Hoje me pego pensando na complexidade — e na beleza
— dos festejos natalinos. É curioso como uma data que celebra o nascimento de Jesus
Cristo, um homem judeu que viveu há mais de dois mil anos na Palestina,
acabou se transformando numa das maiores festas da humanidade. E, como quase
tudo no calendário, o Natal é menos uma criação isolada e mais um mosaico de
tradições que o tempo insistiu em costurar.
Celebrar aniversários, por exemplo, não nasceu no
presépio. Os egípcios antigos já festejavam o nascimento dos faraós como
se celebrassem a chegada de uma divindade. Os gregos, sempre poéticos,
ofereciam à deusa Ártemis um bolo redondo adornado com velas — símbolo
da luz que ascendia ao céu. Os romanos, práticos como eram, decidiram
que não só os deuses, mas também os mortais mereciam a honra de ter seu dia
lembrado.
E aí chegamos ao Natal. Mas não antes de fazer uma
parada enigmática na figura que mais brilha nos shopping centers: Papai Noel.
Antes de vestir o traje vermelho e abraçar a carreira de porta-voz da Coca-Cola,
ele foi outra coisa.
Muito antes do “Ho, ho, ho”, havia Odin, o
deus nórdico que cavalgava pelos céus durante o solstício de inverno montado em
Sleipnir, seu cavalo de oito patas. As crianças deixavam alimentos em suas
botas para alimentar o animal. Mas veio o avanço do cristianismo na Europa, e
com ele a proibição das festividades pagãs. A solução? Substituir Odin por um
santo mais palatável: Nicolau de Mira, o bispo generoso que ajudava os
pobres e, segundo a lenda, jogou moedas pela chaminé de uma casa para garantir
o dote de três jovens. O gesto deu origem ao costume dos presentes que
descem pelos telhados.
Séculos depois, já nos anos 1930, a Coca-Cola
desenhou o bom velhinho de roupa vermelha, bochechas rosadas e sorriso de
propaganda. Assim se consolidou o Papai Noel que hoje conhecemos — um híbrido
improvável de um deus nórdico, um bispo turco e uma campanha publicitária
norte-americana.
Mas o Natal vai muito além desses cruzamentos
culturais. Ele se expressa também nos símbolos que ocupam nossas casas,
cada qual carregando uma história que persiste:
- A árvore de Natal, sempre-verde, lembra a
vida que resiste ao inverno e a esperança que insiste em ficar.
- A estrela, no topo, aponta o caminho
— como a Estrela de Belém guiou os Magos.
- As velas representam a luz divina
que rompe as trevas.
- Os anjos, mensageiros, reforçam a
proteção.
- Os sinos anunciam alegria.
- A guirlanda na porta simboliza
boas-vindas e continuidade.
- A ceia reafirma a comunhão.
- A Missa do Galo, tradição que remonta à
Idade Média, marca a passagem simbólica da noite para o nascimento da luz
— e celebra o encontro da fé com a madrugada.
·
O conjunto do presépio
·
Representa
a humildade do nascimento de Jesus e a ideia de que o sagrado pode
nascer nos lugares mais simples. É um símbolo de paz, acolhimento e
humanidade.
Nada disso aconteceu de uma vez. Foram milênios
de histórias, crenças e ressignificações que se empilharam até formar aquilo
que hoje chamamos simplesmente de “Natal”.
E é assim que dezembro se torna um mês paradoxal:
religioso para uns, cultural para outros; turístico para cidades que investem
em luzes; econômico para quem depende de vendas; afetivo para quem reencontra
família; reflexivo para quem revisita memórias.
No fim das contas, celebrar o Natal é abrir espaço
para tudo isso ao mesmo tempo — e aceitar que a festa que homenageia um menino
judeu nascido no Oriente acabou se tornando um espetáculo global,
multicolorido, e talvez por isso mesmo tão humano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário