quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A vida que me chama e eu finjo não ouvir

 


A frase está anotada, não em papel — papel exige gesto — mas na cabeça. E gesto é coisa rara. Repito como quem reza sem fé, esperando que a repetição se torne movimento. Mas ela volta, intacta, como se tivesse medo de descer para o corpo.

Aprendi cedo a ser discreta. A invisibilidade é uma arte que se pratica com rigor: não incomodar, não ocupar espaço demais, não pedir. É uma forma segura de continuar viva. Só que continuar viva não é o mesmo que viver.

Na pandemia, o mundo se recolheu. Eu também. Septuagenária, fiquei um ano dentro de casa. Nenhum irmão, nenhum sobrinho. Apenas o síndico e Dona Israélia, a porteira, confirmavam que eu ainda existia. O silêncio foi tão absoluto que parecia uma prova: não sou nada para ninguém.

Hoje, a luta não é contra a falta de oportunidades. É contra elas. Elas me chamam e eu recuso. O celular me anestesia por seis horas seguidas. A biblioteca está ao lado, mas não entro. As aulas de ginástica são gratuitas, mas não vou. Tenho tempo, internet, desejo antigo de aprender outro idioma — e não tenho gesto.

Critico os outros porque o movimento deles me fere. Odeio gente mal arrumada, talvez porque eu mesma saiba que abandono também é uma forma de desleixo, só que invisível.

O corpo melhorou um pouco com vitaminas. A alma, não. Porque o problema não está no ferro. Está no vínculo.

E vínculo não se compra em farmácia. Ele se constrói no olhar, no gesto mínimo, no testemunho de que alguém nos vê. Talvez seja isso: ser vista. Nem que seja por dez minutos na biblioteca, ou por três linhas escritas sobre o dia.

Não é sobre vencer a apatia. É sobre não deixar que ela decida tudo sozinha.

E, apesar de tudo, ainda estou aqui. Isso, por si só, já é uma forma de resistência.

 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Quando cuidar dos outros é mais fácil do que cuidar de si

 

2026 chegou cercado de promessas. Para a numerologia, é ano um: tempo de começos, de sementes lançadas ao solo que hão de frutificar ao longo de nove anos. Para a tradição chinesa, é o ano do Cavalo de Fogo, símbolo do movimento, da marcha firme, do galope decidido — seja no compasso elegante de um mangalarga, seja na velocidade explosiva de um quarto de milha.

Mas, como acontece há décadas, o projeto pessoal para o novo ano permanece inalterado. Não envolve dinheiro, títulos acadêmicos ou grandes conquistas. É mais simples — e, paradoxalmente, mais difícil: manter a casa limpa e organizada.

A protagonista desta crônica vive em meio à sujeira e à desordem. Não convida ninguém para um café rápido; teme o constrangimento, o olhar de reprovação, o nojo silencioso. Usa sapatos fechados para esconder os pés descuidados, unhas longas e sujas, enquanto, da cintura para cima, faz questão de estar limpa, perfumada, socialmente apresentável. A imagem pública está preservada; o espaço íntimo, não.

Ela sabe o que deseja. Tem clareza mental. Quer uma casa limpa, livros lidos, comida fresca no prato, rotina minimamente saudável. Tempo, ela tem. O que falta não é conhecimento nem oportunidade — é disposição. Arroz frio substitui refeições quentes. Pão seco ocupa o lugar de um ovo simples, enquanto alimentos estragam na geladeira. Vai à ginástica, mas sem esforço suficiente para gerar resultado. O posto de saúde oferece atendimento gratuito, mas ela não vai. Compra vitaminas e esquece de tomar.

O quadro não é raro — e tampouco é preguiça, como muitos insistem em rotular.

Na psicologia, esse fenômeno é amplamente estudado e recebe diferentes nomes conforme a abordagem. Uma das chaves explicativas é a dissociação entre intenção e ação, comum em quadros de depressão leve, distimia e transtornos relacionados à motivação. A pessoa sabe o que deve fazer, deseja fazer, mas não consegue iniciar ou sustentar o comportamento. A energia psíquica está comprometida.

Na psiquiatria, fala-se em anergiaabulia ou anedonia comportamental — estados em que o corpo obedece, mas a vontade não comparece. Não se trata de tristeza constante, mas de um esvaziamento silencioso da capacidade de agir em benefício próprio.

Há ainda um fator emocional decisivo: cuidar dos outros exige menos confronto interno do que cuidar de si. Resolver a vida alheia oferece sensação imediata de utilidade, pertencimento e controle. Olhar para a própria casa, o próprio corpo, os próprios sonhos exige encarar frustrações antigas, culpas acumuladas e a dolorosa sensação de tempo perdido. É mais confortável orientar do que agir; comentar do que transformar.

