sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Fio Entre o Respeito e o Descaso

Há relações que se constroem em silêncio. Entre locador e locatário, muitas vezes não há proximidade, mas existe um pacto invisível: o da confiança. O proprietário entrega a chave, o inquilino assume o espaço, e juntos inauguram uma convivência que, embora mediada por contratos e imobiliárias, repousa sobre algo mais delicado — o respeito.

No caso da barbearia, o início parecia promissor. O aluguel foi ajustado abaixo do valor de mercado, gesto de compreensão diante da necessidade do barbeiro. Um acordo quase generoso: “se for mais caro, não fico”, disse ele, e os donos aceitaram. Durante todo o período, não houve cobranças excessivas, nem broncas, nem vigilância. O espaço foi cedido com confiança, como quem acredita que a reciprocidade se manifesta na forma de cuidado.

Mas o fim da história revelou outra face. Ao sair, o barbeiro deixou para trás não apenas o imóvel, mas também um rastro de descaso: lixo acumulado, garrafas cheias de lâminas, embalagens vazias, pratos e copos descartáveis. Até mesmo os últimos fios de cabelo e barba foram varridos para o fundo, como se o espaço não merecesse a dignidade de uma despedida limpa.

E é aí que a crônica se instala: não no lixo em si, mas no que ele simboliza. O contrato pode ter sido cumprido, o aluguel pago, mas a relação foi quebrada no detalhe. Porque respeito não se mede em boletos quitados, mas na forma como se devolve aquilo que não nos pertence.

O barbeiro saiu espontaneamente, sem pressão dos donos. Mas deixou uma marca: a lembrança de que confiança é frágil, e que generosidade sem reciprocidade pode se transformar em frustração.

No fundo, essa história fala menos de imóveis e mais de pessoas. De como cada relação — seja comercial, seja pessoal — carrega um fio invisível que pede cuidado. E quando esse fio é rompido, não é apenas o espaço físico que fica sujo; é a memória da convivência que se mancha.

 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Sonhar: Esse Hábito Inútil de Procurar Sentido

 

Neste domingo de carnaval 2026, depois do almoço, o mundo parece sempre um pouco mais lento. Não importa se lá fora o sol continua firme: dentro de casa, o tempo se curva, dobra o joelho e cochila conosco. Talvez por isso a soneca da tarde seja uma das últimas resistências contra a pressa. Ela não serve para nada — e justamente por isso é tão necessária.

Depois de um estrogonofe generoso, desses que abraçam por dentro, o corpo pede trégua. Não é sono de noite, não é descanso planejado. É um desmaio socialmente aceito. Deitei com a intenção nobre de fechar os olhos por “dez minutinhos”, expressão que sempre mente, porque a alma, quando encontra silêncio, aproveita para abrir gavetas antigas.

E então sonhei.

Sonhei que estava na casa do Carlos, um homem que foi abrigo num tempo em que eu precisava de teto e, talvez mais do que isso, de testemunha da minha sobrevivência. No sonho, eu não alugava mais. Eu estava de favor. Há algo profundamente humilhante nessa palavra, mesmo quando não é dita. Ela pesa na espinha, altera a postura, faz a gente andar pela casa como quem pede desculpa por respirar.

Carlos me pediu para comprar arroz.
Pedi o dinheiro.

Ele ficou furioso. Disse que todo mundo comia ali e ninguém contribuía. A fúria dele não era apenas dele. Era coletiva, antiga, acumulada. Era o medo universal de ser visto como peso, como dívida, como excesso. No sonho, a vergonha veio rápido, como sempre vem na vida real: sem direito a defesa.

Saí para o mercado.

O curioso é que os sonhos nunca economizam simbolismo. Eles são exagerados, dramáticos, quase literários. No caminho, o mercado estava fechando. O mundo sempre fecha quando a gente chega atrasado. Essa é uma das primeiras lições da existência: as oportunidades têm horário comercial.

E havia o curral.

Dois touros furiosos bloqueavam a passagem.

Não era apenas medo. Era uma espécie de convocação. Eu queria passar, mas também queria ficar. Queria entender. Havia algo ali que não era só obstáculo. Era mensagem. Era teste. Era pergunta.

E acordei.

Talvez seja isso que mais incomode nos sonhos: eles nos deixam no meio da frase. Como certos amores, certos projetos, certas versões de nós mesmos.

