Tem gente que
não tem desconfiômetro, às seis horas da
manhã, enviando mensagem e não é de
falecimento. Nota de falecimento não pode esperar porque o corpo do morto tem
pressa em retornar ao útero da mãe
terra, e como não fala, exala odores que
expressam o desejo de partir. Olhei a
mensagem já com o coração não mão, pensando de qual amiga eu me despediria para
sempre ou na melhor das hipóteses,
acompanharia-a ao Pronto Socorro,
felizmente era apenas uma mensagem sobre
os medicamentos que não são encontrados
no comércio legal e menos ainda no clandestino.
E a lista começou falando da importância da
atividade física, bem, quem mora em casebres e minúsculos apartamentos,
encontram obstáculo para praticar até
mesmo uma caminha porque são pobres e isto significa que trabalham muito,
enfrentam no mínimo quatro horas diárias dentro de ônibus urbanos, não tem
espaço em casa para exercitarem e menos
ainda, calçado para enfrentar ruas esburacadas,
comuns nas cidades brasileiras.
Comida
natural. Impossível para o trabalhador
brasileiro que recebe em média, dois salários
mínimos comprar comida orgânica simplesmente pelo preço, a grande massa consome
somente produtos ultraprocessados e com baixo valor nutricional, e quanto a
verduras, legumes e frutas, embora pareçam saudáveis estão repletos de pesticidas e adubos químicos, e quando podem
comprar, já que os preços estão nas
alturas por culpa da guerra, da chuva, do sol, do combustível e por aí a fora.
Rir. Pois é,
este é de graça, mas com as contas
atrasadas, cobradores na porta a todo instante, celular sem crédito, faltando remédio no Posto de Saúde, crianças
chorando de fome, professores enviando lista de materiais escolares quilométricas,
como o cidadão vai conseguir usufruir desta dádiva divina que é o riso?
Sono. Essa sugestão só pode
ser oriunda da cabeça de alguma madame que recebe café na cama e tem uma
empregada até para lhe oferecer o
pijama, na hora de dormir. O trabalhador tem que sair de casa às quatro da manhã
para entrar às oito horas no trabalho, sai
às dezessete horas, e enfrenta um trânsito
pesado, ônibus apertado, tem que passar no mercado, enfrentar fila para pagar a
compra ou pedir fiado, preparar algo para comer, tomar banho, aí já são quase meia noite, mais uma dádiva
divina gratuita que o pobre não consegue
desfrutar, assim como sol, já que quando não está em trânsito, está
trabalhando sob luzes artificiais.
Duas boas
sugestões: amar e ser amado! Na teoria é
fácil, mas no dia a dia do trabalhador brasileiro só há espaço no coração para
rogar misericórdia divina para que a sua carga diária seja aliviada e que ele consiga viver até
desfrutar de sua aposentadoria, que não lhe proporcionará conforto e lazer, mas poderá
ficar no sofá o dia inteiro assistindo televisão.
Gratidão é
outro remédio indicado. Ah! Isto o trabalhador tem de sobra. Ele é grato
porque ainda consegue levar um pouco de comida para casa com
dignidade, enquanto grande parte da população revira lixo em busca de algo para
aplacar a dor da fome. É grato por ter o
privilégio de se apertar dentro de um ônibus lotado porque ir caminhando ou de
bicicleta é impossível em virtude da distância.
Cantar e
dançar! Também são bênçãos divinas gratuitas que o pobre não pode desfrutar
porque não há espaço em sua residência para dançar e frequentar bailes tem um
custo e cantar, os vizinhos não
permitem.
Ter
bons amigos. Eita dureza! Amigos estão bem vinculados a dinheiro e favores. Se faltar
dinheiro, os amigos desaparecerão no ar feito fumaça. Se você deixa de fazer
favores, eles somem. Então, posso
concluir que os remédios para uma vida
plena e feliz existem, mas se não há dinheiro, nem mesmo da luz solar e ar puro, o
trabalhador pode se beneficiar.