domingo, 7 de novembro de 2021

Gatos dos vizinhos

  

          O vento do sul soprou impiedosamente  a anunciar o temporal  previsto para a madrugada, raramente os meteorologistas acertam, mas naquela noite, foram certeiro e  as nuvens não  economizaram água, deixou que caíssem em abundância na terra sedenta. Após a tormenta, uma chuva fina e continua  perdurou por todo o dia. Rosalina sabia que não podia desfrutar muito do aconchego da cama, precisa ir ao jardim ver os estragos decorrentes da tempestade. Os canteiros estavam cheios de água e, nem mesmo   o aguaceiro  noturno impediram os gatos dos vizinhos de usarem os canteiros como caixa de areia.

          O cheiro estava insuportável e  Rosalina se viu obrigada a  colocar luvas e revirar o seu estoque de sacos plásticos para iniciar a limpeza  e tentar salvar as  plantinhas que lutavam para   criar raízes e   viam as gotas  de águas como uma benção celestial. Trabalhava com afinco, indiferente aos ruídos  matinais  da grande metrópole: gritos de bêbados,  o  toc toc dos saltos das mulheres apressadas para chegarem ao  trabalho, mãe gritando   com  os filhos, o problema diário durante o ano letivo e mais vozes indistintas e o barulho os carros. Já havia tentando  todas as dicas das amigas e da internet para afastar os bichanos: alho, arruda, alecrim, hortelã, pimenta do reino, malagueta,  naftalina, palito de churrasco e nenhum resultado foi obtido. Parece que o  animal perdeu  os sentidos da visão, olfato e sensibilidade à dor.

          Rosalina não  almeja muito, apenas  quebrar a monotonia do cinza do corredor do prédio com cores vibrantes, dos coleus, margaridas, cravos, begônias e vincas.   É uma luta diária, mas a jovem não  pensa em desistir, silenciosamente, refaz o plantio. Com tristeza, pensa nos tutores de felinos, que querem desfrutar da companhia do animal, mas recusa a arcar com o ônus de limpar a caixa de areia.  Seu desgaste é diário, mas  ela alimenta a esperança e apesar de árdua, ela  acredita que vencerá a luta e beleza  irá predominar.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Meu pé de girassol

                            Tantas coisas aconteceram  nestes últimos dias.  A bem sucedida operação conjunta  da Policia Militar Mineira,  Policia Rodoviária Federal que desarticulou uma das inúmeras quadrilhas de assalto a bancos. Felizmente,  26 assaltantes estão fora do mercado  de trabalho ilegal  para sempre.  Com os meliantes foram encontrados mais de doze veículos roubados, que seriam usados para assaltar  no Sul de Minas Gerais. Eles estavam bem equipados: 12 galões de gasolina de 18 litros cada e quatro galões de diesel de 100 litros cada. Sete rádios comunicadores, 12 coletes balísticos, capacetes à prova de bala, diversos explosivos, 116 carregadores, 5.059 munições, dois adaptadores, 26 armas,  entre elas havia uma metralhadora  ponto 50. Felizmente,  nenhum policial   ficou ferido e esperamos que  os militares continuem em seu  árduo e perigoso trabalho de proteger a população. A outra notícia, e bem triste, foi o desmoronamento de uma gruta, na zona rural de Altinópolis, SP.  O teto desabou durante um treinamento de bombeiros civis e dos 10 soterrados, apenas um foi resgatado com vida. Pessoas valentes que se preparavam para  salvar vidas agora descansam em paz, no reino do céu.   Coisas boas também aconteceram inclusive em meu condomínio.

            Coisa boa sim, depois de meses plantando sementes de girassóis, felizmente uma vingou e abriu suas pétalas amarelas para saudar o astro rei dos céus. Plantei-o, num vaso do corredor de passagem dos moradores, próximo ao portão de saída. A aventura começou  na aquisição da semente.  Fui  à feira comprar  temperos e quando as vi, sendo vendidas a granel, pensei que  não germinariam, e roubei uma. Eu estava enganada, em poucos dias,  a terra foi rompida e uma folhinha verde apareceu, porém, o gato da vizinha,  usou o vaso como caixa de areia e a plantinha pereceu. De volta à feira, comprei  R$0,50 de sementes e, como  são leves, veio uma quantidade surpreende, suficiente para florir o quarteirão, se ele não fosse todo impermeabilizado. Foram semanas insistindo, lutando contra os gatos e as mãos inconvenientes dos transeuntes, mas finalmente, hoje ele floresceu.

