Há quem diga que os sonhos são como sementes:
precisam de silêncio, de sombra e de tempo para germinar. Mas há quem, como eu,
não resista à tentação de expô-los ao sol antes da hora, como se a simples
partilha fosse garantia de flores. Os sábios da antiguidade já alertavam: falar
demais sobre os próprios projetos é como gastar energia antes da obra começar.
Eu não ouvi.
Contei aos parentes que escreveria um livro sobre
nossos antepassados. Pedi histórias, mexi em memórias, despertei curiosidades.
E, ao perceber que não daria conta da promessa, inventei uma versão infantil.
Resultado: a compulsão de falar me levou ao compromisso de pagar pela edição de
um livro que, sei bem, não terá leitores além de mim. O homenageado nasceu no
século XIX, e hoje é apenas um traço genético perdido em descendentes que nem
sabem de sua existência.
Recebi o arquivo para revisão e não gostei. Mas já
estava pago. O dinheiro saiu não da necessidade, mas da boca: da palavra que
escapou antes de amadurecer. Eis o sofrimento — gastar não por desejo, mas por
coerência com aquilo que se disse.
A psicologia explica: há uma compulsão em expor
sonhos que nasce da carência de validação. Ao falar, buscamos reconhecimento,
aplauso, cumplicidade. É como se o projeto só existisse quando ecoa nos ouvidos
alheios. Mas esse impulso tem um preço: a ansiedade de corresponder ao que foi
dito, mesmo quando o coração já não sustenta o plano.
Comprei um apartamento na praia. E desta
vez, prometi a mim mesmo: silêncio. Porque talvez o verdadeiro poder esteja em
guardar, em deixar que o sonho cresça protegido, sem a pressão das expectativas
externas.
Preciso controlar a língua, aprender que nem todo
objetivo precisa ser anunciado. O silêncio, afinal, é também uma forma de
liberdade. Talvez seja nele que os sonhos encontrem espaço para florescer sem
cobranças, sem dívidas, sem o peso das palavras que custam mais caro do que o
próprio sonho.
E você, leitor, já se pegou falando demais? Já
sentiu a língua escapar, como se tivesse vida própria, revelando planos que
ainda estavam verdes dentro da cabeça? Não lhe parece que, muitas vezes, o
silêncio é mais sábio do que qualquer discurso? Talvez você também carregue
essa luta: conter a língua dentro da boca, como quem guarda um segredo
precioso. Afinal, quem nunca se arrependeu de ter falado antes da hora?