quinta-feira, 3 de abril de 2025

Sacrifícios da primeira esposa

       

Sob o céu abrasador de um amanhecer quente, a rotina desdobrava-se numa monotonia inexorável. Era o cenário de uma vida marcada pela parcimônia, onde o café da manhã limitava-se a pão com margarina e o aroma do café caro tornava-se um luxo inalcançável. A repetição evocava memórias de uma juventude desprovida, em que o pão seco era o único companheiro de um chá feito das folhas humildes do quintal. A fome, companheira inseparável nas salas escolares, intensificava-se ao contraste do cheiro da sopa ou do chocolate, destinados apenas a alguns.

Ao retornar ao lar, a mesa não oferecia mais que arroz e feijão, repetidos à exaustão no almoço e na janta. Verduras do quintal apareciam ocasionalmente, adicionando um toque de verde à árida paisagem alimentar. Cada vestígio de lazer ou vaidade era sacrificado em prol de um patrimônio que hoje se encontra fora de alcance.

As roupas passavam de mãos em mãos, de irmãs mais velhas às mais jovens, enquanto os cadernos e livros eram apagados e reutilizados, ecoando os anos de escassez. Cortes de cabelo improvisados e a ausência de adereços tornavam a igreja o único refúgio possível, ainda que, tantas vezes, faltasse a moeda para a coleta.

A dor do injustiçado ressoava de forma pungente: o suor da primeira esposa e dos filhos, sua abnegação, foram transformados em benefícios para uma segunda união e seus herdeiros. Uma legislação que traça linhas insensíveis desfaz o que outrora foi erguido com sacrifício. Aquilo que advém de histórias passadas não deveria ser compartilhado com o novo cônjuge, mas sim reservado ao que foi conquistado em esforço mútuo — embora este seja raro, frente à velha prática de enriquecer por matrimônio.

Somente quem carrega o peso de ver os frutos de sua luta desfeitos pode compreender a dor visceral que isso acarreta. E, como se não bastasse, governos sem direção agravam as feridas, retirando do trabalhador até mesmo o merecido descanso da aposentadoria. Assim, a dor perpetua-se, invisível e gritante, na alma daquele que ainda acredita na justiça.

domingo, 30 de março de 2025

Vaidade e temor

 

A visão do anel repousa como um reflexo dos paradoxos humanos, o ouro reluzindo como uma chama ilusória que esconde histórias de dor e decadência. A pedra azul, sintética em sua essência, ecoa a fragilidade da matéria, enquanto as forças do universo conspiram contra aqueles que ousam escavar seus tesouros ocultos. A joia, símbolo de vaidade, traz consigo o peso de uma eternidade marcada por miséria e temor.

Nas profundezas da terra, os trabalhadores, como almas condenadas, enfrentam o abismo de um destino cruel. Os túneis estreitos tornam-se labirintos de agonia, onde a respiração é um privilégio que pode ser roubado a qualquer instante. Quando a terra desaba sobre seus corpos, ela consome não só sua carne, mas também suas esperanças, como um ato impiedoso da natureza que reforça a fragilidade humana. Os gritos sufocados, os movimentos presos, são ecos de uma tragédia que transcende o físico e alcança o eterno. Eles sentem a dor que penetra os ossos, o desespero que rasga o espírito e o temor que consome cada pensamento.

As equipes de resgate, por sua vez, caminham pela fronteira entre a coragem e o desespero. Seus rostos são marcados pelo suor, suas mãos, pelo peso das ferramentas e de suas próprias limitações. O medo de novos desmoronamentos faz com que cada golpe contra a terra seja acompanhado por um suspiro de angústia. Seus corações estão divididos entre a esperança de salvar vidas e a certeza cruel de que nem todos poderão ser alcançados. Em meio às sombras, eles se tornam portadores de luz em um inferno terrenal, lutando contra forças maiores do que eles mesmos.

Neste cenário, o anel de ouro, resplandecente em sua forma e significado, torna-se um símbolo paradoxal do prazer e da tormenta. Cada centímetro de sua superfície guarda o lamento dos soterrados, o temor dos resgatadores e a indiferença de um mundo que consome, mas não contempla. O estilo barroco, marcado pela dualidade e o contraste, revela a profundidade do sofrimento e a fragilidade da existência humana, pintando um quadro onde beleza e dor se entrelaçam de maneira inexorável.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Soterrado

            O mundo desabou num rugido surdo, e o corpo de Antenor foi tragado para o ventre da terra antes que pudesse sequer gritar. O barro se lançou sobre ele como uma fera faminta, empurrando-o para as profundezas da escuridão. O peso esmagador roubava-lhe o fôlego, prensava-lhe o peito, e a única coisa que lhe restava era o pulsar frenético do próprio coração, martelando-lhe os ouvidos. Tentou mexer-se, mas era como se tivesse sido fundido ao solo, um pedaço a mais da terra molhada e disforme.

