sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Antiga Grécia e o Desprezo Pelo Trabalho Manual

 

Era uma vez uma civilização que inventou a democracia, lapidou a filosofia e moldou os alicerces do pensamento ocidental — mas que torcia o nariz para quem sujava as mãos de barro, metal ou suor. Na Grécia arcaica, entre vasos decorados e discursos inflamados na ágora, floresceu um costume que hoje soaria estranho num país que preza pelos “empreendedores de si mesmos”: a desvalorização sistemática do trabalho manual.

A cidade-estado, a tal polis, era regida por um ideal muito específico de cidadão: homem livre, proprietário de terras, com tempo suficiente para argumentar contra si mesmo nas assembleias e para recitar versos antes do jantar. Não por acaso, o ócio — scholé, raiz da palavra “escola” — era considerado a matéria-prima da virtude. A vida boa exigia tempo livre, e tempo livre exigia, naturalmente, que outro fizesse o trabalho pesado.

Esse “outro” era quase todo mundo: escravos, metecos, artesãos. Pessoas que mantinham Atenas de pé — literalmente — mas que, ironicamente, eram excluídas da vida política por estarem ocupadas demais garantindo que a máquina pública funcionasse. O ferreiro que forjava armas não podia decidir se a polis devia entrar em guerra. A oleira que produzia ânforas para exportação não podia votar sobre como usar o dinheiro arrecadado. E o carpinteiro que construía trirremes não tinha direito a sentar-se no banco da assembleia que ordenava sua partida ao mar.

Platão não apenas concordava — institucionalizou o preconceito. Para ele, em sua República, um artesão jamais deveria governar: faltava-lhe a “natureza adequada” para as tarefas da alma. Aristóteles, sempre mais pragmático, selou o veredito: quem trabalha com as mãos não alcança “virtude plena”. Em outras palavras: produzir objetos era útil, mas não nobre.

Curioso é que Atenas, modelo de cidade “pensante”, vivia justamente do trabalho daqueles que desvalorizava. A cerâmica ateniense viajava o Mediterrâneo; os artesãos mantinham um ritmo industrial digno de revolução, mas sem o reconhecimento. A polis, afinal, era erguida por mãos que o discurso oficial preferia invisíveis.

Se hoje olhamos para trás com certo espanto, talvez seja porque herdamos — mais do que gostaríamos — esse velho vício cultural: o de exaltar quem pensa e desconfiar de quem faz. Não é preciso muito esforço para perceber que a distinção entre “trabalho intelectual” e “trabalho braçal” ainda aparece, aqui e ali, como um eco incômodo desse passado.

A Grécia nos deu Sócrates, mas também nos deu o conceito de “trabalho indigno”. De um lado, o louvor à palavra, ao raciocínio, ao debate. De outro, a suspeita de que mãos calejadas não carregam sabedoria suficiente para opinar sobre o destino da cidade. É como se a antiga aristocracia grega continuasse soprando nos ouvidos modernos: pensar é para poucos; fazer é para outros.

E talvez a crônica termine onde começa o embaraço: no reconhecimento de que a civilização que tanto admiramos também errou — e que o erro, disfarçado de tradição,

 

História das festas de aniversário

  

É quarta-feira, o meio da semana que costuma nos lembrar que o tempo corre sem pedir licença. E talvez seja justamente sobre isso que falamos quando pensamos nas festas de aniversário: o tempo, sua passagem e a forma como escolhemos celebrá-lo.

As origens dessas comemorações remontam ao Egito Antigo, quando faraós eram homenageados não pelo nascimento físico, mas pelo dia em que se tornavam divindades. Os gregos, por sua vez, acendiam velas em bolos de mel para honrar Ártemis, a deusa da lua — gesto que atravessou séculos e hoje se traduz no ritual de soprar velas e fazer um pedido. Já os romanos foram pioneiros em estender a celebração aos cidadãos comuns, acreditando que presentes e votos de felicidade serviam como proteção contra espíritos malignos.

O cristianismo, inicialmente reticente, acabou por abraçar a ideia ao celebrar o nascimento de Cristo. A partir do século XIX, sobretudo na Alemanha, as festas de aniversário ganharam o formato que conhecemos: bolo, velas, presentes e a reunião de amigos e familiares.

