quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Ostentação

                                 Ostentação é a palavra que define Bernardo. Ele tem por  premissa namorar  somente moça  pobre e simples da periferia, que não sonham com  uma vida glamourosa porque acreditam que sejam somente “coisas de novelas”, já que a  rotina de seus familiares sempre foi, é, e será trabalho. Esta escolha tem três razões  básicas:

I- Por ser avarento, ele a leva  somente a praça de alimentação de shopping, o que para ela já representa  um luxo;

II – Poder ostentar sem a menor possibilidade de  concorrência, a sua pseudofortuna, cultura acadêmica  e política;

III – Ostentar  o seu lado Don Juan.

          Casualmente, ao reencontrar  com uma ex-namorada ainda solteira, ele  foi tomado de uma euforia incontrolável e chegou a acreditar que ela não  havia se casado por amor  a ele. A jovem, sem entender o que de fato estava  acontecendo,  ouvia  em silêncio,  seus intermináveis disparates: “ Eu não consigo entender, após  uma ausência de mais de trinta anos, você ainda continua perdidamente apaixonada por mim, como na época em que nos relacionávamos, eu nunca lhe prometi nada, você criou a ilusão em sua cabeça.  Eu tenho uma curiosidade que me corroi a alma. Eu preciso saber o que acontece para que existam esses sentimentos profundos em face da minha pessoa. São centenas de milhares de mulheres,iguais a você, umas estudadas, ricas  herdeiras, preparadas, lidas, profissionais preparadas em suas áreas que recebem altos salários, com vida financeira tranqüila,saudáveis, inteligentes, cultas, artistas da classe média  para a altíssima, entestadas na minha pessoa. Se eu der trela,  precisarei de 24 horas diárias para responder todas as mensagens e telefonemas que recebo diariamente de mulheres que alegam amar-me com todas as suas forças. Eu preciso saber porque você não consegue me esquecer. É muito importante para mim.  Eu tenho interesse em  descobrir porque existe mulher que afirmar que eu nunca conseguir levá-la a plenitude, e mesmo assim, continua  me amando? E você, mais uma vez eu pergunto? Por que você não me esquece? Qual é o mistério?Diga-me, por favor, o que acontece, eu preciso saber. Onde quer que eu vá, sou sempre o recordista imbatível, de mulheres querendo  um relacionamento sério comigo. Por que? O que eu tenho ou deixo de ter, para atrair tantas  mulheres de diversas categorias interessadas em  mim. É dinheiro? São os bens de raiz? Possibilidade de viver melhor? De participar de viagens e festas? Eu não sou nenhum galã de cinema, não tenho nada de extraordinário e desperto tantas paixões,  como no seu caso, quando nos conhecemos, eu nada lhe disse sobre o meu patrimônio, não lhe contei 1% do que tenho e você tem esse amor todo, a minha disposição, sei que você é capaz de deixar tudo, família, trabalho,amigos, se eu lhe disser: - venha morar comigo.  Você mão esperaria receber o seu pagamento do mês, simplesmente pegaria as suas coisas e aceitaria no ato. Diga-me, por favor, porque eu desperto este tipo de sentimento, nas mulheres? Tão logo o  suposto Don Juan deu uma pausa para respirar, a jovem  sorriu e com tranqüilidade respondeu: - Quanto aos sentimentos da outras mulheres, eu  não posso responder, mas eu  nunca lhe amei, saía com você apenas  para apreciar a boa gastronomia das praças de alimentação do  shopping, que naqueles idos tempos, estava  bem fora do meu orçamento, e se estou aqui, agora, com você, é por dois motivos: primeiro, sei que pagará a conta e segundo, provocar ciúmes  em  meu namorado, já que ele está nos vendo, ele é um dos seguranças  do shopping. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A estratégia do postal