Mas o que mais me impressiona não é o sonho em si. É o fato de que, ao acordar, sentimos uma urgência quase infantil de entender. Por que precisamos decifrar sonhos? Por que não aceitamos simplesmente que a mente, cansada, produziu imagens aleatórias? Por que insistimos em procurar sentido, como arqueólogos de nós mesmos?

Talvez porque a vida acordada seja dura demais para ser apenas literal.

Os dois touros podem ser muitas coisas: medo e desejo, impulso e prudência, coragem e paralisia. Mas talvez sejam também duas forças mais antigas: sobreviver e compreender. A maioria das pessoas passa correndo pelos touros. Algumas poucas param para observar. E isso também é uma escolha.

A casa do Carlos pode ser abrigo, mas também pode ser o passado cobrando maturidade. O arroz pode ser sustento, mas também responsabilidade. A vergonha pode ser ferida, mas também bússola. O mercado fechando pode ser urgência, mas também aviso: a vida não espera que a gente se organize emocionalmente.

E os sonhos?
Os sonhos talvez sejam a única linguagem que o inconsciente encontra para nos chamar pelo nome completo.

A soneca de domingo tem essa estranha dignidade: ela nos devolve àquilo que fingimos não saber durante a semana. No trabalho, nas conversas, nos compromissos, somos racionais, práticos, eficientes. No cochilo da tarde, somos novamente simbólicos, frágeis, primitivos.

Sonhar é um ato de desobediência contra a superficialidade.

Queremos entender os sonhos porque queremos acreditar que existe um enredo maior. Que nossas vergonhas não são inúteis. Que nossos medos não são gratuitos. Que nossos obstáculos não são apenas azar. Que há, por trás de cada curral bloqueando o caminho, uma iniciação.

Talvez nunca descubramos o significado exato. Talvez não exista.

Mas, no fundo, a necessidade de entender sonhos é a mesma de entender a própria vida: não queremos apenas passar pelos touros. Queremos saber por que eles estavam ali.

E, quem sabe, descobrir que eles não bloqueavam a passagem — estavam apenas esperando que a gente deixasse de fugir e começasse a olhar.

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Crônica da Fome que Não se Mastiga


Tenho travado uma guerra silenciosa contra um inimigo pequeno, fino e luminoso. Ele cabe na palma da mão, vibra como quem chama pelo nome e promete distração — essa palavra elegante para dizer fuga. Falo do celular, esse oráculo contemporâneo que nunca dorme e que, generosamente, me oferece vídeos curtos, inúteis e infinitos.

Deito-me dizendo que verei “só um”. Duas horas depois, estou com os olhos ardendo, lutando contra o sono, assistindo a algo que esquecerei antes mesmo que o próximo vídeo comece. E ele começa. Sempre começa. O algoritmo — essa entidade invisível que parece me conhecer melhor do que eu — envia mais e mais conteúdos sob medida para minha distração. E eu, obediente, assisto. Há algo de tragicômico nisso: uma sucessão de risadas vazias, receitas que não farei, opiniões que não pedi, danças que não aprenderei. Quando percebo, não sei o que vi, mas sei que estou exausta.

A psicologia tem nome para esse fenômeno. O design das redes sociais é estruturado com base no reforço intermitente, conceito estudado por B. F. Skinner. É o mesmo princípio das máquinas caça-níqueis: você nunca sabe quando virá algo interessante, então continua tentando. Um vídeo pode ser banal, o próximo também — mas, de repente, surge um que provoca riso, curiosidade ou identificação. Essa imprevisibilidade mantém o cérebro preso num ciclo de expectativa e recompensa, alimentado pela dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação.

Não é falta de caráter. É neurociência.

E foi no meio dessa avalanche de inutilidades que, acidentalmente, apareceu um vídeo útil. Ele falava sobre fome emocional. Parei. Prestei atenção. Pela primeira vez em semanas, não deslizei o dedo para cima.

A fome física é simples: o estômago ronca, o corpo pede energia, qualquer comida resolve. Já a fome emocional é exigente e insistente. Ela não quer arroz; quer consolo. Não quer pão; quer presença. É a tentativa de mastigar a solidão, de engolir o silêncio da casa, de preencher com comida aquilo que é ausência de afeto.

A psicóloga Susan Albers, especialista em alimentação consciente, explica que muitas vezes comemos para regular emoções difíceis — ansiedade, tristeza, tédio. A comida se torna anestesia rápida e socialmente aceita. E, se o celular distrai da solidão, a comida distrai do vazio que o celular não conseguiu tapar.