Lá fora, um grito rasgou o silêncio. Era João, o irmão mais velho, que largou a picareta e pôs-se a escavar com as próprias mãos. A poeira erguia-se em nuvens espessas, misturando-se à lama que escorria dos rostos febris dos que cavavam. Os dedos, feridos e trêmulos, sangravam na ânsia de arrancar Antenor das entranhas do desmoronamento. A cada pá de terra removida, crescia a esperança, mas também o medo de encontrá-lo tarde demais.

Maria, a filha mais moça, soluçava sem cessar. Suas mãos pequenas agarravam-se à saia da mãe, que murmurava orações entrecortadas. A menina tentava enxergar alguma coisa através da cortina de poeira, seus olhos arregalados buscando o menor sinal de que o pai ainda estava ali, de que ainda respirava.

Lá embaixo, os pulmões de Antenor ardiam. A pouca reserva de ar já se esgotava, e ele começava a sentir um torpor crescente, um abandono doce que o chamava para o descanso definitivo. Mas então, como um fio de luz atravessando a noite, ouviu as vozes. João gritava seu nome. Vozes aflitas, persistentes, guerreando contra a morte. Ele quis responder, mas sua boca estava cheia de lama e sangue.

A primeira pá encontrou-lhe a perna. O ferro gelado contra a pele suja foi um choque que o arrancou do torpor. Tentou mover o pé, apenas um sinal de que ainda estava ali. João percebeu. Soltou um brado rouco, misto de alívio e desespero, e redobrou os esforços.

Mais um minuto. Um minuto apenas. O suor misturava-se às lágrimas, os braços vacilavam, mas ninguém parava. A vida de Antenor estava ali, à beira da extinção, e nenhum deles aceitaria a derrota. E então, finalmente, a mão de João encontrou-lhe o rosto. O corpo veio a seguir, arrastado para fora do sepulcro de lama.

O primeiro fôlego foi um golpe, como se o mundo inteiro lhe invadisse os pulmões de uma só vez. A claridade o cegou. Ouvia soluços, exclamações. Mãos o erguiam, seguravam-no, e ele se deu conta de que estava vivo. Desfalecido, permitiu-se ser embalado pelos braços dos seus, entregue ao milagre que haviam operado.

A noite chegaria logo, trazendo consigo o silêncio. Mas, naquela tarde, entre o cheiro de terra molhada e o som de uma respiração retomada, souberam que haviam vencido a morte – ainda que apenas por um dia mais.


sexta-feira, 7 de março de 2025

O preço do tratamento

 

E o sofrimento continuava. Já no décimo dia, o implante dental ainda doía. Dificuldades em se alimentar e falar eram constantes, e a segunda-feira de trabalho se aproximava rapidamente. Ela não podia admitir que havia cometido um erro, pois havia escolhido o dentista que podia pagar. Saíra pela metade do preço, é verdade, mas o sofrimento triplicara. Durante um velório familiar, conhecido ponto de encontro de fofocas, ela descobriu que em todos os implantes mais baratos, a dor era maior. Ainda teve que ouvir que o seu não estava tão ruim, já que fulano e sicrano tiveram os rostos tão inchados que mal conseguiam abrir os olhos.

Seria necessária muita diplomacia para lidar com aquela situação. O dentista era amigo de seu pai e, com ou sem dinheiro, a atendia em emergências. Mesmo se quisesse, não podia abandoná-lo, pois emergências futuras poderiam surgir e ela precisaria dele. Agora, era hora de se estruturar financeiramente para que os casos mais graves fossem tratados por outros profissionais.

A velhice, pensava ela, é assim: a cada dia, precisa-se fazer manutenção em alguma parte. Viver, no fim das contas, é uma labuta diária para pôr comida na mesa e consertar a máquina que é o corpo humano. Ela tinha assistido a filmes internacionais, que eram lentos, com planos longos, e percebera que em qualquer parte do mundo as mazelas humanas eram as mesmas. A luta por moradia, a necessidade de pôr comida na mesa, e os cuidados com a saúde eram universais. Para ricos e milionários, a luta diária por comida era substituída por crises existenciais.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Quinquênios de solidão

E, quando despertou para essa realidade, percebeu que valorizava mais os outros do que eles a ela. Hoje, é tratada como tratou no passado, tolerada por educação. No passado, desprezara; hoje, é desprezada. Para comemorar essa data importante, convidou algumas pessoas conhecidas, não podendo chamá-las de amigas, para um encontro que ela própria patrocinaria. Encomendou roupas novas, caras, pois nada desejava que pudesse sugerir um par de vasos. Investiu em vestuário, numa decoração diferente e acolhedora. Tudo estava pronto, organizado. Então, a mãe de uma das convidadas, que por sinal era sua tia, faleceu. Com este falecimento, foi obrigada a transferir o evento para outra data, sem revelar a ninguém que celebrava o décimo quinto quinquênio de sua existência na terra, nesta forma humana.