                            Com  o déficit de homens no mercado, as mulheres  que anseiam por um companheiro precisam usar de inteligência e estratégias para afugentar  as rivais  sem que  o escolhido perceba as suas reais intenções. Assim como tantas, Rosalina precisou fazer  uso de algumas artimanhas já utilizadas  antigamente, pela matriarca da família, quando  o casamento era a melhor opção para  o sexo feminino. Quando ela conheceu Raul, ele lhe disse que estava separado, porém,  a  ex-esposa,  permanecia em sua casa de campo por duas razões: não tinha para onde ir e cuidava da propriedade, sendo desnecessário pagar um  administrador, o que era bom para ambos. Embora achasse suspeita a explicação, a jovem não contestou, aparentemente  esqueceu o assunto,  mas esperou o momento propício para sanar a dúvida.  Ás vésperas do dia dos namorados, enviou-lhe um  cartão postal, sem nada escrito, mas com marcas de beijos, feitas com o auxílio de um batom vermelho escuro.

          Após um dez dias da postagem,  ao abrir a sua caixa de e-mail, deparou com uma mensagem do namorado, que estava furioso, pois  aquela que ele dizia sua ex-esposa, fora à cidade fazer umas compras e aproveitou para pegar as correspondências no  Correio  e encontrou o cartão, o que a deixou transtornada e  ao gritos, dizia que o postal, embora não estive  assinado, era sim, dela. E continuou a desfilar seus impropérios, que Rosalina não deveria ter feito isto, porque aquele era o endereço de correspondência da casa de campo, que pertencia a outro municio, que  deveria ter enviado para o seu endereço residencial, e  também,  que não estava sabendo que era seu namorado. E ele tinha certeza, que Rosalina fizera aquilo para provocar a ex-esposa, e que nunca, nunca, nunca mais fizesse isso porque ele já  havia notado que a simples menção do nome de Rosalina altera o equilíbrio emocional dela e que apesar da separação, alguma coisa  relativamente ao psiquismo dela, a prende a ele, o ex-esposo. E para completar, ele alegou que não se sentiu nem um pouco lisonjeado com o recebimento do cartão, porque não aprecia este tipo de correspondência, sem remetente, e que caso o  postal fosse dela ( Rosalina) que lhe explicasse detalhadamente o motivo, já que ele não considera namorado dela. Que ele tem ciência de que muitas mulheres, inclusive ela, nutrem por ele, um amor incondicional,  outras que o odeia com todas as suas  forças e  também  há aquelas  que querem apenas  judiar dele, sem qualquer motivo para fazer isto e ainda há aquelas  que lutam por ele,   mesmo sabendo que  o tempo e a oportunidade  delas passou. Por exemplo, a este último grupo de mulheres, e são inúmeras, estão a Tânia, que ele nunca conheceu, apenas trocaram cartas calientes e faz 25 anos que ela não esquece um dia festivo e lhe envia cartão, agora somente virtual; no momento, com o coração e sentimentos queimados, em face de desavenças amorosas, que fiquem bem claro, que ele  não quer namoro sério, apenas aproveitar a vida de preferência em companhia feminina. Que ao seu lado quer apenas mulheres cultas, livres e situação financeira definida. Finda a leitura da mensagem, Rosalina, fez o que qualquer mulher inteligente e bem resolvida faria: Deletou-o de  sua vida, a estratégia dera certo, suspirou aliviada!