Percebi então que estava duplamente dependente: da tela e da mastigação. Uma para ocupar os olhos; a outra, para ocupar o peito.

A teoria da regulação emocional sugere que, quando não aprendemos a lidar diretamente com sentimentos desconfortáveis, buscamos estratégias externas para modulá-los — comer, rolar a tela, comprar, trabalhar em excesso. Não porque somos fracos, mas porque somos humanos e desejamos aliviar a dor. O problema é que esses alívios são temporários e, muitas vezes, ampliam o desconforto depois.

Hoje tenho dois desafios concretos: libertar-me da dependência do celular e aprender a comer nas horas certas, em quantidade suficiente, ignorando essa vontade contínua de estar sempre mastigando algo. É quase como reaprender a habitar o próprio corpo — sem distrações, sem petiscos emocionais.

A psicologia comportamental sugere estratégias práticas:

·         Estabelecer limites ambientais (não levar o celular para a cama; definir horários específicos para uso).

·         Substituir o hábito, não apenas suprimi-lo (trocar vídeos por leitura breve; trocar beliscos por um chá e alguns minutos de respiração consciente).

·         Praticar alimentação consciente: perguntar antes de comer — “Estou com fome física ou emocional?”

·         Criar rituais de conexão real: uma ligação para alguém querido, uma caminhada ao ar livre, escrever o que se sente.

Pequenas mudanças repetidas constroem novas rotas neurais. O cérebro aprende — inclusive a se libertar.

Caro leitor, escrevo não como quem ensina, mas como quem confessa. Descobri que minha fome não era apenas de comida nem apenas de vídeos. Era de presença. De sentido. De pausa.

Talvez a verdadeira libertação não esteja em abandonar o celular ou fechar a geladeira, mas em encarar, sem anestesia, aquilo que dói quando o silêncio chega.

Se houver um ensinamento nisso tudo, talvez seja este: nem toda fome se resolve com comida, e nem todo vazio se preenche com movimento de dedo. Algumas carências pedem coragem — e isso, infelizmente, não vem em vídeos de trinta segundos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O preço das palavras

 


Há quem diga que os sonhos são como sementes: precisam de silêncio, de sombra e de tempo para germinar. Mas há quem, como eu, não resista à tentação de expô-los ao sol antes da hora, como se a simples partilha fosse garantia de flores. Os sábios da antiguidade já alertavam: falar demais sobre os próprios projetos é como gastar energia antes da obra começar. Eu não ouvi.

Contei aos parentes que escreveria um livro sobre nossos antepassados. Pedi histórias, mexi em memórias, despertei curiosidades. E, ao perceber que não daria conta da promessa, inventei uma versão infantil. Resultado: a compulsão de falar me levou ao compromisso de pagar pela edição de um livro que, sei bem, não terá leitores além de mim. O homenageado nasceu no século XIX, e hoje é apenas um traço genético perdido em descendentes que nem sabem de sua existência.

Recebi o arquivo para revisão e não gostei. Mas já estava pago. O dinheiro saiu não da necessidade, mas da boca: da palavra que escapou antes de amadurecer. Eis o sofrimento — gastar não por desejo, mas por coerência com aquilo que se disse.

A psicologia explica: há uma compulsão em expor sonhos que nasce da carência de validação. Ao falar, buscamos reconhecimento, aplauso, cumplicidade. É como se o projeto só existisse quando ecoa nos ouvidos alheios. Mas esse impulso tem um preço: a ansiedade de corresponder ao que foi dito, mesmo quando o coração já não sustenta o plano.

Comprei um apartamento na praia. E desta vez, prometi a mim mesmo: silêncio. Porque talvez o verdadeiro poder esteja em guardar, em deixar que o sonho cresça protegido, sem a pressão das expectativas externas.

Preciso controlar a língua, aprender que nem todo objetivo precisa ser anunciado. O silêncio, afinal, é também uma forma de liberdade. Talvez seja nele que os sonhos encontrem espaço para florescer sem cobranças, sem dívidas, sem o peso das palavras que custam mais caro do que o próprio sonho.

E você, leitor, já se pegou falando demais? Já sentiu a língua escapar, como se tivesse vida própria, revelando planos que ainda estavam verdes dentro da cabeça? Não lhe parece que, muitas vezes, o silêncio é mais sábio do que qualquer discurso? Talvez você também carregue essa luta: conter a língua dentro da boca, como quem guarda um segredo precioso. Afinal, quem nunca se arrependeu de ter falado antes da hora?