segunda-feira, 30 de março de 2020

Diário do isolamento social -13º dia

                 
            Um lindo crepúsculo colore  o céu e mais um longo dia se finda. E fazendo uma retrospectiva, foi apenas mais um dia como outro qualquer, de qualquer pessoa que está privada de sair para apreciar as frescas tardes do outono brasileiro.  Eu amo o outono! Nem muito frio, nem muito quente e caminhar sem destino, sentido  as brisas outonais é um pequeno prazer que não posso desfrutar  durante esta pandemia.
            Apesar da escassa chuva noturna, o dia amanheceu ensolarado e eu acordei  do torpor que  tinha abatido sobre mim deste que iniciei a leitura de Crônicas do Pássaro de Cordas.  O café da manhã foi bem reduzido,  apenas  um pouco de aveia com leite e café preto. Acabou o meu estoque do cereal e  amanhã terei que improvisar um desjejum com o que tiver em casa.  Tomei um banho revigorante  que lavou os últimos resquícios  da falta de iniciativa do personagem do livro e espero que para sempre. Estudei um pouco de inglês para viagem, seguindo rigorosamente o meu roteiro de estudo – leitura dos capítulos anteriores mais um e, li também, mais um capítulo do livro de cibernética,  ainda continuo  não entendendo nada, mas não estou com a  disposição para a leitura de aprendizagem, quando lemos, relemos, grifamos e resumimos,  leio para passar o tempo e pelo desaforo de ter gastado tanto dinheiro em livros para apenas ficar na estante colecionando  traças, ácaros e poeira. Com os olhas cansados das letras pequenas,  decidi exercitar o cérebro e  assisti uma aula de matemática  on-line, destas gratuitas que o  youtube disponibiliza, faltou a disposição para fazer a atividade no caderno, quem sabe amanhã. Ainda estou que meio anestesiada  de tanto ficar em casa  repousando, e  o agravante é que a ociosidade  atrofia a mente, perde-se a  capacidade de sonhar,  a vontade de planejar, de interagir virtualmente com as pessoas.  Preparei o almoço, lavei a louça e hoje, finalmente, eu consegui fechar a gaveta da cômoda, limpar a casa e descer o lixo. Prenúncio de que irei vencer este marasmo que  abateu sobre mim.
            Praticamente não tenho ligado a TV, mas o pouco que assiste a notícia foi  boa, há uma esperança para um futuro próximo, a cura para as vítimas do Covid 19,   remédios estão sendo testados com sucesso. Cansada da TV, liguei o rádio e, nestes programas populares, que nem lembro mais em qual emissora, o locutor atendia chamadas de caminhoneiros que  relatavam as dificuldades que estão encontrando, principalmente no estado de São Paulo, para conseguir alimentação, assistência mecânica  e para a saúde. Estão tendo dificuldade até para conseguir um remédio para febre, dor de cabeça, nas costas, além do risco que estão correndo, quando estão na fila, em alguns postos de gasolina, para pegar  o marmitex,  a popular “quentinha” e nas filas para descarregar  em  seus destinos finais. Outro aspecto destacado por eles é a vulnerabilidade com que os funcionários  dos pedágios estão trabalhando, sem máscaras, luvas, recebendo dinheiro e entregando  troco a  pessoas de todo o Brasil.  O vírus  é resistente e vive muito tempo em notas e moedas. Está aberração não e´ fake news, soube através de uma   emissora de rádio séria,  a notícia que já há pessoas inescrupulosas  importando da China remédios e vendendo com preços abusivos para pessoas ingênuas e também que já está circulando no WhatApp, site falso para pegar dados das pessoas que serão beneficiadas pelo programa de assistência aos  mais necessitados. Roubar de quem já não tem  praticamente nada, é o ápice da maldade humana. Também circula em redes sociais, que até pessoas que  morreram em virtude de acidentes, como o caso de um borracheiro, acho que no Pernambuco, o atestado de óbito foi emitido como vítima de  Covid 19. Será verdade? Entre tantas notícias ruins, uma boa, o Programa Bom Prato,  criado em dezembro de 2000 pelo governador o do Estado de São Paulo, Mário Covas, com objetivo de oferecer, à população de baixa renda, refeições saudáveis e de alta qualidade a custo acessível terá o seu horário e serviço ampliado. Servirá café da manhã por R$0,50, almoço e janta por R$1,00, porém, com talheres descartáveis, o que causará um grande impacto ambiental porque não sabemos por quanto tempo está medida  permanecerá  ativa. Em tempos de pandemia,  a certeza que se tem é somente do agora. Vamos esperar com resignação e precaução.
 Segunda - feira, 30 de março de 2020
20h 30 min.
Temperatura 29º 
Umidade relativa do ar 69%

domingo, 29 de março de 2020

Diário do isolamento social 12ºdia

                                     Hoje  o dia amanheceu ensolarado e eu saí da cama cedo, não pude protelar nada porque tinha reunião de condomínio ás 9horas para eleição do  novo síndico.   Em uma situação crítica como a que estamos vivendo, com o  crescente avanço do Covid 19, achei um absurdo ter mantido a reunião, porém,  o representante da administrada informou que tinha que acontecer pois vencido o mandato, o banco cancela a conta e problemas maiores surgirão. É difícil acreditar que uma empresa especializada em administração não saiba conduzir uma  reunião séria, sequer seguiram a pauta. Foi sofrível! Para participar,  prendi os  cabelos, coloquei turbante, máscara e sentei, o mais isolada possível, as cadeiras  foram posicionada em uma distância razoável. Retornando ao meu lar,   tirei a roupa  que foi direto para a máquina, tomei banho.  Este ritual de deixar os sapatos na entrada, a porta aberta, lavar as mãos, voltar e passar álcool gel na maçaneta, na chave e na bolsa, está me deixando neurótica.
            O transcorrer do dia foi normal, apenas as atividades relacionadas   com a alimentação. Estou acometida de  uma inércia, uma vontade de não  fazer nada; faz três dias que não limpo casa e a gaveta  da cômoda, que por distração deixei aberta,  continua aberta, o grampo de cabelo que caiu em baixo da cama, lá está ele à espera de retornar ao conforto da caixa, junto aos companheiros, vejo as atividades a serem feitas e não sou capaz de executá-las. Outro fator deprimente é que nem posso refugiar-me  na cozinha, preparando pratos diferentes porque tenho que poupar os alimentos estocados.  Sair  está cada dia mais perigoso, principalmente para as idosas, as que são mais orientadas a ficarem em casa e se saem á rua,  são alvo fácil. Recebi o telefonema de uma amiga que reside em um bairro próximo ao meu e estava bastante assustada!  Ela mora em uma casa térrea, sozinha, como não tem nada a fazer fica  várias horas do dia olhando o movimento da rua e  tem notado uma movimentação suspeita de ciclistas que passam devagar, várias vezes ao dia e observando  as residências, provavelmente estudando uma  maneira fácil para  invadir. Ela também disse, que ontem a tarde,  avistou, na entrada do mercado carros de polícia e   mais um seis policiais montados em elegantes  cavalos. Bem estranho, a cavalaria  somente é vista em dias de megaevento, o que poderá ter acontecido? A mídia tem priorizado o noticiário sobre o Covid 19 e ainda não sabemos com precisão se nestes dias de quarentena,  a criminalidade tem aumentado, principalmente  roubos em residências, porque na rua, está mais difícil, em virtude da escassez de pessoas circulando.
            Espero que amanhã eu esteja  mais animada, com disposição para limpar a casa e a alma. Hoje terminei de ler  o livro do escritor japonês Haruki Murakami, Crônicas do Pássaro de Cordas. É um livro muito interessante, envolvente, porém, acredito que  eu tenha absorvido um pouco do estado emocional do protagonista,  que  é um sujeito sem ambição e  garra. Como eu já tenho  uma pré-disposição  inata para a procrastinação,  por menor que seja o estímulo, eu já quero deixar tudo para depois de amanhã, porém, o depois de manhã não chega nunca.
 Domingo,29 de março de 2020
Temperatura 28º graus
Umidade relativa do ar 75%

