domingo, 7 de junho de 2020

Diário do isolamento social -82º

                               Trovões, relâmpagos e ventos  quebraram a  monotonia da noite desta   interminável quarentena e se foram, assim como chegaram e o amanhecer já foi claro, com  poucos raios de sol que conseguiram passar por uma fresta entre as nuvens brancas e cinzas que encobrem o  céu dos últimos dias do outono de 2020. O domingo iniciou frio e úmido e sem  perspectivas de novidades. Acordei tarde e para o desjejum, apenas  um pouco de aveia e café. Para o almoço, farei um estrogonofe básico, já que nem cogumelos eu tenho em casa e  falta-me disposição para ir ao mercado. Para  passar o tempo, até a hora de ir  à cozinha, que neste isolamento social, tornou-se o local de  terapia intensiva,  o momento  em que há algo de útil a fazer e uns lampejos de felicidade  são sentidos, eu decide ver as notícias   sobre a pandemia e   fiquei preocupada.
        É difícil de acreditar! Os  cientistas,  que publicaram o artigo na revista científica “ The Lancet”  apontando  o risco do tratamento com cloroquina e  hidroxicloroquina para Covid-19, publicaram uma nota de retratação na qual eles afirmam não poder mais garantir a veracidade dos dados usados para fundamentar a pesquisa. Outra retratação também foi publicada por outra revista científica “New England Journal Of Medicine” porque também não podem atestar a veracidade dos dados primários  utilizados na fundamentação da pesquisa; inexperiência ou incompetência? Também  lí notícias que na cidade de Porto Feliz, SP,  os pacientes, logo no início dos sintomas, recebem o Kit Covid-19 contendo: Hidroxicloroquina, Azitromicina, Celecoxibe  e Metoclopramida e o  total de cura é de 100%. Estes medicamentos não foram receitados às pessoas de minha convivência que venceram a Covid-19. Será que já há tratamento eficaz e a imprensa tradicional não mostra? Por que em algumas regiões do país morrem tantas pessoas e em outras a recuperação é alta? A angústia em não conhecer a verdade é  desesperadora!

sábado, 6 de junho de 2020

Diário do isolamento social - 81º dia


                 E mais um dia  começa, chuvoso, frio e com umidade do ar acima de 90%  o que representa  um desestímulo para a tradicional faxina de sábado e o melhor a fazer é preparar  refeições rápidas e esperar o lento passar das horas que nesta quarentena parecem serem mais lentas e persistir  na eterna luta para vencer o velho hábito de colocar a mão no rosto, coçar os olhos e ajeitar com frequência, os cabelos. Os tempos são outros e com a possibilidade da Covid-19 tornar-se endêmica,  a aquisição de novos comportamentos é necessária para a sobrevivência da espécie humana, que há milênios luta para vencer os  infinitos inimigos invisíveis: Vírius e bactérias.
             Para minha surpresa ao  despertar, recordei  de um sonho, o que não é comum e fiquei por mais de uma hora na cama, rememorando as imagens que pareciam tão  reais, como se eu tivesse voltado ao tempo, na década de 1970, quando morei com a minha família, naquela pequena casa da Rua  Anitta Garibaldi. Era uma manhã ensolarada e eu fique a rememorar o pequeno cenário do quintal que era grande, com árvores frutíferas no fundo e  do lado esquerdo da casa havia uma horta bem cuidada e do lado direito, onde ficava o portão,  um  jardim   bem negligenciado pelos  moradores. Não  havia água encanada e o poço garantia o abastecimento doméstico. Tanque  era  um sonho, havia pneus, sobre o quais se colocavam as bacias para lavar as roupas. Tudo estava no mesmo lugar! O abacateiro que fornecia sua sombra generosa  à lavadeira parecia sorrir para mim e dizer que  já havia perdoado-me, pelas inúmeras pedras que lhe atirei, na tentativa de conseguir os melhores frutos, antes que algum vizinho viesse pedir, o que era bastante comum.
            A casa era pequena e simples. Sala, dois minúsculos quartos, e cozinha, com fogão a lenha, sem banheiro, era o tempo das famosas casinhas no fundo do quintal, para fazer as necessidades fisiológicas.  A contemplação silenciosa das imagens, veio à tona o tormento que era á noite, em dias  de temporais, ter que enfrentar  a água, vento e lama, com lamparina na mão,  para fazer xixi. Tempos difíceis! Quem será que construiu aquela modesta residência? Por que será que não construiu um caminho cimentado e coberto até a casinha  ? Falta de ideia ou de dinheiro?
            Visitar aquela em casa em sonho,  me fez recordar de uma época em que eu era feliz porque não tinha a consciência  das  maldades do mundo e da difícil luta  dos pais para conseguir alimentar os seus filhos. Na hora das refeições, sempre a mesa estava posta  e havia arroz, feijão e uma verdura ou legume. Ovos e carnes era apenas  nos finais de semana. Que saudade  do cheiro da carne   cozinhando  em uma panela de ferro, exalando cheiro de alho, cebola e salsinha. Ironicamente, hoje vivo em casa com mais conforto e não sinto nem 10% da alegria daquela época. Não a como negar que bens materiais proporcionam conforto e bem estar,  mas a  felicidade plena, esta, somente é conseguida no convívio  entre as pessoas e, até isto está  nos sendo negado neste isolamento social.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Diário do isolamento social- 80º dia