            Meu pequeno herói da resistência, sim, ele é  o meu herói;  ele sobreviveu a forças dos ventos, excessos de chuva, gatos e “mãos leves”. Diz a sabedoria popular que a flor do girassol reflete  a energia positiva que emana do sol e também  traz felicidade. Verdade  ou  apenas crendice, eu não sei, fato é que o amarelo de suas pétalas deu vida ao corredor em contraste com o branco das paredes e cinza do piso.  A fase da espera do momento da  floração  da pequena plantinha já passou, agora  inicia-se  o momento de esperar pelas abelhas polinizadoras e uma  alegria imensa invade o meu coração ao saber que graças aos meus cuidados e carinhos, uma  solitária flor amarela, alegrará os olhos dos  pedestre e fornecerá alimentos as abelhas. Meu belo  herói,  torço para que  gatos e   pessoas malvadas não interrompam o seu ciclo natural.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Tipos de comunicação

           

            Os seres humanos são privilegiados por natureza porque são os únicos seres que possuem a  habilidade de  comunicarem-se   de duas maneiras: a analógica e a  digital. As duas possuem o mesmo grau de importância  e ao mesmo tempo se complementam e esta complementação é de grande valia no trato com crianças pequenas, doentes mentais e animais. Por comunicação analógica humana, entende-se toda comunicação  não verbal que inclui além dos movimentos corporais, também o tom da voz. A digital  é a linguagem falada  estabelecida por convenções  semânticas que são culturais e arbitrarias. Em toda comunicação há um conteúdo e uma relação. O conteúdo  dispõe de grandes chances de  ser transmitido digitalmente enquanto que a relação é analógica por natureza. Vale ressaltar que o desempenho dos computadores análogos e digitais também são diferente.  Nestas máquinas criadas pelo homem  também são percebidos dois modos básicos de comunicação; curioso é que fisiologistas e engenheiros da  informática chegaram a esta conclusão por caminhos diferentes e independentes, porém, o interessante é  que no sistema humoral dos organismos  naturais os meios de informações são as substâncias na corrente sanguínea, já  nos computadores analógicos assumem a forma de quantidades descontínuas  e positivas.   

            Observou-se que todo  comportamento possui valor de mensagem e está comunicando alguma coisa e que  até mesmo o  silêncio, um corpo parado com um olhar fixo estão  transmitindo  uma informação, que pode ser o desejo de ficar só, e que é entendido pelas pessoas presentes  e estas costumam respeitar o que também é caracterizado como um ato comunicativo. Até  mesmo, quando a pessoa está sozinha, ela está interagindo com os seus pensamento e devaneios, ou seja, está se comunicando. Concluindo:  Toda comunicação transmite uma mensagem e concomitante, um comportamento  e que o não comportamento, não existe.

domingo, 24 de outubro de 2021

Frases interessantes!

 “O segredo da felicidade não se encontra na busca por mais – mas sim no desenvolvimento da capacidade para desfrutar de menos.” – Sócrates, viveu em 450 a.C.



“As maiores bênçãos da humanidade estão entre nós e ao nosso alcance. Sábio é aquele que com pouco se contenta, seja o que for, sem desejar aquilo que não tem.” – Séneca, nascido no ano 4 a.C.


“Se está depressivo é porque está a viver o passado. Se está ansioso está a viver o futuro. Se está em paz está a viver o presente.” – Lao Tzu, viveu até por volta de 600 a.C. na China.

A felicidade é como uma borboleta; quanto mais a perseguir, mais irá fugir – mas se der atenção a outras coisas, a mesma irá acabar por pousar gentilmente no seu ombro” – Henry David Thoreau, nascido em 1817 em Massachussetts.

“Quanto
mais o homem meditar ao redor de bons pensamentos, melhor será o seu mundo e o mundo em geral.” – Confúcio, viveu na China por volta do ano de 500 a.C.