sábado, 28 de março de 2020

Diário do isolamento social11º dia

                           
            Este início de outono está mais que o verão. Ainda estou com o ventilador ligado e   talvez tenha que dormir com ele funcionando toda a noite. O dia  transcorreu sem mais  maiores transtornos, porque sozinha e em quarentena, é difícil acontecer alguma coisa. Uma vizinha  me chamou para ir ao mercado com ela, inventei  que estava com diarreia, assim ela não insistiria, falar que está em estado febril, dor de cabeça, estas desculpas de sempre agora faz com que a gente caia na boca do povo e todos acreditarão que estamos contaminados. Não fiz por maldade, por falta de solidariedade, mas porque estou  evitando sair com ela em virtude de  seu comportamento   que não condiz com a minha maneira de agir, acredito que um pouco de recato e discrição faz bem em todas as idades e, não é porque somos idosas e sozinhas que devemos estar disponíveis para todo cidadão que aparece. Aparentemente ela acreditou na desculpa e não  me aborreceu mais com seus assuntos repetidos.
             A grande novidade foi que  outra vizinha veio trazer-me  mantimentos, que ela ganhou do cunhado, porque ele e a esposa recebem cestas básicas e, como são somente o casal, sobra muita coisa, e optam por dividir com ela. Fiquei feliz com a oferta, assim aumentaria o meu estoque de alimentos e evitaria sair à rua, porém, quando fui higienizá-los para guardar, observei que  a metade  deles estavam vencidos, uns  desde 2019. A dúvida  é: foi de propósito ou mera distração? Como não sei a verdade, nada comentarei. Depois dos setenta anos,  se aprende que quanto menos falar melhor, e quanto mais agradecer, melhor ainda.
            Fora isto, nada mais aconteceu, apenas atividades relacionadas à alimentação  e o marasmo de sempre. Sinto  que a apatia está  chegando aos poucos,  não tenho vontade de cuidar de mim, da casa, de olhar mensagens das redes sociais, telefonar para  amigos. Continuo a ler o romance não mais com o entusiasmo do início e somente não o deixo de lado, simplesmente porque não tenho disposição para fazer outra coisa, como um curso on-line, estudo de  uma língua estrangeira, um tricô; até descer o lixo já  deixa-me bem cansada.
Sábado, 28 de março de 2020
21h 43 min
29º graus
Umidade relativa do ar 70%

sexta-feira, 27 de março de 2020

Diário do isolamento social -10º dia

                        E nada aconteceu no recinto de meu lar. Lá fora os acontecimento eram de um mundo distante,  assustadoramente distante; sons de carros, pássaros, vozes ao longe, sol e nuvens brancas  no céu e  apesar do termômetro marcar temperatura alta,  não senti calor, nem nas horas mais quente do dia, parece que  o frio se instalou  dentro mim. O que eu fiz hoje? Nada além das atividades relacionadas a alimentação e  a leitura de um romance, cuja impotência do personagem perante a necessidade  de labutar a vida  se abateu sobre mim e assim passei mais um dia em quarentena solitária e triste sem poder sequer, desfrutar de um passeio ao ar livre.
27 de março de 2020-03-27 20h17min.
Temperatura 29º graus
Umidade  relativa do ar 65%

quinta-feira, 26 de março de 2020

Diário do isolamento social - 9º dia

                             
            Foi  assustador!
Hoje tive que sair à rua para ir ao banco retirar dinheiro, fazer recarga no celular e comprar laranja e ovos. Como eu moro em bairro  residencial, afastado da área comercial, não    existe nada a menos de  um km de minha  casa e sem condução para a avenida principal onde fica a agência  bancaria. Vesti uma roupa surrada, coloquei a máscara caseira, na expectativa de   manter os transeuntes distantes de mim.  Organizei-me para sair exatamente às 14 horas, com o sol a pino  na expectativa que os raios fortes fritasse o Covid-19  diminuindo assim a possibilidade de ser infectada. Tive meu  primeiro susto ao sair do meu condomínio  porque já avistei ciclistas com atitudes suspeitas. Firmei  o pensamento em Deus, forcei tosse seca e espirro e acelerei  o passo.  Para evitar uma neurose, tenho evitado ouvir noticiários e ler as mensagens de whatsapp e já levei o segundo susto: o banco estava fechado, somente os caixas eletrônicos estavam disponíveis, por sorte havia um carro da Polícia Militar no estacionamento. Fiz o saque rápido e saí apressada para ir à farmácia. Foi uma caminhada tensa, de aproximadamente uns dois km. Efetuei a recarga e  retornei rápido rumo a padaria.
            Ao  dirigir-me ao caixa da padaria, já levei o meu terceiro susto, como o movimento estava muito fraco, as funcionárias conversam em alto e  bom tom, assustadas, comentando a última noticia: os saques em  supermercados e não são fake news porque elas conhecem a comerciante que foi vítima. Saí apressada e fui ao mercadinho para comprar ovos e pedir o  número do telefone para fazer pedidos de entrega, porém, fui informada que somente acima de trinta reais. Uma pessoa sozinha, comprar trinta reis em verduras é jogar dinheiro fora. Eles  não dispunham da mercadoria e tive que retornar à padaria e voltando cabisbaixa, fui abordada por um jovem pedindo dinheiro, disse que não tinha e perguntei se estava com fome, eu tinha um pão a oferecê-lo, porém, ele simplesmente  virou-me as costa e eu segui e frente o mais rápido que pude. Ao virar a esquina de minha rua, pela primeira vez fique feliz em ver o meu eterno fã, um senhor casado, que vive convidando-me para sair, claro que recuso e evito passar em frente a casa dele para evitar complicações, porém, hoje foi diferente, eu estava assustada e com medo, cruzando sempre com ciclistas, motoqueiros com garupa e   pedintes, e um senhor, sentado em frente a sua residência,  naquelas circunstâncias, representava um porto seguro. Com a graça ao Misericordioso, cheguei ao meu condomínio   segura, com o meu cartão de crédito na bolsa. Encontrei com uma morada do meu andar, conversamos  um pouco e ela  aparenta  estar em perfeito estado de saúde  físico e mental, o que deixou-me intrigada,  ontem, uma moradora do último andar, entrou em contado comigo para avisar para que eu tomasse cuidado porque ela estava contaminada com Covid-19 e internada. Mistério!
            Talvez eu esteja  ficando paranóica,  mas deixei os sapato na entrada,  tomei banho, lavei cabeça e a roupa que usei, joguei fora todas as sacolas e embalagens, desinfetei bem minha compra e minhas mãos, quando pego o celular, arrisquei olhar algumas mensagens e vi uma que está falando  que os motoristas, revoltados com a falta de comida e demais assistências nas estradas, irão aderir a proposta do governar e ficar em quarentena.  Misericórdia Senhor! Até ovos está difícil de encontrar, o que será de nós, seus  humildes servos?
26 de março de 2020,
20h 27 min.
 Temperatura, 28º graus
Umidade  relativa do ar 60%