Esse comportamento também se associa ao chamado autoboicote, um mecanismo inconsciente de proteção. Ao não começar, a pessoa evita a possibilidade de falhar. Enquanto o sonho permanece no campo da intenção, ele ainda é perfeito. Ao agir, ele se torna vulnerável.

A protagonista reconhece, com lucidez desconcertante, aquilo que mais a incomoda: “Sou boa para xeretar a vida dos outros, tenho solução para tudo, mas não resolvo nada da minha.” Essa percepção não é fraqueza — é ponto de partida.

Neste ano auspicioso, ela deseja construir algo concreto: participar de grupos de convivência, cuidar da casa, do corpo, das relações. Quer deixar um legado simples e raro — o de alguém fácil de conviver, presente nas horas de necessidade, prova viva de que a idade não impede novos começos. Quer, finalmente, escrever o romance sonhado desde a infância, registrar as histórias colhidas pelos caminhos, transformar escuta em palavra.

A semente está escolhida. O solo, preparado. Falta o gesto inicial.

A psicologia comportamental ensina algo tão simples quanto desconcertante: a motivação não precede a ação — ela nasce dela. Não se espera vontade para agir; age-se para que a vontade apareça. Um prato lavado hoje. Um ovo frito amanhã. Um passo curto, repetido, sem heroísmo.

E você, caro leitor, que talvez se reconheça nessas linhas, tem alguma sugestão para romper o ciclo da procrastinação e praticar um dos ensinamentos mais antigos — e mais difíceis — da vida adulta?

Porque, no fim das contas, o cavalo só entra em movimento quando alguém decide soltar as rédeas.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Herança, casamento tardio e os limites da meação

Casos de disputas sucessórias envolvendo casamentos celebrados na velhice tornaram-se cada vez mais frequentes nos tribunais brasileiros. Em muitos deles, o conflito ultrapassa o campo patrimonial e revela situações de vulnerabilidade, desequilíbrio relacional e uso estratégico do sistema judicial.

O exemplo é recorrente: um profissional liberal, já idoso, viúvo, constrói patrimônio ao longo da vida — muitas vezes em conjunto com a primeira esposa — e decide contrair novo matrimônio em idade avançada. Após o falecimento, instaura-se o litígio entre herdeiros necessários e o cônjuge sobrevivente, que busca ampliar o alcance da meação, ainda que os bens tenham sido adquiridos anteriormente ao novo casamento.

Do ponto de vista jurídico, a questão é clara. Nos termos do Código Civil, a meação somente incide sobre bens adquiridos onerosamente na constância do casamento, conforme o regime de bens adotado. Patrimônio particular, constituído antes da união, não se comunica. Ainda assim, a prática forense demonstra que a discussão raramente é simples, sobretudo quando acompanhada de disputas emocionais e estratégias protelatórias.

Há também um aspecto sensível, muitas vezes negligenciado: a proteção do idoso. O ordenamento jurídico brasileiro, por meio do Estatuto do Idoso e da própria evolução da jurisprudência, busca coibir abusos patrimoniais em relações conjugais assimétricas, especialmente quando há indícios de dependência emocional, manipulação ou exploração econômica.

Não se trata de negar direitos ao cônjuge sobrevivente, mas de reconhecer que igualdade formal não significa, necessariamente, justiça material. A lei não pode servir de instrumento para legitimar o enriquecimento sem causa ou a dilapidação de patrimônio construído ao longo de décadas por quem efetivamente trabalhou e contribuiu.

Outro ponto que merece reflexão é o impacto dessas disputas sobre os herdeiros necessários. Filhos que acompanharam o esforço dos pais, que contribuíram direta ou indiretamente para a preservação do patrimônio e que, muitas vezes, arcam com a manutenção de bens litigiosos enquanto os recursos permanecem bloqueados, acabam penalizados pela morosidade processual.

Quando o conflito se agrava e alcança a esfera da saúde mental, o Judiciário é chamado a intervir não apenas para partilhar bens, mas para preservar a dignidade das pessoas envolvidas. A interdição, ainda que medida extrema, pode tornar-se necessária quando há incapacidade de gestão da própria vida civil, produzindo efeitos diretos, inclusive, sobre o direito real de habitação.

Esses casos revelam uma realidade incômoda: a Justiça nem sempre acompanha o tempo da vida. Recursos, embargos e apelações prolongam litígios enquanto o patrimônio se deteriora e os vínculos familiares se rompem de forma irreversível.