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Apenas um dica

             Mania de grandeza é uma das  particularidades dos novos ricos, principalmente quando eles são os  primeiros da família  a terem completado o curso de graduação e terem participado de vários cursos e palestras sobre empreendedorismo, turismo e tantos outros, mais por vaidade do que por interesse em conhecimento; quando alguém da família, que   não alcançou o patamar que eles se encontram, vai trabalhar em um evento beneficente, com a função de desejar boas – vindas aos convidados, e pede uma orientação   quanto a aparência,  já que recebeu apenas uma  única orientação: roupa preta, ,  é a oportunidade que eles almejavam para  ostentar o  conhecimento recém adquirido e não poupam  palavras em sua ladainha: “ Você  quer algumas dicas  mas não disse que tipo de evento será e qual função desempenhará, também não disse qual o tipo de traje ou modelo da toillet. É decotado? Sensual? Sexy, umbiguinho  e costas  de fora? Longo, longuete, curto? Irá usar meias pretas, nudes, cinzas, trabalhadas, rendadas, ou simplesmente de seda importada?  Usará sapato com salto alto, largo, salto fininho, aberto, fechado, com fivela, corretinha? E os brincos? Bijuterias, semijoias? Haverá lenços? Echarpes? Pulseira? Anéis  para dar um toque especial à vestimenta? E o colar? De pérola, ouro ou metal? E o tom do preto? Clássico ou funeral? Quanto ao cabelo, usará solto,  penteado sofisticado, longo, curo solto? É importante dizer o perfil do público. Homens de negócios? Apresentação de produtos para venda, palestrantes?  qual o tema?. Qual a  média de idade deles?  Qual o nível sócio econômico? Etnia? Formados em nível superior? Como você pode observar, tenho inúmeras dúvidas, que você sequer cogitou que poderia haver.Todos estes detalhes interferem no meu modo de avaliar e melhor poder orientá-la. Vocês ficarão somente na entrada, como recepcionistas do cerimonial ou terão dupla função, como por exemplo, após o evento, mostrar a cidade aos turistas? Serão apenas recepcionadas para a chegada e nada mais? Há de se pensar também na cor do batom, que orne com  o vestido e adereços. Quanto ao perfume, deve ser suave para não incomodar o convidado durante a assinatura da lista de presença.  Sem eu saber exatamente, tudo, tudo mesmo que irá usar, eu não posso  aventurar um palpite, tudo isto implica em uma  harmonia de cores, de destaques para que não afigurem a uma fantasia  carnavalesca ou aparentar uma sobriedade que não condiz com o evento.

          A respeito dos batons, há de se tomar muito cuidado, principalmente você, que não teve as mesmas oportunidades que eu, e consequentemente, é uma pessoa ingênua quanto as mensagens que o batom transmite. Tudo vai depender da tonalidade, indo do mais fraco ao mais forte e é bom que saiba que cada coisa, significa uma coisa, diferente da outra, deu para entender? O batom vermelho  forte, significa requinte, sensualidade, elegância e poder. Quanto aos tons beges, em mulheres de pele mais clara significa glamour. Preste bem atenção! O batom tem que ser escolhido tendo em vista a indumentária e os adereços e principalmente a personalidade da pessoa. Um vermelho forte em uma jovem tímida, simples, humilde e introvertida ficará ridículo, já em uma modelo de personalidade como a Xuxa, ficará perfeito porque a natureza dela já é desembaraçada, corajosa, tipo que marca presença com a sua personalidade forte e determinada. Portanto,  há de atentar-se a todos estes detalhes; normalmente, as recepcionistas, não sabem a real finalidade do evento, se este for o seu caso, é bom indagar   para não se expor ao ridículo  ou até mesmo ser confundida com uma recepcionista/ acompanhante de homens solitários.” Diante de tantas indagações, com certeza, a jovem preferiu  seguir apenas as orientações de sua chefe e discutir com as colegas a maquiagem  e os adornos, se elas podem simplificar tudo, porque procurar chifre em cabeça de cavalo?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Em confinamento