quarta-feira, 25 de março de 2020

Diário do isolamento social - 8º dia

                              Dizem que todas as mudanças trágicas na vida das pessoas   passam por cinco fases e  neste   meu recolhimento  domiciliar  forçado, acredito que já estou na última, a da aceitação. Olhando agora, percebo que passei por todas. A primeira - a  negação. No  início, quando o governo   colocou em quarentena, os brasileiros  resgatados da China, pensei que  não haveria contaminação em massa no país. Não me preocupei em estocar alimentos,  retirar dinheiro no banco. Confesso que fiquei obcecada, ouvindo ás noticias, como a esperar que nada fosse acontecer. Mas aconteceu. Depois veio o segundo estágio – a raiva -  Esta fase começou quando  comecei a  receber mensagens dos  lugares sociais que freqüento, como academia,  avisando que o atendimento estava suspenso temporariamente. O terceiro estágio – a negociação. Aconteceu  comigo mesma, negociando as mudanças   que  precisavam ser feitas para  eu não ser contaminada,  melhorar a minha imunidade e para isto, fez-se necessário trocar comida saborosa por  uma alimentação saudável, novos hábitos de higiene.   O quarto estágio – a depressão – Esta quase  pegou-me, tive uns momentos de terrível desânimo  e  fui salva pelo  livro:  Crônicas do pássaro de cordas, de Haruki Murakami. Fazia tanto tempo que eu não lia um romance, tinha  esquecido de como é bom viajar sem sair do lugar,  em um diálogo  contínuo com  os personagens,  exercitar a imaginação porque  a edição não contém imagens e fico a criar os ambientes em minha mente. Agora estou na última fase, a da aceitação do fato. A pandemia  é uma realidade e eu terei que adaptar-me as orientações dos   governo  e demais profissionais de  saúde.
            Tenho evitado ler mensagem de WhatsApp, porém, uma  mensagem chegou até mim, oriunda de  uma pessoa que não é atuante  em redes sociais, razão pela qual abri e  assisti o vídeo. Era um caminhoneiro, relatando as dificuldades que eles estão encontrando pelas rodovias para conseguir fazer as refeições porque   muitos restaurantes e lanchonetes, estão fechados, alguns estão passando fome, transportando alimentos por este mundão de Deus. Pelo que eu entendi, a Vigilância Sanitária esqueceu  que motorista não é peça do carro, é um ser humano    e precisa se alimentar.
            Hoje  recebi a visita do síndico e do zelador,  eles vieram trazer uma máscara, confeccionada à mão, pela  sua esposa e álcool gel. Apesar da preocupação deles, com os idosos do condomínio, acredito que não será de grande valia, primeiro porque  eu duvido que estas senhoras preguiçosas que aqui residem, irão se preocupa em lavar com sabão e colocar a máscara ao sol, o melhor bactericida que existe, depois, o  álcool, está com o grau inferior ao indicado pelos profissionais da saúde. Mas fique feliz com  o cuidado deles, lembrando que até agora, não recebi uma mensagem de nenhum parente  mais jovem, oferecendo ajuda.  Em meu círculo de amizades a situação é difícil, todas estão acima dos 65 anos de idade, ou seja, vulneráveis.  Aos janeiros, acrescenta-se diabetes, pressão alta,  todas as  doenças terminadas ite, portanto, não podemos cuidar umas das outras. Quanto mais  distante  melhor para todas.
            Os alimentos estão acabando. Verduras não  há uma folha sequer em minha geladeira,  o último ovo,  virou omelete para o  jantar de hoje. A proteína de soja durará somente para duas refeições e abri o último pacote de feijão.  Pão, biscoito, bolachas, leite, nada disso tem mais. Para o café da manhã,   apenas aveia  e água  e café preto.  Amanhã terei que ir ao banco, comprar algum mantimento,  colocar crédito no celular e  pedir o cartão de visita do mercado, que eu, na fase da negação, joguei fora, quando eles gentilmente ofereceram  os serviços de entrega na  redondeza, quando ainda era uma especulação, o isolamento vertical de idosos e demais grupos de risco.  Quando tudo passar, porque vai passar, procurarei as amigas mais espertas do que eu e  pedirei ajuda para aprender  a usar aplicativos de banco, cada dia estarei mais frágil e mais abandonada  pelas novas gerações  e também  pela minha geração que irá para a sua  última morada, a fila está andando.
25 de março de 2020 – 20h02min. Temperatura 28º graus e umidade relativa do ar 56%