“O Homem que faz tudo o que leva à felicidade e depende de si mesmo e não de outro homem, adotou o melhor plano para viver feliz.” – Platão, viveu durante o séc. IV aC.

Nada de nada

 

NADA DE NADA

Conto de Kurt Kauter

 Conto adaptado de New Fables: Thus Spoke the Caribou,
de Kurt Kauter, e publicado na Revista Thot, nº 58, 1993.

 

     Sabes  me  dizer quanto pesa um floco de neve? Perguntou um pardal a uma pomba silvestre.

Nada de nada - foi a resposta.

Nesse caso vou lhe contar uma história maravilhosa – disse o pardal.

Eu estava sentado no ramo de um pinheiro quando começou a nevar.

Não era nevasca pesada ou furiosa. Nevava como em um sonho: sem ruído  nem violência, já  que não tinha nada melhor a fazer, pus-me a contar os flocos de neve que se acumulavam nos galhos e agulhas de meu ramo. Contei exatamente 3.741.952. Quando  o floco número

3.741.953 pousou sobre o ramo, nada de nada como você diz –  o ramo  se quebrou. Dito isso, o pardal partiu em vôo.

  A pomba, uma autoridade no assunto desde Noé, pensou um pouco na história e finalmente refletiu:  Talvez esteja faltando uma única voz para trazer responsabilidade ambiental ao mundo. Talvez a tua..                              .                                                                                                                              Disponível: http://www.comitepaz.org.br/Nada_de_nada.htm64 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Aventura em dia de vacinação

        As amigas octogenárias  Sara e Elif, foram juntas tomar   a primeira  dose da vacina  de Covid-19. Optaram pelo horário das  oito horas da manhã, queriam ser as primeiras a chegar, porém, todos os idosos pensaram a mesma coisa e encontrar um local para estacionar  não foi fácil. Tiveram que  utilizar o estacionamento de uma loja e não  notaram um rapaz sentado na porta do estabelecimento, com uma faca na mão. Desceram com a  dificuldade inerente à idade e só então perceberam o perigo a que estavam expostas e com  uma calma aparente que só o medo extremo é capaz de proporcionar,  Elif cumprimentou o  jovem e pediu-lhe   olhasse o veículo, pois na volta, lhe dariam “um trocado”.

          Esperaram na fila, aproximadamente  uma hora, e já  imunizadas, precisavam retornar ao estacionamento. Elif sugeriu que  Sara fosse  buscar o veiculo, e ela esperaria em frente ao  polo de vacinação,  si em 15  minutos ela não regressasse, chamaria a  Polícia.  Nada do que as  anciãs temiam aconteceu e felizes, retornaram ao condomínio  em que residiam confiantes que estavam  mais protegidas. A noite foi difícil para Sara. Dor no peito e no braço, não a permitiu dormir, mas como já  sofrera dois infartos, optou por não pedir socorro com medo de ser levada ao  hospital e contrair Covid-19, não queria correr o risco de   ficar entubada a mercê de tratamento experimental, e menos ainda, ser enterrada em caixão lacrado, sem a presença dos parentes   a lamentar a sua passagem, Elif,  sentiu dor no braço, cansaço e nada mais.

          Assustada com a experiência  do estacionamento,   no dia da segunda dose, Sara  escolheu outro  polo de vacinação, e desta vez, iria às doze horas, comércio aberto, mais fácil para pedir ajuda em caso de  outro encontro inesperado. Elif  aplaudiu  a  decisão da amiga. Foram obrigadas a estacionar na rua, a uns três quarteirões do local. Caminhavam felizes, observando  os jardins das casas quando Elif notou que Sara estava sem a máscara,  que provavelmente ficara no carro.  Retornaram sem pressa, e  quando estavam a  uns 20 metros do veículo, foram abordadas por uma simpática senhora que  indagou se elas  estavam procurando a chave do carro e antes mesmo que as perplexas senhoras respondessem que não, entregou-lhes o  chaveiro  e seguiu o seu  caminho sem  esperar  o agradecimento.

- Proteção divina!  Retornamos  pela máscara e encontramos a chave perdida, sem mesmo dar-nos conta que a havia perdido.  Exclamou Elif.