No Ocidente, o simbolismo permanece forte. O bolo é mais que sobremesa: é oferenda, é centro da festa. As velas representam luz e esperança. Os presentes, desde Roma, carregam o sentido de bons augúrios. E a reunião social, talvez o mais importante dos elementos, reafirma que viver é também pertencer.

Assim, cada aniversário é mais que uma data no calendário. É rito de passagem, celebração da identidade e lembrança de que, apesar da pressa dos dias, há sempre espaço para parar, cantar “parabéns” e brindar à vida.

No meio da semana, entre compromissos e rotinas, pensar na origem das festas de aniversário é quase um convite: que tal celebrar não apenas o dia em que nascemos, mas também cada instante que nos faz sentir vivos?


sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Entre Serpentes e Orações

 


Na periferia, onde o chão é de terra e as noites são povoadas por sons que não vêm apenas dos vizinhos, mas da própria natureza, aprendi que viver é estar sempre em estado de alerta. Não se trata de metáfora: as serpentes que cruzaram meu caminho não eram símbolos de traição, mas criaturas reais, silenciosas e certeiras.

A primeira, uma jibóia jovem, mostrou-me que o “bafo da jibóia” não é lenda. O sopro que ela lançou foi aviso e milagre ao mesmo tempo: tive tempo de correr, sem olhar para trás, como quem foge não apenas de um animal, mas da própria morte que se insinua.

Meses depois, uma cobra-coral, tão bela quanto letal, deslizou diante de mim. O som da vassoura e o movimento do meu corpo foram suficientes para que ela se afastasse. A beleza da natureza, às vezes, é também sua armadilha.

Ontem, o encontro foi com uma cobra-cipó, escondida entre folhas secas caídas da mangueira. A lei proíbe queimadas, mas quem recolhe folhas sabe: entre elas pode estar o bote certeiro. E chamar Bombeiros ou Polícia Ambiental é quase um ritual inútil — quando chegam, a serpente já encontrou outro esconderijo.

A vida na periferia é trincheira. Dormir numa casa térrea é vigiar como soldado: um olho aberto, outro fechado, porque o inimigo pode ser uma barata, um rato, um escorpião ou uma serpente que insiste em nos expulsar do próprio quintal.

E é nesse cenário que a fé se torna escudo. São Bento, com sua oração contra os perigos invisíveis e visíveis, é o santo a quem recorro. Não apenas para afastar o mal espiritual, mas para me dar coragem diante da natureza que, embora sábia e necessária, também é implacável.

Entre folhas secas e noites tensas, aprendi que cautela é sobrevivência, mas fé é descanso. Só ela permite que, por alguns segundos, eu cochile em paz, acreditando que há uma proteção maior do que qualquer cerca ou vassoura: a celestial.

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

A memória das mãos


Hoje, como quem desperta de um sonho antigo, vi o poder secreto da memória das mãos.
Essas mãos, que outrora aprenderam a dobrar o papel em origami, guardaram em seus nervos e músculos um saber que minha mente já não alcançava. Durante anos, ensinei a outros essa arte delicada, como quem semeia estrelas no silêncio, acreditando que o conhecimento não deve morrer com seu detentor, mas florescer nos mais jovens, perpetuar-se como chama que não se apaga.

Mas o tempo, esse escultor invisível, afastou-me dos discípulos e apagou da mente os passos da dobradura. Restou-me apenas o desejo, próximo ao Natal, de criar uma decoração original. Tentei, e falhei. Cinco vezes, o pensamento se fechava em brumas, e eu rogava às minhas mãos que lembrassem. E foi então que, após longos minutos de insistência, elas, como sacerdotisas silenciosas, revelaram o segredo. O origami renasceu perfeito, não pela mente, mas pela carne que recorda.

A ciência, em sua linguagem fria e luminosa, confirma este mistério: escrever à mão, manipular objetos, repetir gestos, tudo isso desperta uma sinfonia de conexões cerebrais, uma dança entre regiões do cérebro que não se acende quando apenas digitamos. Há, portanto, uma memória tátil, muscular, sensorial — uma memória das mãos. Elas sabem, mesmo quando o pensamento se perde.

