovação do meu cartão de idosa e   encontrei as atendentes em altos papos  porque não havia ninguém na fila,  mesmo assim, decidi ir a Prefeitura  para verificar  uma  pendência  no IPTU de minha residência, lá também, não havia ninguém a minha frente, pude até escolher a recepcionista  para pedir a  informação que  precisava.
            Resolvida às pendências, retornei ao meu lar e ao adentrá-lo, ligo a televisão e as noticias são ainda mais preocupantes, discute-se a possibilidade do Brasil decretar estado de calamidade pública. Não sei o que significa isto, quais as consequências  para as pessoas pobres como eu, mas tenho certeza que é algo muito sério, a situação é de fato muito grave e que eu faço parte das pessoas mais vulneráveis porque já  sou uma idosa e, com  dois agravantes: Sou  sozinha e dependo do SUS para qualquer tratamento. Com  receio de precisar de atendimento público para cuidar de minha saúde em tempos de crise, fui até o Posto de Saúde com o intuito de pedir uma receita de  vitaminas par fortalecer o meu sistema imunológico, mas não fui atendida, sequer pude entrar. A atendente informou que consultas de rotinas estão canceladas, somente estão atendendo  os casos suspeitos de   Covide 19.
            Diante desta triste constatação, decide que dos males, o menor, seguir rigorosamente as orientações do Governo e  que recolher-me voluntariamente ao isolamento domiciliar  é a melhor opção, mas não está sendo fácil. Um desânimo repentino abateu-se sobre mim. Não consegui cuidar dos afazeres domésticos, tentei  falar via whatsApp com  duas amigas  e o papo girou em torno da pandemia     o que deixou-me bem mais deprimida e para completar o quadro, chegou mensagem das instituição  que promovem eventos para a terceira idade, avisando que todas as atividades estão suspensas temporariamente, provavelmente por três meses, até  que se consiga conter o avanço do vírus. Neste período de quarentena, quero reler os livros que estão empoeirando na estante, aprender inglês para viagem, tenho todo o material guardado na  embalagem que chegou  e também, estudar matemática para exercitar o cérebro e, principalmente, vencer esta tristeza, este vazio que   invadiu  o meu coração. Sair? Somente ao supermercado para comprar  alimentos essenciais. Feira livre,  rodízio de pizza, bingo, atividades na igreja, nem pensar, Deus ajuda a quem se ajuda e eu tenho que aceitar a fragilidade  inerente à minha idade. Sou uma idosa, não importa quão jovem seja a minha mente e meus sonhos; o meu corpo  envelheceu e não há nada que  possa mudar isto.

Com está sendo o seu isolamento domicilar?
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segunda-feira, 16 de março de 2020

Inferno astral

                 
            Ouço sempre, mas não sei exatamente do que se trata este tal de “Inferno astral” . Se isto é uma ciência, ou apenas uma invenção popular, para designar o mês anterior ao aniversário natalício, quando  o estado emocional do felizardo não é dos melhores porque, acredito eu, que são oriundos das reflexões  sobre mais um ano  perdido  no quesito sonhos a realizar, oportunidades perdidas, alto custo financeiro das comemorações e demais preocupações inerentes a esta data, porém, o meu caso, neste ano de 2020 foi diferente, coisas terríveis aconteceram, coincidência  ou não, exatamente um mês antes da data exata  em que vim ao mundo pelas mãos   firmes do DR Hélio.           
            Exatamente em 15 de fevereiro, um problema de saúde deixou –me internada cinco dias na área do SUS, em um hospital, sem a presença de familiares  ou amigos para apoiar  naquele  momento difícil que teve continuidade em  casa, após a alta médica. Tão logo tive condições de sair às compras, iniciei a difícil jornada de fazer  supermercado tendo como  meio de transporte uma bicicleta velha. Comprei tudo que o meu dinheiro permitiu para fazer uma pequena comemoração em casa com alguns amigos, gastei mais do que podia, além de estourar o cartão, o corpo também sofreu com o peso das compras e o esforço para pedalar. O momento mais importante o  de enviar o convite, já veio a primeira decepção, das dez pessoas convidadas, apenas uma compareceu, as restantes, desmarcaram  na última hora, para ser exata, 4 horas antes do almço, quanto  a  geladeira e armário já estavam abarrotados de produtos,   a carne assando no forno e a alface toda lava, assim, fez-se necessário  efetuar  chamadas telefônicas logo pela manhã na tentativa de laçar alguém solitário para ajudar a compor a mesa. Optei por  convidar pessoas  que moram sozinhas e  distantes da família e também aqueles   com renda um pouco mais baixa que a minha e que jamais iriam perder a boca-livre e  deu certo, compareceram, cumpriram bem com a função de devorar  grande parte do banquete, evitando que  estragasse na geladeira.
            O fracasso de minha festa de aniversário  não foi apenas no quesito presente, que não ganhei nenhum, e nem tinha como porque foram convidados às 9 horas para um evento que ocorreria às 13 horas, mas  por saber que as pessoas não se importam comigo, que não querem celebrar comigo e não é por medo do Covide  19, porque o número de convidados estava de acordo com as orientações o Poder Publico que orienta eventos com poucas pessoas, assim, não tenho dúvida, o problema sou eu e esta constatação é a minha maior dor, e o pior, é que eu não sei  como tornar-me uma pessoa gostável, gostável e  pelo visto, esse tal de inferno astral perdurou até o meu aniversário natalício mas vou  lutar para fazê-lo desaparecer e dar continuidade à minha vida e buscar novas alegrias em outras querências  do meu amado Rio Grande do Sul.