- Meu anjo da guarda nem piscou hoje, o que faríamos distantes de casa, sem dinheiro e cartão?  Realmente foi a  divina providência! Aleluia! Exclamou Sara.  Talvez pelo  horário, não enfrentaram  fila e na volta para casa, ultrapassaram a velocidade permitida; foram paradas, repreendidas e multadas por um guarda de trânsito, que as aconselhou a  utilizarem os serviços de táxi, era mais seguro para elas, para  os pedestres e  outros motoristas.

          Ao contrário de Sara, que na  2ª dose, nada sentiu, Elif  teve várias reações à vacina: cansaço, calafrio, enjoo, tosse, dor de garganta e febre de 38º, sofreu sozinha, durante dois dias.  Ao responder as mensagens da amiga, negava  com veemência  qualquer mal estar com medo de ser levada ao hospital e  receber um falso diagnóstico de Covid-19 e   tratamento inadequado  que a levaria a óbito. – É preferível uma morte solitária a ser lembrada pelos descendentes como a parente que  faleceu de Covid-19, durante a pandemia do coronavírus, nos anos de 2020/2021, suspirava resignada.

          Já protegidas com as duas doses, mas com receio de serem contaminadas por uma nova variante resistente à vacina, ambas  continuam usando máscaras e seguindo o protocolo recomendado pelo Ministério da Saúde. Elif não cansa de repetir: - A morte é a única certeza que tenho nesta vida, gosto de viver e não tenho pressa de partir. 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

O monstro da casa de janelas vermelhas

                

          Eram outros tempos!   A família de Rosalina estava de mudança   para a fazenda Barreiro, o seu primeiro pedaço de chão.  As terras foram  vendidas a um preço bem abaixo do mercado porque os antigos proprietários eram supersticiosos e acreditavam que o monstro que guardava o tesouro enterrado debaixo do assoalho da sala da casa  não os queria lá   porque não os deixava dormir  a noite.  De meia-noite às cincos horas da manhã, cancelas, porteiras, portas abriam e fecham incessantemente,  e  o som ensurdecedor de gritos de dor e de correntes sendo arrastadas,  obrigava os moradores a irem repousar com os animais no estábulo. Outro mistério que os intrigava era a  cor das janelas: vermelho sangue.   E inúmeras foram as tentativas de  pintá-las, não importava a cor utilizada, ao primeiro raio de sol,  o vermelho parecia ainda mais vivo. Era assustador!   Não havia explicação científica para o fenômeno, e o que a ciência não explica o povo se encarrega de fazê-lo, à sua maneira e muitas  histórias  eram contadas, mas não intimidaram João Francisco  Silveira e ele fechou  o negócio; era uma oportunidade única,  bom preço, terra boa, própria para a agricultura e criação de gado leiteiro. A  casa  era bem  grande, com  beira e eira,  quatro quartos, sala de visita, sala de jantar, cozinha, dispensa, quarto de despejo,  varanda e  alpendre, era bem velha, já tinha mais de cento e cinquenta anos, porém, atendia as necessidades da família que apesar de ser composta apenas de três  pessoas, precisava de  espaço para trabalhadores nos dias de marcação de gado, plantio,  colheita e visita de parentes. Ele estava satisfeito com o negócio e  a sua senhora, apavorada, já prevendo as dificuldades que enfrentaria na nova morada. Quanto  à filha do casal, em sua ingenuidade, estava ansiosa  para encontrar o tesouro enterrado e enfim, poder se cobrir de jóias como uma princesa dos contos de fadas.