E eu, diante da dobradura renascida, senti-me feliz como criança. Desejo que este Natal seja um instante de beleza, que os enfeites brilhem como constelações dentro da precariedade da minha morada, há mais de trinta anos clamando por uma pintura. Que o contraste entre o brilho das formas e a aspereza das paredes me traga paz no coração e prosperidade na vida.

Assim, compreendo: reter é perecer, compartilhar é frutificar. O gesto que se transmite, a dobra que se ensina, a palavra escrita à mão — tudo isso é eternidade.
E minhas mãos, fiéis guardiãs, provaram que a memória não é apenas da mente, mas também da carne, do sangue, do nervo.
São elas que, em silêncio, perpetuam o saber, como se fossem as asas invisíveis da al
ma.

sábado, 15 de novembro de 2025

O Silêncio da República

 

Acordei às 4h50, não por insônia, mas pelo canto dos passarinhos — os únicos que ainda parecem lembrar que o dia começou. Enrolei pela casa, saboreando o frescor da madrugada, esse raro alívio que antecede o calor abrasador do sol. Ao deitar,  apesar do calor não  é prudente deixar  uma janela aberta. Há ladrões por toda parte, como sombras à espreita, prontos para tomar o que não lhes pertence com a facilidade de quem já perdeu o medo.

Às seis, varri a calçada. Fiz questão de começar antes que o sol a tocasse, porque ele já não acaricia — ele castiga. Queima como brasa, e às vezes me pergunto se a Terra não é apenas um estágio preparatório para o inferno. O suor escorre, o corpo reclama, mas o espírito... o espírito hoje amanheceu triste.

Era 15 de Novembro. Data da Proclamação da República. Um marco, um rompimento, uma promessa de liberdade e cidadania. Mas na rua, só eu e os passarinhos. Nenhuma bandeira, nenhum hino, nenhuma criança com cartolina colorida. Nenhum sinal de que somos — ou deveríamos ser — uma República.

O poder público silente. A educação, ausente. A mídia, entretida com ofertas de feriado. E o povo? O povo segue o feriado como quem segue um domingo qualquer. Dorme até mais tarde, reclama do calor, compartilha memes. Mas não se pergunta: por que hoje é feriado?

E então me pergunto: qual o sentido de parar a economia, se não há consciência do motivo?

Qual o valor de um dia cívico, se não há civismo?

Uma nação que não celebra sua história está condenada a esquecê-la. E quem esquece o que foi, não sabe o que é — muito menos o que pode ser.

A República, sem memória, vira apenas um nome em papel timbrado. Sem celebração, sem reflexão, sem educação, ela se esvazia. Vira rotina burocrática, vira feriado sem alma. E nesse vazio, cresce o desinteresse, a ignorância, o descaso. Cresce o risco de perdermos o pouco que conquistamos.

Hoje, a rua estava vazia. Mas o silêncio dela gritava. Gritava que estamos falhando. Que estamos deixando de ser República, para sermos apenas um aglomerado de gente que não se reconhece como povo.

Alguém pode me responder: qual o sentido de um feriado cívico, se ninguém se importa com a razão dele existir?

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O espelho negro

 

Na penumbra do quarto, onde o tempo se dissolve como névoa, repousa o objeto que me consome: um retângulo de luz, um espelho negro que me hipnotiza. Ele não reflete meu rosto, mas projeta sombras — imagens fugidias, sons ocos, histórias que se repetem como ecos em um abismo. Quatro horas por dia, talvez mais. Não sei ao certo. O tempo, esse velho senhor de bengala, já não caminha ao meu lado. Ele corre, escorrega, desaparece.

O vício que não tem nome

Não é droga, não é álcool, não é jogo. É pior. É o nada disfarçado de tudo. Tento impor limites: quinze minutos, prometo. Mas o tempo ri de mim. Quando desperto, já se passaram duas horas. E eu? Eu não lembro de nada. Nenhum nome, nenhuma ideia, nenhum afeto. Apenas o torpor. A anestesia da alma. O celular é meu altar e meu cárcere. Nele, não há transcendência — só ruído.

