sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Devaneio I

  •                        Os anos pesam e pesam mais quando se envelhece sozinha. A velhice é o momento de colher as sementes plantadas na infância, adolescência e início da maturidade quando ainda se tem a ilusão de quês é dono do mundo  e não aceita que um dia as forças irão sumir  e não cultiva   os relacionamentos familiares e sociais  e quando é o tempo da colheita, o que  encontra nos campos  apenas a terra seca e rachada da solidão e para não enlouquecer ou entrar em um processo depressivo, muitas pessoas   entregam-se atividades que antes nem  imaginavam que executariam com prazer como cuidar de plantas, criar um  cachorro, um gato ou um pássaro.
  •             Para abrandar a solidão, retiram da matilha o  cão  e tratam-no como uma pessoa da família, não poupam esforços, carinho e  dinheiro para proporcionar o bem estar do bichinho. Mas a felicidade do animal será realmente sincera?  A  impossibilidade de exercitar o  instinto natural de sobrevivência entre a espécie na busca pela sobrevivência está de fato adormecida  ou os latidos são mais de saudade do que de alegria?  Penetrar  na alma dos  animais domesticados é o sonho daquelas  pessoas que amam a liberdade  e preferem cuidar do jardim para atrair borboletas. Estes são questionamentos  oriundos da experiência  de seis meses em quarentena.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

198 anos da Independência do Brasil

                    07 de setembro de 2020,   faz exatamente  198 anos que  o então Imperador do Brasil, Dom Pedro I, às margens do rio Ipiranga, bradou em nome de sua honra e de seu Deus, o famoso grito: “Independência ou Morte”. A participação da Imperatriz Dona Leopoldina  no episódio foi  esquecida pelos autores de livros didáticos, tanto que muita gente  tomou conhecimento do valor da princesa austríaca através da filatelia e da novela. Como estaria hoje o país se  ainda fossemos colônia de Portugal? Mais pobre ou mais rico? Quais seriam os valores que norteariam os cidadãos? Será que a  violência contra a mulher teria alcançado o topo das estatísticas?

Nunca saberemos. A única certeza é  o coronavírus teria adentrado ao país, a mudança seria no enfretamento da pandemia, mas o intruso seria o curso natural.

domingo, 16 de agosto de 2020

Diário da quarentena - 150º dia

  1.                           14 de agosto de 2020, completa cinco meses que estou em quarentena e eu decidi que não mais permanecei em isolamento social porque ouvi noticias preocupantes de que há   seis linhagens de coronavírus em atividade  e de várias pessoas que foram reinfectadas. Diante desta dura realidade, o melhor  a fazer é aprender a conviver com a Covid-19   já que não nos livraremos dele tão cedo e a chegada da vacina não é uma certeza que estaremos imunes. Já estou trabalhando minha mente para aceitar  como perene os  hábitos  higiênicos  rigorosos e do uso permanente de máscara e o mais importante: manter distanciamento social e persistir com uma alimentação saudável para não quebrar a balança e desencadear outros problemas de saúde.
  2.             Foram cinco meses difíceis em que  os dias pareciam tão iguais e olhar o calendário para organizar a agenda da semana já não era necessário porque a rotina era sempre a de domingo, sem hora para levantar e fazer as refeições e cuidar dos afazeres domésticos.  Os primeiros dias foram  bem produtivos, já que passei envolvida com a limpeza interior dos armários, depois de tudo limpo, organizado, maratona de leitura e filmes, e exausta com as  mensagens das redes sociais, o tédio chegou e  o sentimento que eu tinha era de estava apenas esperando a morte chegar. Morrer é uma certeza,  e por esta razão, eu não tenho o  menor interesse em  apressar a minha vida. Apesar das dificuldades inerentes as pessoas da classe média baixa, da qual faço parte, gosto de viver e sou apaixonada pela magia da criação divina e deixar  esta beleza  rumo a incerteza do pós-morte não me apetece, que minha hora demore a chegar e que eu  saudável e lúcida ainda possa desfrutar por muitos anos deste paraíso terrestre e sem coronavírus.
  3.             Não sei quando chegaremos a  cor azul, se é que vai chegar,anseio por ela, sinto falta da academia, das atividades culturais, principalmente da Av. Paulista aos domingos, lugar democrático, onde não precisa de dinheiro para arejar a cabeça, uma garrafinha de água e sapatos confortáveis são o suficiente para  um passeio agradável. Sinto saudades da minha  agenda anterior à pandemia, cada dia da semana, uma atividade com hora marcada, tudo bem organizado. Por ora isto não acontecerá porque as atividades destinadas a terceira idade estão suspensas.
  4.             A  vida em suspensão chega ao fim hoje, sairei para olhar vitrine, ficar  na fila para entrar no shopping, passear de Metrô, ir a igreja  e  tudo o que estiver aberto ao público em geral. Chega de quarentena, da vida   arrastando  em ritmo de tartaruga apesar de o  relógio indiferente ao sofrimento das vítimas da pandemia,  continuar a marcar as horas. As vezes penso  que o não –fazer-nada compulsório  prejudicou tanto a economia do país como o estado emocional do brasileiros e o que nos restou foi sonhar com um futuro próximo  sem violência e virulência.
  5.             Não sentirei saudade  saudades destes 150 dias  em que a rua esteve interditada para mim, topograficamente ela estava lá, mas  o meu caminhar estava restrito as quatro paredes de minha casa, e as notícias chegam a mim pela televisão e não pelo boca a boca tradicional de vizinhos e  parentes. A pandemia transformou nossas casas em uma Arca de Noé e cá estamos a esperar a pomba trazer  a bandeira azul do fim das  restrições,  eu não esperarei, a vida espera por mim lá fora e lá vou eu com responsabilidade, preservando a minha vida e dos outros transeuntes.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Diário da quarentena - 149º dia