          Naqueles idos tempos, na zona rural, o transporte mais seguro para fazer uma mudança era o carro de boi. Amigos e vizinhos foram chamado  e enquanto desmontavam móveis e embalavam os pertences, a matriarca da família seguiu  na frente, partiu logo ao amanhecer,  de charrete,  em sua companhia, ia a filha e a cunhada, para  limpar a casa, que já  estava desabitada há uns dois anos. Temerosas, as  duas mulheres ao adentrar  a casa, rezaram o terço, lavaram paredes e pisos com sal grosso, e plantam  no jardim, arruda,  espada de São Jorge, guiné, comigo ninguém. Também colocaram em todos os cômodo da casa, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida  para reforçar  a proteção. Não esqueceram o casal de gatos, e dois cestinhos confortáveis foram colocados na sala, para que os bichanos  absorvessem as energias negativas do ambiente. Ao entardecer, os homens  chegaram, lamparinas e velas foram acessas e  foi um alvoroço. Na cozinha, as mulheres preparavam a comida   enquanto os homens se encarregavam de  botar tudo no lugar e cuidar dos animais que estavam  cansados da viagem e assim foi até  a  estrela d’alva desaparecer  do céu. Os primeiros raios de sol aqueceram os  homens na estrada em retorno ao lar e  a família, enfim, pode repousar um pouco. Dormiram até o meio-dia, acordaram  com os cachorros latindo,  pareciam estar acuando  algum animal embaixo do assoalho. Sem demonstrar temor, João Francisco pegou a espingarda e foi ver do  que se tratava enquanto sua esposa passava as contas do rosário com  os dedos trêmulos  implorando  por proteção divina. Rosalina observava tudo com a curiosidade peculiar de toda criança, porém, não arriscava a  perguntar  o que estava acontecendo porque já sabia a resposta: - quieta, isto não é assunto para menina da sua idade. - O patriarca da família   foi em busca do inimigo, mas nada encontrou, concluiu que poderia ter sido um rato ou uma cobra que atiçara a cachorrada,  disparou uma vez para dispersá-los e retornou a sua sesta;   o dia transcorreu  sem maiores novidades  e na hora de irem dormir, a matriarca sugeriu que Rosalina dormisse com  o casal alegando  ser a primeira noite na casa e era melhor que todos estivessem juntos. Não foi necessário mais argumentos porque  não encontrou oposição da parte de seu esposo. Foi uma noite tranquila e ao amanhecer, o casal concluiu que as histórias não passavam de lendas rurais ou de intrigas dos inimigos para desvalorizar a propriedade.

          A primeira semana na fazenda não foi fácil, uma verdadeira romaria de vizinhos, com o pretexto de  levar  uma quitanda,  oferecer ajuda e amizade, e claro, alertá-los sobre o perigo de continuar na casa, o melhor seria que construísse outra, lá para as bandas do riacho,  e narravam à sua maneira, a tragédia que envolveu os primeiros proprietários,quando estes foram expulsos da região, acusados de envolvimentos com feitiçaria e segundo os mais antigos, o que agravou a situação foi o fato de terem criado um monstro para proteger o  seu tesouro, pois não acreditavam na honestidade dos homens, assim dizia o povo. No dia  em que a família foi expulsa,  o ancião amaldiçoou a casa  e ordenou  à sua cria, o monstro invisível, que  pintasse a janela com o sangue das vítimas inocentes que  tombaram  em decorrência da violenta desocupação, principalmente, que as mantivesse sempre com esta cor para que a  injustiça,  a qual foram alvo, jamais fosse esquecida. Também lhe ordenou  que nunca permitisse que algum aventureiro se apossasse de seu tesouro, que  estava destinado aos seus  descendentes da sétima geração. Assim dizia o povo, finalizavam  a narração. Rosalina não sentia medo  das histórias contadas pelos vizinhos, e a cada nova versão do fato, sua curiosidade aumentava, mas a mãe não lhe tirava os olhos e ela não podia investigar.  Por prudência ou   por falta de tempo, não se sabe, fato é que  os novos moradores não se aventuraram a procurar o tesouro nem a  pintar as janelas com outra cor e assim se transcorrem duas colheitas do algodoeiro na mais perfeita  harmonia. As  visitas diminuíram e a vida seguia o seu curso até o dia do vendaval que destelhou a casa, arrancou  as janelas e muitos outros estragos, então,  João Francisco decidiu que o melhor seria  uma reforma completa, contratou mão de obra especializada, comprou material  e deu início a reforma.