                           O dia amanheceu frio e com uma garoa persistente, como nos velhos tempos, em que o bonde circulava pelas ruas da cidade.  A manhã começou com a triste notícia do crescimento de  44,9% da violência contra a mulher durante a quarentena. O isolamento social, segundo  as autoridades sanitárias, é a medida mais eficaz para minimizar os danos da Covid-19, porém, para centenas de milhares de mulheres   brasileiras  tem sido um verdadeiro calvário porque  estão sendo obrigadas a conviverem com seus algozes vinte e quatro horas por dia, em moradias precárias e com a renda  reduzida ou até inexistente, dependendo da caridade da Igreja ou do Estado. As autoridades acreditam que estes números continuarão a  crescer porque durante períodos de escassez é comum florescer sentimentos nobres como compaixão e solidariedade em alguns corações  daqueles que não medem esforços para ajudar o próximo, mas assim como floresce o amor, cresce também a revolta, desespero e o sujeito acaba tomando as piores decisões com consequências funestas para a família.
            O medo tem sido o fiel companheiro dos brasileiros nesta quarentena. Medo do inimigo invisível, o Coronavírus, da perda da renda, dos presidiários que estão sendo soltos  diariamente com a argumentação de que pertencem ao grupo de risco. Os reflexos do fechamento do comércio, indústria e prestação de serviços já  é uma dura realidade. Tem crescido a cada dia, a procura de vagas em escolas públicas. Milhares de país já não podem manter o filho  em uma instituição particular porque o seu negócio faliu e doravante,  o patrão virou empregado, mais um na fila do desemprego. Dizem que toda crise  deixa um grande ensinamento e eu espero que  o maior legado desta pandemia seja  uma  precaução financeira para o futuro porque já  lí umas  duas notícias  especulando a possibilidade da pandemia do Coronavírus tornar-se endêmica.
            A pandemia vai  passar por enquanto e faz-se necessário  uma atenção especial com a vida financeira pessoal para que a vida retome o seu curso  natural de compra e venda, seja de serviços ou  produtos manufaturados, artesanais. Após a amarga experiência de escassez de fechamento da economia, voltar a  atenção para uma educação financeira   é necessário para minimizar  o sofrimento em possíveis novas  crises como esta que estamos enfrentando e perguntas básicas devem ser feitas e respondidas com sinceridade, pés no chão e compromisso com o futuro próximo e distante.
I - Quais são seus objetivos e prioridades? Questão difícil de responder por que normalmente o que vem à mente com rapidez é pagar as contas e botar comida na mesa. Além das contas fixas e despesas com alimentação é necessário  computar   os custos com o lazer, depreciação da mobília  e eletroeletrônicos, emergências como doenças, reparos na infraestrutura  do imóvel residencial e para gozar de uma  velhice digna.
II – Minhas atitudes estão me levando para perto ou para longe de meus objetivos? Esta reflexão parece difícil e dolorosa, mas não é,  com um pouco de serenidade, boa vontade, papel, caneta e calculadora  na mão,  é fácil ver por onde  o dinheiro está vazando   e estancar  logo a sangria.
III – O que estou disposta a renunciar para  equilibrar as minhas finanças? Está reflexão é difícil porque abrir mão dos excessos é doloroso, mas com  uma boa reflexão e determinação é possível mudar hábitos  antigos como  o de comer por ansiedade e não apenas para alimentar o organismo. Trocar a alimentação processada e exagerada por uma  mais natural e equilibrada, além da economia do mercado,  haverá outra: a da farmácia já que é sabido por todos que alimentação saudável é sinônimo de sáude. Uma  boa organizada no guarda-roupa e o estudo de   outras possibilidades de combinação de peças  significa  economia em lojas.  São  as pequenas atitudes que   levam a grandes resultados e sempre que a gana de sair às compras aparecer pense:
O que eu quero?
O que  eu preciso? E compre somente aquilo que de fato  precise e  invista  o que economizou em compras de impulso, porque   a recuperação da economia de um país não acontece em curto prazo e  esta carestia ainda perdurará por um longo tempo e sempre há a  possibilidade de novas pandemias.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Diário do isolamento social, - 79º dia

