Mal sabia eu que estava prestes a iniciar uma verdadeira jornada tecnológica.

Passei aproximadamente uma semana tentando entender os caminhos daquele site. Foram horas diante da tela do computador, entre cliques, dúvidas e tentativas frustradas. Quando a paciência já ameaçava pedir aposentadoria antes da minha colega, recorri ao atendimento telefônico do INSS. Passei horas com o celular no ouvido, aguardando que alguém, do outro lado da linha, tivesse a gentileza de me explicar o que eu não conseguia descobrir sozinha.

Finalmente, encontrei o bendito ícone para obter a procuração.

Vencida essa etapa, fui à lan house. Imprimi uma cópia colorida e outra em preto e branco, para que ela pudesse treinar o preenchimento antes de fazer o documento definitivo. Depois, passei pela papelaria, comprei um envelope e coloquei tudo dentro, devidamente organizado. Minha colega estava passando alguns dias na casa da neta, e eu queria deixar tudo preparado para quando voltasse.

Enquanto isso, minha pasta de dente especial acabou. Como ela estava fora e eu precisava de uma, pedi que comprasse uma para mim. Ela gentilmente atendeu ao pedido.

Quando nos encontramos, ela me entregou a pasta de dente acompanhada da respectiva nota fiscal. Eu, por minha vez, entreguei-lhe o envelope com as duas cópias dos documentos.

Foi nesse momento que alguma coisa começou a incomodar meus pensamentos.

Ela me entregou a nota da pasta de dente. Eu lhe entreguei, gratuitamente, o resultado de uma semana de trabalho, horas de pesquisa, telefonemas, deslocamentos e despesas com impressão e envelope.

Não que eu esperasse pagamento pelo favor. Longe disso! Mas fiquei pensando: será que sou uma pessoa boba, que se desdobra para facilitar a vida alheia, sem sequer considerar o próprio tempo? Ou será que estou diante de alguém tão preocupada em não deixar escapar um centavo que não percebe o valor do tempo e da disposição dos outros?

Confesso que fiquei chateada. E, depois de alguma reflexão, tomei uma decisão: não voltarei a pedir favores a essa colega e, daqui para a frente, pensarei duas vezes antes de me desdobrar para resolver os problemas dela.

Lembrei-me, então, de um ensinamento do meu padrinho: tudo na vida precisa ser uma via de mão dupla; uma mão lava a outra.

É claro que não devemos transformar a solidariedade em contabilidade, anotando cada gentileza em um caderninho para cobrar posteriormente. Mas também não precisamos confundir generosidade com disponibilidade ilimitada. O tempo de quem ajuda tem valor, mesmo quando não vem acompanhado de uma nota fiscal.

E aqui chego à questão que gostaria de compartilhar com você, caro leitor: será que estamos nos tornando uma sociedade tão preocupada em contabilizar os próprios direitos que nos esquecemos de reconhecer os pequenos gestos de quem nos estende a mão?

Devo aderir ao mundo da mesquinharia, no qual até a gentileza parece exigir recibo, ou continuar fazendo o bem sem olhar a quem?

Talvez exista uma terceira possibilidade: continuar sendo solidária, mas aprender a escolher melhor onde e com quem empregar nossa boa vontade.

Afinal, fazer o bem não deveria exigir pagamento. Mas reconhecer o bem recebido também não deveria ser tão caro.