Sob o céu abrasador de um amanhecer quente, a rotina desdobrava-se numa monotonia inexorável. Era o cenário de uma vida marcada pela parcimônia, onde o café da manhã limitava-se a pão com margarina e o aroma do café caro tornava-se um luxo inalcançável. A repetição evocava memórias de uma juventude desprovida, em que o pão seco era o único companheiro de um chá feito das folhas humildes do quintal. A fome, companheira inseparável nas salas escolares, intensificava-se ao contraste do cheiro da sopa ou do chocolate, destinados apenas a alguns.
Ao retornar ao lar, a mesa não oferecia mais que arroz e feijão, repetidos à exaustão no almoço e na janta. Verduras do quintal apareciam ocasionalmente, adicionando um toque de verde à árida paisagem alimentar. Cada vestígio de lazer ou vaidade era sacrificado em prol de um patrimônio que hoje se encontra fora de alcance.
As roupas passavam de mãos em mãos, de irmãs mais velhas às mais jovens, enquanto os cadernos e livros eram apagados e reutilizados, ecoando os anos de escassez. Cortes de cabelo improvisados e a ausência de adereços tornavam a igreja o único refúgio possível, ainda que, tantas vezes, faltasse a moeda para a coleta.
A dor do injustiçado ressoava de forma pungente: o suor da primeira esposa e dos filhos, sua abnegação, foram transformados em benefícios para uma segunda união e seus herdeiros. Uma legislação que traça linhas insensíveis desfaz o que outrora foi erguido com sacrifício. Aquilo que advém de histórias passadas não deveria ser compartilhado com o novo cônjuge, mas sim reservado ao que foi conquistado em esforço mútuo — embora este seja raro, frente à velha prática de enriquecer por matrimônio.
Somente quem carrega o peso de ver os frutos de sua luta desfeitos pode compreender a dor visceral que isso acarreta. E, como se não bastasse, governos sem direção agravam as feridas, retirando do trabalhador até mesmo o merecido descanso da aposentadoria. Assim, a dor perpetua-se, invisível e gritante, na alma daquele que ainda acredita na justiça.