terça-feira, 11 de agosto de 2026

As mulheres que incomodaram a história

 


Há mulheres que passam pela história.

E há mulheres que fazem a história tropeçar.

Talvez seja por isso que algumas nunca tenham recebido o devido reconhecimento enquanto estavam vivas. A sociedade costuma ser generosa com mulheres depois que elas morrem. Mortas, tornam-se homenagens. Fotografias. Nomes de ruas. Estátuas. Frases bonitas.

Vivas, entretanto, incomodam.

Dona Beja incomodou.

Cora Coralina incomodou.

Nise da Silveira incomodou.

Irena Sendler incomodou.

Zilda Arns incomodou.

Joenia Wapichana incomodou.

Maninha Xucuru-Kariri incomodou.

Cada uma à sua maneira, em seu tempo, em seu território, enfrentou alguma espécie de porta fechada.

E talvez seja justamente aí que essas histórias deixem de pertencer ao passado.

Porque as portas continuam existindo.

Mudaram apenas de aparência.

Dona Beja aprendeu cedo que uma mulher pode ser vítima e, ainda assim, ser julgada como culpada.

Aos quinze anos, depois de uma história de violência e abandono, voltou para Araxá. Mas a sociedade não enxergou primeiro a menina que havia sofrido. Preferiu enxergar a mulher bonita, sedutora, perigosa.

É uma velha habilidade social: quando não sabemos o que fazer com a dor de uma mulher, transformamos sua dor em culpa.

Dona Beja sobreviveu.

E sobreviveu de uma maneira que não cabia exatamente nos moldes que esperavam dela. Construiu sua trajetória, criou as filhas, mudou-se para Bagagem e seguiu a vida. Hoje, seu nome está definitivamente ligado à memória de Araxá.

Talvez a história tenha tentado transformá-la em lenda porque não soube lidar com a mulher.

Cora Coralina nos ensina outra coisa: o tempo também pode ser um preconceito.

Quem disse que uma pessoa precisa realizar seus sonhos aos vinte, trinta ou quarenta anos?

Cora publicou seu primeiro livro aos 75.

Setenta e cinco.

Há algo quase insolente nessa idade para quem vive numa sociedade que transforma juventude em passaporte para tudo.

Cora chegou tarde?

Não.

Chegou quando pôde.

E talvez essa seja uma das maiores crueldades que cometemos contra nós mesmos: acreditar que perdemos o momento certo simplesmente porque ainda não aconteceu.

Nise da Silveira também poderia ter escolhido o caminho mais confortável.

Não escolheu.

Foi uma das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil e a única mulher entre 157 homens de sua turma. Mais tarde, enfrentou perseguição política, prisão e um sistema psiquiátrico que ela ajudaria a transformar.

Em vez de enxergar apenas doença, procurou enxergar pessoas.

Em vez de aceitar respostas prontas, procurou outras possibilidades.

E talvez seja justamente isso que mais assuste numa mulher: uma mulher que pensa por conta própria.

 

Irena Sendler fez o que parecia impossível em um dos períodos mais sombrios da humanidade. Zilda Arns transformou o cuidado com crianças pobres em uma grande ação social.

Uma enfrentou a guerra.

Outra enfrentou a miséria.

Nenhuma das duas tinha o luxo de esperar que o mundo melhorasse sozinho.

E talvez seja essa a parte mais difícil de admitir:

O mundo quase nunca muda porque alguém pediu educadamente.

Muda porque alguém insistiu.

Joenia Wapichana e Maninha Xucuru-Kariri acrescentam outra camada a essa história.

Porque há mulheres que precisam lutar não apenas contra o machismo, mas também contra o preconceito, contra o apagamento de seus povos e contra a velha ideia de que alguns lugares pertencem naturalmente a determinadas pessoas.

Joenia chegou ao Direito, ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso.

Maninha liderou a defesa do território e da identidade de seu povo.

São histórias que lembram uma coisa elementar, embora frequentemente esquecida: representação não é favor.

É direito.

E nós?

Nós continuamos aqui.

Na segunda-feira, reclamando do trânsito.

Na terça, cansados.

Na quarta, adiando alguma decisão.

Na quinta, prometendo que amanhã será diferente.

Na sexta, fazendo contas para descobrir onde foi parar a semana.

E talvez seja justamente nesse cotidiano aparentemente pequeno que essas mulheres tenham alguma coisa a nos dizer.

Não precisamos salvar uma cidade.

Não precisamos entrar para os livros de história.

Não precisamos ser extraordinários.

Mas talvez precisemos parar de aceitar como destino aquilo que é apenas repetição.

Há uma diferença enorme entre não poder mudar e ter medo de mudar.

Entre estar preso e permanecer na mesma porta porque ela se tornou conhecida.

Entre não ter escolha e não querer pagar o preço de escolher.

Talvez seja essa a parte amarga de lembrar mulheres como Cora, Nise, Zilda, Irena, Joenia, Maninha e tantas outras.

Elas nos tiram algumas desculpas.

Porque, quando alguém atravessa uma época inteira lutando contra o impossível, fica um pouco mais difícil justificar nossa própria acomodação.

Mas não é uma cobrança.

É um convite.

O passado não precisa ser uma sentença.

Pode ser apenas um lugar de onde finalmente aprendemos alguma coisa.

A semana vai terminar.

Outra vai começar.

E nós continuaremos repetindo os mesmos gestos, as mesmas reclamações, os mesmos medos, se nada fizermos.

Ou podemos experimentar uma pequena desobediência.

Uma conversa que nunca tivemos.

Um projeto que sempre adiamos.

Uma porta que finalmente abrimos.

Uma vida que decidimos começar a viver de maneira diferente.

Talvez seja isso que essas mulheres deixaram como herança.

Não a obrigação de sermos heroicos.

Mas a coragem de não sermos completamente submissos às circunstâncias.

Porque algumas mulheres passaram pela história.

Outras enfrentaram a história.

E algumas tiveram a ousadia de dizer que a história estava errada.

Talvez seja por isso que ainda falamos delas.

E talvez seja por isso que, nesta semana, devêssemos prestar atenção não apenas às mulheres que mudaram o mundo.

Mas àquela mulher — conhecida ou desconhecida — que, em algum lugar, está tentando mudar o próprio mundo.

Às vezes, é assim que uma revolução começa.

Sem plateia.

Sem aplausos.

Numa manhã qualquer.

Quando alguém finalmente decide:

“A minha história não precisa terminar onde disseram que terminaria.”

 

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