                                Eita final de ano solitário! A mídia fazendo terrorismo com a nova cepa do  coronavírus na Europa e ainda, em pleno verão, época do ataque anual do Aedes aegypti, popularmente conhecido como mosquito da dengue, ele está esquecido pelas autoridades e meios de comunicação de massa. Há quem pense que o coronavírus matou  o antigo forasteiro e apossou de suas  vítimas. A questão que está na boca do povo é: esse alarde todo é para preparar o povo para a vacinação em massa?  Profissionais conscientes e com foco na cura já perceberam que existe  medicamentos antigos capazes de  conter o avanço do vírus no  corpo humano, assim, a única saída  para os laboratórios ganharem rios de dinheiro é com a vacina, especula a população. Ninguém sabe a verdade e o que realmente está por trás desta pandemia, então, a única opção  para as pessoas do grupo de risco é ficarem em casa, feito homens das cavernas, apenas a desejar   a presença da pessoa amada ao seu lado, a fazer-lhe um cafuné enquanto esperaram o passar das horas, que estão cada dia mais lento, e quando as  doces lembranças se perdem no ar feito fumaça, o ciúme corrói o coração, ao pensar   na possibilidade da pessoa amada estar  aconchegada em outro ninho, o que pode ser perigoso. As doenças vêem para que a população entenda a importância da exclusividade, promiscuidade representa um perigo para a perpetuação da espécie.

            Durante o confinamento, quando o tédio dá uma trégua, o ser solitário, reflete sobre as injustiças  para com as  pessoas antes do convívio diário, agora separadas pela Covid-19 e  o solitário percebe o quanto foi injusto ao chamar o seu irmão de estranho. Sendo ele, a terceira geração de “ Manoel” com certeza, já deve ter assimilado a sabedoria dos ancestrais  e somada às vibrações do nome que vem  do hebraico – Immanuel: Deus conosco” e  no silêncio da caverna, onde está hibernado, conclui que o seu irmão é um homem sábio, que encontra sua força na solidão e no silêncio, e não há nada de estranho nele e que ele deve ter alma de cientista e talvez, as coisas corriqueiras do dia a dia sejam-lhe terrivelmente tediosas. Em vez de criticá-lo, o certo seria pedir  o seu parecer referente as decisões relacionadas ao patrimônio da família e sobre as mazelas da vida.  Além das reflexões, o isolamento social traz à tona os cheiros e sabores de outrora encontrados em viagens, como o Canastra, que é o orgulho do Centro Oeste Mineiro, produzido na região da Serra da Canastra, amarelo e de sabor forte, delicioso e único, cuja  forma de produção é tombada como patrimônio imaterial. Que venha logo esta vacina, senão muitos neurônios serão queimados de tanto pensar,  que por sinal,  é a única  opção daqueles que possuem comorbidades.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Pastor solitário

                          Era uma vez, um jovem triste e solitário que morava no alto da  colina e vivia com o seu olhar fixo no horizonte esperando o regresso  da jovem que o abandonara no findar da última primavera. Em seus pensamentos está a lembrança do dia em que se conheceram.  Foi um momento especial! Conversaram, trocaram carinhos, caminharam sorrindo e colhendo flores  silvestres, que ele fez uma  coroa de flores para embelezá-la ainda mais. Quando os últimos vestígios do dia  desapareceram na escuridão da noite, ela partiu sem  dizer o destino. Talvez ela tivesse uma família para cuidar, outras obrigações que embebida em tanta felicidade, não tivera tempo para lhe contar.

            Então, ele  regressou a sua cabana e deu continuidade a sua vida, agora, monótona e triste. Dormia e sonha com ela, durante o pastoreio das cabras, a lida com  as tarefas domésticas e nos cuidados com a propriedade, ela estava presente em seus pensamentos. Em suas orações, pedia ao Criador que  guiasse os passos delas em direção a  sua cabana, nos momentos de trabalhos exaustivos, com o suar a lhe escorrer pelas têmporas, deseja a presença dela para lhe oferecer um lenço. Na iminência do perigo durante o pastoreio, imaginava-a  auxiliando-o  na condução do rebanho para  a segurança no estábulo. Ele esperava e confiava que um dia iria revê-la. A vida seguia como tinha que seguir, enfrentando as agruras da vida e as intempéries do  tempo. Ele trabalhava e orava, tentava se divertir  nas festas da aldeia, mas a imagem  da jovem que  conquistara o seu coração mantinha-se firme.

