Era uma vez uma civilização que inventou a democracia, lapidou a filosofia e moldou os alicerces do pensamento ocidental — mas que torcia o nariz para quem sujava as mãos de barro, metal ou suor. Na Grécia arcaica, entre vasos decorados e discursos inflamados na ágora, floresceu um costume que hoje soaria estranho num país que preza pelos “empreendedores de si mesmos”: a desvalorização sistemática do trabalho manual.
A cidade-estado, a
tal polis, era regida por um ideal muito específico de
cidadão: homem livre, proprietário de terras, com tempo suficiente para
argumentar contra si mesmo nas assembleias e para recitar versos antes do
jantar. Não por acaso, o ócio — scholé, raiz da palavra “escola” — era
considerado a matéria-prima da virtude. A vida boa exigia tempo livre, e tempo
livre exigia, naturalmente, que outro fizesse o trabalho pesado.
Esse “outro” era
quase todo mundo: escravos, metecos, artesãos. Pessoas que mantinham Atenas de
pé — literalmente — mas que, ironicamente, eram excluídas da vida política por
estarem ocupadas demais garantindo que a máquina pública funcionasse. O
ferreiro que forjava armas não podia decidir se a polis devia entrar em guerra.
A oleira que produzia ânforas para exportação não podia votar sobre como usar o
dinheiro arrecadado. E o carpinteiro que construía trirremes não tinha direito
a sentar-se no banco da assembleia que ordenava sua partida ao mar.
Platão não apenas
concordava — institucionalizou o preconceito. Para ele, em sua República,
um artesão jamais deveria governar: faltava-lhe a “natureza adequada” para as
tarefas da alma. Aristóteles, sempre mais pragmático, selou o veredito: quem
trabalha com as mãos não alcança “virtude plena”. Em outras palavras: produzir
objetos era útil, mas não nobre.
Curioso é que
Atenas, modelo de cidade “pensante”, vivia justamente do trabalho daqueles que
desvalorizava. A cerâmica ateniense viajava o Mediterrâneo; os artesãos
mantinham um ritmo industrial digno de revolução, mas sem o reconhecimento. A
polis, afinal, era erguida por mãos que o discurso oficial preferia invisíveis.
Se hoje olhamos
para trás com certo espanto, talvez seja porque herdamos — mais do que
gostaríamos — esse velho vício cultural: o de exaltar quem pensa e desconfiar
de quem faz. Não é preciso muito esforço para perceber que a distinção entre
“trabalho intelectual” e “trabalho braçal” ainda aparece, aqui e ali, como um
eco incômodo desse passado.
A Grécia nos deu
Sócrates, mas também nos deu o conceito de “trabalho indigno”. De um lado, o
louvor à palavra, ao raciocínio, ao debate. De outro, a suspeita de que mãos
calejadas não carregam sabedoria suficiente para opinar sobre o destino da
cidade. É como se a antiga aristocracia grega continuasse soprando nos ouvidos
modernos: pensar é para poucos; fazer é para outros.
E talvez a crônica
termine onde começa o embaraço: no reconhecimento de que a civilização que
tanto admiramos também errou — e que o erro, disfarçado de tradição,
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