2026 chegou cercado de promessas. Para a numerologia, é ano um: tempo de começos, de sementes lançadas ao solo que hão de frutificar ao longo de nove anos. Para a tradição chinesa, é o ano do Cavalo de Fogo, símbolo do movimento, da marcha firme, do galope decidido — seja no compasso elegante de um mangalarga, seja na velocidade explosiva de um quarto de milha.
Mas, como acontece há décadas, o projeto pessoal para o novo ano permanece inalterado. Não envolve dinheiro, títulos acadêmicos ou grandes conquistas. É mais simples — e, paradoxalmente, mais difícil: manter a casa limpa e organizada.
A protagonista desta crônica vive em meio à sujeira e à desordem. Não convida ninguém para um café rápido; teme o constrangimento, o olhar de reprovação, o nojo silencioso. Usa sapatos fechados para esconder os pés descuidados, unhas longas e sujas, enquanto, da cintura para cima, faz questão de estar limpa, perfumada, socialmente apresentável. A imagem pública está preservada; o espaço íntimo, não.
Ela sabe o que deseja. Tem clareza mental. Quer uma casa limpa, livros lidos, comida fresca no prato, rotina minimamente saudável. Tempo, ela tem. O que falta não é conhecimento nem oportunidade — é disposição. Arroz frio substitui refeições quentes. Pão seco ocupa o lugar de um ovo simples, enquanto alimentos estragam na geladeira. Vai à ginástica, mas sem esforço suficiente para gerar resultado. O posto de saúde oferece atendimento gratuito, mas ela não vai. Compra vitaminas e esquece de tomar.
O quadro não é raro — e tampouco é preguiça, como muitos insistem em rotular.
Na psicologia, esse fenômeno é amplamente estudado e recebe diferentes nomes conforme a abordagem. Uma das chaves explicativas é a dissociação entre intenção e ação, comum em quadros de depressão leve, distimia e transtornos relacionados à motivação. A pessoa sabe o que deve fazer, deseja fazer, mas não consegue iniciar ou sustentar o comportamento. A energia psíquica está comprometida.
Na psiquiatria, fala-se em anergia, abulia ou anedonia comportamental — estados em que o corpo obedece, mas a vontade não comparece. Não se trata de tristeza constante, mas de um esvaziamento silencioso da capacidade de agir em benefício próprio.
Há ainda um fator emocional decisivo: cuidar dos outros exige menos confronto interno do que cuidar de si. Resolver a vida alheia oferece sensação imediata de utilidade, pertencimento e controle. Olhar para a própria casa, o próprio corpo, os próprios sonhos exige encarar frustrações antigas, culpas acumuladas e a dolorosa sensação de tempo perdido. É mais confortável orientar do que agir; comentar do que transformar.
Esse comportamento também se associa ao chamado autoboicote, um mecanismo inconsciente de proteção. Ao não começar, a pessoa evita a possibilidade de falhar. Enquanto o sonho permanece no campo da intenção, ele ainda é perfeito. Ao agir, ele se torna vulnerável.
A protagonista reconhece, com lucidez desconcertante, aquilo que mais a incomoda: “Sou boa para xeretar a vida dos outros, tenho solução para tudo, mas não resolvo nada da minha.” Essa percepção não é fraqueza — é ponto de partida.
Neste ano auspicioso, ela deseja construir algo concreto: participar de grupos de convivência, cuidar da casa, do corpo, das relações. Quer deixar um legado simples e raro — o de alguém fácil de conviver, presente nas horas de necessidade, prova viva de que a idade não impede novos começos. Quer, finalmente, escrever o romance sonhado desde a infância, registrar as histórias colhidas pelos caminhos, transformar escuta em palavra.
A semente está escolhida. O solo, preparado. Falta o gesto inicial.
A psicologia comportamental ensina algo tão simples quanto desconcertante: a motivação não precede a ação — ela nasce dela. Não se espera vontade para agir; age-se para que a vontade apareça. Um prato lavado hoje. Um ovo frito amanhã. Um passo curto, repetido, sem heroísmo.
E você, caro leitor, que talvez se reconheça nessas linhas, tem alguma sugestão para romper o ciclo da procrastinação e praticar um dos ensinamentos mais antigos — e mais difíceis — da vida adulta?
Porque, no fim das contas, o cavalo só entra em movimento quando alguém decide soltar as rédeas.