quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Brasil venceu a fome? A realidade de quem ainda precisa contar o dinheiro para comer

 

Chegando mais um domingo de eleição. E lá vou eu, diante da difícil tarefa de escolher entre o ruim e o pior, tentando descobrir em qual deles ainda resta alguma esperança. Mesmo não sendo obrigada a votar, irei às urnas. Afinal, se não posso mudar o mundo, talvez possa, ao menos, tentar impedir que ele continue caminhando na direção errada. Gostaria que o futuro da nação encontrasse uma luz no fim do túnel — de preferência, antes que alguém resolva cobrar ingresso para vê-la.

Enquanto penso nos candidatos, minha memória me leva a um assunto bem menos grandioso do que as promessas de campanha, mas infinitamente mais urgente: a comida que chega à mesa do pobre.

Sempre fui pobre. Por isso, não preciso de estatísticas sofisticadas para falar das dificuldades de quem precisa fazer malabarismos com o dinheiro para chegar ao fim do mês. Tenho minha própria história, e ela me ensinou que a pobreza não se mede apenas pelo saldo bancário. Mede-se também pelo tempo que se perde trabalhando, pelas refeições que se substituem por lanches e pelos desejos que, de tanto serem adiados, acabam parecendo luxos.

Houve um tempo em que eu trabalhava em dois empregos para conseguir pagar as contas e fazer quatro refeições dignas por dia. Dinheiro na carteira, eu até tinha. O que me faltava era tempo para desfrutar daquilo que o dinheiro deveria proporcionar.

Eram quatro conduções por dia, que se multiplicavam entre terminais integrados, trens, baldeações e caminhadas apressadas. Eu atravessava a cidade para ganhar o sustento, enquanto o relógio parecia empenhado em me lembrar que a vida não esperava por ninguém. Quando chegava a hora de comer, quase sempre não havia uma mesa posta, mas um lanche improvisado, engolido entre uma obrigação e outra.

Eu tinha dinheiro para comprar comida, mas não tinha tempo para saboreá-la.

Um dia, resolvi fazer uma escolha: deixei um dos empregos. Queria recuperar um pouco da vida que passava depressa demais, sem que eu pudesse acompanhá-la. Ganhei tempo, é verdade. Mas o dinheiro diminuiu, e o supermercado passou a me ensinar uma nova modalidade de economia: comprar não aquilo de que se gosta, mas aquilo que cabe no bolso.

Aprendi a frequentar as prateleiras das promoções com a atenção de quem procura um tesouro. O produto preferido tornou-se secundário; o preço, esse sim, ganhou o privilégio de decidir. A liberdade de escolha, tão celebrada nos discursos, terminava diante da etiqueta vermelha.

Agora, mais velha, reduzi as despesas ao essencial. Faço três refeições por dia, e até o horário do jantar foi estrategicamente escolhido. Não se trata de organização alimentar, como talvez dissesse algum especialista. É uma questão de sobrevivência doméstica: preciso jantar tarde o suficiente para que o estômago não reclame muito antes de dormir.

E um copo de leite antes de deitar? Seria reconfortante. Mas, diante dos preços, até a simplicidade adquiriu ares de artigo de luxo.

É curioso como a vida nos ensina a diminuir os sonhos. Primeiro, queremos uma casa confortável. Depois, desejamos viajar, conhecer lugares, comprar roupas sem culpa. Com o tempo, se a renda não acompanha as necessidades, os sonhos vão encolhendo até caberem no orçamento.

O meu, hoje, é quase constrangedor de tão modesto: gostaria de fazer quatro refeições por dia, comendo o que gosto, e não apenas aquilo que posso pagar.

Gostaria de entrar numa pizzaria, escolher meu sabor preferido e pedir uma pizza sem precisar fazer contas mentais antes de chamar o garçom. Queria convidar amigos para jantar, preparar uma mesa variada, oferecer um café da tarde com bolo, biscoitos,  e outras pequenas delícias que tornam a convivência mais gostosa.

Mas o que tenho a oferecer?

Não é que me falte vontade de receber. Falta-me a folga financeira para transformar a vontade em realidade. E há uma tristeza discreta em perceber que, às vezes, a gente deixa de convidar as pessoas não por falta de afeto, mas por falta de condições de compartilhar aquilo que gostaria de colocar sobre a mesa.