          Os trabalhos iam bem,   sem nenhum imprevisto  ou acontecimento sobrenatural, o medo desapareceu e em seu lugar surgiu  à ganância e o desejo de  enriquecimento rápido, os trabalhadores não pensavam em outra coisa, senão no tesouro enterrado e aproveitando o dia em que  os proprietários foram a  cidade comprar matérias que faltavam e mantimentos, eles deixaram o trabalho de lado, arrancaram as taboas do assoalho da casa, e puseram-se a cavar freneticamente com a força que somente uma ambição desenfreada é capaz de proporcionar. Após uns sete minutos de trabalho,  ouviu-se o primeiro grito de dor. O chefe dos trabalhadores parecia ter enlouquecido,  lutava com  um inimigo invisível, implorava que parassem de surrá-lo; quando     marcas de chibata surgiam em seus braços e rosto, sem que ninguém visse o seu algoz é que perceberam a gravidade da situação e  decidiram  socorro, porém, foram igualmente açoitados, e por mais que se esforçassem, não conseguiam  abandonarem o local.  O medo,  o susto  e as dores não os permitiam raciocinar e elaborar uma estratégia para fugir; até   o Afonso, que se dizia  ateu, clamou pela  ajuda divina e ela veio  pela boca do mais velho do grupo, que propôs  deixar tudo como estava e   partirem o mais rápido possível. Quando  bateram  o último prego no assoalho arrombado, o castigo cessou,  eles  pegaram suas ferramentas com a promessa de nunca mais retornarem, mas um corpo  mole, grande e invisível os impedia de avançar e por mais esforço que fizessem, não conseguiam dar um passo adiante, pareciam estar cercados. Apavorados com impossibilidade  de deixar o locar,  gritaram, esbravejaram, chutaram o imperceptível, imploraram e nada, clamaram providências divinas, mas nenhuma ajuda veio do céu. Após horas de esforços inúteis, optaram por retomar o trabalho  para que o patrão  não  percebesse  que tentaram encontrar o  tesouro escondido e os levassem as autoridades e   trabalharam  arduamente até o por do sol e aparentemente, esqueceram o assunto.

          Apesar dos protesto da esposa, João Francisco optou por   pintar a casa em estilo colonial, paredes brancas e janelas azuis. Os profissionais contratados recusaram   o serviço alegando alergia à tinta, inexperiência, entre outras desculpas esfarrapadas, que pudessem encobrir o temor  de novamente, provocar a ira do monstro invisível. Sem a mão de obra necessária, João Francisco  se  encarregou  da pintura deixando as janelas por último, que foram pintadas de azuis e azuis amanheceram. A notícia se espalhou rápido. A vizinhança  esqueceu os seus afazeres e marchou para uma visita especulativa e como fato não explicado é fato comentado, não demorou a que rumores sobre o fim da maldição  fosse o assunto mais discutido nas rodas de mexericos o que reacendeu o desejo  de uma verdadeira caça ao tesouro.  Um grupo de homens com espírito  aventureiro e pouca coragem, foram ao cartório certificar-se   que a atual  família não  era  a herdeira. Não foi difícil averiguar que  o nome  do construtor da casa era: João Pedro  Emiroglu e sem uma pesquisa  genealógica profunda, concluíram que os Silveiras não eram  descendentes do  primeiro proprietário, - “ era sim, o fim da maldição,” e sorriam satisfeitos, os vizinhos gananciosos.

          Para  roubarem o tesouro, era preciso afastar  a família, no mínimo, durante três dias. Dividiram-se  em dois grupos. Um formado pelos homens mais fortes e valentes  responsáveis pela caçada, que se ofereceriam para cuidar dos animais durante a ausência das famílias viajantes, e  o outro, dos   amáveis e festeiros, que  entreteriam  os Silveiras, o que não foi difícil porque  Zé Agripino tinha um filho  em idade de casar,  e o mais rápido que pode, providenciou uma noiva em um arraial distante, a um dia de viagem, e convidou João Francisco e a senhora para padrinhos, deixando claro que não aceitariam um NÂO como resposta. Tradicionalmente os casamentos se realizam na casa da família noiva, e  a véspera do enlace, metade da vizinhança partiu em seus  lentos carros de boi. Com o êxito do plano, o grupo dos  “valentes”, marchou  em busca de riqueza fácil.