A reflexão que se impõe vai além do caso concreto. É preciso compreender que trabalho, economia, contribuição previdenciária e planejamento sucessório são pilares de uma velhice digna. Casamentos tardios exigem cautela jurídica, transparência patrimonial e, sobretudo, responsabilidade ética.

O Direito das Sucessões não pode ser reduzido a uma disputa de números. Ele existe para proteger pessoas, evitar abusos e assegurar que a lei seja aplicada com equidade, não apenas com formalismo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Por que o abandono de filhotes fêmeas é tão comum?

 

Difícil é ser fêmea. E é irônico pensar nisso. Afinal, é a fêmea que carrega em seu ventre a semente da vida, que oferece alimento, abrigo e segurança ao novo ser. É ela quem sustenta o ciclo da sobrevivência, mesmo em um mundo hostil, onde muitas vezes a regra é dura: para que um viva, outro precisa morrer.

Mas, apesar de tudo isso, o valor da fêmea raramente é reconhecido. E não falo apenas da espécie humana.

Meu irmão, por exemplo, tem uma chácara na periferia. Um espaço que deveria ser de paz, mas que se transformou em refúgio forçado para dezenas de vidas abandonadas. Gatinhas, cachorrinhas, coelhinhas — todas fêmeas. Hoje, ele cuida de trinta gatas, dez cachorras e cinco coelhinhas, todas castradas. Um gesto de amor, mas também de resistência.

Você pode pensar: “Com um muro alto, o problema acabou.” Não. O abandono continua. Pessoas deixam filhotes em sacos amarrados, sem água, sem comida, sem chance. Filhotes são incapazes, dependem da mãe para aprender a caçar, para sobreviver. E, ainda assim, são descartados como se fossem objetos.

As denúncias aos órgãos competentes pouco resolvem. As ONGs, muitas vezes, pedem doações, mas não têm vagas ou voluntários. E então, meu irmão precisou tomar medidas drásticas: câmeras, placas iluminadas, avisos de que abandono é crime. Mas nem isso detém quem age com crueldade.

O mais revoltante é saber que a Prefeitura oferece castração gratuita três vezes ao ano. O problema não é a falta de recursos, mas a falta de responsabilidade. Cuidar de um animal recém-operado exige atenção, carinho, tempo. E muitos preferem se livrar do “incômodo” em vez de assumir o compromisso.

E aqui eu pergunto a você, leitor: até quando vamos fechar os olhos para essa realidade? Até quando o abandono será tratado como algo menor, quando na verdade é reflexo de uma sociedade que ainda não aprendeu a respeitar a vida em todas as suas formas?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Cidade Sem Hotel

 

Cheguei de ônibus a uma cidade que não me devia nada e à qual eu não devia explicações. Palestra. O nome soava antigo demais para uma cidade pequena, dessas que cabem numa tarde. Não lembrava por que tinha ido, nem quando decidira ir. Só estava lá — e isso parecia bastar ao mundo.

A rodoviária não se deixava encontrar. Caminhei como quem anda dentro de um pensamento confuso, dobrando esquinas que não levavam a lugar algum. Perguntava, mas as respostas vinham vagas, como se ninguém quisesse ser responsável pelo meu retorno. Hotel também não havia. Na cidade, aparentemente, ninguém dormia fora de casa. Ou ninguém descansava.

Era noite quando aceitei o abrigo. Não por confiança — por cansaço. A loja cheirava a coisa usada, a promessa velha. O casal falava baixo, como quem já decidiu tudo antes. Estenderam colchões no chão, com a naturalidade de quem já fez aquilo outras vezes. Dormiam ali. Viviam ali. Eu me encaixei como mais um objeto deslocado.

Deitei. E foi no instante em que o corpo começou a ceder que ouvi a verdade atravessar o ar.

O homem falava ao telefone como quem negocia mercadoria. Voz prática, sem hesitação. Um cliente, uma mulher, dinheiro. Sem camisinha. Sem rodeios. Sem alma. A mulher era eu — embora ele não tivesse dito meu nome. Não precisava. Em Palestra, mulheres perdidas não têm nome; têm utilidade.

O medo não veio em grito. Veio em silêncio. Um medo lúcido, desses que não paralisa — esclarece. Pensei em falar. Pensei em levantar. Pensei em fugir. Pensei em todas as vezes em que aceitei ficar porque era tarde demais para procurar saída.

Acordei antes do desfecho. Como quem escapa por um triz daquilo que já conhece bem demais.

Há sonhos que não inventam monstros. Apenas organizam os reais. Esse não falava de sexo, mas de atravessamentos. De lugares onde não há hotel porque descanso é um luxo. De cidades onde a hospitalidade cobra o corpo. De noites em que o perigo veste o disfarce da ajuda.