                                A esperança  é a fonte de luz que concede ao coração em isolamento social uma infinita força para continuar a esperar o passar das horas depois de já ter limpado todas as gavetas, esfregados todas as prateleiras, armários, estantes,  catalogados os livros e  separado para a reciclagem, a papelada  acumulada  no decorrer dos anos onde colônias de ácaros e traças  disputavam  espaços  mais apropriados à sua espécie  para proliferarem e sema   menor consciência de invasão de propriedade alheia. Para as mulheres modernas, na correria  e na pressa do cotidiano, fator gerador de ansiedade o acúmulo é natural porque  compra-se mais para uma satisfação emocional do que para uma realidade prática e   neste momento, em que o mundo parou em virtude da pandemia, descobertas de inutilidades estão sendo feitas  a todo o instante e em todo o planeta e o momento do bota fora é agora porque a economia já está para abrir, como já estão abertas os portões das penitenciárias e levas de presos perigosos estão sendo soltos diariamente, com a desculpas de que  pertencem ao grupo de risco e não podem permanecer encarcerados. Esta é uma alegação curiosa, porque  irão se  expor ao coronavírus  em suas residências e também, quando retornarem à prática de delitos. Com a abertura  prevista para  os próximos dias,  a monotonia ficará no  passado e  corre corre diário novamente será parte da rotina.
            Curiosamente a quarentena teve seu início   em março,  mês  dedicado ao deus Marte, o deus da guerra, segundo a mitologia romana. E  foi o início de um combate diário  dos profissionais da saúde e  de seus pacientes pela vida.  Mês em que os governantes, como em uma guerra, tiveram que reunir-se em busca de  estratégias para  alimentar a população  sem  salários e também para evitar  uma possível desordem social porque todo pai  se torna um guerreiro quando é o pão que se disputa para alimentar a sua família.  Iniciou-se também, a luta diária das pessoas em  isolamento social,  sempre a temer a chegada do inimigo invisível, que não marca hora  e nem dia e está por toda a parte. E como em  toda guerra, pessoas inescrupulosa não mediram esforços para abocanhar o que não lhes pertence e fraudes  e  uso de má fé no projeto de auxílio  emergencial, destino as pessoas em situação de vulnerabilidade, são  denunciadas diariamente, como também, o superfaturamento  de  produtos essenciais  para o combate a Covid-19. Em alguns postos do Samur, máscaras que são encontradas em farmácias por  R$1,00  a unidade, foram compradas   por  R$4,98. Enquanto uns morrem  outros enriquecem de maneira ilícita.
            Assistir o noticiário é  acumular  dor e revolta ao saber que a pandemia escancarou a desigualdade social no país e que o sofrimento coletivo não aplacou a  ganância de  alguns de novos governantes que estão  mais preocupados  em tirar proveito  da calamidade  do que em ajudar a amenizar o sofrimento diário de seus eleitores. Palavras bonitas e discursos inflamados se ouve a todo instante,  porém, os mais eloquentes são os que menos atitudes têm e a fome e o desespero continuam a rondar os lares dos mais pobres. A fome é diária e não pode esperar  até as próximas eleições, quando cestas básicas são distribuídas  generosamente  nas periferias, pelos candidatos que não  respeitam as normas da Justiça Eleitoral. Eu não soube de nenhum  vereador que abdicou de sua  verba de gabinete  de demais gratificações para ajudar  crianças famintas que estão perambulando pelas ruas da cidade. Admiro a coragem dos jornalistas que estão denunciando os desmandos que estão acontecendo diariamente e em todo território nacional., entre estes profissionais corajosos  está o jornalista investigativo, Agostinho Teixeira.  Mas nenhuma escuridão dura  para sempre e a luz  em breve, voltará a brilhar para todos, se Deus quiser!