          Cegados pela cobiça,  ignoraram o  retorno da cor vermelhas as janelas, como a alertá-los do perigo iminente e avançaram determinados a encontrar  o tesouro enterrado há  quase  dois séculos. Foram recebidos pelos dois cachorros perdigueiros, que agiam como verdadeiros cães de guarda. Á medida que iam se aproximando da porta da sala,  o barulho  dos cães ia ficando ensurdecedor, parecia uma verdadeira matilha  enfrentando uma fera perigosa. Nada disso os intimidou e  o  no instante em que o   Senhor Tião, o  chefe do grupo, pegou as ferramentas para tentar arrombar a fechadura, foram jogados a uns dez metros de distância, porém, não se renderam tentaram  novamente, e mais uma vez tiveram seu propósito frustrado. Na  sétima tentativa, não conseguiram mais avançar, pareciam cercados por milhares de    animais invisíveis que rosnavam furiosamente, impedindo-os de retomar o seu intento ou as suas casas.  A situação inusitada perdurou até a hora mágica do crepúsculo, quando um silêncio sepulcral caiu sobre  o local.  Cansados, sedentos e famintos,  conseguiram retornaram aos seus lares  e  pelo caminho,  discutiam  uma nova estratégia para vencer o inimigo invisível.

          Na alvorada do segundo  dia de tentativa de caça ao tesouro, os ambiciosos chegaram ao local  carregando não somente as ferramentas necessárias ao trabalho,  mas todos os amuletos de proteção encontrados em seus lares, nem a água benta da bisavó fora esquecida. Confiantes em seus patuás, não recuaram  diante do enorme monstro vermelho,  de mais de  setenta metros de comprimento, com aparência de uma cobra  píton-reticulada, que protegia a casa. Determinados a  conseguirem o tesouro a qualquer custo, decidiram que  atacariam  com as picaretas ao mesmo tempo  e assim, reduziriam a estranha criatura a mil pedacinhos em frações de segundos. Ledo engano!  Já no primeiro ataque, os homens perceberem que a luta não seria fácil, pois   eles sentiam as dores  decorrentes dos golpes; além de não conseguirem o seu intento, porque  o corpo da criatura parecia ser de fumaça, se viram obrigados  não só a recuar, mas também,  a  esquecer do tesouro. Para não admitir a derrota  perante os outros companheiros, alegariam que desistiram do plano   em respeito a um dos  Mandamentos da Lei de Deus “Não roubar”  e que temiam as chamas eternas do fogo do inferno.

          A família retornou  e encontrou  a casa branca  de  janelas azuis,  bastante empoeirada e  o cheiro de mofo era forte. A poeira sob os móveis, o odor desagradável, característico de ambiente sem ventilação, irritou a matriarca e junto com a filha, iniciaram uma faxina pesada e João Francisco, com receio que lhe incumbisse de algum reparo, alegou precisar vistoriar a propriedade para ver se  tudo estava em ordem e partiu para a lida no campo.  Rosalina ajudava no que podia, era  apenas uma criança de sete anos, enquanto trabalhava, pensava nas  histórias  sobre o tesouro e em como encontrá-lo. A água acabou e sua  mãe precisou ir  a nascente  para reabastecer  os potes, então, ela aproveitou para iniciar a sua busca. Não foi difícil, uma taboa do assoalho estava solta e assim que a retirou, surgiu em sua frente, um simpático e sorridente  monstrinho vermelho,  parecido com um  filhote de pítion-reticulada, que  se propôs ajudá-la. Ele sequer esperou que a criança se recuperasse  do susto decorrente do encontro inusitado, e já lhe indicou o local exato onde ela devia cavar. Ela pegou a picareta do pai e  começou a trabalhar. A terra estava dura,  suas mãos ficaram cheias de bolhas de água, o suor  escorria em seu rosto, mas uma força sobrenatural  a fazia prosseguir, e mais rápido do que o esperado, ela encontrou um pequeno  cofre,  retirou-o cuidadosamente, depois cobriu o buraco com  a terra, despediu-se do monstrinho que  a agradeceu por  tê-lo libertado da difícil missão  que lhe fora atribuída pelo seu criador e desapareceu no ar como fumaça.