                  

          Hoje foi  mais dia como outro qualquer de quem está em quarentena , atividades relacionadas a cuidado com a casa, alimentação e pagamento de contas, a quebra na rotina deu-se em virtude da carona que o vizinho ofereceu e não aconteceu. Deixe de ir ao mercado para esperá-lo para levar-me ao local que vende  sacos de terra  por um preço mais acessível e ele  não apareceu o que causou-me uma ansiedade grande. É triste a gente depender das pessoas para carregar nossos pacotes. A velhice chega para todos que não ficam pelo meio do caminho e com ela, a fraqueza, as forças vão embora por mais que tentamos manter atividades  física e os afazeres domésticos.  O peso dos anos é implacável.

            Espero que amanhã ele esteja disponível, estou ansiosa para terminar os canteiros para plantar as sementes,  que irão florir na primavera e com elas chegarão as borboletas para encantar os meus olhos cansados de olhar para as paredes  da casa. Já não tenho mais esperanças do retorno de minha  antiga rotina porque já ouviu notícias de pessoas que foram reinfectadas  quatro vezes. Diante deste novo panorama, presumo que não há uma esperança a vista e que a  vacina irá amenizar o problema e não acabar com ele. Será que  em um futuro próximo, teremos que tomar  anualmente vacina conta a Covid-19?

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Diário da quarentena - 148º dia

  1.                            Hoje, 12 de agosto de 2020, quarta –feira, temperatura  24º , umidade relativa do ar 73, parei para pensar o quanto eu tenho que agradecer a Deus pela situação privilegiada  em que me encontro  desde que teve início a quarentena. Eu estava acostumada com a liberdade de ir e fui obrigada a ficar em casa por pertencer ao grupo de risco, de início, reclamei muito, pensei que fosse  entrar em depressão e após esses quase cinco meses  em isolamento social, percebo que tenho somente a agradecer porque eu estou  sozinha e protegida  em minha casa, desfrutando do conforto que é ter  energia e água potável e poder pagar as contas sem abdicar de alimentos e tantos estão aglomerados em barracos menores que a minha casa, sem saneamento básico conta de luz cortada e faltando alimento  na dispensa, produtos de limpeza. Ainda desfruto da facilidade que é ter  uma lavadora de roupas e o melhor é que ainda tenho saúde e posso fazer as compras, tenho condição de pagar um  motorista de aplicativo, se precisar, portanto devo agradecer a Deus, em casa sim, mas com saúde . Gratidão!
  2.             A pandemia agravou os problemas enfrentados  pelas mulheres vítimas de violência doméstica porque passaram a ter uma convivência estrita e longa  com o agressor, aumento das tarefas domésticas e a  falta de mantimentos  nos armários; quando a fome e a incerteza batem a porta, o respeito e o amor desaparecem e o juramento  do dia do casamento, “na alegria e na dor”  é esquecido. As estatísticas comprovam  que durante a pandemia   o feminicídio aumentou em 22% em doze estados brasileiros. Eu tenho grande de dificuldade  em entender o que  leva um homem a assassinar uma mulher  pelo simples fato de ser mulher. Todo homem nasce de uma mulher, é neto de  duas, pode ser sobrinho de várias, ter várias primas, irmãs, ter uma esposa e ser pai de uma menina, e se chegou a   idade adulta foi  graças aos cuidados femininos,  no Brasil, a cada 7 horas,  uma mulher  fecha os olhos definitivamente, vítima do homem que  um dia disse que a amava.  Graças a Deus, esta barbárie nunca aconteceu em minha família e  agradeço a  Deus por esta benção e peço proteção  a  Nossa Senhora de San Juan de los Lagos  que  proteja todas as mulheres vítimas de violência doméstica e agradeço à Virgem  a benção de ter nascido em uma família pacífica e honrada.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Diário da quarentena -147º dia