Ultimamente, sentia-se um peso morto na terra. Que utilidade tinha para os outros? Nem sua presença simples era agradável. Tinha afeto, mas não tinha a quem dedicá-los. Até mesmo a beleza do versículo bíblico, que diz que do pó viemos e ao pó voltaremos, não a estimulava. O momento da morte deveria ser aceito com gratidão pela experiência terrena e pelo retorno à origem química da terra, para viver eternamente. Mas havia  Em sua jornada pelos setenta e cinco anos de existência, marcada pela contagem meticulosa de quinquênios e decênios, ela se preparou com esmero para essa data significativa. Sempre apreciou celebrar essas marcas temporais. Numa vida vivida na corrida incessante atrás do sonho de vitória, mas sem a força necessária para escapar da periferia, esqueceu-se de tecer laços de amizade e renunciou à maternidade. As pessoas, para ela, eram apenas figuras no mundo profissional, nunca companhias nas mazelas da vida.a preocupação de reencontrar aqueles que desprezara no passado. Buscou tanto pelo amor e está passando pela vida sem vivenciá-lo. Talvez, se não tivesse buscado tanto pelo amor e pelo reconhecimento de seu valor, não se sentiria apenas uma pessoa suportada no meio social.

Pelo fator religioso, temia a morte por ter que enfrentar aqueles que a precederam. Permanecer na terra significava enfrentar diariamente a solidão. Tudo o que desejava era amar e ser amada. A última coisa que desejava era apegar-se a um animal de estimação como filho, por carência de afeto. Isso não levaria a nada, pois o que desejava era o amor da sua espécie, de ser humano para ser humano. Fora agraciada com a dádiva de ter nascido como ponta da espécie, não para igualar-se a eles.

Sentia que a partida dessa parente, que atrapalhou seu aniversário, cortaria o elo da corrente de sangue que os uniu desde o nascimento, um vínculo que a convivência não consolidou. Uns vão, outros vêm, e ela, na sua eterna busca por aceitação social. De que vale viver sem se relacionar com seus semelhantes? Temia não conseguir cuidar de si na velhice, de depender dos outros. Tudo o que desejava era um sentido para sua vida. Viver em função da busca por alimento tornava a vida tão pobre; queria algo mais, como uma companhia sincera, amor e deixar um legado para a posteridade. Porém, no momento, sentia apenas o vazio existencial.

 

 

segunda-feira, 3 de março de 2025

A Dor da Solidão na Busca por Amizade

 

A vida nem sempre segue nossos desejos. Ao organizar um evento com o único objetivo de reunir mulheres da mesma idade para formar um grupo de amizades e amenizar a solidão da velhice, percebi os desafios da vida. Quando finalmente consegui um espaço, algumas convidadas e o dinheiro para o café, meu padrinho, pai de três convidadas, faleceu.

A dor da perda é ainda mais intensa, pois sua morte deixou uma marca indelével no mês do meu aniversário, tornando difícil confraternizar com os primos nessa data. A solidão se tornou minha companheira constante, e os poucos anos de vida restantes parecem agora um fardo ainda mais pesado. Com a partida de meu padrinho, sinto que o mundo ao meu redor está desmoronando e a solidão só aumenta.

Após o enterro, precisarei falar com o rapaz que cedeu o espaço para o evento e contatar as demais convidadas para marcar uma nova data. No entanto, a sensação de desamparo e abandono é esmagadora. Será que a solidão será minha companheira para o resto da vida? Quero apenas estar com alguém e ter alguns momentos em minha vida sem pensar que, ao tentar vencer, deixei de viver. Viver é relacionar-se, mas agora parece impossível.

Preciso terminar este texto e me arrumar para o velório, mas a dor é avassaladora. Com a partida de meu padrinho, percebo que nada mais prende os primos aqui. Cada um seguirá seu caminho em busca do afeto dos netos e bisnetos, enquanto eu, que não consegui gerar uma vida, me sinto seca e vazia. Continuarei à procura dos gravetos da amizade, na esperança de encontrar algum consolo em meio à imensa solidão que me cerca.

 

domingo, 2 de março de 2025

A melancolia de uma vida não vivida

 Carnaval de 2025, um sonho de alegria, Deveria ser tempo de folia, Mas minhas energias se esvaíram, Fraco corpo, que só geme, suspira.

Deitada, sem forças para me erguer, Dinheiro escasso, sem opções a escolher, Na geladeira, escassez, a busca é vã, Vida de idoso, sem açúcar, sal, e pão.

Sair para almoçar, de que valeria? Sozinha, sem ninguém que me escutaria, E mesmo com companhia, poderia confiar? Numa era de interesses, todos querem explorar.

A vida inteira, persegui três anseios: Amizade sincera, amor verdadeiro e dinheiro, Mas esses sonhos me escaparam, e a dor é crua, Cinquenta anos de trabalho, e agora estou na rua.

Carnaval sem viagem, sem hotel estrelado, Sem novos sabores, sem prazeres almejados, Minha vida é rotina, mecânica, desumana, Trabalhar e economizar, pra apenas sobreviver, é a trama.

E você, caro leitor, também se sente assim? Passou pela vida e não viveu, enfim?