             E os dias passam lentos e tristes. Era um dia  fresco de  primavera,  vez ou outra, uma cabra berrava quebrando o silêncio dos prados  e enquanto esperava o passar das horas, avistou um vulto distante, seu coração bateu mais forte,  era a silhueta dela, da mulher que  conquistara o seu coração e com medo de uma desilusão, preferiu acreditar que era uma miragem.  Sentou  nas raízes de uma  figueira, fechou os olhos e tentou tirar um cochilo, não queria se iludir.  Ele não sabe por quanto tempo permaneceu entre a vigília  e  sono. Despertou com uma  mão em seus ombros e o som de uma voz conhecida a sussurrar palavras doces em seus ouvidos. E, aquele dia, que parecia ser apenas mais um dia de pastoreio, transformou-se no dia mais lindo de sua vida, ela voltara para ele. O reencontro fora como ele sonhara: denso, lindo e apaixonado. Eles se amaram  tendo como testemunha a figueira.  E antes que ele pudesse  dizer à jovem, o quanto ela era importante para ele, ela se foi. Ele recolheu o  rebanho e  caminhou em direção à cabana, mas não era mais  o jovem triste e  solitário. Agora ele tinha um motivo para sonhar, viver e esperar a volta da mulher amada, porque ela vai voltar em todas as primaveras e viverão momentos efêmeros, porém  intensos, dizia si.

 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

O gavião

             Era uma vez um homem que não tinha um porte atlético, nem se enquadrava em nenhum padrão de beleza, porém, tinha algo que o fazia sentir-se seguro e prepotente: muito dinheiro na conta. Há muito tempo, quando saia de uma agência bancária, após uma produtiva reunião com o seu gerente, cruzou com uma  linda moça, que olhou para ele, rápido, o rapaz entabulou uma conversa e não foram necessário mais do que vinte segundos para ele perguntar se poderia acompanha-la até o serviço  dela, que ficava apenas três quadras do banco. Durante o percurso, conversaram como se fossem dois conhecidos e marcaram um encontro. Ele era rico,  estudado, viajado e ela, apenas uma recepcionista de uma pequena clínica odontológica. Ele não levou o namoro adiante, pelas diferenças sociais e culturais, e por desejar   para mãe de seu filhos,  uma mulher da mesma classe social, casou-se com uma rica herdeira, que lhe traiu, inclusive com os seus funcionário. Após a grande vergonha, a separação!

 O tempo passou. Ele manteve o mesmo patamar  financeiro e o belo par de chifres pesava em sua testa. Em sua solidão, ele se vê como um pássaro solitário, vivendo em uma caverna abandonada e imagina que a   linda jovem que ele desprezou por ser pobre, alça voo do seu ninho, em sua direção e fica a vagar sobre o que ela espera dele, agora um ancião carcomido, quase no final da linha, no declínio da vida e que o fica provocando, mesmo após o adeus. Tudo o que ele quer é ficar aconchegado em seu ninho de painas brancas, quentinho e confortável para esquecer as mazelas do mundo. Mas não consegue, é alta madrugada e o sono não chega. Ele tenta, mas não consegue afastar os pensamentos da  jovem. Em seus devaneios, imagina-a uma feiticeira,  alquimista medieval que o transformou em seu capacho e o ciúme corrói a sua alma ao imaginá-la  no aconchego do ninho de alguma gavião, ou que está em sua cabana, a revirar  o seu caldeirão de bruxa, fazendo uma traquinagem, para fazê-lo perder o sono.