  •                           Viver sempre foi perigoso, porém, agora parece que está mais. Como se  não bastasse a pandemia do coranavírus, a explosão no porto   em Beirute, o explosão no encanamento de gás nos Estados Unidos,  o tresloucado em São Paulo, que atacou os trabalhadores em uma reforma do apartamento ao lado  do dele  com gás de pimenta, o assassinato a sangue frio de três militares e  meliantes a dar com rodo, ainda ouço mais está: jogadores de futebol, já curados da Covid-19,   testaram positivo novamente. Tínhamos a esperança que  uma vez contraído  a doença estaríamos livres do pesadelo, agora  constatamos que é apenas a primeira etapa do  pesadelo, assim, nós do grupo de risco  nunca mais   sairemos de casa tranquilos. Por essa eu não esperava! Que saudades de minha vida de outrora,  do tempo em que eu sentava na calçada para tomar  a fresca e ter um dedo de prosa com vizinhos e transeuntes.

Diário da quarentena- 146º dia

  1.                  Hoje eu saí para fazer uma caminhada sem compromisso com o tempo e foi maravilhoso! Antes da pandemia,  eu nunca tinha percebido que o ato  natural de caminhar é   prazeroso, antes, era apenas um ato mecânico  para ir ao mercado, a igreja, em visitas e atividades de lazer, mas depois de cinco meses privada do meu direito  de ir e ir  eu percebi o valor  da liberdade  e o quanto o andar areja a cabeça, fortalece os músculos e melhora o equilíbrio  físico e mental. Pela primeira vez, percebi a importância dos meus pequenos pés, que sustentam o  peso do meu corpo e levam-me para onde  eu quero, sem medo de tropeçar e cair, apenas com o desejo de chegar a algum lugar porque partir é bom mas retornar ao ponto de partida é melhor ainda. Doravante, a cada amanhar agradecerei a Deus por estar viva e poder desfrutar deste prazer gratuito, de poder tomar decisão como  sair sem destino apenas pelo movimento do corpo, pelo frescor da  manhã e deixar que  meus olhos desfrutem livremente da beleza das árvores, da arquitetura e das vitrines das lojas. São tantas as opções que um simples caminhar  proporcionam que  estou  perplexa por não ter percebido antes estes pequenos prazeres.
  2.             A pandemia fez   a humanidade dar  uma desacelerada  no ir e vir da labuta diária  em busca do pão de cada dia, como também mostrou que sem trabalho  não há  alimento na mesa e que é necessário apenas encontrar um  meio termo, nem tanto ao céu e nem tanto a terra. Equilíbrio! Esta é a palavra chave, mas quando a fome chega o estômago grita, a tendência natural é ir para  um dos extremos da vida o que propicia  o desencadeamento de tragédias. Como ser forte  e equilibrado quando falta comida na mesa. Nestes cinco meses de caminhada em busca da cura para a Covid-19, centenas de cientistas debruçaram sobre o tema   enquanto que milhares de pessoas inescrupulosas  empenharam- se em  ganhar dinheiro de maneira ilícita.  Mas por ora, tudo o que desejo é escolher um novo ritmo   para o meu caminhar, e desfrutar apenas dos pequenos prazeres de observar as folhas secas sendo levadas pelo vento tradicional de agosto, as nuvens  brancas formando figuras   em contrastes com azul anil do céu de inverno, ouvir o sons característicos da grande metrópole e tudo  sem deixar de observar se não há por perto um meliante à espreita.