A casa, o corpo, o espírito

Minha casa está imunda. O chão, testemunha silenciosa da minha ausência. O arroz com arroz é meu banquete diário. Livros jazem fechados, como túmulos de sabedoria que não ouso profanar. A lição de casa, esquecida. A vida real, um borrão. E eu? Eu não sou criança. Já vivi sete décadas. Sete ciclos lunares completos. Mas agora sou como uma marionete sem cordas, caída no palco, esperando que alguém a recolha.

O teatro grotesco

Os vídeos que vejo são como máscaras de carnaval — grotescas, previsíveis, vulgares. Artistas renomados e religiosos se despem, não de roupas, mas de dignidade. Falam de dejetos, de sexo casual, de dores banais. E eu assisto. Eu rio. Eu me anestesio. Como quem toma um gole de veneno e chama de remédio. E o pior: estou viciada. Tento me libertar, mas as correntes são feitas de pixels e promessas vazias.

O desejo de ser útil

Se não posso ser útil a alguém, ao planeta, ao tempo que me resta... que ao menos eu consiga prestigiar quem ainda resiste. Quem ainda cria com seriedade, com beleza, com propósito. Que eu consiga, ao menos, olhar para o alto — para além da tela — e lembrar que há estrelas. Que há poesia. Que há vida.

Porque, no fundo, ainda há uma chama. Fraca, trêmula, mas viva. E talvez, só talvez, ela ainda possa iluminar o caminho de volta.


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

A Praia Que Nunca Foi Minha

 

Hoje, ao deslizar os olhos pelas redes sociais, tropecei numa foto da Praia Grande. A cidade do litoral sul paulista, plana como um suspiro, com a Serra do Mar ao fundo, verde e azul em eterna harmonia. E ali, entre pixels e lembranças, fui tragado por uma saudade que não era só da paisagem — era daquilo que nunca vivi de verdade.

Lembrei dos ventos fortes que varriam as calçadas, da serração que escondia o horizonte, do cheiro salgado que grudava na pele e do som do mar que embalava os dias. Lembrei do comércio farto, das feiras livres, dos peixes com gosto de oceano. Alguns eu até comprava, mas mais com os olhos do que com a boca. Aposentado, o apetite é mais sonho do que realidade. Nunca há dinheiro suficiente para saborear as iguarias que a cidade oferece. E mesmo assim, havia a ilusão — doce e cruel — de que morar na praia era sinônimo de felicidade. Era poder. Era liberdade.

Mas que liberdade é essa que não permite desfrutar da própria rua? Dos quiosques belíssimos que só se admira de longe, como quem olha vitrines de um mundo que não lhe pertence? Das atividades culturais que se escondem nos cantos periféricos, oferecidas por centros de convivência e igrejas que cobram pouco, mas ainda assim cobram? Ter e não poder. Viver e não sentir. Praia Grande me deu guarida por cinco anos, mas nunca me deu pertencimento.

Reconheço: a cidade oferece muito. Mas há algo maior que vive dentro de mim — e que nenhuma vista para o mar consegue calar. A solidão. A ausência de alguém em quem confiar. A falta de importância. Nunca fui importante, nem para os meus pais. Às vezes penso que, se tivesse morrido na infância, teria sido apenas uma boca a menos para alimentar. Fiz terapia, mudei de cidade, tentei construir laços, formar uma família, ser alguém que fizesse falta. Mas se eu morresse agora, neste exato momento, talvez ninguém notasse.

A solidão, essa amiga do peito, me acompanhou por tantas andanças que acabei voltando à terra natal. E lá, descobri que o esquecimento já havia feito morada. Não faço falta. Não sou lembrança. Sou silêncio.

Por isso, ao ver aquela foto da Praia Grande, senti saudade da geografia — da planície, da serra, do mar. Mas não das pessoas. Porque viver sem conviver é uma sina triste. E há paisagens que, por mais belas que sejam, não conseguem preencher o vazio de não ser esperado por ninguém.