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Diário do isolamento social - 78º dia

                              Amanheceu frio e nublado com vestígios de chuva noturna e sem a menor perspectiva que algo de divertido aconteça  no decorrer do dia, apenas as inevitáveis tarefas de preparar  o  alimento e limpar a casa. Nesta quarentena há quem preferira pedir marmita, mas somente em pensar na mão de obra  do ato da entrega já desanimo: Colocar máscara, passar álcool gel nas mãos,  efetuar o pagamento, receber a encomenda, retirar a máscara e lavá-la, limpar maçaneta da porta, embalagem,  limpar  a mesa, lavar mão e somente então poder sentar-se à mesa para  saborear a refeição,  que já está fria, é de fazer perder o apetite   até o adolescente mais esfomeado.
            Antes deste isolamento social, eu gostava de ficar casa porque eu desfrutava de várias atividades no Clube, mesmo quando as colegas  resolviam prolongar o feriado, lá estava eu na piscina aquecida, exercitando-me e saboreando  o prazer de estar  na água, apenas esperando  o tempo passar, sem as conversas corriqueiras e a  instrutora sempre a nos lembrar de respirar e não forçarmos além de nosso limite. Não tenho preguiça de levantar cedo de caminhar e praticar natação, sei da importância da atividade física em todas as faixas etárias, principalmente, na terceira idade, quando todas as nossas habilidades, como equilíbrio e resistência física vão se definhando lentamente. Estou  presa em meu lar e anseio pelo último dia da quarentena, quando, enfim, a  imprensa noticiará que na cidade, não há nem um caso suspeito da Covid-19. Quando este dia chegar, haverá uma explosão de alegria e com certeza, a rua  ficará repleta de pessoas, bares e restaurantes cheios e sonoras gargalhadas  ecoarão pelos ares, misturando-se aos gritos dos cozinheiros e garçons, ávidos para atenderem com rapidez aos clientes, que enfim, voltaram  para divertirem e fazer  girar a economia do país. Infelizmente, muitos  estabelecimentos comerciais não conseguirão abrir suas portas quando tudo isso passar, somente em  shopping, 04 em 10 estabelecimento, não  reabrirão suas portas  porque não conseguiram apoio do governo e condições justas de financiamento bancário. Enquanto uns  comemorarão, outros, continuaram sofrendo com as consequências da pandemia: fome, miséria, desespero e aumento crescente da violência nas ruas e nos lares.
            Em tempos difíceis  surgem  pessoas habilidosas e com espírito empreendedor que estão destacando-se  na dificuldade e  estão fazendo pão caseiro, brigadeiro, salgadinho, bolo e marmitex e  oferecendo pelo interfone e redes sociais para os moradores do condomínio e já pensando em abrir o  negócio próprio, quando tudo passar. Existe também aquelas avós amorosas que estão aproveitando o tempo de calmaria para tricotar  agasalhos quentes e personalizados para os  seus netinhos. E, como não poderia deixar de ser, existe também, pessoas como eu, sem habilidades, espírito empreendedor e o mais triste, sem descendentes, que ficam a janela, esperando o findar de mais um dia.
            Quando os olhos já estão cansados da tela do televisor, só nos resta olhar pela janela e observar a vida passar em um ritmo lento, um carro, um ciclista,  motoqueiro, eventuais pedestres, e o ritmo das reformas  nas casas vizinhas. Parece que os moradores fizeram um pacto para iniciarem ao mesmo tempo os reparos em suas residências  e arrepiando-me de frio, fico a observar o vai e vem dos pedreiros com suas latas de massa nos ombros a subir e descer andaimes. Ah! Como espero pelo fim da pandemia e a volta ao ritmo natural  da vida, com liberdade de ir e vir, sem esta profilaxia exagerada. Que a vida retome o seu  dia a dia com alegria e leveza. Para muitos,  este período deixou  a lição de que diante da adversidade, não precisamos fazer as malas e mudar, mas lutar para transformar a realidade  e acima de tudo, confiar na ciência e fazer o trabalho diário de formiguinha, porque cada um fazendo a sua parte, por menor que seja, se torna grande  junto ao todo universal.
Quarta-feira, 03 de junho de 2020   
Temperatura: 22º
Umidade relativa do ar:79%