            A dúvida atormenta a sua alma! Ele esquece que a rejeitou, e sofre com a falsa crença de que foi abandonado por ela, mas tem a firme convicção de que um dia, ela irá buscar  o aconchego de seu ninho. Hoje, ela está voando, voando, voando, de ninho em ninho,  mas pousará no seu e desta vez  não lhe escapará, como das outras vezes. -Linda como um colibri e todinha sua! Suspira  o gavião  em sua solidão. Ele, uma ave de rapina, espera uma colibri mestra para  ampliar os seus conhecimentos sobre a vida das flores. Ele deseja ser um aluno aprendiz, aquele que fica enamorado da professora, e não importa o tema da matéria lecionada, ele ouvirá histórias lindas, fábulas encantadas, ele, o gavião triste e solitário espera  aquela que não vai chegar

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Pàssaro solitário

                   

"As condições de um pássaro solitário são cinco:

Primeiro, que voe ao ponto mais alto;

Segundo, que não anseie por companhia, nem a da sua própria espécie;

Terceiro, que dirija o seu bico para os céus;

Quarto, que não tenha uma cor definida;

Quinto, que tenha um canto muito suave."

S. Juan de la Cruz, "Dichos de Luz y Amor"

          Para casais criativos e apaixonados, um simples poema, como o acima, desencadeia  momentos  de afeto e descontração, quando o varão do relacionamento  põe-se a  imaginar como sendo o último pássaro selvagem primata, remanescente de uma espécie  extinta a bilhões de anos, em busca de uma fêmea  para acasalar   e no fundo de uma caverna segura, criarem juntos, os filhotes que  perpetuarão a espécie, seu entusiasmo contagia a parceira. E o devaneio não para por aí, ficam horas a se imaginarem voando, ora  bem alto, acima das montanhas, outras vezes, em voos rasantes, com os pés a tocar a água salgada do mar e rejubilando-se por terem a graça de poder apreciar a  beleza da criação divina e depois, o retorno à caverna, onde dormirão felizes em um ninho macio.

          Mas os anos passam e a  implacável dureza  da vida  bate à porta de todos e os devaneios de outrora torna-se ao  reflexões profundas e dolorosas. As cinco condições de um pássaro solitário  doravante são as  tristes conclusões de um  idoso sobrevivente dos abismos da vida que aprendeu com  o pesos dos anos que  jamais, em tempo algum, confie em  ninguém, principalmente na pessoa amada, quando ela se mostra altamente eficiente, fazendo-se passar por perfeita, incapaz de errar, para o sábio, é sinal de que ela pode ser falsa ao extremo. De suma importância é estar sempre atento aos detalhes mais insignificante,  pois é neles que se encontra a pista percorrida pela má pessoa, ou a chave do mistério escondido por trás da perfeição diária. E estar atento também à pessoa amada  vaidosa, repleta de compromissos com as festividades religiosas da  paróquia, com os eventos do partido político, dedicação extrema ao trabalho,  pois tudo não passará de artimanhas, para camuflar verdades secretas escondidas. Também merece um olhar atento, aquela pessoa amada que  fala de política, dos eventos da comunidade, da novela, das séries da netflix, mas se nega a abrir o coração e contar tudo, quanto é escamoteada e cheia de segredinhos, que frequenta psicólogas, aceita  orientações religiosas de  pastores, com muitos amigos  rodeando a “carne seca” viagens misteriosas, marca e encontra e sem  mais, nem menos, esquiva-se deles. Cuidado! Escondem a verdade real. Também é prudente, manter distância daquela pessoa, que  nega-se a viajar com você pois prefere ficar em casa cuidando das galinhas e dos porcos no chiqueiro e tudo mais, você pode estar convivendo com uma pessoa de dupla personalidade.

          Bom seria se pudesse,  com a sua aposentadoria, contratar uma  senhora idosa, feia, desajeitada que assusta até o cruz credo, para fazer a comida, lavar a roupa, cuidar da limpeza, se servir, continuará  com a carteira registrada, se não, baixa na carteira e que venha a próxima candidata. E em casos de doenças,  contrataria um profissional de saúde. Mas a realidade é outra, o homem é um ser grupal, depende uns dos outros para sobreviver, a única solução plausível e ter paciência, cooperar e ceder quando for necessário.