A picanha, por exemplo, faz anos que não marca presença em minha casa. Talvez tenha encontrado residência mais confortável em algum programa eleitoral, onde aparece com frequência, acompanhada de promessas generosas e discursos suculentos. Na minha cozinha, porém, ela parece ter perdido o endereço.

Enquanto isso, ouvimos falar de governos populares, de avanços sociais e de vitórias históricas contra a fome. Reconheço que políticas públicas podem melhorar a vida de muita gente e que a pobreza não se combate apenas com discursos de oposição. Mas também me pergunto: se a fome foi vencida tantas vezes nos pronunciamentos oficiais, por que ainda há brasileiros que precisam organizar o dia em função da próxima refeição?

São milhares, talvez milhões, de pessoas que conhecem essa realidade de perto. Gente que trabalha, que trabalhou durante décadas, que pagou suas contas como pôde e que, na velhice, descobre que a aposentadoria nem sempre garante sequer a tranquilidade de comer sem preocupação.

A fome nem sempre aparece nas fotografias dramáticas que costumam ilustrar as campanhas de conscientização. Às vezes, ela mora numa casa arrumada, numa geladeira com o básico, numa despensa que dura até o fim do mês porque seu dono aprendeu a calcular cada porção. Não faz barulho nas ruas. Faz contas dentro de casa.

E há uma ironia dolorosa nisso tudo: o cidadão passa a vida trabalhando para conquistar o direito de viver com dignidade, mas, quando finalmente consegue algum tempo para si, descobre que lhe falta dinheiro para usufruí-lo. Trabalha para comer; depois, economiza na comida para pagar as contas. E, se ousa desejar um pouco mais, corre o risco de ser acusado pela própria consciência de estar querendo demais.

No domingo, diante da urna, pensarei em tudo isso.

Não espero que um presidente resolva, por decreto, todos os problemas do país. Sei que governar é complexo e que a pobreza tem raízes profundas. Mas espero, ao menos, que os candidatos compreendam que combater a fome não significa apenas garantir que alguém tenha alguma coisa para colocar no prato. Significa permitir que as pessoas comam o suficiente, com qualidade, sem viver permanentemente sob a ameaça de faltar.

Significa também devolver ao trabalhador e ao aposentado o direito de planejar a vida sem que cada desejo seja submetido a uma auditoria financeira.

Talvez eu esteja pedindo muito. Afinal, querer quatro refeições dignas, um café da tarde variado ou uma pizza do sabor preferido parece pouco diante das grandes questões nacionais. Mas é justamente aí que mora o problema: quando as necessidades básicas se tornam sonhos, alguma coisa está profundamente errada.

No próximo domingo, votarei com a esperança que ainda me resta e com a desconfiança que os anos me ensinaram a cultivar. Não quero escolher um salvador da pátria, muito menos acreditar em milagres de palanque. Quero escolher alguém que entenda que a economia de um país não se mede apenas por gráficos, índices e discursos comemorativos, mas também pelo que acontece nas cozinhas de seus cidadãos.

Porque a fome não desaparece só porque alguém anuncia sua extinção. E a dignidade não se conquista com um slogan.

Quanto a mim, continuarei fazendo minhas contas, escolhendo os produtos em promoção e adiando a pizza. Mas, ao apertar os números da urna, levarei comigo uma pergunta que não cabe em nenhum jingle eleitoral:

De que vale um país anunciar que venceu a fome se tantos brasileiros ainda precisam aprender a conviver com ela?

E, se algum candidato quiser conhecer a resposta, não precisa organizar uma grande cerimônia nem contratar uma pesquisa de opinião. Basta sentar-se à mesa de um aposentado, abrir a geladeira e perguntar o que ele gostaria de comer — e por que não come.

Talvez, nesse momento, descubra que o Brasil real não está apenas nos palanques, nas estatísticas ou nas promessas de prosperidade.

Está também no prato vazio de desejos que o dinheiro não permite realizar.

E eu, que já trabalhei tanto para ter uma vida melhor, ainda sonho com o dia em que poderei entrar numa pizzaria, escolher meu sabor preferido e comer sem fazer contas.

Não é um sonho grandioso. Mas, pelo preço das coisas e pela distância entre as promessas e a realidade, parece que estou exigindo um banquete presidencial.

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