terça-feira, 2 de junho de 2020

Diário do isolamento social- 77º dia

               
            Despertei-me com o som do vento do oeste em minha janela e com ele veio o frio e  uma chuva fina e constante o que fez desaparecer a vontade de sair  da cama e iniciar as atividades domésticas, sempre as mesma limpar a casa e preparar os alimentos, sentar à mesa sozinha e esperar  o lento passar das  horas, que nestes dias de confinamento parece ser mais longas. Não há como negar! Estou triste e solitária a esperar...
            Estou sozinha, olhando pela janela a chuva que cai silenciosamente e que não irá abastecer o lençol freático porque a  capital dos Bandeirantes é uma metrópole impermeável; a água irá  escorrer pelas ruas até um bueiro e de lá  seguirá rumo aos rios.  Frio de inverno em pleno outono. Entardecer triste e bucólico e não há como  afastar da mente os pensamentos da infância feliz  quando as palavras pandemias  e isolamento social não eram conhecidas e não é necessário revolver os neurônios para retornar aos idos tempos   e sentir o aroma do café passado em um coador de pano   e do bolo de fubá  que acabara de  sair do forno. Que saudades do colar da lenha queimando, no fogão a lenha,  que aquecia toda a cozinha, o lugar preferido da criançada quando a temperatura caia um pouco. Lá ficávamos brincando até o horário de dormir e a alegria maior era quando nosso pai chegava do trabalho, faminto, cansado e suado, mas com disponibilidade para contar  como fora  o seu dia e ouvir as reclamações de nossa mãe, sobre as nossas peraltices.
            Observo com alegria a chuva tamborilando no telhado e escorrendo pela janela e assim vai lavando  a poeira decorrente dos meses de estiagem e faz o trabalho de limpeza para mim. O brilho das folhas das árvores parece agradecer a água que  mata a sede de suas raízes e parecem felizes a balançar ao sabor do vento que sopra gelado e suave. Neste silêncio, fico a imaginar  que bom seria se nós tivéssemos a capacidade de ouvir  o som da grama  a crescer e das flores a desabrochar. Vez ou outra, ouço  o pio distante de um pássaro, o miado de um gato solitário que deve estar  distante de casa e sem disposição para  molhar o pelo brilhante.  Em meu ângulo de visão, percebo que a natureza agradece o trabalho das nuvens em  saciar  a sede da terra. E eu, como  milhares de brasileiro estou triste, sem conseguir externar alegria  e gratidão  ao céu que faz com que  os ciclos das estações acontecem naturalmente, independente da pandemia.
            A tarde se vai e com elas as doces lembranças de uma época em que vivi no seio de uma família  ruidosa. Todos já se foram. A solidão é a companheira inseparável de quem vive muito e  se não fosse as lembranças do que se viveu, ninguém suportaria o peso dos anos. As recordações doem no  coração, mas acalentam a alma.
            É outono! Mas o outono mais triste que já vivi porque estou em isolamento social e sem perspectiva de que tudo volte ao normal antes do inverno que se iniciará em 20 de junho. É assustador passar o outono inteiro  em quarentena!  A natureza está se preparando para o repouso do inverno e os seres humanos na esperança de  andar livremente pela cidade, observar as folhas secas no chão, sentir o cheiro das árvores e o ritmo alucinante da   maior metrópole da América do Sul e dentro desta aceleração,  encontrar subitamente um beija-flor em busca de uma flor para saciar a sua fome, quiçá  também poder apreciar os voos suaves das borboletas coloridas em contrastes com o cinza  do asfalto. A natureza está fechando  um ciclo para iniciar outro e eu tenho a esperança que este ciclo de quarentena se feche logo e que nunca mais se repita  nesta proporção  gigantesca.  A única certeza que temos é que estamos aqui de passagem e devemos fazer com que esta estadia seja uma experiência bela e valiosa.  Aqui chegamos de mãos vazias e assim  voltaremos ao pó, de onde viemos. Para a derradeira morada, levamos apenas as  nossas lembranças e o passaporte de nossas  ações, boas e más.
Terça-feira, 02 de junho de 2020
Temperatura-22º
Umidade relativa do ar:74%

Diário do isolamento social -76º dia

             
            Neste momento me que o sol vai suavemente colorindo o céu de outono e o dia começar a bocejar, tímidas estrelas surgem no céu despertando a noite e  o  primeiro dia do mês de junho de 2020 despede-se sem perspectiva de  uma noite  feliz e um despertar  radiante porque a quarentena continua e com ela a monotonia e a incerteza. Anoitece e o bairro está  quieto, o silêncio é quebrado pelo  som de  um motoqueiro em seu eterno vai e vem  com a entrega  endereçada  a alguma pessoa em isolamento social. É possível ouvir o pio de um pássaro que retorna ao seu ninho em busca do merecido descanso após um dia exaustivo de luta pelo alimento, indiferente á tristeza das pessoas presas em suas casas.  Tudo é triste! A leve brisa que sopra por entre os  prédios e acaricia as folhas das árvores  espalha os aromas das cozinhas da vizinhança e assim, lentamente a noite vai engolindo o dia  e  mais um dia se vai, mas a nostalgia e a saudade  da vida anterior à pandemia, que parece tão distante faz brotar uma lágrima que escorre silenciosamente em várias faces. Os sentimentos florescem como as  margaridas no jardim e há um destaque para a esperança! Esperança que passe a pandemia e que a vida retome o seu curso natural.
Segunda –feira, 01 de junho de 2020