          Rosalina não conseguiu abrir o cofre e  com medo da reação  da mãe que temia os mistérios do universo, escondeu-o  em seu quarto e  retornou aos seus afazeres  com a inocência de um bebê  em um sono profundo. O dia transcorreu sem outra novidade. Após o jantar, enquanto a mãe lavava a louça, a pequena, com a desculpa que vira  um bicho em seu quarto, pediu ao pai que fosse  retirá-lo. Ele não negou e adentrou  ao recinto    pronto para lutar contra qualquer inimigo para proteger a filha. A criança confessou que mentira  em relação a bicho, queria apenas contar-lhe o que havia acontecido em sua ausência, não esqueceu um só detalhe. João Francisco   fez que acreditou, acariciou-lhe os cabelos e disse  estar orgulhoso de ser pai de uma criança tão criativa, mas que já era hora dela dormir. Antes que o  seu genitor se retirasse, Rosalina  retirou  o cofre de seu esconderijo e  com as mãos trêmulas de emoção e curiosidade,  entregou-o ao pai. Estava trancado e eles não tinham a chave, mas  o matuto,  acostumado a resolver todos os problemas da propriedade, vasculhou a sua caixa de ferramenta e  após infrutíferas tentativas  conseguiu abri-lo. Em seu interior não havia  a riqueza esperada - O que  é isso papai, indagou a criança. – É um grande achado! O diário de João Pedro Emiroglu explicou o pai e ordenou que chamasse a mãe urgente. A esposa chegou irritada e  perguntou do que se tratava.  Ao ver o diário o ar lhe faltou, e quase  desfaleceu. As histórias da família  passaram em sua mente como um filme. Não pode  ser! Então  é verdade! Dizia a si mesma.  O marido a acomodou e indagou a razão de tamanha surpresa ao ver o diário.  -Eu  e minha filha somos descendentes do feiticeiro construtor desta casa onde moramos! Sou filha de  uma Emiroglu, fui registrada apenas com o nome paterno de  “Pereira” que posteriormente, com o casamento fora trocado para “Silveira.”     

           O diário,   descrevia a aventura  dos Emiroglus, a partir do momento em que foram obrigados a  deixar a Turquia em virtude de perseguições políticas; os perigos  durante a viagem a bordo  de um navio cargueiro,as dificuldades  na convivência com o povo de outra cultura, que falavam outra língua, os preconceitos enfrentados, as batalhas travadas para conseguirem as terras,  e principalmente,  o  imenso desejo de  que  a saga da família  exilada  não se perdesse nas brumas do tempo. Consultaram o parente mais velho da  Senhora,  e juntos, fizeram a árvore genealógica da família e  concluíram que Rosalina, era sim, a primeira descendente  da 7ª sétima geração do  imigrante João Pedro Emiroglu e  arquitetaram um plano  para  atender o pedido do  patriarca  Emiroglu:

-   A partir da filha, toda criança teria  nome composto, sendo o segundo, “Emiroglu”. Apesar de  já ter completado sete anos de idade, ainda não fora registrada em cartório,  e seria registrada como Rosalina Emiroglu da Silveira;

-  Fariam um testamento doando a terra onde viviam aos seus descendentes e que estas somente poderiam ser vendidas pelos  descendentes da 70ª geração de Emiroglu;

- As janelas  seriam sempre pintadas  de vermelho sangue;

- Manteriam viva a lenda do monstro acrescentando sempre um novo episódio horripilante a cada 25 anos;

- A história da trágica desocupação deveria  ser fielmente repassada, de geração a geração; coube a João Francisco  a responsabilidade de pesquisar a versão oficial da tragédia;

-  A cada nova geração, um membro se responsabilizaria pela escrita de um diário, que após a sua morte, deveria ser enterrado junto ao primeiro;

- Como não encontraram a fórmula usada por João Pedro que possibilitou a criação do monstro, usariam  de toda a tecnologia  existente para   assombrar  os hóspedes, sempre na última noite  em que dormiriam na fazenda e assim, manteriam viva as lendas, afastariam possíveis compradores e invasores de terra;

- Todos manteriam em segredo o plano.

Enfim, João Pedro Emiroglu pôde descansar em paz! A terra que ele tanto amou   e pela qual tanto lutou, permaneceria na família  por  mais 70 gerações. Lá do céu, abençoou os seus descendentes!