terça-feira, 24 de março de 2020

Diário do isolamento social 7º dia

               
            Apesar do susto de ontem, hoje acordei melhor, sem vestígios de febre e com  mais disposição para efetuar algumas tarefas domésticas. Movimentar me faz muito bem. Lavei tapetes,  varri e  passei pano  com água sanitária,  o apto está um primor. Depois que terminei tudo, a campainha tocou, era o Zelador,  veio entregar o boleto do condomínio e avisar que a reunião para eleição do  novo síndico não foi cancelada, acontecerá no  domingo. Achei um horror! Em um condomínio onde os proprietários são  majoritariamente idosos, reuni-los  em um pequeno recinto fechado, com pessoas   da administrada  é, em meu entender, de uma grande irresponsabilidade. Mas não protestei, estou sem forças para isto, tantos dias dentro de casa  mina as forças de qualquer cidadã acima dos 60 anos. Findo  o trabalho do funcionário, o interfone não parou de tocar, moradores aflitos com a perspectiva de um aumento  do valor do condomínio, nem sei se é pauta Sei  que fui irresponsável ao jogar fora, sem ler a convocação, prestei atenção somente no dia e horário. Fui ingênua, tudo que acontece  no  prédio, recai sobre o meu bolso.
                 O isolamento social fez-me mais observadora da natureza que está ao alcance de minha vista, pela pequena janela do meu quarto. Nunca tinha prestado atenção em quão belo é o céu de abril, um azul único, quebrado aqui e acolá por nuvens brancas e vez  ou outra, cruza a imensidão pássaros felizes, sem a consciência do que a humanidade está  sofrendo, uma pandemia, uma  peste que veio para lembrar- nos que somos seres humanos e que precisamos uns dos outros e, pior, o que acontece a um, recaí sobre todos. Assim é a lei da natureza, somos todos dependentes uns dos outros. A quarentena  aquieta o corpo e acelera a mente, o  pensamento voa e fica difícil acompanhá-lo. Penso no pequeno produtor rural, aquele que prepara a terra, semeia, cuida  e colhe o alimento que nos mantém vivos e de pé. Se o vírus  chegar ao campo  e dizimar a população rural, tão desprovida de assistência sanitária e médica o  que será dos citadinos, como eu, que faz mais de 20 anos que não coloco meus pés sobre  a terra , tudo concreto. Precisamos deles para viver!  Antes do confinamento, nunca tinha refletido seriamente sobre a dependência da cidade do  campo, dos  profissionais dos transportes, dos atacadistas, dos profissionais da saúde, da limpeza urbana, das usinas de energia elétrica, são tantos e tão distantes de nós, mas precisamos deles para  viver. Que assistência estes profissionais   estão recebendo do governo?  Sem eles  todos  perecerão de  inanição ou peste.
            Este inimigo invisível veio para nos  ensinar humildade, de nada adianta o dinheiro, se  não tem a força de trabalho para produzir, e são as pessoas simples,  muitas vezes, com pouco estudo,  que trabalham muito e recebem pouco, a força motriz que faz  girar a roda do capitalismo. A estes profissionais  essenciais, o meu  sincero agradecimento.
            São 18h28min de 24 de dezembro de 2020 Temperatura de 28ª graus, umidade do ar, 57%  e eu estou feliz porque estou viva e assim quero permanecer, sem nenhuma doença, o sacrifício  a de  ser válido.