Desde então, desconfio mais do abrigo fácil. E aprendi: quando não há rodoviária, não é porque o mapa falha — é porque alguém espera que você fique.

E ficar, às vezes, custa caro demais.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Aparar ou arriscar um corte novo: o drama de milhares de mulheres

 

Você já reparou como algumas mulheres tratam seus cabelos quase como uma extensão da própria alma? Talvez você até conheça alguém assim — ou seja essa pessoa. Aquelas que carregam fios longos, pesados, às vezes até um pouco descuidados, mas que, ainda assim, defendem cada centímetro como se fosse patrimônio histórico. Quando finalmente são convencidas a aparar as pontas, chegam ao salão como quem enfrenta um tribunal, e a cabeleireira, coitada, precisa ter o coração forte para suportar o drama.

Do outro lado da tesoura, existem as destemidas. As que, a cada três meses, entram no salão como quem entra em um parque de diversões. Folheiam revistas, trocam ideias, arriscam cortes, cores, formatos. E, curiosamente, já até sabem o que vão ouvir depois: “Nossa, ficou ótimo! Você está uns cinco anos mais jovem, tem que manter assim.” É quase um mantra social, não é? Como se a mudança fosse mais celebrada do que o estilo em si.

Mas por que será que algumas mulheres resistem tanto a cortar o cabelo, enquanto outras o fazem com a leveza de quem troca de roupa? Psicólogos e psiquiatras talvez tenham boas respostas, mas, sinceramente, isso não deveria ser preocupação de ninguém além delas mesmas.

Porque, enquanto discutimos cortes, cores e centímetros, o mundo lá fora anda precisando de atenção em outras áreas. Crianças e adolescentes mergulhando cedo demais na violência, vidas sendo atravessadas por escolhas duras, famílias desestruturadas, comunidades fragilizadas. Há tanta coisa urgente pedindo cuidado que, convenhamos, o tamanho do cabelo de uma mulher deveria ser o menor dos problemas.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante seja outra: por que gastamos tanta energia julgando aparências, quando poderíamos estar investindo na construção de seres humanos mais empáticos, conscientes e comprometidos uns com os outros — e com a natureza que nos sustenta?

E você, leitor, leitora… já parou para pensar no que realmente merece sua atenção hoje?

 

A Dor como Companhia

 

Caro leitor,

o que poderia ser pior do que oferecer aos idosos pobres um momento gratuito de lazer — e, ainda assim, vê-lo recusado?

A proposta era simples e, confesso, feita com o cuidado de quem conhece a pobreza por dentro. Sou trabalhadora braçal, dessas que contam moedas no fim do mês para garantir o pão do dia seguinte. Talvez por isso tenha acreditado que um gesto pequeno pudesse ter algum valor. Consegui, com esforço, uma sala emprestada numa escola municipal e convidei alguns idosos para uma tarde de leitura coletiva. A ideia não era erudição nem fuga da realidade, mas socialização: polinizar conversas, trocar histórias, reconhecer-se no texto curto, simples, parecido com a vida de quem vive contando faltas.

Levei salgadinhos — não por gentileza, mas por lucidez. Quem vive com pouco sabe: sem comida, não há retorno. Estava tudo pronto. O espaço, as leituras, o tempo.

O que não veio foram as pessoas.

Convidei justamente aqueles que mais reclamam da falta de lazer gratuito, da solidão, do abandono, das dores do corpo e da ausência de medicamentos na farmácia do SUS. E ninguém apareceu. Sempre havia uma razão: um esquecimento, um compromisso surgido de última hora, uma justificativa vaga, dessas que não se confirmam.

Foi então que a decepção abriu espaço para a reflexão. Talvez — digo isso como leiga — não seja falta de oportunidade. Talvez seja escolha. Porque ir significaria sentir-se bem. E sentir-se bem exige abandonar, ainda que por algumas horas, a dor que já virou companhia antiga.

Se a reclamação vai embora, o que sobra?

Filhos mal criados? Netos distantes? Um celular que ocupa o lugar da conversa? Jogos eletrônicos que substituem o afeto? Não afirmo — questiono. O que percebo é que os compromissos sempre coincidem exatamente com o dia do encontro. E quem deseja, de verdade, costuma reorganizar a agenda.

Por isso lhe pergunto, caro leitor:
quantas vezes você mesmo tem se boicotado dos momentos simples e agradáveis por medo de perder a dor — essa velha companheira de longa data que, apesar de tudo, dá sentido às horas vazias?